CAPÍTULO I – INSULARIDADE ENQUANTO OBJECTO DE ESTUDO
6 ALGUNS CONCEITOS RELEVANTES
Do analisado até ao momento é possível sintetizar alguns conceitos fundamentais que têm sido utilizados de forma recorrente ao longo do trabalho. Sendo assim, estes devem ser definidos de forma mais precisa possível de modo a que se possa compreender qual é o significado que se lhes atribui no contexto do presente estudo.
INSULARIDADE: conjunto dos equilíbrios físicos, biológicos, socioeconómicos e políticos que ocorrem nas ilhas (DOUMENGE, 1985a). Ou por outra, conjunto das características ecológicas e culturais dos âmbitos insulares, sendo tanto mais evidentes quanto menor for a ilha (LACOSTE, 2005).
PEQUENO ESTADO INSULAR EM DESENVOLVIMENTO: Não existem definições nem critérios satisfatórios para definir Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento, isto porque muitas vezes existe um contínuo entre as características dos países pequenos e dos Estados grandes, tornado muito difícil a sua diferenciação. Habitualmente utiliza-se os critérios espaciais, demográficos e económicos para delimitar os pequenos Estados, todavia, aqui os valores referência variam em função dos objectivos das análises que se pretendem levar a cabo.
• DOUMENGE (1983) indica como critério para definir um Pequeno Estado Insular, uma população inferior a 1.200.000 habitantes e um
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território menor do que 20.000 Km2, isto porque, segundo ele, com valores superiores a estes a insularidade já deixa de se fazer sentir. • A FAO aponta como limites máximos para definir estes países, uma
superfície de 50.000 Km2 e uma população de 1 milhão de habitantes. A UNESCO por sua vez aponta para os 10.000 Km2 de superfície e 50.000 habitantes como valores máximos (UNESCO, 1992).
• Enquanto que o Banco Mundial e a Commonwealth indicam como critério para definir um pequeno Estado a existência de uma população inferior a 1.500.000 habitantes (COMMONWEALTH SECRETARIAT/WORLD BANK JOINT TASK FOURCE ON SMALL STATES, 2000).
A dificuldade em definir Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento reside no facto destes não constituírem um grupo específico nem pelo tamanho económico, demográfico ou espacial, nem pela sua fraca acessibilidade e fragmentação territorial, muito menos pelo seu estatuto político. A sua definição resulta da combinação de um conjunto de critérios (BOUCHARD, 2004). Assim sendo, entende-se por pequeno Estado insular em desenvolvimento, um território que cumpra cumulativamente os seguintes critérios:
• Um Estado soberano, independente;
• Cuja a maior parte do seu território seja formada por uma ilha ou mais, ainda que seja ocupada apenas parcialmente;
• Seja titular de uma população permanente inferior a 1.500.000 habitantes5;
• E que apresenta características socioeconómicas em termos de rendimento nacional e da sua distribuição que não deixam dúvidas sobre o seu estatuto de país em desenvolvimento (ENCONTRE, 2004), (ver Quadro 2.1).
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Privilegia-se o critério demográfico porque constatou-se que a população apresenta uma elevada correlação com o PIB e com a dimensão superficial dos países (COMMONWEALTH SECRETARIAT/WORLD BANK JOINT TASK FOURCE ON SMALL STATES, 2000).
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ACESSIBILIDADE: característica de um lugar que permite que ele seja alcançado desde lugares com diferentes localizações geográficas. Ou seja, qualidade de um ponto ou de uma área para reduzir os obstáculos à comunicação entre os componentes de um sistema espacial (PONS e REYNÉS, 2004).
FRAGMENTAÇÃO TERRITORIAL: dispersão territorial provocada pela multi- insularidade. Condição própria dos territórios arquipelágicos.
NIVEL DE DESENVOLVIMENTO: medida do grau de desenvolvimento de um território, testemunhado pelo rendimento e pela capacidade de consumo da sua população, bem como pelo aumento da liberdade de escolha, decorrentes de um processo de crescimento económico (TODARO, 1987).
ESTATUTO POLÍTICO: grau de autonomia política e administrativa de um território, podendo assumir a forma de Estado Independente, Estado Associado, Estado Federado, Região Autónoma, etc.
ESPECIALIZAÇÃO ECONÓMICA: concentração dos recursos na produção de um número relativamente pequeno de bens e serviços (TODARO, 1987).
DEPENDÊNCIA: Situação em que os países menos desenvolvidos estão subordinados à política económica interna e externa dos países desenvolvidos para o estimulo do seu próprio desenvolvimento económico (TODARO, 1987).
Situação onde as circunstâncias e decisões externas têm um forte impacte sobre as ocorrências internas, muito superiores aos impactes das decisões e circunstâncias internas sobre o sistema exterior (SELWYN, 1978).
VULNERABILIDADE AMBIENTAL: fragilidade face à ocorrência de perturbações externas (cataclismos naturais e/ou intervenções humanas) no ecossistema que resultam em danos ou destruições.
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VULNERABILIDADE ECONÓMICA: exposição que uma dada economia apresenta aos choques externos (económicos e naturais), ou por outros termos, a propensão para uma dada economia sofrer danos provocados por forças externas (BRIGUGLIO, 1995, 2003).
VANTAGEM COMPARATIVA: Principio segundo o qual cada espaço produzirá o que está em melhores condições para produzir, derivado da existência de um conjunto de condições favoráveis (KRUGMAN e OBSFELD, 2006), conduzindo ao desenvolvimento de especializações territoriais com a consequente geração de fluxos comerciais.
CUSTOS DA INSULARIDADE: sobrecusto económico resultante de viver-se numa ilha. Quanto menor for o território e mais isolado estiver dos fluxos económicos mundiais maior serão os sobrecustos económicos (MANEIRA e GARAU, 2005).
Engloba o conjunto de desvantagens económicas resultantes do aumento de custos que as unidades empresariais residentes nas ilhas suportam. Compreende os custos de transporte de bens e das pessoas, os custos internos de produção de bens e serviços e os custos de distribuição (OGIMATECH PORTUGAL, 2007).
Abarca todas as distorções relacionadas com a pequena dimensão, a fraca acessibilidade e a fragmentação territorial presentes nos territórios insulares, que dificultam e encarecem os processos de abastecimento, produção e distribuição comparativamente com as regiões ou países continentais (MARTIN e MARTIN, 1990).
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CONCLUSÕES
Como conclusões principais do Capítulo pode-se realçar:
− A Insularidade é um conjunto de equilíbrios físicos, biológicos, sociais, económicos e políticos que ocorrem nas ilhas. Ela é uma relação dinâmica que se estabelece entre o espaço insular e as sociedades que ali vivem. Portanto, está-se perante um conceito relativo e multidimensional passível de ser analisado segundo vários prismas, em função do tempo, do espaço, do nível de desenvolvimento e do estatuto político;
− Além do mais ela é um fenómeno sinergético, cujo todo é mais do que a mera soma dos seus diferentes elementos físicos e sociais. Não obstante, para fins operacionais ela poder ser decomposta em diversas componentes, mormente a espacial, que abarca a pequena dimensão territorial, demográfica e económica; a fraca acessibilidade; e a fragmentação territorial no caso dos espaços arquipelágicos;
− A pequena dimensão territorial, demográfica e económica afecta as possibilidades de desenvolvimento a seguir pelos PEID, pois que acabam por influenciar na definição de um conjunto de características estruturais que têm incidência económica;
− Bem como a fraca acessibilidade a que estão sujeitos estes territórios, na medida em que esta afecta significativamente as condições de funcionamento e de desempenho das suas economias como um todo e as suas empresas em particular, visível numa redução dos seus rendimentos, já que estes tendem a pagar mais pelas suas importações e a receberem menos pelas exportações;
− A fragmentação territorial por seu turno vem agravar ainda mais os efeitos da pequena dimensão e da fraga acessibilidade, já que obriga a uma desmultiplicação dos serviços e equipamentos públicos e privados por
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todas as ilhas, e a maiores encargos logísticos, com o consequente aumento de custos para o Estado e para as empresas;
− Não se deve ignorar também o papel do nível de desenvolvimento e do estatuto político na análise das incidências económicas da insularidade, já que estes são factores que mitigam ou potenciam os impactes económicos da insularidade;
− Ela engendra consequências económicas tanto ao nível macroeconómico quanto ao nível microeconómico. Do ponto de vista macroeconómico a insularidade reflecte-se numa significativa especialização económica, na acentuada dependência externa, em gastos públicos elevados que quando conjugados com uma significativa vulnerabilidade ambiental dessas regiões contribuem para que as economias dos PEID sejam muito vulneráveis aos choques externos;
− Porém, apesar destas fragilidades, estes territórios não deixam de apresentar algumas vantagens comparativas e competitivas, ainda que largamente suplantadas pelos efeitos negativos da insularidade, principalmente no sector dos serviços;
− Por outro lado, ao nível microeconómico, a insularidade faz sentir os seus efeitos sobre o funcionamento das firmas instaladas nestas regiões, afectando vários dos elementos que compõem a sua cadeia de valor, designadamente com sobrecustos ao nível do abastecimento, produção e distribuição.
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