3.2 Estruturas parciais e quase-verdade em Q
4.1.1 Algumas observa¸c˜oes sobre a natureza do objeto f´ısico
menos do ponto de vista filos´ofico. Parece certo, todavia, que qualquer tentativa de resposta filos´ofica deve voltar-se para a ciˆencia, e se estamos pensando em termos re- ducionistas, devemos considerar o que a f´ısica, em especial, nos tem a dizer. Obviamente n˜ao empreenderemos aqui tal tarefa. No entanto, mesmo n˜ao dizendo o que um objeto f´ısico seja exatamente − talvez n˜ao seja poss´ıvel dar uma defini¸c˜ao n˜ao-amb´ıgua −, nada nos pro´ıbe de tecermos algumas breves observa¸c˜oes sobre o que foi apontado, ao longo dos anos, como sendo a natureza dos objetos. Sendo assim, no que segue, vamos acompanhar as considera¸c˜oes feitas por Toraldo di Francia a essa quest˜ao.
Segundo Toraldo di Francia, o mundo f´ısico ´e freq¨uentemente referido com o termo ‘coisas’. Os termos ‘mundo exterior’, ‘natureza’, ‘mat´eria’, ‘realidade’ etc. pertence- riam a uma linguagem filos´ofica elaborada. Crian¸cas, pessoas incultas e mesmo muitos estudiosos da antiguidade, desconheceriam tais termos, como afirma Toraldo di Fran- cia. Coisas aparentemente s˜ao bem determinadas, auto-suficientes e unit´arias, existindo e tendo individualidade, independentemente de qualquer observador (Toraldo di Francia 1978). Coisas foram consideradas em certo momento como sujeitos, cuja unidade seria garantida pela sua pr´opria natureza; seriam como pessoas, e sua existˆencia individual n˜ao mereceria uma an´alise mais profunda. Com o passar dos anos, segundo Toraldo di Francia, a no¸c˜ao de individualidade de uma coisa deixou de ser associada a sujeitos e passou a ser associada a objetos, acarretando que sua unidade individual teria uma origem diferente das pessoas (ibid.). A no¸c˜ao de individualidade intr´ınseca das coisas torna-se hoje em dia vacilante, pois podemos fracionar coisas cujas partes s˜ao coisas que, por sua vez, podem ser fracionadas, e assim por diante. E a todas essas partes podemos denominar coisas, ou seja, tudo depende do que queremos chamar de coisa.
estudiosos da antiguidade, foi somente na Idade M´edia que a palavra ‘objectum’ surgiu, motivada pelo interesse crescente na distin¸c˜ao entre sujeito e objeto. A partir dessa ´epoca, as pessoas passaram ent˜ao a se referir a objetos e, em particular, a objetos f´ısicos (ibid.). Na medida em que foi reconhecido que n˜ao ´e o mundo em si mesmo que ´e feito de obje- tos, mas que n´os dividimos o mundo em objetos, surgiu a quest˜ao de como essa divis˜ao poderia ser realizada. Assim, segundo Toraldo di Francia, quando falamos, falamos de objetos; nossa linguagem e nossos pensamentos podem proceder somente quando domi- namos o conceito de objeto. Todavia, aparentemente, toda defini¸c˜ao de objeto resulta ser circular, ou seja, objetos seriam definidos em termos de coisas; e coisas seriam definidas em termos de objetos. A essa peculiar atividade da mente que decomp˜oe o mundo em objetos, Toraldo di Francia denomina objectua¸c˜ao (objectuation), e ela seria primitiva e n˜ao-analis´avel; qualquer tentativa de explic´a-la seria in´util, a menos que estejamos preparados para admitir uma grande quantidade de circularidade (ibid.).
Para Toraldo di Francia, a objectua¸c˜ao est´a estritamente conectada com, ou consiste de, uma habilidade da mente em distinguir este e outro. Este tem uma unidade intr´ınseca e outro tem uma unidade intr´ınseca que nega este. Assim, outro ´e simplesmente n˜ao-este. A objectua¸c˜ao tamb´em estaria estritamente conectada com a no¸c˜ao elementar de n´umero ordinal e com a atividade de contar. Um ´e o termo usado para o ato inicial e fundamental do ato de objectua¸c˜ao, quando chegamos ao dois, reconhecemos a existˆencia do n˜ao-um; quando chegamos ao trˆes, reconhecemos a existˆencia do n˜ao-um-nem-dois, e assim por diante. Esta seria, segundo o pensador italiano, apenas uma descri¸c˜ao, restando definir o que um n´umero ´e. Todavia, a objectua¸c˜ao viria antes da defini¸c˜ao de n´umero; mesmo em uma axiomatiza¸c˜ao como a de Peano, por exemplo, dever-se-ia primeiro ser capaz de distinguir diferentes s´ımbolos e diferentes objetos (ibid.).
Se nos voltarmos para a f´ısica, segundo Toraldo di Francia, tamb´em encontramos s´erias dificuldades em definir um objeto f´ısico. Considerando-se a mecˆanica cl´assica, poder´ıamos entender o objeto f´ısico como uma part´ıcula (cl´assica) e procedermos assim. Poder´ıamos considerar a seq¨uˆencia de aspectos que consistem em medir a posi¸c˜ao e o momento da part´ıcula, assim como seu campo potencial, em diferentes tempos. Esses aspectos tˆem em comum o invariante x1, que representa a posi¸c˜ao da part´ıcula no tempo t = 0, eles
poderiam ent˜ao pertencer a uma classe de equivalˆencia ωi fora do conjunto completo de
todos os aspectos poss´ıveis. Assim, podemos tomar ωi como a defini¸c˜ao de objeto. Um
objeto macrosc´opico pode ent˜ao ser definido como uma certa cole¸c˜ao de suas part´ıculas.1
Na mecˆanica cl´assica, uma part´ıcula tem uma bem determinada linha de mundo que nunca encontra outra linha de mundo, e um objeto macrosc´opico tem um tubo de mundo. Todavia, argumenta Toraldo di Francia, se considerarmos corpos microsc´opicos a situa¸c˜ao torna-se mais delicada. Cada medida perturba as part´ıculas; al´em disso, quando duas part´ıculas idˆenticas (indistingu´ıveis) se encontram, n˜ao h´a como saber qual ´e qual (ibid.). Nesse campo, f´ısicos come¸caram a depender cada vez mais de entidades abstratas, como simetrias e invariantes, ao inv´es de objetos do senso comum. Toraldo di Francia conclui, portanto, que a defini¸c˜ao de objeto f´ısico n˜ao pode ser feita de maneira formal e precisa. Nossa tentativa de representar a no¸c˜ao de objeto f´ısico falha, pois ela vale somente na mecˆanica cl´assica, que sabemos n˜ao ser absolutamente v´alida. Hoje, a declara¸c˜ao ‘h´a ob- jetos f´ısicos’ seria melhor substitu´ıda por ‘h´a invariantes no mundo f´ısico’. O m´aximo que podemos fazer, portanto, segundo Toraldo di Francia, ´e darmos uma descri¸c˜ao hist´orica e convencional do conceito de objeto f´ısico (ibid.). A seguir, vejamos brevemente como esse conceito foi considerado na ciˆencia ao longo dos anos.