3 TEORIA DA COMPLEXIDADE
3.1 ALEKSANDR A BOGDANOV: COMPLEXIDADE E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL
Uma visão panorâmica da contribuição de Bogdanov26 para a criação da Teoria de
Complexidade pode ser encontrada em Aleksandr Bogdanov and Systems Theory de Arran Gare (2000). Apresentamos os aspectos principais desenvolvidos por este autor e destacamos as principais relações com a Teoria da Complexidade estabelecida nos dias de hoje.
25 Complexity Explorer – Glossary - Santa Fé Institute -
https://www.complexityexplorer.org/explore/glossary/350-path-dependence
26 Aleksandr A. Bogdanov foi um revolucionário marxista e narodnik, nasceu em 1873 na Bielorrússia, estudou
medicina na Universidade de Moscou, foi banido da Universidade em 1894 em meio a protestos estudantis, entretanto conclui seus estudos em 1905 na Ucrânia. Foi preso e depois exilado da Rússia a partir de 1905. Foi fundador Bolchevique e líder do Soviete de São Petersburgo. Na ala esquerda do movimento Bolchevique, perde a liderança para Lenin, acaba expulso em 1909. É crítico da Revolução Russa de 1917. Em 1918 torna-se professor de Economia da Universidade de Moscou e diretor da Academia Socialista de Ciências Sociais. Declina o convite de Kamenev, Zinoniev e Bukharin para se juntar novamente aos Bolcheviques para formação de uma frente de oposição à Stalin. Falece em 1928 após praticar experimentos de transfusão de sangue. Foi também físico, filósofo, economista e escritor de ficção científica.
Gare (2000) observa que para Bogdanov as distâncias entre as ciências naturais e as ciências humanas deveriam ser obliteradas, e defende que as ciências deveriam estar a serviço dos trabalhadores no desenvolvimento das forças produtivas. Estas duas características definem o conceito de Tektologia. Nesse sentido, Bogdanov antecipa algumas reflexões de Ludwig Von Bertalanffy27.
Entretanto, Bogdanov rejeita o conceito de superestrutura e o conceito das forças produtivas como determinantes para a transformação da sociedade, embora adote o conceito da práxis marxista. De acordo com ele, a vida econômica é parte integral do ser social que é definido pela consciência social. O conhecimento é o núcleo dessa consciência, que é força motora da história e do progresso. Nessa linha, o estudo das dinâmicas internas das relações sociais é equivalente ao estudo do desenvolvimento do conhecimento, cujo ser social e a consciência social estabelecem categorias constitutivas da noção de cultura (GARE,2000).
O ser social tem níveis; o técnico e o organizacional. A organização da atividade no nível técnico gera conhecimento e tecnologia. A tecnologia é derivada do conhecimento relacionado à natureza externa. O conhecimento complexo necessita de formas organizacionais complexas que se expandem em decorrência da inexorável expansão da experiência física e psíquica (GARE, 2000).
Gare (2000) define o conceito de substituição em Bogdanov, esta que ocorre quando sucessivos elementos da experiência são substituídos por outros em todos os níveis de pensamento (substituições infinitas). As limitações da ciência acompanham as limitações da sociedade e as condições sociais serão as definidoras da nova ciência. A nova organização social possibilita o advento da cultura proletária, e uma revolução cultural seria a pré- condição para a criação de uma sociedade socialista, cultura esta que deveria estabelecer como a produção seria organizada. Uma nova organização da classe trabalhadora seria fruto dos avanços na educação e das formas sociais da consciência, que permitem criar outras relações internas e novos elementos no proletariado. Um ponto importante destas novas relações seria a criação de novas relações sociais entre homens e mulheres.
O conceito de ordem na complexidade surge em Bogdanov em sua defesa, onde determina
que o processo revolucionário envolve muitos níveis nas áreas da política, economia e da cultura. O socialismo seria o alcance de métodos superiores, cuja arte teria a força conectiva em uma sociedade de classes. A nova cultura seria o elo entre o conhecimento ideológico e tecnológico, da relação entre o trabalho e o controle da produção dentro do desenvolvimento da tecnologia complexa (GARE, 2000).
Desta forma, a Tektologia, ciência da construção, representa a organização universal da ciência, o estudo geral das formas e leis da organização de todos os elementos da natureza, da práxis e do pensamento. Segundo Bogdanov, a experiência e as ideias na ciência contemporânea nos conduzem a compreensão integral do universo. Todas as formas, em suas inter-relações e lutas mútuas, em suas constantes mudanças criam o processo organizacional, infinitamente dividido em partes, mas contínuo e inseparável do todo. A Tektologia seria o estudo que revela as relações estruturais e leis comuns de fenômenos heterogêneos, revela as características gerais de atividades organizacionais. As atividades organizacionais encampam a auto regulação, transformação e desenvolvimento, equilíbrio e desequilíbrio, estabilidade e instabilidade e o surgimento de crises. Os sistemas complexos são definidos pelas atividades de resistências de todos os tipos, onde a combinação de elementos com uma estrutura particular resistirá a outros elementos complexos e definirão sistemas organizados, neutros e desorganizados - a soma das partes nem sempre definem o todo (GARE, 2000).
A estabilidade e a instabilidade são elementos centrais da Tektologia, com a resistência e a criação de novas conexões. A estabilidade estrutural é definida qualitativamente e sua mudança radical pode ser definida como crise. O resultado desta crise pode resultar em uma crise conjuntiva (reorganização de novos processos) e crise disjuntiva (desintegração). A classificação dos fenômenos complexos similares e divergentes, de acordo com o grau de separação e conectividade entre os grupos nos remete a situação de trajetórias distintas, de acordo com a situação inicial do fenômeno. Diferentes crescimentos remetem a distintas correlações estruturais e distintas estabilidades. A auto-organização, critério também encontrado nas definições atuais sobre complexidade, também pode ser atribuída a noção de fluxo contínuo dos fenômenos, centrados em círculos desencadeantes de construção e degradação (GARE, 2000).
analogia, o uso de simbolismos abstratos semelhantes à matemática e utilização de métodos experimentais das ciências naturais (GORELIK, 1975).
No entanto, em “Materialismo e Empiriocriticismo”, Vladimir Lenin (1870-1924) desenvolve uma crítica às ideias - de Bogdanov. Neste sentido, Freire Jr. destaca que:
Nos três primeiros capítulos do livro Lênin sistematiza e desenvolve a teoria marxista do conhecimento comparando-a com o empiriocriticismo. Sustenta que a realidade objetiva, material, é o dado primário do mundo ao qual subordina-se a consciência. Afirma que as "sensações" refletem este mundo material existente independente de nossa consciência. Mostra que esta concepção, materialista, está apoiada no conhecimento acumulado pelas ciências da natureza. Formula e responde afirmativamente as perguntas: A natureza existiu antes do homem? O homem pensa com o cérebro? Apoiado no estágio alcançado pelas ciências, afirma que "a Terra é uma realidade existindo fora de nós (...) a Terra existia em épocas em que não havia nem seres humanos, nem órgãos dos sentidos, nem matéria organizada sob uma forma superior". Evidência, pois, que a consciência, o pensamento, é produto de um órgão material, o cérebro humano. Enquanto os materialistas consideram as ideias uma propriedade da matéria altamente organizada, os idealistas invertem a questão: a matéria não existe "fora do espírito", as coisas são "combinações de sensações" como dizem os empiriocriticistas. (FREIRE JR, 1984)28.
Imagem 1 – Aleksandr Bogdanov(esq.), Maxim Gorky(cent.), Vladimir Lenin(dir.) - Capri, Itália (1908)
Fonte: Autor desconhecido.
28 As críticas de Lenin apresentadas por Freire Jr. (1984) são de ordem mais geral aos pensadores destas
correntes teóricas, dos quais inclui-se Bogdanov. Lenin afirma que o real independe de nossa cognição. Lenin remete-se a Engels que afirma que toda descoberta científica deveria levar à mudança da filosofia materialista. Entretanto, a principal influência de Bogdanov para a criação da teoria de sistemas foram os escritos de Schelling (GARE, 2000), e Ernest Mach, Richard Avenarius e Henri Poincaré (FREIRE Jr, 1984).
Dentre as contribuições de Bogdanov para a Teoria da Complexidade encontramos o papel transformador da ciência na construção de novas formas sociais, a rejeição do reducionismo, as condições sociais e implicações dentro da ciência, o monismo. Indiretamente seus trabalhos podem ter influenciado Gramsci, a Escola de Frankfurt, as teses de Lyotard, Raymond Willians, Talcon Parsons, Bertalanffy, Werner Heinseberg, Max Wertheimer e Wolfgang Köhler, Kenneth Boulding, Norbert Wiener, Gregory Bateson e Paul Watzlawick, dentre outras contribuições de diversas áreas, concepções metodológicas e escolas de pensamento29.
A reabilitação indireta das teses de Bogdanov por Blauberg, Sadovskii e Yudin, teóricos da “nomenklatura” estalinista soviética é descrita por Gorelick (1975). Em outros países, a teoria fora adaptada e incorporada a novas vertentes teóricas, dentre elas, algumas correntes neoliberais, para a sua utilização em situações de opressão de governos e empresas, e com sua aproximação das teorias da sociedade de controle (GARE, 2000).
Entretanto, convém ressaltar que alguns pensadores da teoria da complexidade não atribuem a Bogdanov o pioneirismo no desenvolvimento das teses que envolvem este arcabouço teórico. No mapa construído por Brian Castellani (2014) em “Brian Castellani on the Complexity Sciences” observamos a ausência de Bogdanov, no entanto, muitas das contribuições de Bogdanov são listadas no que hoje atribui-se à Teoria da Complexidade, a saber: a emergência, a não linearidade, a existência de ordem diversas, a auto-organização, a dependência das condições iniciais, a interdependência, interconectividade e conectividade, a possibilidade de instabilidade sistêmica, a demonstração do sofisma da composição e alguns ensaios sobre a teoria do caos.
O próximo autor, Ludwig Von Bertalanffy é considerado um dos fundadores da Teoria da Complexidade, contemporâneo de Bogdanov, entretanto, não há evidências da existência de debate entre Bogdanov e Bertalanffy, à época.
29 Uma análise histórica do desenvolvimento da teoria da complexidade pode ser encontrada em Gomes e