CAPÍTULO 5: DA ANÁLISE DAS ATIVIDADES REALIZADAS
5.3 Algumas reflexões sobre gêneros do discurso
Observamos alguns pontos de encontro dos nossos resultados com os de Almeida (2012) entre eles destacamos que o contato com gêneros do discurso possibilitam a produção de significados matemáticos em aulas de Matemática.
Se pegarmos uma poesia de cordel, por exemplo, que fale sobre cangaço, sobre Lampião e a empregarmos em um contexto de uma sala de aula nordestina, muitos alunos despertarão uma curiosidade, opiniões, história sobre ela. Porém, se a mesma for empregada em outro contexto, no qual os sujeitos a desconhecem, poucos significados ou nenhum podem ser produzidos.
Da mesma forma, se pegarmos uma fórmula matemática e apresentarmos a uma tribo de aborígenes a mesma não produzirá significado algum. Até uma turma do 7° ano do Ensino Fundamental ficaria confusa diante de um enunciado como:
―Encontre a área de um círculo, cujo raio é igual 10. Para isso utilize a fórmula . (Utilize ).‖
Possivelmente, em níveis mais avançados de ensino, aqueles alunos que possuem posturas mais interativas com a Matemática, conseguiriam compreender, interpretar, resolver tal situação, produzir significados matemáticos. Assim, uma situação enunciativa como― resolva as continhas‖ pode ser que seja significativo para alguém. Embora não defendamos que os exercícios matemáticos sejam tão instigantes para os alunos, não podemos deixar de considerar a sua importância em alguns momentos, aqueles que exigem a habilidade de cálculo rápido isso depende é claro da necessidade surgida.
Para nossa pesquisa foi de grande valia perceber que o mesmo gênero do discurso pode ser significativo para alguns alunos e não para outros. O despertar de posicionamentos relacionados à Matemática depende do grau de interesse, da aceitação, das mobilizações possíveis, de interações estabelecidas.
Em muitos momentos da aplicação das atividades percebemos a importância da adequação do gênero para alguns alunos mais do que para outros. Alguns textos de abertura e de fechamento não foram tão instigantes para a maioria dos alunos. Além da dificuldade inerente à língua materna e à linguagem matemática, eles apresentaram dificuldades com esses gêneros, isso ocorreu, a nosso ver, por conta da falta de interação com alguns desses gêneros. Esses gêneros não faziam parte da estrutura das aulas de Matemática por nós
ministradas ou por outros professores.
Quando trabalhamos com panfletos, tanto na parte de leitura quanto na da escrita, temos em mente que os alunos desenvolvam posturas mais interativas com o gênero, uma vez que tínhamos o conhecimento que nas aulas de Português tinham produzido panfletos sobre a dengue. Além disso, conheciam a estrutura composicional, era algo que estavam mais habituados no dia-a-dia.
A mudança de suporte, quando os gêneros são levados à escola, provocam modificações no gênero. Se ouvirmos uma poesia, a mesma pode despertar atitudes diferenciadas das que se lêssemos a mesma poesia em um cordel. A compreensão seria outa, mesmo nas condições de uso dos gêneros seriam diferenciadas das finalidades pelas quais foram criadas. O mesmo poema, ao ser colocado em um livro didático, possibilitaria reações diferentes das citadas anteriormente.
O suporte é algo muito importante. Se a escolha não for bem feita, se os recursos utilizados não forem adequados, pode haver uma descaracterização do gênero.
No caso da nossa pesquisa, ao aplicar a atividade II, tínhamos um problema contextualizado, criado com uma finalidade meramente matemática. Ao trabalhar com este problema lendo o enunciado da questão, os alunos sentiram dificuldades de resolvê-lo. Com a oralização, várias vezes seguidas, do problema, os alunos desenvolveram outras posturas de compreensão e conseguiram resolver o problema da atividade II. Ao oralizar o problema elementos novos foram incorporados, como questionamentos, entre outros tantos.
Há diferenças evidentes na função social quando os textos são escolarizados. A mesma questão dos contextos de uso e produção, por mais que se tente aproximar o contexto vivenciado pelo aluno e o da sala de aula e vice versa algumas características e funções são perdidas. Isso aconteceu na hora de utilizar tanto o panfleto sobre a água como as receitas, por mais que tentássemos reduzir esse problema da escolarização dos textos, a função social havia mudado, dificultando a resolução das situações matemáticas.
É interessante notar que é muito importante que tenhamos em mente que se a situação fosse mais concreta, como produzir os dindins antes da atividade III, os alunos poderiam ter mais elementos, interações e, consequentemente, motivar-se mais a trabalhar matematicamente. Além de produzirem significados mais amplos do que os que conseguiram demonstrar nas atividades produzidas, nos diálogos, nas ações, comportamentos e tantos outros.
Ainda destacamos o papel das concepções tanto docentes como discentes e reforçamos que muitas vezes limitamos os nossos alunos ao aplicarmos atividades no
mesmo sentido, outras vezes por conhecimento das dificuldades ou das capacidades dos mesmos fazemos seleções e planejamentos direcionados a tal.
Assim, ao aplicar o problema da atividade II, sabíamos que os alunos sentiriam dificuldade para realizá-lo, já que a própria turma havia apresentado certa dificuldade de leitura. Não que nossa concepção fosse equivocada sobre a capacidade dos alunos, mas que notávamos a dificuldade dos mesmos a partir da primeira sequência proposta com os enunciados. Como a sala de aula é um jogo de imprescindível e prescindível, ou seja, determinadas coisas que acontecem na sala de aula podem ser previstas outras não, observamos que cada situação é um caso, daí a necessidade do professor ter habilidades de contornar as dificuldades de seus alunos o que demanda tempo, planejamento, experiência profissional, além de reflexão sobre a prática.
Reconhecemos perdas na análise da nossa pesquisa no concerne ao problema da atividade escrita II, pois deveríamos ter deixado os alunos resolverem como bem entenderem, pelo desejo que nossos alunos atinjam o resultado esperado, isto é a solução, infelizmente nesta atividade interferimos com leituras, questionamentos e alguns registros na lousa, o que facilitou de certa forma a solução do problema. Contudo, reconhecemos o papel de exploradores da atividade desempenhado por nós, assim como as atitudes dos alunos diante de tal exploração, que poderíamos ter dado mais tempo aos alunos, como mais horas de solução ou mesmo uma semana para que eles investigassem mais aquela atividade.