CAPÍTULO II OS DIREITOS ECONÔMICOS,
II.6. A efetivação dos direitos econômicos, sociais e culturais
II.6.1. Os reflexos das normas internacionais de direitos
Segundo José Afonso da Silva, no direito brasileiro existem basicamente
três posições interpretativas que defendem “a superioridade do tratado; a
superioridade da lei interna e a paridade entre ambos”
326. Na mesma direção,
Flávia Piovesan explica que “no próprio âmbito do Supremo Tribunal Federal a
matéria também não se encontra pacificada”. A posição majoritária defende a
paridade hierárquica entre tratado e lei federal
327.
326 José Afonso da Silva, “Comentário Contextual à Constituição”, pgs. 403-404. Flávia Piovesan,
“Reforma do Judiciário e Direitos Humanos”, In André Ramos Tavares; Pedro Lenza; Pietro de Jesús Lora Alarcón (Coords.), “Reforma do Judiciário: analisada e comentada – Emenda Constitucional 45/2004”, pg. 69, diferentemente, aponta quatro correntes interpretativas que defendem: “(a) a hierarquia supraconstitucional destes tratados; b) a hierarquia constitucional; c) a hierarquia infraconstitucional, mas supralegal; e d) a paridade hierárquica entre tratado e lei federal”. Nagib Slaibi Filho, “Reforma da Justiça”, pg. 36, explica com clareza acerca destas quatro correntes: “um primeiro posicionamento sustentava que os tratados relativos aos direitos humanos encontravam-se em um patamar acima da própria Constituição. Havia também, forte corrente doutrinária apontando àquela espécie de tratados um perfil constitucional, ou seja, os tratados (de direitos humanos) seriam como normas constitucionais. Uma posição um pouco mais conciliadora sustentava que os tratados de direitos humanos encontravam-se em posição inferior à Constituição, porém acima da lei ordinária”. Contudo, uma última posição firmada pelo Supremo Tribunal foi no sentido de “equiparar” os mencionados tratados à legislação ordinária. Cançado Trindade defende o primado da norma que oferece maior proteção aos direitos humanos, seja de origem internacional ou interna. Para ele, não existe qualquer obstáculo jurídico para a devida aplicação destas normas e sim um descaso do poder público, em particular, do Poder Judiciário (com raras e honrosas exceções). Fonte de Pesquisa: http://www.revistaautor.com.br/ensaios/02ext.htm. Data da Pesquisa: 17- 08-05. Seguindo a mesma diretriz, Carla Pinheiro, “Direito Internacional e Direitos Fundamentais”, pgs. 55, 56 e 77, entende que a Constituição de 1988, na medida em que erigiu a dignidade humana como um dos seus fundamentos (artigo 1º, inciso III) e estabeleceu o princípio da aplicabilidade imediata dos Direitos Fundamentais (artigo 5º, §2º), determinou que o método mais adequado para a solução do conflito entre as normas de Direito Fundamental seria aquele que privilegiasse a escolha da norma mais benéfica ou do dispositivo mais favorável à vitima. Além do que, defende a inconstitucionalidade da interpretação que defende a paridade entre os tratados internacionais de Direitos Humanos e a legislação infraconstitucional”.
327 A questão ganhou relevância prática quando os Tribunais Superiores foram chamados a se manifestar
sobre a subsistência, ou não, da prisão cível do depositário infiel. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do HC 77.631-5 (analisa um conflito entre o Pacto de São Jose da Costa Rica, artigo 7o, §7o e
o art. 5o, inciso LXVII da CF, uma vez que a norma internacional limita a hipótese de prisão civil ao caso
do devedor de alimento) determinou que a norma internacional estava prejudicada, por se tratar de norma geral em relação à norma especial da Constituição Federal (lex especialis derogat legi generali). Na mesma direção, vide também RE 344585 – RS, 1a Turma, Rel. Ministro Moreira Alves. Mas, conforme
esclarece Flávia Piovesan, “Reforma do Judiciário e Direitos Humanos”, In André Ramos Tavares; Pedro Lenza; Pietro de Jesús Lora Alarcón (Coords.), “Reforma do Judiciário: analisada e comentada – Emenda Constitucional 45/2004”, pg. 69 e nota 3, há também “posições favoráveis à hierarquia constitucional dos tratados de direitos humanos, bem como à hierarquia infraconstitucional, porém supralegal destes, nos termos do art. 5o, § 2o, da Constituição de 1988”. No julgamento do HC 82.424-RS, o Ministro Carlos Velloso se manifesta em favor da hierarquia constitucional dos tratados de proteção de direitos humanos.
De todas as formas, este debate deve se pautar no novo contexto traçado
pelo §3
odo artigo 5
oda Constituição Federal de 1988
328, juntamente com os
parágrafos 1
oe 2
odeste mesmo artigo
329, que determinam respectivamente:
“§1o. As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais
têm aplicação imediata”.
“§2o. Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não
excluem outros decorrentes (...) dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”.
“§3o. Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos
que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais”.
Para uma parte da doutrina, “com o advento do §3
odo art. 5
osurgem duas
categorias de tratados de direitos humanos: a) os materialmente constitucionais; e
b) os material e formalmente constitucionais”
330.
Já no HC 79.785-RJ, o Ministro Sepúlveda Pertence se mostra favorável à corrente que sustenta a hierarquia supralegal, mas infraconstitucional dos tratados de direitos humanos.
328 A Proposta de Emenda Constitucional N. 45, que cuidou da reforma judiciária, foi aprovada e
promulgada em 08 de dezembro de 2004, entrando em vigor na data de publicação - 31 de dezembro do mesmo ano.
329 Ver Antônio Augusto Cançado Trindade, Prefácio do livro de Jayme Benvenuto Lima Jr., “Os Direitos
Humanos Econômicos, Sociais e Culturais”.
Fonte de Pesquisa: http://www.revistaautor.com.br/ensaios/02ext.htm. Data da Pesquisa: 17-08-05. Segundo o autor, este artigo resultou de sua proposta à Assembléia Nacional Constituinte, em audiência pública do dia 29 de abril de 1987. Ver Atas das Comissões da Assembléia Nacional Constituinte, Volume 1, Brasília, n. 66 (supl.), 27.05.1987, pp. 109-116, esp. p. 111.
330 Discute-se, inclusive, acerca da problemática da retroatividade do §3o do artigo 5o em relação aos
Tratados de Direitos Humanos anteriormente ratificados pelo Brasil. Neste sentido, alguns autores defendem que “não há que se falar em retroatividade de norma, conforme asseguram o art. 5º, XXXVI, da CF e o art. 6o da Lei de Introdução do Código Civil, que dispõem que a lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada”. Neste sentido, vide Amélia Regina Mussi Gabriel, “Hierarquia Jurídica da Norma Internacional de Direitos Humanos em Face do art. 5o, § 3o, da Constituição Brasileira”, pg. 257, 259 e 263. A autora destaca, ainda, o disposto
no artigo 11 da Convenção de Havana, sobre Tratados, de 1928 (âmbito regional americano): ‘Tratados continuarão a produzir seus efeitos, ainda quando se modifique a Constituição interna dos Estados contratantes’. Ver também Flávia Piovesan, “Reforma do Judiciário e Direitos Humanos”, In André Ramos Tavares; Pedro Lenza; Pietro de Jesús Lora Alarcón (Coords.), “Reforma do Judiciário: analisada e comentada – Emenda Constitucional 45/2004”, pg. 72, que destaca que o Brasil ratificou a Convenção contra a Tortura desde 1989 e está em vias de ratificar o seu Protocolo Facultativo. Assim, “não haveria qualquer razoabilidade se a este último – tratado complementar e subsidiário ao principal – fosse conferida hierarquia constitucional, enquanto ao instrumento principal fosse conferida hierarquia meramente legal. Tal situação importaria em agudo anacronismo do sistema jurídico”. Infelizmente não
Com isto, quer-se dizer que, apesar de todos os tratados internacionais de
direitos humanos serem materialmente constitucionais
331por força do § 2
odo art.
5
o, a partir do § 3
odo mesmo dispositivo, estes poderão assumir “a qualidade de
formalmente constitucionais, equiparando-se as emendas à Constituição, no
âmbito formal”
332.
Esta discussão ganha destaque na medida em que se considera, como se
tem feito até aqui, que os direitos humanos ao serem positivados em um
determinado ordenamento podem assumir o caráter de fundamental.
José Afonso da Silva, antes mesmo da inserção do citado § 3
o, do artigo
5
o, anotava que “os direitos consagrados nos tratados de Direitos Humanos em
que o Brasil seja parte incorporam-se ao elenco dos Direitos Fundamentais”, a
partir do ato de ratificação, por força dos § 1
oe 2
odo artigo 5
o333. Slaibi Filho
parece defender este ponto de vista, quando sustenta que “os parlamentares
se pode assegurar que o Supremo Tribunal Federal aceitará tal entendimento, pois, como visto, a posição majoritária adotada tem sido no sentido de que os tratados de direitos humanos incorporados no ordenamento jurídico brasileiro equiparam-se à lei ordinária.
331 Vide item I.8.
332 Flávia Piovesan, “Reforma do Judiciário e Direitos Humanos”, In André Ramos Tavares; Pedro Lenza;
Pietro de Jesús Lora Alarcón (Coords.), “Reforma do Judiciário: analisada e comentada – Emenda Constitucional 45/2004”, pg. 72. Neste sentido, José Afonso da Silva, “Comentário Contextual à Constituição”, pg. 179, entende que o § 3o estabeleceu critérios para que a norma internacional de direitos
humanos tenha natureza constitucional formal em nosso ordenamento jurídico, o que, ao seu ver, “é uma pena, porque a incorporação automática, como direito constitucional, seria uma forma de destacar seu valor para além das circunstancias de lugar e tempo”. Mesmo assim, destaca a natureza constitucional material que permeia todas as normas sobre direitos humanos.
333 José Afonso da Silva, “Comentário Contextual à Constituição”, pg. 178, explica que “na sistemática
constitucional (brasileira), os tratados, acordos e atos internacionais só se convertem em regra jurídica interna se, após a assinatura por preposto do Poder Executivo, forem referendados pelo Congresso Nacional e ratificados pelo Presidente da República. A ratificação é o ato que confirma a participação do Brasil nesses acordos e atos internacionais. A diferença é que, no caso dos tratados de direitos humanos, têm estes vigência interna imediata, sem intermediação legislativa; ingressam na ordem jurídica nacional no nível das normas constitucionais e, diretamente, criam situações jurídicas subjetivas em favor dos brasileiros e estrangeiros residentes no país”. Na mesma direção, Carla Pinheiro, “Direito Internacional e Direitos Fundamentais”, pg. 74, manifesta que segundo o art. 84, VIII da Constituição de 1988 “é da competência do Presidente da República celebrar tratados, convenções e atos internacionais. Assim, o Presidente da República celebra um tratado quando ele consente, tomando este consentimento forma de ratificação. (...) a partir dessa ratificação, seguida do referendo do Congresso Nacional – segunda parte do art. 84, VIII – os tratados de Direitos Humanos passam a integrar o ordenamento jurídico brasileiro”. Esta análise deve ser conjugada com o artigo 49, inciso I da Constituição de 1988.