3 TEORIA DA COMPLEXIDADE
3.4 EDGAR MORIN: A NECESSIDADE DA EPISTEMOLOGIA
Diante de contribuições de diversos campos do pensamento, o que é que define a teoria da complexidade? - Na publicação Restricted Complexity, General Complexity, Edgar Morin (2007) preocupa-se com a necessidade de definir a teoria em termos epistemológicos.
Para Morin (2007), a contribuição teórica de diversas áreas do saber erigiu uma estrutura de saber de facto, e a sistematização deste campo do conhecimento exige uma estrutura de jure.
De acordo com o autor supracitado, estas são estruturas analíticas de facto foram construídas em torno do primado questionador sobre a ciência clássica, esta que rejeita a teoria da complexidade porque adota três principais postulados: o determinismo universal, que garante que análise de fatos passados possibilitem fazer inferências sobre o futuro; o princípio da redução, que consiste em perceber que o conhecimento de qualquer composição de um único conhecimento é a base de seus elementos constituintes; e o princípio da disjunção, que é a busca pela separação cognitiva das áreas das ciências que serão herméticas uma da outra. Estes três postulados permitem a Morin (2007) inferir que a preocupação principal da ciência clássica seja a inteligibilidade do conhecimento, o que a torna mais importante que as suas elucidações.
Morin (2007) disserta sobre o mesmo conceito que vimos em Prigogine (2002) sobre a teoria da complexidade que é definida pela irreversibilidade e imprevisibilidade, o que pode levar a situações de desordem, dispersão e desintegração. Uma resposta à visão ordenada e determinista da ciência clássica (MORIN, 2007).
O conceito de tektologia de Bogdanov trouxe a contribuição que permite investigar a relação complexa existente entre intenção, ordem, desordem e organização, e permite fazer a associação entre oposições ordem e desordem, em síntese com a ideia de organização. No início do século a incerteza fundamental causa grande impacto nas ideias da Física, o que conforme verificamos no segundo capítulo, determina a ideia de um futuro aberto. Estas ideias em Morin (2007) estão em sintonia com o que dissertamos sobre Castoriadis no segundo capítulo.
Novos conceitos e teorias foram incorporadas na análise da complexidade, a exemplo da teoria do caos que fez surgir novos termos, a teoria da catástrofe, e a teoria dos fractais. As novas teorias da Física sobre o caos surgem pela abordagem da instabilidade dinâmica, um estado caótico precedido de um estado inicial determinístico não pode ser conhecido exaustivamente a priori. As interações originadas dentro do processo alteram a previsibilidade. Variações infinitesimais iniciais têm consequências consideráveis em grandes escalas de tempo. Os novos termos e significações exigiram a reordenação dos conceitos teóricos da teoria da complexidade (MORIN, 2007).
A emergência tardia da noção da complexidade no escopo teórico das ciências humanas surge no esteio do desenvolvimento das teorias da informação, cibernética e teoria geral dos sistemas. O grau de variedade de cada sistema e a delimitação teórica até então existente sobre a aleatoriedade tornou possível a aplicabilidade do conceito de complexidade. Deste contexto surge o Instituto Santa Fé. O desenvolvimento de sistemas analíticos dinâmicos com grande número de interações e feedback com os quais amplia a imprevisibilidade, dificulta o controle de sistemas complexos. O conceito de emergência, define a organização do sistema em sua totalidade, mas que não estão presentes quando os elementos estão isolados (MORIN, 2007).
Estes desenvolvimentos teóricos dispersos, alguns deles apresentamos neste capítulo, demarcam um conglomerado de conceitos que podem ser denominados como Complexidade Restrita. A complexidade é uma miríade de processos inter-relacionados, interdependentes e com retroatividade associada. O filósofo Morin (2007) enfatiza que qualquer sistema é complexo e este aglomerado de conceitos requer o pensar epistemológico da Teoria da Complexidade, a Complexidade Geral, uma sistematização que é regida pelos postulados que ora aqui resumimos em alguns princípios que seguem:
1. O princípio da disjunção e da conjunção pretende compreender a relação entre o todo e a parte, ao contrário do que ocorre no princípio da redução das ciências clássicas. O todo e a parte têm explicações bidirecionais. O holograma e o princípio dialógico determinam que não só a parte está dentro do todo, mas também o todo está dentro da parte.
2. O princípio do determinismo geral deve ser substituído pelo princípio que concebe uma relação entre ordem (leis, estabilidades, regularidades e ciclos de organização), desordem e organização. A adoção da noção de sistema, emergência e organização.
3. Diante da premissa que qualquer sistema é complexo, a relação entre as partes é ao mesmo tempo organizada e organizadora. Na soma das partes pode ocorrer a emergência de propriedades, assim como a inibição de outras. A emergência deve-se ao fato de a propriedade da não-dedutibilidade da qualidade das partes e da irredutibilidade das partes.
4. O princípio da disjunção e separação entre objetos, noções, sujeitos e objetos do conhecimento é mantida, mas procura estabelecer uma relação. A inserção da Nova Ciência na história, a interdisciplinaridade, na verdade poli disciplinaridade, não suprime os antigos campos do saber, mas estabelecem uma inter-relação. O vínculo entre a ciência e a filosofia não é só um problema filosófico, mas um problema científico, o isolamento faz a complexidade desaparecer.
5. A herança advinda da complexidade restrita, a indeterminação e a incerteza. Os sistemas dinâmicos complexos estabelecem uma relação complexa entre a parte e o todo. Na complexidade, a emergência produz qualidades específicas de auto-organização. A auto- organização depende do ambiente e estabelece uma relação complexa de autonomia e dependência positivamente correlacionadas. Dependência do meio ambiente em processos de autogeração, autoprodução e auto-organização de processos.
6. A organização que dá consistência ao universo e procura relacionar conceitos antagônicos logicamente, a unidade e diversidade, a ordem e desordem. O caos enquanto teoria que observa a desordem e a imprevisibilidade, mas o caos não significa a completa desordem. O caos é potencialmente gerador de ordem, desordem e organização.
Para concluir, Morin (2007) ressalta a importância do pensar sobre a produção do conhecimento, o conhecimento do conhecimento (epistemologia) é pré-condição para o pensar complexo. A sucessão histórica produz eventos inesperados de criação e destruição. Sociedade estabelecida por indivíduos que se organizam mediante retroalimentação de linguagem e cultura. A retroalimentação pode ser positiva ou negativa, a contextualização é
um elemento importante porque permite observar a complexidade lógica que há entre o local e o global. A existência de máquinas não triviais com capacidade de auto reparação e autorregulação e autoaprendizagem, desafiam as formas até então estabelecidas de pensar sobre a complexidade.