CAPÍTULO I – INSULARIDADE ENQUANTO OBJECTO DE ESTUDO
4.2 REDUZIDA ACESSIBILIDADE
As ilhas por serem territórios isolados, completamente circunscritas pelo mar, são geralmente espaços que apresentam obstáculos acrescidos para acederem aos grandes mercados abastecedores e consumidores, isto porque se encontram distantes relativamente aos grandes pólos comerciais. Este distanciamento resulta em custos para as empresas e para os particulares, que são tanto maiores, quanto maior for a distância que separa as ilhas dos outros territórios.
As actividades humanas são sensíveis à distância. Os contactos interpessoais, os movimentos migratórios, ou as trocas comerciais tendem a diminuir com o aumento da distância (POLÉSE, 1998). Quer isto dizer que a distância conta para a performance económica dos territórios e das empresas. Tanto mais que o volume de negócios tendem a diminuir à medida que aumenta a distância entre os territórios (REDDING e VENABLES, 2002).
A deficiente acessibilidade que os espaços insulares apresentam gera custos ou obstáculos físicos de tal monta significativos que acabam por modificar significativamente as condições de funcionamento e de desempenho das suas economias e empresas (CRUZOL, 2004). Está-se perante um problema de reduzida acessibilidade que não é exclusivo das ilhas, pois existem territórios continentais que padecem dos mesmos constrangimentos. Como é o caso dos territórios encravados, sem acesso ao mar. Todavia, a especificidade insular resulta do facto de nas ilhas só poder ser utilizado o transporte aéreo e marítimo para vencer o afastamento.
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Para vencer esta distância que existe entre os espaços insulares e os restantes territórios é necessário esforço, recursos e tempo, portanto implica despesas. Custos esses que podem assumir diferentes formas: custos de transporte de mercadorias; custos de comunicação da informação; custos de deslocação das pessoas, etc. (POLÉSE, 1998). A estes encargos deve-se acrescentar ainda os custos de oportunidade, bem como considerações de ordem qualitativa que nos espaços insulares são de suma importância.
Deve-se ter presente ainda que a problemática da fraca acessibilidade está ligada também à inexistência de economias de escala no sector dos transportes nos mercados insulares. A pequena dimensão desses mercados não facilita o aparecimento de economias de escala significativas no sector, dado que a procura, em termos de volume, densidade e frequência de tráfico é insuficiente para financiar a construção e manutenção das infra-estruturas de transportes, impossibilitando a sua existência. Quando existem acarretam custos por unidade e per capita exorbitantes.
Donde que a quantificação e a operacionalização de um indicador do grau de acessibilidade dos territórios insulares são muito difíceis de calcular, posto que terá que ser determinado essencialmente em função da ocupação humana. Isto porque, o isolamento só se percebe por contrastes, e só pode ser analisado recorrendo a analogias (LABASSE, 1966), portanto está-se perante um conceito relacional.
TAGLIONI (2003) propõe que em vez da utilização do conceito de distância absoluta (distância linear) para medir o nível de acessibilidade destes espaços, que se faça uso dos conceitos de distância tempo e de distância custo, visto que estes permitem medir de forma mais objectiva a acessibilidade humana e comercial das ilhas. Porém, no caso dos arquipélagos há que distinguir entre uma acessibilidade exterior, que mede o grau de interconexão do território insular com o exterior, e a acessibilidade interna, que mede o grau de interconexão entre as diferentes parcelas do espaço insular (FORT (DIR.), 1992).
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A este propósito, visando a análise do nível de acessibilidade dos espaços insulares, DOUMENGE (1985a) propõe que se calcule o índice de isolamento oceânico que resulta do quociente entre a superfície da zona económica exclusiva (ZEE) e a superfície terrestre do território. Este índice seria um indicador do nível de isolamento, já que os PEID localizados nas imediações de outros Estados teriam uma menor ZEE e consequentemente um índice menor, em contraposição com os PEID localizados distantes de outros países, que apresentam por isso uma maior ZEE e consequentemente um maior índice de isolamento costeiro. A escolha deste indicador para retratar a acessibilidade dos PEID justifica-se pelo facto dele existir para a generalidade dos países, o que permite realizar comparações.
Porém, esta questão não poderá ser analisada apenas no plano quantitativo, já que existem alguns aspectos qualitativos que devem ser ponderados, tais como as condições em que o transporte se processa. A regularidade e frequência dos transportes, os meios, a sua adequação, a qualidade das infra- estruturas fixas ou móveis, as restrições institucionais à mobilidade das pessoas e das mercadorias, a eficácia das telecomunicações, a capacidade de procurar e utilizar informação estratégica são variáveis que influem indubitavelmente no grau de acessibilidade dos espaços insulares (MARTIN e MARTIN, 1990).
A menor acessibilidade dos territórios insulares relativamente aos grandes mercados traduz-se numa diminuição dos seus rendimentos per capita, pois que as firmas insulares tendem a receber menos pelas suas exportações e a pagar mais pelos equipamentos, matérias-primas e bens intermédios importados. Estudos realizados por REDDING e VENABLES (2002) quantificam este valor em cerca de 7% do PIB dos Estados Insulares. Os custos de acesso para pessoas e mercadorias, bem como os custos de acesso à informação relevante, engendrados pela difícil acessibilidade, têm como consequência imediata uma menor competitividade do sistema produtivo insular, levando muitas vezes à perda de vantagens comparativas.
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Nesta linha de pensamento, BRIGUGLIO (1995) indica que as ilhas apresentam um conjunto de problemas comuns ao nível do sector dos transportes e comunicações que resultam da sua reduzida acessibilidade, a saber:
• Custos de transporte muito elevados por unidade;
• Incertezas no abastecimento e existência de grandes stocks.
Os PEID apresentam custos de transportes no comércio internacional por unidade superiores às dos territórios continentais, já que a movimentação de pessoas e bens se faz exclusivamente por transportes aéreos e marítimos. Por outro lado, a reduzida dimensão demográfica e económica faz com que lidem com pequenos volumes de mercadorias, tanto na importação, como na exportação, fazendo com que estas tenham que suportar elevados custos por unidade transportada, sem contar com a fraca capacidade negocial e institucional que padecem, colocando-os à mercê dos grandes oligopólios que dominam os transportes marítimos e aéreos. Sem embargo, não deve ser descurado, igualmente, que a pequena dimensão económica e demográfica das ilhas fazem com que sejam pouco atractivas para muitas empresas de transporte, colocando-as desse modo fora das grandes rotas de transporte, impossibilitando que tirem partido dos avanços tecnológicos e da crescente oferta que têm ocorrido no sector dos transportes.
O afastamento relativamente aos grandes mercados abastecedores cria também problemas ao nível dos atrasos e cancelamentos nos serviços de transporte, resultando em incertezas no abastecimento. Sendo, por isso, muito frequente nos espaços insulares as rupturas de stock de produtos tão básicos quanto os produtos alimentares ou os materiais para a construção civil. Além disso, a inexistência de linhas de transportes frequentes e regulares faz com que as empresas insulares tenham que ter grandes stocks para poderem atender a procura interna, evitando assim possíveis rupturas no abastecimento. Mas também, tenham que armazenar os produtos exportáveis até que apareçam os meios de transporte para os colocar em outros mercados.
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Em consequência destes factos, as empresas insulares têm que acarretar não só com despesas suplementares, para custear o armazenamento e as eventuais perdas resultantes do excessivo tempo de depósito, mas também com custos de oportunidade provenientes da circunstância de se estar a empatar capital em produtos sem rendimento imediato.
Todavia, nos dias de hoje em que assiste-se a um progresso tecnológico cada vez mais acelerado, com uma crescente diminuição dos custos de transporte e comunicações, fará sentido falar-se do papel da acessibilidade, da distância no prosseguimento das actividades económicas? Para REDDING e VENABLES (2002), sim! Tal faz sentido. Na medida em que o papel das novas tecnologias e dos meios de transportes nas actividades económicas variam em função dos sectores económicos. Se a análise incidir sobre as actividades que fazem uso de conhecimentos facilmente codificáveis, as novas tecnologias podem desempenhar um papel relevante, visto que tornam a gestão à distância fácil. Porém, as actividades que envolvem o monitoramento, controlo, negociação e trocas de informação mais complexas, dificilmente codificáveis, continuam a exigir proximidade no contacto.
Além disso, o desenvolvimento dos meios de transporte e de comunicações tem favorecido sobretudo a concentração da produção nas empresas mais eficientes e uma maior especialização da produção (POLÉSE, 1998). No entanto, como já foi referido, as economias de escala e de aglomeração não são vantagens comparativas que as ilhas apresentam em abundância, tendo em conta que são países com uma reduzida dimensão demográfica e económica, com diminuta acessibilidade, e com uma elevada fragmentação territorial.