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Algumas considerações sobre o direito ao trabalho

No documento DIREITO AO TRABALHO: UM DIREITO FUNDAMENTAL (páginas 164-172)

CAPÍTULO II OS DIREITOS ECONÔMICOS,

III.7. Algumas considerações sobre o direito ao trabalho

Para Rafael Sastre Ibarreche, a articulação do direito ao trabalho no

ordenamento jurídico espanhol na atualidade passa pela distinção de dois

sentidos deste direito

455

.

Um sentido estrito, isto é, em uma acepção tradicional, em que o direito ao

trabalho se identifica com o direito a um posto de trabalho exigível frente aos

poderes públicos. Não obstante, sua realização fica reduzida ao campo concreto

do artigo 25.2, dado que é o único em que existe uma total disponibilidade do

Estado sobre o seu objeto – o posto de trabalho

456

.

Cabe falar, ainda, de um direito ao trabalho em sentido impróprio, que

apresenta um conteúdo prestacional débil ou diluído presente no artigo 35.1

conjugado com o 40.1. Neste caso, o direito ao trabalho, previsto no artigo 35.1

se materializaria na realização de uma política de pleno emprego, cuja

determinação está contida no artigo 40

457

.

Por sua vez, as diferentes medidas de política de emprego, desde o prisma

individual, seriam apreciadas como um direito à inserção e permanência no

mercado de trabalho sempre que se cumpram as condições exigidas

458

.

Assim, neste ordenamento não se pode atribuir ao direito ao trabalho uma

natureza unitária, sendo notáveis os esforços doutrinários para configurá-lo, ora

como direito subjetivo, ora como obrigação pública, ora como direito de

455 Rafael Sastre Ibarreche, “El derecho al trabajo”, pg. 127. 456 Ibid., pgs. 127 e 128.

457 Ibid., pgs. 127 e 128. 458 Ibid., pg. 128.

personalidade ou como garantia institucional. Porém, à margem da própria

discussão que envolve a categoria dos direitos subjetivos públicos, parece mais

adequado falar do direito ao trabalho como autêntico direito constitucional

459

.

No seio do sistema constitucional espanhol, o direito ao trabalho mantém

o conteúdo prestacional que historicamente o caracteriza como direito social.

Contudo, a sua inserção no marco econômico, desenhado pela CE, impede a sua

configuração como um direito subjetivo dos cidadãos de reclamar, frente aos

poderes públicos, um posto de trabalho adequado que satisfaça as suas

necessidades básicas

460

.

Por isso mesmo, para o referido autor, a solução passa por distinguir entre

um conteúdo prestacional forte do direito, contido no artigo 25.2, e um conteúdo

fraco, decorrente do artigo 35.1, conjugado com o artigo 40.1. Não se trata de

direitos diferentes ou que apresentem naturezas distintas, mas que apresentam um

elemento distintivo essencial: o maior ou menor poder de disposição dos poderes

públicos sobre o objeto do direito – o posto de trabalho

461

.

No ordenamento jurídico espanhol, de certo modo, a aproximação ao

conteúdo essencial dos direitos fundamentais tem como ponto final de referência

o próprio TC. Por existirem vários pronunciamentos do Alto Tribunal sobre o

tema, o autor inicia a análise a partir dos mesmos

462

; entretanto, de antemão já

459 Rafael Sastre Ibarreche, “El derecho al trabajo”, pg. 130. 460 Ibid., pg. 130.

461 Ibid., pg. 130.

462 Ibid., pg. 130. Mesmo assim, de acordo com a doutrina do TC (STC, Pleno, 11/1981, de 8 de abril) a

aproximação ao conteúdo essencial dos direitos fundamentais é o resultado de uma operação que deve se dar através de duas vias metodológicas complementares: em primeiro lugar, o reconhecimento do tipo abstrato do direito na situação concreta e, em segundo termo, a identificação do interesse que o direito procura objetivamente protegida.

esclarece que na maioria dos pronunciamentos que fazem menção ao direito ao

trabalho, as referências são precipitadas, inclusive secundárias.

Desta forma, para entender o alcance que a jurisprudência constitucional

outorga a este direito, continua sendo de grande importância a construção

efetuada na primeira das resoluções em que se abordou o problema, ou seja, a

STC, Pleno, 22/1981, de 2 de julho

463

.

Este primeiro pronunciamento do TC sobre o direito ao trabalho se deu em

função da análise de constitucionalidade da DA 5

a

ET, em sua originária redação

de 1980, que acolhia a possibilidade da aposentadoria forçosa do trabalhador por

cumprimento de idade. Em sua argumentação, o Tribunal distinguiu três linhas

de raciocínio: a presunção de incapacidade, a política de proteção à terceira idade

e a situação do mercado

464

.

Sobre a primeira linha indicada, o TC entendeu que não é possível nem

razoável presumir a incapacidade para todos os trabalhadores mediante a

imposição de uma idade, sem levar em consideração o setor econômico e a classe

de atividade em que desenvolvam suas atividades

465

.

Quanto à segunda linha de raciocínio, que justificaria a limitação ao

exercício do direito ao trabalho em função da aposentadoria (que se materializa

em uma conquista no processo de humanização do trabalho e em uma medida de

proteção da terceira idade), o Tribunal aponta a distância existente entre os

critérios que sustentaram a aposentadoria obrigatória e os que inspiram as

463 Rafael Sastre Ibarreche, “El derecho al trabajo”, pg. 130. 464 Ibid., pg. 131.

465 Ibid., pg. 131. Para o TC, ainda assim, tal presunção somente poderia ser cogitada quanto aos

recentes políticas de proteção da velhice, concretamente fixados na

Recomendação N. 162 da OIT. Desta forma, as justificativas aduzidas para

fundamentar tal limitação incondicionada não podem ser aceitas, segundo a ótica

do princípio de igualdade e dos princípios contidos no referido texto

internacional

466

.

Justamente ao analisar a terceira linha de raciocínio, o TC se pronuncia

acerca da configuração e alcance do direito ao trabalho. Segundo este Tribunal

no ordenamento espanhol o direito ao trabalho adota uma dupla faceta

467

.

Por um lado, em uma dimensão individual (concretizada no artigo 35.1 CE)

implica o direito de todas as pessoas a ocuparem um determinado posto de trabalho,

desde que preencham a capacidade exigida, e o direito à estabilidade no emprego,

isto é, a não serem despedidas sem a ocorrência de justa causa. De outra forma, uma

dimensão coletiva (emanada do artigo 40.1) supõe um mandato dirigido aos poderes

públicos para que realizem uma política de pleno emprego

468

.

Essa distinção teórica levou o TC a afirmar que a política de emprego

baseada na jubilação forçosa é uma política de reparto ou redistribuição de

trabalho e, como tal, supõe a limitação do direito ao trabalho de um grupo de

trabalhadores para garantir o direito ao trabalho de outro grupo.

Através desta jubilação, limita-se temporalmente ao primeiro o exercício

individual ao trabalho mediante a fixação de um período máximo em que esse

direito pode ser exercitado, com a finalidade de fazer possível ao segundo o

exercício desse mesmo direito.

466 Rafael Sastre Ibarreche, “El derecho al trabajo”, pg. 131. 467 Ibid., pg. 131.

A limitação do direito que a política de emprego leva implícita, através da

aposentadoria forçada, tem conseqüentemente sua origem e justificação na

realização de uma política econômica de pleno emprego; (...) (FJ. 8

o

)’

469

.

Para o Tribunal, tal limitação do direito ao trabalho encontraria uma

justificativa tanto em textos internacionais, Declaração Universal dos Direitos

Humanos de 1948 (artigo 29.2) e Pacto Internacional de Direitos Econômicos

Sociais e Culturais de 1966), como no artigo 9.2 CE, que permitem sustentar que

‘a fixação de uma idade máxima de permanência no trabalho seria constitucional

sempre que com ela se assegurasse a finalidade perseguida pela política de

emprego: ou seja, em relação com uma situação de desemprego, se se garantisse

que a dita limitação proporcione uma oportunidade de trabalho à população em

desemprego, pelo que não pode se supor, em nenhum caso, uma amortização de

postos de trabalho’ (FJ 9

o

). Com isso, o requisito da não amortização se

configura como cláusula de proteção do quadro de funcionários

470

.

O Tribunal destaca que o reconhecimento da proteção por aposentadoria

forçosa está vinculado à complementação dos períodos de carência, sendo este,

portanto, um condicionamento à compensação que o trabalhador recebe por ela.

Contudo, há quem destaque a falta de profundidade do TC ao fazer tal análise,

pois, certamente, “não é compensação a circunstância de que o trabalhador tenha

direito aceder à pensão em razão de suas cotizações, uma vez que teria este

direito também quando se tratasse de um término voluntário”

471

.

469 Rafael Sastre Ibarreche, “El derecho al trabajo”, pg. 132. 470 Ibid., pg. 132.

A STC 22/1981, partindo de uma distinção básica entre um âmbito

individual e um âmbito coletivo procurou dotar o direito ao trabalho

(reconhecido no artigo 35.1 CE) de um conteúdo determinado

472

.

No primeiro aspecto, em sua vertente individual, o ponto de referência

normativo é o artigo 35.1. Deste modo, a incidência do direito ao trabalho vai

além da relação de trabalho já constituída, cuja eficácia se estende sobre toda a

vida da relação individual de trabalho

473

. Já no segundo aspecto, na dimensão

coletiva, o direito ao trabalho fica integrado no artigo 40.1 CE, isto é, no campo

da política de pleno emprego; identificando-se, portanto, com a ação dos poderes

públicos para a consecução de uma situação de plena empregabilidade

474

.

Contudo, o TC não enfrentou definitivamente o problema da articulação

entre os dois aspectos deste direito. Esta articulação, ainda que em certos

momentos se apresente de forma harmônica, como no caso da obrigatoriedade de

reservas de postos de trabalho imposta por uma política de emprego, em outras

ocasiões apresenta traços bem divergentes, como, por exemplo, quando a

extinção dos contratos de trabalho autorize o acesso de novos trabalhadores aos

postos vagos, havendo assim um sacrifício do âmbito individual em função do

coletivo, ou seja, da consecução de uma política de emprego

475

.

Rafael Sastre Ibarreche, ao analisar a referida Sentença 22/1981, aponta

duas divergências com a doutrina esboçada pelo TC. Em primeiro lugar, não cabe

vincular a liberdade de trabalhar e o direito ao trabalho, cujas linhas evolutivas

472 Rafael Sastre Ibarreche, “El derecho al trabajo”, pg. 133. 473 Ibid., pg. 134.

474 Ibid. pg. 133. 475 Ibid. pg. 134.

históricas e implicações jurídicas são divergentes. E em segundo, existem outras

implicações do direito ao trabalho, além daquelas assinaladas, a seu juízo, pelo

TC a título meramente exemplificativo.

Ainda que a resolução do intérprete constitucional tenha sido objeto de

muitas críticas doutrinárias, também merece elogios pela conexão que realizou

entre o marco jurídico e a política de emprego

476

.

Assim, o direito ao trabalho contemplado no artigo 35.1 CE se traduziria

em um direito individual a aceder ao emprego e a nele se manter, salvo por justo

motivo. Já a articulação de uma política de emprego supõe a criação de uma

situação em que este direito será cumprido mais facilmente, o que não se

apresenta, necessariamente, como uma premissa para que aquele exista. Neste

sentido, deve-se entender a separação metodológica sugerida na análise dos

artigos 35.1 e 40.1 CE

477

.

A construção elaborada pelo TC na Sentença 22/1981 indica um

predomínio do aspecto coletivo sobre o individual; contudo, o autor dedica uma

atenção especial ao segundo aspecto, por estar convicto da elasticidade potencial

que o direito ao trabalho possui e que lhe torna um princípio iluminador da

relação de trabalho e do contrato de trabalho

478

.

O tema também está previsto em legislação infraconstitucional na seção 2

a

- “Derechos y deberes laborales básicos”, o artigo 4

o

do ET quando assinala: n. 1

que ‘os trabalhadores têm como direitos básicos (...): trabalho e livre eleição de

476 Rafael Sastre Ibarreche, “El derecho al trabajo”, pg. 136. 477 Ibid., pg. 134.

profissão ou ofício (a)’, reflete o reconhecimento dos primeiros incisos do artigo

35.1 da CE

479

.

479 Rafael Sastre Ibarreche, “El derecho al trabajo”, pg. 149. Ver Jesús Cruz Villalón; Jesús Maeztu

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