CAPÍTULO II OS DIREITOS ECONÔMICOS,
III.5. A Liberdade de trabalhar, o dever de trabalhar
III.5.2. O dever de trabalhar
Segundo Juan Lopez Gandía, desde o ponto de vista ideológico, o dever
de trabalhar tem suas raízes na ideologia calvinista e está vinculado a uma certa
ética do trabalho. Há narrativas de sua imposição em distintos períodos da
história, como, por exemplo, na Lei dos Pobres de 1601 (Inglaterra) e nas leis de
periculosidade social, promulgadas em diversos países
431, sem falar nos regimes
196. Maria del Carmen Revuelto Martínez. “El derecho al trabajo en la Constitución”, en AAVV. (edición preparada por Manuel Ramírez), “Estudios sobre la Constitución española de 1978”, pg. 161.
430 Irany Ferrari. “Direito ao Trabalho”, pg. 713.
431 J. López Gandía, “Breve nota sobre el artículo 35 de la CE (derecho al trabajo, libertad profesional y
promoción en el trabajo”, pg. 152. O autor faz referência à Lei italiana, N. 1.423, de vagabundos e ociosos de 27, de dezembro de 1956. Maria del Carmen Revuelto Martínez, “El derecho al trabajo en la Constitución”, en AAVV. (edición preparada por Manuel Ramírez), “Estudios sobre la Constitución española de 1978”, pg. 162, também faz menção à Lei espanhola, N. 16, de 04, de agosto de 1970, denominada “Ley de Peligrosidad y Rehabilitación Social”.
autoritários que, de um modo geral, utilizaram-no como justificativa para se
alcançar um novo modelo de sociedade
432.
Não obstante, já se viu que este dever se traduz em um “dever moral”,
pois a sua imposição fere frontalmente a liberdade e a dignidade humana,
fazendo com que o trabalho forçado seja combatido com veemência pelos
Estados Democráticos de Direito.
Há quem pense que o trabalho forçado seja coisa do passado, mas um
estudo da Organização Internacional do Trabalho – “A global alliance against
forced labour” – denuncia que este “não somente ocorre na atualidade, mas que
se trata de um dos problemas mais ocultos de nosso tempo”
433.
Ainda assim, devemos considerar que diversos setores da sociedade
sobrevivem precisamente do parasitismo (cuja base teórica é o próprio
capitalismo, em seu modelo financeiro-especulativo) e, nestes casos, defender a
imposição de um dever de trabalhar seria até mesmo um paradoxo
434.
Por esta razão, quando este dever é proclamado nas constituições, a sua
natureza não é outra que a de um princípio ético que responde a uma visão
432 Maria del Carmen Revuelto Martínez. “El derecho al trabajo en la Constitución”, en AAVV. (edición
preparada por Manuel Ramírez), “Estudios sobre la Constitución española de 1978”, pg. 155. A autora lembra que muitos teóricos, ao interpretarem o conceito marxista de desenvolvimento da força produtiva, defendiam a necessidade de se impor a obrigatoriedade de trabalhar e sancionar sua transgressão para que um dia a sociedade socialista possa reduzir o trabalho e o homem, assim, dedicará boa parte de seu tempo ao lazer.
433 OIT. “Trabajo”, Revista de la OIT”, pgs. 4, 5 e 6. Segundo a Organização Internacional do Trabalho,
“o trabalho forçado se encontra em todos os âmbitos. Ainda que se concentre na agricultura, na construção, no trabalho doméstico, na fabricação de ladrilhos, nas oficinas clandestinas e no comércio sexual, dá-se em todos os continentes, em todas as economias e em quase todos os países”. Mesmo assim, para a organização, é possível se abolir este tipo de trabalho. Com vontade política e um compromisso de escala mundial, associados à promulgação de legislações nacionais rigorosas, o trabalho forçado poderia ser eliminado nos próximos dez anos.
434 J. López Gandía, “Breve nota sobre el artículo 35 de la CE (derecho al trabajo, libertad profesional y
progressista do papel cidadão na sociedade e de combate ao privilégio e ao
parasitismo
435.
Nesta direção, há quem visualize uma vertente social do dever de
trabalhar, que se manifesta como um dever genérico para com a sociedade, ou
seja, como uma parcela de contribuição que compete a cada cidadão para a
melhoria da coletividade
436. Alarcon Caracuel, por exemplo, entende que o dever
de trabalhar se assenta no terceiro pilar da estrutura “liberdade, igualdade e
fraternidade”, ou seja, a solidariedade social
437.
Partindo do pressuposto de que a “mendicância” e a “marginalidade”
podem causar sérios prejuízos financeiros e sociais ao Estado, muitos países têm
adotado algumas medidas indiretas para desestimular esta “recusa ao trabalho”,
seja através de normas que condicionam o recebimento do seguro-desemprego à
postura ativa do trabalhador na busca de um novo emprego, seja através ações
que visam a conscientizar a população sobre a importância do trabalho para a
realização pessoal e social
438.
No ordenamento jurídico espanhol, por exemplo, há quem advirta que “o
dever de trabalhar não é uma mera declaração retórica vazia de conteúdo, na
medida em que serve de apoio constitucional à exigência de trabalhos de
435 Maria del Carmen Revuelto Martínez. “El derecho al trabajo en la Constitución”, en AAVV. (edición
preparada por Manuel Ramírez), “Estudios sobre la Constitución española de 1978”, pg. 162.
436 Juan Antonio Sagardoy Bengoechea. “Comentario al artículo 35: derechos laborales”, en O. Algaza
Villamil (dir.), “Comentarios a las leyes políticas. Constitución española de 1978, Tomo III. O autor aponta uma dupla vertente para o dever de trabalhar – a social e a contratual. Na primeira, o dever de trabalhar se mostra como um dever genérico para com a sociedade, ou seja, como a parcela que compete a cada um para a melhoria da coletividade. Já na segunda, configura-se como o dever de trabalhar com boa fé e diligência.
437 Manuel-Ramon Alarcón Caracuel. “Derecho al Trabajo, libertad profesional y deber de trabajar”,
Revista de Política Social (RPS), pg. 37.
438 J. López Gandía, “Breve nota sobre el artículo 35 de la CE (derecho al trabajo, libertad profesional y