Fonte: Zqroz Neto
“Todo o texto é marcado por aspectos culturais da sociedade em que ocorre.” (REYES, 2009,
p. 67) (Tradução nossa)
28E a relação entre o léxico de uma comunidade e sua cultura fica
evidente quando observamos algumas lexias presentes na fala das rendeiras, que retratam a
sua infância em Acaraú.
A infância na pacata Acaraú, comendo frutas ainda verdes escondidas das mães, pois
estas acreditavam fazer mal, são reveladas na entrevista 13, por meio das lexias siriguela,
manga verde e maçã de caju, maturi, ardoso, limão verde e farinha mole:
INFORMANTE 13: eu sempre eu fui assim... eu... eu ... eu num tenho estudo não tive estudo num tive nada fui criada no interiô comendo maçã de caju... correndo atrás de uã siriguela duã manga verde ...duã coisa... PESQUISADORA: maçã de caju é o
caju não né? INFORMANTE 13: é é é ...mas quando ele tá verde é a maçã qué
dizê... PESQUISADORA: olha eu nunca comi como é que é? INFORMANTE 13: é
verde é quando ele tá verdinho “menina esse caju tá só o maturi” “a... mas tem maçã e a gente comeu” olha tua boca porque quando ainda tá um pôco verdoso ele
tem um leitinho que pega assim no centro da boca da gente viu.. (Ent.13, linhas 22
a 33).
INFORMANTE 13: era uma siriguela até os limão ...a gente cortava ele miudinho e cumia o limão verde... PESQUISADORA: ui... INFORMANTE 13: passava assim um pôquinho de sal com pimenta do rêno... eu gosto de coisa verde... PESQUISADORA:
arde.... INFORMANTE 13: coisa verde ardoso sempre foi cumigo... a gente pegava a
farinha... quando tava torrando a farinha ela ela fica assim mole que tem a farinha mole a farinha mole ela não ela já tá no ponto de cumê que num imbebeda niguém porque quando ela tá inda massa se cumê assim fica bêbado... (Ent. 13, linhas 48 a
54).
Como é relatado na entrevista, em sua infância, era comum a alimentação com frutas e
havia as frutas “proibidas”, por serem consideradas nocivas à saúde pelas mães, como manga
verde, limão verde ou o maturi do caju. No Nordeste, de modo geral, é da nossa cultura a
proibição por parte de alguns pais de se comer frutas não maduras, como manga verde, porque
se acredita que faz mal, principalmente se comida acompanhada de sal. A rendeira fala ainda
do maturi, que, é a castanha do caju, do qual escorre um leite ardoso quando a fruta está
verde, da maçã do caju (nome dado à carne macia da fruta).
Outro costume era o de comer a farinha mole, que é a farinha quando ainda está em
processo de preparo e ainda não endureceu. Algumas pessoas acreditam que massa crua da
farinha embebeda, então as crianças esperam a farinha cozinhar e, ainda mole, a comiam com
cebola e cheiro-verde.
INFORMANTE 13: coisa verde ardoso sempre foi cumigo... a gente pegava a farinha... quando tava torrando a farinha ela ela fica assim mole que tem a farinha mole ... a farinha mole ela não ela já tá no ponto de cumê que num imbebeda niguém porque quando ela tá inda massa se cume assim fica bêbado... PESQUISADORA: ah é a farinha d’água? INFORMANTE 13: é a farinha seca a
d’água também a d’água também... PESQUISADORA: num sabia... INFORMANTE
13: porque tá crua... porque tá crua... PESQUISADORA: ela é feita do que a
farinha? INFORMANTE 13: da mandioca...PESQUISADORA: hum... hum ah mas é como se você tivesse assim tomando assim uma bebida alcoólica... INFORMANTE
13: verdade... PESQUISADORA: ah... INFORMANTE 13: e então aí a gente
quando ela tava assim mole a gente pegava e jogava um bucadin’ de cheiro verde
por cima cebola porque lá a gente num chamava cheiro verde... (Ent. 13, linhas 52 a
Quando se reuniam em grupo para fazer rendas, ou tecê, era costume haver disputas de
quem terminava de fazer sua renda mais rapidamente. Quem perdesse, tinha que pagar uma
prenda, a merenda. São lembranças que surgem no olhar distante e saudoso de S., e são
retratadas por meio das lexias pareia, pareá e merendá:
INFORMANTE 15: quando era de bem cedo até mei’ dia nós fazia dento de casa né ... agora por causa do almoço né aí a gente fazia den’di casa ...aí quando era de
tarde a gente falava com a vizinha saia pa casa delas aí ficava duas três quato ali...pareando... PESQUISADORA: é...menina novinha...fazendo ...pareando
...fazendo... INFORMANTE 15: aí nós pegava pareia pareia... pareia quem
terminava primeiro dás tira... PESQUISADORA: parelha da tira quem terminava
primeiro ganhava? INFORMANTE 15: isso ganhava... aí pronto... PESQUISADORA: aí vocês pareavam o que? Aí tu ganhava pareIha? INFORMANTE 15: olha demais... demais... PESQUISADORA: quem ganhava
pareia num pagava era quem perdia? INFORMANTE 15: que perdia...
PESQUISADORA: quem ficava por último... INFORMANTE 15: coitada delas... PESQUISADORA: aí com isso você foi ficando cada vez mais ligera também né? INFORMANTE 15: foi aí eu ensinei pra minha filha... PESQUISADORA: ah tua
filha faz também é? INFORMANTE 15: não qué... (Ent.15, linhas 85 A 101).
INFORMANTE 15: quem terminava primeiro pagava ou pagava era coisa de suco... pão essas coisa assim... PESQUISADORA: merenda? INFORMANTE 15: pra merendá.. coisa pra merendá... aí pronto... tinha umas lerdinha... minha irmã uãs lerdinha... (Ent. 15, linhas 93 a 96)
Além das pareias, havia o hábito das rendeiras cantarem enquanto teciam, mantido por
algumas até hoje:
PESQUISADORA: é... eu só tenho mais uma pergunta pra lhe fazê... que minha
orientadora... ela tem uma curiosidade... é verdade que quando vocês... a última pergunta... que quando vocês faziam renda... se sentavam no chão... tinha umais cantigas que cantavam... ou não... isso é lenda? INFORMANTE 6: (risos)
PESQUISADORA: é lenda de pescadô? INFORMANTE 6: (risos) não é lenda não minha filha... eu canto até hoje... PESQUISADORA: é? Olha que beleza... mais tinha
alguma música especial que cantava? INFORMANTE 6: eu canto até hoje olha... a
cantiga mulhé rendera... eles cantavo muito... mais eu nunca me liguei a isso não...
“olê mulé rendera... olé mulê rendá... tu me ensina a fazê renda... que eu te ensino a namorá...” (Ent. 6, linhas 772 a 781).
A lexia cascudo revela um outro lado da infância, os castigos que algumas recebiam,
quando não faziam a renda da forma que as mães tinham ensinado:
INFORMANTE 6: é... mais é... essa renda aqui ela não faz... porque essa é difícil...” aí chega a pessoa e “ô dona F. tão difícil não é? Como que você aprendeu?” eu digo “olha... eu aprendi levando cascudo...” menina... se tu errou isso aqui... eu vô
te dá aqui aquele cascudo... porque aí ela te dá um cascudo tão grande que tu vai
vê...” aí a gente tinha um medo tão grande daquele cascudo das velha que já tinha /
(risos)PESQUISADORA: já caprichava... (risos) INFORMANTE 6: aí tinha que fazê que um cascudo daquele dexava a gente desorientadinho (risos) do juízo viu? (Ent.
Era o rigor de quem queria que suas filhas aprendessem com perfeição o oficio que as
mães tinham aprendido com as avós e, assim, era passado de geração em geração.
A rendeira E. lembra que o vestuário contava com roupas feitas de tecidos como o
morim ou algodãozinho. O morim era cozido em cascas encontradas no mangue ou em cascas
de caju, sendo que o pai, pescador, tirava a casca do mangue ou do cajueiro, e a mãe a
cozinhava:
INFORMANTE 4: e agora eu falei... que a minha mãe pegava o morim... fazia a roupa... PESQUISADORA: morim é um tecido? INFORMANTE 4: é um tecido bem bem... inferiozinho... PESQUISADORA: hunhum... INFORMANTE 4: algodãozinho o nome do outro pano... Aí meu pai tirava a casca do mangue ali... PESQUISADORA: hum...hum... INFORMANTE 4: aí minha mãe cozinhava... e botava o morim na casca do mangue ou do cajuero pra tingi... Porque o morim é branco... (Ent. 4, linhas 105 a 120).
Após recordar a infância, S. relata um pouco da sua vida com o marido pescador, na
luta pela sobrevivência:
INFORMANTE 13: era barraca era uã barraca porque não era nem mercearia porque era coisa muito poca... uã pesadinha ali nos papel ele chegava trazia pra
mim... “tu guarda esse dinhero aqui pra gastá em casa e esse daqui nós vamo vê
pra juntá ... quando chegá o inverno... a gente tem ao meno um dinhero pá pagá um homi pá pegá uns espeque no mangue” ... pra botá o curral porque era o meio de vida dele o meu era renda e o dele era pescaria curral ... aí é assim a gente vivia viu ... e eu eu ia pra lá e o dinhero ficava aqui deus me livre quem tinha um guarda ropa? (passa uma pessoa) (_Deus te abençoe!)... nem uã mala não tinha era as caxinha que a gente trazia do comércio as caxa de leite os leite ninho aí a gente pagava alguém pra fazê mala... tinha gente que tinha assim uã maletinha comprava assim pra fazê uã viagem mas a gente mesmo ocê num é do tempo a gente tinha assim ( ) lá no Ceará não eu nunca comprei essas coisa... aqui não fazia caixinha... todo mundo... (Ent. 13, linhas 430 a 438).