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CAPÍTULO I – INSULARIDADE ENQUANTO OBJECTO DE ESTUDO

5.6­ VANTAGENS COMPARATIVAS

A insularidade modela o ambiente no qual os agentes económicos actuam e por essa via não só inibe, mas também estimula o aparecimento de vantagens comparativas e competitivas. Ela influência e existência/ausência de um conjunto de determinantes de vantagens comparativas e competitivas, que funcionam individualmente ou conjuntamente como um sistema, a saber: condições de factores; condições de procura; indústrias relacionadas e de suporte; estratégia, estrutura e rivalidade das empresas; e a acção do Governo (PORTER, 1990), (ver Fig. 3.2).

Quando se observa os pequenos espaços insulares constata-se imediatamente que as ilhas carecem de determinantes significativos de vantagens comparativas e competitivas. Não obstante, PORTER (1990) não levar em consideração aspectos importantes da vantagem comparativa como a cooperação e aprendizagem colectiva (LOPES, 2001) e o capital social, que no caso das ilhas assumem grande importância.

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Fig. 3.2­ Diamante de Competitividade de Porter 

Fonte: PORTER (1990) e adaptado pelo autor

A análise dos factores de produção existentes nos PEID permite constatar as ausências de uma mão-de-obra diversificada e numerosa; de recursos naturais clássicos, caso do solo, da água, das fontes de energia fósseis; de capital, devido à inexistência de fontes de acumulação, mas também pelo facto dos pequenos países terem um acesso limitado ao capital privado internacional; de infra-estruturas, designadamente de meios de transportes e comunicações; bem como de recursos de conhecimento transaccionáveis. Constatação essa que se aplica também aos restantes determinantes, mormente às condições da procura, ao papel das indústrias relacionadas e de suporte, à acção da estratégia, rivalidade e estrutura das empresas e ao desempenho do governo. Tal situação justifica-se pela pequena dimensão territorial, demográfica e económica, pela reduzida acessibilidade, pela elevada fragmentação territorial e pelo reduzido nível de desenvolvimento desses territórios.

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De modo que as vantagens comparativas da insularidade assentam-se sobretudo em rendas de situação. Isto é, conjunto de bens livres, de origem essencialmente natural, que geram rendimentos, caso da posição geográfica, do clima, dos recursos paisagísticos, das praias, etc. (KNOX e AGNEW, 1998; MARTIN e MARTIN, 1990). Estas rendas traduzem-se em vantagens comparativas nas áreas como as de serviços pessoais, serviços públicos e administrativos, serviços financeiros, serviços às empresas, serviços estatísticos e de informação, comércio, turismo, bandeiras de conveniência, filatelia, universidades e centros de investigação científica, transportes e comunicações, etc..

A prevalência do sector dos serviços nestes espaços justifica-se pelo facto destes não estarem geralmente sujeitos a rendimentos crescentes (BHADURI, MUKHERJI e SENGUPTA, 1982), mas também pela circunstância dessas actividades, devido à sua natureza, não serem armazenáveis, exigindo muitas vezes a presença simultânea do consumidor e do prestador, e obrigar a fragmentação e individualização do output (MARTIN e MARTIN, 1990). Ainda se pode argumentar com o facto de este não exigir infra-estruturas tão custosas como as dos outros sectores de actividade económica.

O sector industrial por estar muito dependente da formação de economias de escala tende a apresentar vantagens competitivas modestas nos espaços insulares, exceptuando algumas indústrias que tiram partido das condições particulares oferecidas pela insularidade, caso:

• das indústrias que se dedicam à produção de bens não transaccionáveis como a construção civil;

• indústrias que aproveitam algum recurso natural existente em abundância (sal, pescado, etc.);

• sectores industriais que produzem para mercados próximos, tirando partido da sua localização geográfica (refinarias, reparação naval, etc.); • indústrias que tiram partido da proximidade com o consumidor

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• ramos industriais em que já existe alguma cultura empresarial local (tabaco, calçado, têxtil e vestuário, etc.), (MARTIN e MARTIN, 1990).

O sector agrícola nos territórios insulares, por sua vez, tende a privilegiar culturas de produtos hortícolas que obrigam um consumo imediato ou culturas que exigem condições climáticas e ciclos de produção especiais (cana sacarina, banana, cacau ou baunilha, etc.).

Seguindo uma linha de argumentação similar, POIRINE (1993b) defende que as vantagens comparativas dos espaços insulares residem na exploração de serviços públicos não comercializáveis, resultantes de um recurso raro não transaccionável, mormente recursos geoestratégicos, culturais, qualidade de vida, biodiversidade, mão-de-obra para trabalhar no exterior, etc.

A localização geográfica de muitas ilhas faz com que tenham acesso a uma grande ZEE e funcionem muitas vezes como postos de abastecimento de porta-aviões e de aviões, acabando por ter grande importância geoestratégica, sendo por isso muitas vezes utilizadas como bases militares. Por outro lado, devido ao seu modo de vida convivial e tradicional tendem a propiciar uma elevada qualidade de vida, não obstante muitas vezes padecerem de elevadas pressões demográficas. O que é aproveitado frequentemente para exportar mão-de-obra para as economias dos países desenvolvidos.

Um outro recurso de que as ilhas são pródigas é os bens culturais, contribuindo para o enriquecimento, preservação e diversificação cultural da humanidade. Situação semelhante ao que ocorre com os recursos biológicos, já que o elevado número de endemismos existentes nestas regiões são um património único que contribuem significativamente para a biodiversidade mundial.

Em troca dessas vantagens comparativas as ilhas tendem a receber dos países desenvolvidos mais transferências públicas sobre a forma de ajuda

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pública ao desenvolvimento, fundos de compensação territorial, empréstimos concessionados e remessas de emigrantes.

Contudo, mesmos os aspectos anteriormente considerados como causadores das desvantagens económicas dos PEID, quando sabiamente aproveitados, podem se revelar fontes de vantagens comparativas e competitivas.

A pequena dimensão territorial, demográfica e económica muitas vezes apontada como um handicap económico para estes espaços acaba por ter também alguns aspectos vantajosos, designadamente:

• Favorecer a coesão social, fazendo com que as ilhas sejam sociedades com elevado capital social;

• Permitir abordagens não ortodoxas, que fogem às soluções habituais ao nível da negociação das ajudas e empréstimos internacionais, dos acordos de emigração, da flexibilização das regras do comércio internacional (PRASAD, 2004 citado por AZZOPARDI, 2004);

• Estimular um escrutínio social e político por parte dos cidadãos, permitindo que os grupos de pressão substituam muitas vezes a regulação e zelem pelo cumprimento da lei. Facilitando igualmente a relação entre o Estado e os cidadãos, dado que uma maior proximidade entre o police maker e o police taker ajuda o desenho, execução, seguimento, avaliação e controlo dos programas e projectos de investimento. O que acaba por contribuir para a existência de um melhor clima para o crescimento económico (OCAMPO, 2003);

• Garantir uma maior flexibilidade social e económica, bem como propiciar uma rápida difusão das inovações sociais e tecnológicas.

Por outro lado, a fraca acessibilidade funciona como uma barreira para os agentes económicos externos, permitindo o desenvolvimento de iniciativas económicas locais com boas perspectivas de sobrevivência. Sobretudo nos sectores em que os custos de transporte têm elevado peso, cujos produtos são facilmente perecíveis, ou que exigem a simultaneidade da presença do produtor e do consumidor.

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Do mesmo modo, a elevada especialização económica e a acentuada dependência externa destes países obriga que sejam economias muito abertas às inovações sociais, económicas, políticas e tecnológicas provenientes do exterior, devido à necessidade que têm de manter-se competitivas, o que facilita o seu processo de modernização económica e social.

Igualmente, a grande abertura económica dos PEID garante-lhes um nível de vida elevado e maiores níveis de rendimento (POIRINE, 1993b), o que leva alguns autores a falarem de codependência ou interdependência em vez de dependência (CONNELL, 1988 e POIRINE, 1993b).

A maior vulnerabilidade ambiental dos PEID, por seu turno, obriga os seus cidadãos a fazerem uma menor aposta no sector agricultura e a privilegiar a educação, tornando-se num factor que estimula a sua modernização e o desenvolvimento (ARMSTRONG e READ, 2004). O mesmo podendo-se dizer relativamente à escassez de recursos que fomenta o aparecimento de inovações e potencia novas soluções tecnológicas nestas regiões. Por outro lado, a sua riqueza em endemismos pode ser aproveitada como um cartaz turístico de primeira ordem.

Além do mais, a vulnerabilidade económica aos choques externos torna os PEID menos vulneráveis aos choques internos, a que os países subdesenvolvidos são muito propensos. Isto porque, devido à lei dos grandes números, a economia mundial tende a ser menos vulnerável que o mercado interno (RODRIK, 1998).

As deseconomias de escala na prestação dos serviços públicos nestes territórios podem ser, também, aproveitadas. Quando devidamente utilizadas podem significar uma melhor qualidade dos serviços aos utentes, devido ao seu sobredimensionamento, podendo inclusive dar azo a que se inove neste particular (FORTUNA, DENTINHO e VIEIRA, 2001).

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Para a medição das vantagens comparativas dos PEID vai-se utilizar o cociente de localização (CL). O mesmo revela as vantagens comparativas dos PEID nas exportações de mercadorias e serviços, daí poder ser considerado um indicador de vantagem comparativa revelada. Quando o seu valor for igual a 100 considera-se que se está perante uma situação em que não existe nem vantagem e nem desvantagem comparativa. Porém, quando o valor de CL for inferior a 100 está-se perante uma situação de desvantagem comparativa, inversamente ao que ocorre quando CL for superior a 100, isto porque neste caso considera-se estar-se perante uma situação de vantagem comparativa. Podendo assumir a seguinte notação matemática:

100

×

=

t W t a i W i a

X

X

X

X

CL

em que: CL= Cociente de localização

Xia= exportações de um produto/serviço (i) por parte do país (a) XiW = exportações de um produto/serviço (i) por parte do mundo (W) Xta = exportações totais por parte do país (a)

XtW= exportações totais por parte do mundo (W)

Contudo, estas vantagens não são suficientes para anular os efeitos negativos que a insularidade exerce sobre as empresas implantadas nos PEID, engendrando os chamados custos de insularidade.