3 TEORIA DA COMPLEXIDADE
4.1 O CRÉDITO EM SCHUMPETER
Faremos uma breve apresentação do autor, Joseph Alois Schumpeter nasceu em 1883 na Moravia, no antigo Império Austro-Húngaro, obteve Ph.D. em 1906, na Universidade de Viena. Quando docente da Universidade de Graz publicou a obra “A Teoria do Desenvolvimento Econômico: uma investigação sobre lucros, capital, crédito, juro e ciclo econômico”, em 1912. Grande parte de sua análise sobre o fluxo circular de renda e da importância do crédito para o desenvolvimento econômico foram aproveitadas para o exercício da função de presidente do Bierderman Bank, entre 1920 e 1924, e também como ministro de Finanças da Áustria em 1919.
Schumpeter (1912, cap. 3) define o dinheiro como meio facilitador de circulação de bens e serviços, o que acaba por alterar o potencial produtivo do sistema por meio da alteração do poder de compra. É no fluxo circular que o empresário adquire meios de produção, sendo que os estoques permitem a realização da compra e uma ampliação do crédito.
São criados no sistema econômico meios de pagamento que, em sua forma externa, é verdade, são representados como meros direitos a dinheiro, mas que diferem essencialmente de direitos a outros bens, por desempenharem exatamente o mesmo serviço – ao menos temporariamente – que o próprio bem em questão, de modo que podem, em certas circunstâncias, tomar-lhe o lugar. (SCHUMPETER, 1982, p.103). Os meios de circulação são mais amplos que a moeda em circulação, uma parte estão em encaixes que não possuem liquidez imediata, ainda que complementares a moeda existente. Parte desta moeda equivale a empréstimos bancários oriundos de promessas de pagamentos aos bancos, e uma parte significativa dos depósitos bancários são crédito.
O crédito amplia os meios de pagamento e os meios de circulação representam as mercadorias. Este é um ciclo da criação de dinheiro que é centrado nos bancos, e que estabelecem direitos contra si próprios. ” talvez ¾ dos depósitos bancários são simplesmente créditos, e que em geral o homem de negócios primeiro torna-se devedor do banco para tornar-se depois credor, que primeiro toma emprestado o que uno actu deposita” (SCHUMPETER, 2012, p.69 (ênfase nossa)).
Os títulos financeiros formam a parte do crédito que financia a criação de arranjos produtivos. O sistema, apesar de exigir garantias, lastro por exemplo, como contrapartida, opera também em regime fiduciário50, a moeda não possui valor intrínseco. O crédito desta forma, segundo Schumpeter (2012), é a ampliação da circulação monetária para além das reservas em ouro, assim como da base de mercadorias.
Disso segue-se, portanto, que na vida real o crédito total deve ser maior do que poderia ser, se houvesse apenas crédito totalmente coberto. A estrutura de crédito se projeta não apenas além da base existente de ouro, mas também além da base existente de mercadorias. (SCHUMPETER, 2012, p.71).
O autor define o que seja crédito normal e anormal, ainda que estas categorias sirvam apenas como categorias analíticas, mesmo porque o autor considera que todas as categorias de crédito pertencem a mesma natureza. O crédito normal guia bens e direitos no presente, enquanto o crédito anormal determinará bens e direitos futuros, que ainda serão criados (SCHUMPETER,
50 Existe uma moeda nacional de curso forçado (legal tender), emitida em regime de monopólio pelo governo,
através de uma agência especializada, o banco central. A moeda não tem valor intrínseco como o ouro, nem usos alternativos. O custo marginal de produzir moeda é praticamente nulo, quando comparado com seu poder de compra de bens e serviços […]. Portanto, o fluxo de receita real que o governo arrecada como monopolista, denominado seigniorage, é dado pelo valor real da moeda (ΔM/p) emitida a cada período. Fica claro que o padrão fiduciário cria um incentivo para o governo fazer expansão monetária (e inflação) para financiar o déficit (MARTONE, 2016, p.5-6).
2012).
Este poder de criação de nova capacidade produtiva pertence ao empresário. Esta capacidade para obter este adiantamento, que o autor denomina como transferência do poder de compra, e ele a exerce por meio da aptidão para obtenção do crédito. O crédito ao consumo e o crédito para a manutenção de um negócio que sofra eventuais desarranjos não são considerados importantes para a análise da criação do poder de compra.
Como esses meios de pagamento, contudo, funcionariam exatamente como dinheiro metálico por serem “certificados” dos bens existentes e dos serviços passados e como não há portanto nenhuma diferença essencial entre eles e o dinheiro metálico, ao usar esses recursos expositivos apenas indicamos que o que consideramos como elemento essencial no fenômeno do crédito não pode ser encontrado no crédito corrente dentro do fluxo circular. (SCHUMPETER, 2012, p. 73).
O empresário será conduzido a reorientar parte dos seus bens de produção ao determinar nova demanda por estes bens, e criar canais que originalmente não pertenciam ao sistema econômico. O desenvolvimento é que possibilita a criação de uma nova demanda e uma nova oferta de bens, cujo novo início é possibilitado pelo crédito. Entretanto, com a criação do poder de compra não necessariamente haverá o aumento da quantidade de serviços existentes, porque pelo lado da demanda poderá ocorrer um aumento dos preços dos serviços produtivos, e pelo lado da oferta pode haver a retirada de bens de uso anterior, neste caso, ocorrerá a redução do poder de compra.
O crédito transfere o poder de compra ao empresário, mas que não necessariamente seja a transferência do poder de compra existente.
Assim, embora a concessão de crédito não seja essencial ao fluxo circular normal porque nele não existe necessariamente nenhuma brecha entre os produtos e os meios de produção, e porque se pode supor que ali todas as compras de bens de produção feitas por produtores são transações à vista ou que, em geral, qualquer um que seja comprador tenha vendido previamente bens do mesmo valor em dinheiro, é certo que tal brecha existe na realização de combinações novas. Transpor essa brecha é uma função do prestamista, e ele a cumpre colocando à disposição do empresário poder de compra ad hoc. (SCHUMPETER, 1982, p. 75).
Ainda segundo Schumpeter (1982), a inflação pode acompanhar a expansão do crédito, a redução da oferta de bens tem impactos distributivos em direção aos detentores do crédito. Porém, há um mecanismo de ajuste deflação dívida pelas operações novas que restabelecem a higidez do sistema bancário, no qual o preço dos bens produzidos é superior ao crédito
concedido aos empresários.
A inflação do crédito pode surgir do descompasso intertemporal entre o poder de compra e as mercadorias equivalentes produzidas. A quitação de empréstimos e a manutenção do lucro no sistema bancário torna-os credores perante os bancos, então o poder de compra não desaparece pela maturidade de longo prazo dos financiamentos e o crédito não exercerá influência sobre o preço (SCHUMPETER, 1982).
O Banco Central, órgão emissor que permite a livre atuação dos bancos privados, tem seus parâmetros definidos pelo padrão ouro vigente à época de J. Schumpeter. Então o novo poder de compra pressiona a inflação porque precede a produção de bens equivalentes, mas que é ajustada pela redução da quantidade de ouro em circulação. A atuação dos bancos é delimitada pelas exigências de reservas, que moderam a lacuna intertemporal, e delimitada pelos prejuízos que podem ameaçar os bancos, seja pela elevação da inflação, seja pela extensão prolongada do crédito (SCHUMPETER, 1982).
Apenas num outro caso, se fosse liberado da obrigação de resgatar os seus meios de pagamento em ouro e se fosse suspensa a consideração pela troca internacional, o mundo bancário poderia provocar inflação e determinar arbitrariamente o nível de preços, não apenas sem perdas, mas até mesmo com o lucro: a saber, se injetasse meios de pagamento creditícios no fluxo circular, ou tornando boas as más obrigações mediante criação adicional de novos meios de circulação, ou concedendo créditos que realmente servem a fins de consumo. Em geral, nenhum banco isolado poderia fazê-lo. (SCHUMPETER, 2012, p. 79).
Vale destacar que J. Schumpeter desenvolveu um arcabouço teórico que detalha a importância do crédito para o desenvolvimento do capitalismo enquadrando-o nos marcos dos economistas que defendem a criação endógena da moeda, da teoria da criação do crédito.
Em seu Treatise on Money, publicado em 2008, 75 anos depois de ter sido escrito, Schumpeter criticou Keynes por ter abandonado a “Teoria Creditícia do Dinheiro” em contraposição a uma “Teoria Monetária do Crédito”. Apresentada no Tratado da Moeda, a Teoria Creditícia do Dinheiro desenvolvida por Keynes submergiu nos capítulos da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda que tratam das expectativas de longo prazo e do incentivo à liquidez. (BELLUZZO; GALÍPOLO, 2017, p. 107).
Desta forma, o reaparecimento das teses de J. Schumpeter sobre o crédito é algo relativamente recente. Veremos no capítulo 6, que Steve Keen propõe a incorporação de dívidas novas no cálculo do produto econômico, portanto o conceito de Teoria Creditícia da Moeda é base para
o desenvolvimento desta nova proposta. Exporemos no próximo tópico alguns conceitos sobre a Teoria Monetária em Borio (2018).