O PERÍODO DE 1959 A
3.3 ALGUNS CONFRONTOS: A PROPOSTA DE PAULO FREIRE e o MOBRAL.
À seguir são apresentados alguns comentários a partir de duas leituras referentes ao Mobral, que de certa forma se apresentam como leituras negativas, quando comparadas as entrevistas realizadas posteriormente. Os textos são de autoria de Gilberta Januzzi e Osmar Fávero, em momentos distintos: O primeiro em 1979 e o segundo em 2001.
O primeiro texto parte de um breve relato sobre as diferenças das duas pedagogias partem da apresentação das codificações; descodificação (Paulo Freire), decodificação (MOBRAL); relacionamento da palavra geradora com a figura que a representa; decomposição da palavra geradora em sílabas; apresentação da "ficha de descoberta" (Paulo Freire), "quadro da descoberta" (MOBRAL); formação de novas palavras. O MOBRAL prossegue na decodifição das novas palavras.
À primeira vista parece que são procedimentos técnicos iguais, mas, enquanto Paulo Freire parte de codificações sínteses das visões de mundo da equipe profissional e do povo da comunidade que vai ser alfabetizada, o MOBRAL parte de codificações elaboradas por uma equipe central e destinadas uniformemente ao Brasil inteiro.
Na etapa seguinte até as diferenças gráficas indicam conceituações distintas. Em Paulo Freire descodificar significa analisar criticamente a situação codificada, isto é, decompô-la em seus elementos constitutivos pelos sujeitos do diálogo, que assim procedendo vão percebendo as relações entre os elementos codificados e os fatos de sua vida real; vão penetrando na sua realidade, tomando consciência dela, destacando-se dela, emergindo. (JANUZZI,1979)
Está pois o MOBRAL preocupado nesta fase em dar o significado adequado às palavras Na descodificação existe fundamentalmente a problematização da realidade em que educadores ( educandos vivem, isto é, a realidade é colocada como problema, como algo que deve ser conhecido, com todos os seus condicionamentos, suas dificuldades encaradas como devendo ser resolvidas, ultrapassadas.
É procurada uma resposta elaborada na discussão horizontal. A resposta vai sendo construída passo a passo, a partir do desvelamento da realidade.
O significado da palavra geradora vai sendo construído dentro dessa análise da realidade.
Desta forma, nessas técnicas de alfabetização estão presentes a linha metodológica das duas pedagogias, que tornam as técnicas distintas. Existe a preocupação no MOBRAL com a aprendizagem da palavra nesta primeira etapa, porque é o que importa à sua pedagogia; é o primeiro instrumento que o mobralense necessita para penetrar no mundo aceito como o único desejável. (JANUZZI,1979)
O MOBRAL, determinando previamente as finalidades a serem atingidas, guia todos os passos da alfabetização dentro de certa maneira de ver o mundo, mantendo as análises e as sínteses dentro das metas propostas. Coerentemente define a análise neste sentido: decodificar é dar o significado. O aprender o universo vocabular do grupo visa perceber-se o quanto ignoram e o quanto é necessário que aprendam novas palavras com o significado apropriado.
O momento da decomposição da palavra só superficialmente é igual nas duas pedagogias, porque a palavra que vai ser decomposta pela técnica de Paulo Freire é uma palavra que exprime a visão de mundo, a síntese educador ( educando; é a palavra de sujeitos, em que ambos construíram o significado. (JANUZZI,1979)
No MOBRAL, é a palavra do educador repetida pelo educando, que assimilou, ou pelo menos deveria fazê-lo, dentro de um significado já dado.
O mesmo se pode dizer das demais etapas. Há nos procedimentos de Paulo Freire e do MOBRAL semelhança enquanto processos mentais analítico-sintéticos, mas uma diferença profunda se adentrarmos nessas fases, porque sempre serão momentos em que na pedagogia de Paulo Freire há trabalho de sujeitos, que constrõem palavras sínteses de educadores educandos.
A construção de novas palavras em Paulo Freire é uma ampliação do conhecimento da realidade que envolve os sujeitos do diálogo, é uma nova possibilidade de adentramento nessa realidade, enquanto que no MOBRAL é uma ampliação
vocabular que oferece ao educador oportunidade de dar novos significados, de ensinar a grafia das palavras, de proporcionar a fixação. (JANUZZI,1979)
Por isso passa a decodificar as novas palavras no mesmo dia, dando os significados adequados, enquanto Paulo Freire utiliza as novas palavras surgidas como meio de desvelamento da realidade em que se vive.
O MOBRAL, sempre preocupado com a aprendizagem da leitura e da escrita, utiliza os demais momentos como meio de fixação não só através da decodificação das novas palavras que são repetidas e escritas, como também recapitulando todo o processo já executado, utilizando para isso a cartilha e o livro de exercícios de linguagem.
Então, essas técnicas de apresentação de codificações, descodificação e decodificação, relacionamento da palavra com a gravura; silabação, formação de novas palavras, são momentos de dois métodos diferentes que de semelhantes só têm as operações mentais de análise e síntese, mas que devido à dialogicidade de um e antidialogicidade do outro, suas análises e sínteses são de graus diferentes de adentramento na realidade, visam a objetivos diferentes e resultam assim em produtos analítico-sintéticos diferentes.(JANUZZI,1979)
Em Paulo Freire, educação é conscientização, práxis social, isto é, momento de reflexão radical, rigorosa e de conjunto sobre a realidade em que se vive, de onde surgirá o projeto de ação a ser executado. É um processo permanente porque a ação depois de executada deverá novamente ser refletida, donde novo projeto, nova reflexão e, assim, ininterruptamente.
Para o MOBRAL, educação é adaptação, investimento sócio-econômico, preparação de mão-de-obra para o mercado de trabalho. Como esse mercado se transforma, também os quadros de mão-de-obra devem ser atualizados pela educação, daí seu caráter permanente para a reciclagem constante.
Subjacente a essas concepções diferentes de educação existem visões de mundo e de homem também diferentes.
Enquanto para Paulo Freire o mundo "é aberto", podendo caminhar em diversas direções desde que seja possível a libertação de todos da opressão de uns sobre os outros, o MOBRAL assume o mundo como "acabado", dentro do Modelo Brasileiro de Desenvolvimento (70 a 75) e que necessita de certo tipo de educação capaz de contribuir para a concretização desse Modelo.(JANUZZI,1979)
Paulo Freire constroe sua pedagogia baseando-se na crença da igualdade ontológica dos seres humanos, enquanto seres capazes de crítica, autêntica, finitos, inacabados, históricos. O MOBRAL constroe sua proposta pedagógica baseado na crença de que a elite é capaz de elaborar projetos, os melhores possíveis, que devem ser executados obedientemente pelo povo.
Paulo Freire a partir das posturas teóricas assumidas propõe que todo o procedimento pedagógico seja feito pelo diálogo, como método, pois que o diálogo permite a superação da contradição elite e povo; o MOBRAL supõe também, apoiado em posições teóricas, a manutenção da contradição elite e povo, usando o método anti- dialógico em sua pedagogia.
As análises e sínteses, técnicas de métodos diferentes, apresentam aspectos diferentes quanto ao nível de profundidade alcançado, resultando produtos analítico- sintéticos diferentes.
Em Paulo Freire a alfabetização é conscientização, no MOBRAL é aprendizagem do ler, escrever, contar, início, portanto, da preparação de mo-de-obra, onde estas habilidades são elementos importantes, devido à necessidade de informação e treinamento no processo produtivo do modelo sócio-econômico brasileiro.(JANUZZI,1979)
No momento em que muitos educadores estão interrogando os resultados do "milagre brasileiro", nas suas implicações mais diretas e profundas com a área educacional.
Assentada a poeira da euforia dos números, estamos revendo os efeitos acumulados da imprevidência e da megalomania.
Alguns políticos já falam das distorções encontradas no crescimento desordenado do ensino superior, outros já questionam a predominância de interesses onde o enfoque educacional é quase sempre esquecido.
Na trilha da massificação do ensino, para atingir resultados a qualquer preço, o Mobral teve participação destacada.
Os seus arautos mais entusiastas falaram até em modelo brasileiro de educação a ser exportado . É nesse processo de "vender" uma imagem, não resta dúvida, que o Mobral realmente se consagrou. (JANUZZI,1979)
E essa exaltação, por paradoxal que pareça, acabou se transformando em empecilho, justamente no momento em que o Movimento Brasileiro de Alfabetização pretende livrar-se da fama de "alfabetizador" para assumir uma postura mais coerente com as necessidades do mundo de hoje, ou seja, de uma verdadeira "agência de educação permanente".
Para a Prof. Gilberta Januzzi, os dirigentes políticos do referido período tentaram criar uma certa similaridade quando:
Alguns quiseram justificar a proposta pedagógica do Mobral apoiando-se na metodologia de Paulo Freire, que por ocasião do surgimento do Movimento Brasileiro de Alfabetização já havia conseguido reputação universal.
fim" e estaria feita a mobralização do sistema Paulo Freire. Aliás, essa tentativa não foi a primeira. Em fins de 63, começos de 64, tentou-se criar em São Paulo uma cartilha de alfabetização, baseando-se em Paulo Freire.
Sintomaticamente, a pesquisa do universo vocabular indicou palavras como: Deus, Pátria, Família, etc., como as mais apropriadas para iniciar o processo. Felizmente, a idéia não passou de tentativa ...
O trabalho da Profa. Gilberta começa justamente interrogando a pertinência do propósito de associar dois sistemas de educação, tomando-se um deles como simples instrumento de realização do outro. .
Assim sendo, partindo de uma premissa altamente discutível, educadores cometeram heresias de pretender juntar dois sistemas que em si nada têm de comum. Eles têm suporte ideológico diverso, visam a um certo tipo de participação do cidadão na vida do país e, finalmente, estão encarando o processo social por óticas radicalmente opostas.
E, nesse sentido, o trabalho aponta aos estudiosos um retrato bastante interessante do panorama educacional brasileiro a partir de 1960. Tendências antagônicas, disputas de interesses, angústias e perplexidades são fenômenos que pairam sobre a realidade educativa, da qual Paulo Freire e Mobral são expressões de duas linhas de ação da política educacional.
O texto reúne bibliografia criteriosamente selecionada e de grande valor para novas pesquisas sobre os termos tratados. Afora os leitores que naturalmente se interessarão pelo livro, dada sua atualidade, recomendamos sua leitura aos estudantes de educação em geral, especialmente aqueles vinculados às disciplinas de Filosofia da Educação, Metodologia Prática do Ensino, Didático e História da Educação.
O Segundo texto corresponde à entrevista concedida por Osmar Fávero sobre a Proposta de Paulo Freire e o Mobral (2001)
A seguir, Osmar Fávero relata os diferenciais da Proposta de Paulo Freire das campanhas anteriores e a responsabilidade do poder público.
Osmar Fávero – Deixa eu dizer logo, Paulo Freire vai emergir de um conjunto de propostas. A grande virtude dele é ser o que melhor sistematizou e melhor fundamentou essas propostas. Se você pega até 1966, o sistema Paulo Freire é um dos sistemas, é uma das experiências, mas ele torna melhor as experiências, primeiro porque ele sistematiza um processo novo de alfabetização, de 1963 – 1964, que durou só alguns meses, porque o golpe militar cortou. Mas as campanhas são qualitativamente diferentes, elas não entram pela educação pura, elas entram pela cultura, entram pela cultura popular, isso se dá totalmente diferente. Você vai partir do que o povo conhece, do que ele sabe e vai tentar fazer um instrumental de alfabetização, que na verdade é mais do que isso, é um instrumental de educação popular que vai mexer com a cabeça das pessoas. Você vai fazer uma ação educativa que tem um movimento que parte da cultura, de como homens e mulheres vivem, na cidade e no campo, como é eles vêem essa realidade, como você pode criticar essa realidade para instrumentalizá-la para uma mudança de base estrutural no país. Esse é um grande movimento do começo dos anos 60. Hoje, a gente fala que foi um pouco ingênuo, entende, mas na verdade nós nos jogamos de corpo e alma nisso. Quais são esses movimentos? O primeiro deles, eu já disse, é o de Recife, chama-se Movimento de Cultura Popular, quando Arraes assume a prefeitura. É curioso porque se fala muito no Movimento de Cultura Popular (MCP), hoje, como Movimento de Cultura só, mas ele tem uma base de movimento de educação muito forte, na educação dos jovens e adultos. Forte porque Recife está inchando, nesse período, com a população migrante, e você tem muita criança sem escola na periferia. Então a Secretaria de Educação propõe uma ampliação das escolas. Essas escolas são feitas com a própria Secretaria de Educação, “retreinada” com uma nova perspectiva.
Não tem escola, não tem problema, faz-se escola em salão paroquial, em clube, em Rotary da vida. Os bancos escolares são feitos, a Prefeitura dá a madeira, mas a Secretaria de Educação garante uma perspectiva nova e diferente de educação para as crianças. A grande pessoa disso, hoje com 80 e tantos anos, mas que não conseguiu escrever essa história, chama-se Anita Paes Barreto, uma das pessoas assim que merecem um quadro na parede. Isso se expande também para o lado de educação de jovens e adultos, com uma das unidades do movimento de cultura popular. E vai ter aí a grande saída que é, pela primeira vez, fazer um material didático diferente para jovens e adultos. E volto a isso daqui a pouco. Claro que o
mexe com a cidade de Recife toda, Recife é rica em artesanato, em festas populares. Essas festas populares são trazidas para o teatro popular, que é muito rico. Paulo Freire, nesse período, trabalha numa divisão de pesquisa com Paulo Rosas e Abelardo da Hora e já está começando a ensaiar um método de alfabetização que parta da realidade dos iletrados. A gente demorou muito para acreditar que Paulo não fez isso sozinho, desculpe a intimidade de tratá-lo de Paulo, mas fui contemporâneo dele. A Elza, primeira mulher dele, ela era uma boa professora alfabetizadora numa classe experimental. Naquele período era normal ter as classes experimentais, no sistema de ensino em que se Elza tentava sair do método “a – e – i – o – u” para o método da palavração, da sentenciação. E Paulo trabalhava no SENAI, pegando pequenos textos tirados do jornal sobre salário, sobre condições de trabalho, condições de saúde, com os operários semialfabetizados no SESI, ele era diretor do SESI. Primeira notícia que eu tenho de Paulo Freire, deve ter sido 1961, ele era um professor curioso, ele usava o epidiascópio, um aparelho enorme, hoje a gente tem o retroprojetor, mas tem também e epidiascópio, que você põe o texto debaixo, num jogo de espelhos, e projeta na parede e discute as condições de vida dos operários e tal, faz um processo educativo diferente. Ele traz isso para o processo de alfabetização, dentro do MCP.
A seguir Osmar Fávero relata como tem sido sua participação nos movimentos
de alfabetização popular e das dificuldades encontradas em determinados períodos.
Osmar Favero – Eu estava falando dessa segunda fase dos movimentos de educação popular. Nesse período se cunha a expressão educação popular, no começo dos anos 60. Eu tinha falado do MCP, tinha falado do Paulo Freire no MCP, queria falar dos outros movimentos que aparecem. Normalmente ponho, nesse período, quatro movimentos o MCP, que vai puxar “De pé no chão também se aprende a ler”, com Moacyr de Góes (secretário de Educação em Natal) e com Djalma Marinho (prefeito); tem outros MCPs, em Belo Horizonte, umas coisas assim.... O segundo movimento matriz muito forte, é o movimento de Cultura Popular da UNE, chamado CPC – Centro de Cultura Popular da UNE, que se expande pelo Brasil todo, que não é um movimento de alfabetização, é um movimento de cultura e de cultura popular, sobretudo através de expressões artísticas. O grande trunfo do CPC é se apropriar de algumas linguagens populares, por exemplo o teatro, trabalhar isso para a formação de consciência, num conceito de cultura bastante diferente do que o Paulo Freire usa, de raiz marxista. A grande experiência do CPC é o teatro
de onde vão surgir depois o Vianinha, Paulo Pontes, o cinema novo do Leon, do Eduardo Coutinho, toda essa turma, estão todos eles por aí. Mais tarde, ele vai ter uma expressão que será a raiz do Plano Nacional de Alfabetização. O terceiro foi o Movimento de Educação de Base, no qual eu trabalhei. O Movimento de Educação de Base é curioso. Esse eu preciso me deter um pouquinho nele, porque ele vai dar em uma outra vertente. A igreja sempre foi aliada, parceira e aliada do Estado em várias ações, mesmo depois que ela deixa de ser religião oficial, depois da República, quando houve separação da Igreja e do Estado. A Igreja continua sendo uma boa aliada, a Igreja é muito sensível, nesse começo dos anos 60, ao problema da... não vou dizer da reforma agrária, por causa da construção de Brasília. Os bispos vêem o pessoal sair do Nordeste para construir Brasília e não voltar, desfazer família e tal e ficam preocupados com isso, numa perspectiva correta. E são sobretudo medrosos com a invasão, que eles chamam invasão, não é tão forte assim, mas com a presença do comunismo no campo, particularmente do PC, do “pecezão”, que está montando uma base que vai ser depois uma base muito forte para os sindicatos rurais. Um dos bispos mais atuantes junto à Conferência dos Bispos é Dom Helder Câmara. E Dom Távora, que é amigo, colega, eles trabalham muito juntos, em Aracaju, propõem retomar uma experiência do Ministério da Educação chamada SIRENA – Sistema Rádio Educativa Nacional, que tinha começado na Leopoldina, naquela experiência de erradicação do analfabetismo, também já em convênio com emissora católica. A Igreja está interessada nesse movimento, além do programa rural, além do medo do comunismo e aí é o rádio, não é televisão por enquanto, é rádio, nos anos 50, as suas emissoras e esse convênio, era simultaneamente um reforço para montar as emissoras católicas no Brasil inteiro, e a grande proposta é fazer uma ação de educação de base. Não se fala de alfabetização embora se reduza aí, no primeiro momento, alfabetização e catequese, com 15 mil escolas radiofônicas para o Brasil inteiro, o que depois se reduz ao Nordeste. E é feito um grande convênio. Eu estava acabando de me formar, entro para ser um dos coordenadores desse movimento, isso em comecinho de 1961, março de 1961. Assinaram o convênio, eu já estava dentro do
dentro dessa proposta da Igreja. Na verdade, essa proposta vai retomar a perspectiva dos anos 50, ela é outra vez educação de base é outra vez escola radiofônica, claro que a escola radiofônica do MEC é muito engraçada, ela se faz com uns discos daqueles de acetado enormes, gravados em 12 polegadas, com o melhor das vozes “brodcasting” da Rádio Nacional daquele tempo. Mas não chegava, não era inteligível, para a população rural, porque eram médicos dando aula sobre micróbios, aquelas coisas todas. O material didático era muito pobre, era o material ainda da época dos anos 50, feito na campanha de educação de adultos e adolescentes e a SIRENE acaba é fazendo uma cartilha, chamada Rádio Cartilha, que na verdade é uma piada. É a cartilha mais bonita que a gente tem, colorida, mas ridícula, porque usa o “a – e – i – o – u”. O a de ave o e de ema o u de uva e tal. E tem umas lições que vão só pela fonética, que não tem nada a ver nem com a lógica e nada de educação de adultos, era uma total alienação. Claro que isso é usado pelo projeto no começo, tanto o material pobre dos anos 50 quanto esse material, do começo dos anos 60, mas é rejeitado. Então, esse processo de revisão do primeiro ano do movimento vai dar uma guinada de 180º e vai mudar — no final de 1962 para 1963, o MEB se redefine como Movimento de Educação de Base, na linha da Educação Popular. Aí se aproxima de Paulo Freire, assume a categoria de formação de consciência como conscientização, aí há um movimento que é mais ou menos simultâneo a todos os movimentos, de chegar num modo de tratar politicamente a questão da alfabetização e tratar como um instrumental para você entender a realidade, repito, mudar a realidade. Aí foi que apareceu o Paulo Freire, é muito importante. Paulo Freire conseguiu, em primeiro lugar, praticamente sistematizar, eu não falo criar não, porque o método existia, existia já nas escolas primárias, sistematizar o método de alfabetização para adultos em que ele parte da realidade do adulto. Como é que ele faz isso? Num primeiro lugar, com as famosas fichas de cultura, ele sistematiza dez situações de aprendizagem, como a gente fala tecnicamente, em que vai mostrar o homem como criador de cultura, a partir de um conceito antropológico de cultura, tudo que existe na natureza é cultura. É cultura, mas o homem modifica isso e faz cultura. Então, você fazer sapato tem o mesmo valor de fazer um livro. Essa fichas