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Em The life, Isabel Burton escreveu que uma das suas maiores dificuldades ao organizar a biografia do marido foi de como “mostrar o homem dual, duas naturezas em uma só pessoa, diametralmente opostas uma em relação à outra, algo sobre o qual tinha perfeita consciência” (BURTON, I., 1893, v. 1, p. XII). Dois homens de letras contemporâneos de Burton destacaram esses extremos na própria fisionomia do explorador: o poeta e crítico inglês Algernon Charles Swinburne (1837-1909) via-o como alguém simultaneamente divino e demoníaco; o poeta Arthur Symons (1865-1945) afirmou que Burton tinha o “queixo do diabo e a fronte de Deus” (apud MCLYNN, 1990, p. 64). Em meio a um ataque de febre na África central, durante sua busca pela nascente do rio Nilo, Burton confessou ter sentido “uma convicção estranha de uma identidade dividida, nunca deixando de ser duas pessoas que geralmente se contrariavam e opunham-se uma à outra”18. Da mesma forma, teria dito à sua mulher: “Sempre disse a você que eu era um homem dual, e acredito que essa mania especial é perfeitamente correta quando estou delirando [de febre]”19

.

Quando atingiu a meia-idade, teve que usar óculos para ler e, qual não foi sua surpresa, a diferença de grau em cada um dos olhos era gritante: o olho esquerdo necessitava de uma lente convexa 14, o direito, de uma 50 (WRIGHT, 1906). Frank McLynn (1990) chegou até a afirmar que essa ambiguidade teria se manifestado na própria caligrafia do explorador, marcada pela ilegibilidade dos seus traços minúsculos e pela fragmentação equivocada de algumas palavras20. Já Thomas Assad (1964, p. 11) chamou essa ambiguidade

18 BURTON, R., 1860, v. 1, p. 84: “a queer conviction of dividing identity, never ceasing to be two persons who generally thwarted and opposed each other.”

19 BURTON, I., 1893, v. 2, p. 268: “I always told you that I was a dual man, and I believe that that particular mania when I am delirious (with fever) is perfectly correct do.”

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Um exemplo seria a palavra “contradict”, que ele escreveria “con tradict”. Segundo McLynn, essa característica chegou a ser atribuída à predileção que Burton tinha pela língua árabe, conhecida por esse tipo de

32 de “tensão”, marcada nos escritos do explorador por um lado prático e outro sentimental, tornando-o um autor “não convencional”, no que é seguido por Edward Said (2013), que afirmou que o interesse despertado por Burton provém da forma como coexistem, na sua obra, o rebelde que desafia a autoridade e que é, ao mesmo tempo, um agente em potencial dessa autoridade no “Oriente”. Mas mesmo que uma parte sua “sempre rejeitasse a Inglaterra”, ele “sempre se referia ao país como sua „casa‟” (LOVELL, 1998, p. 308), e contribuiu para o projeto imperialista britânico até o fim da vida.

É provável que o fato de ter sido criado não na Inglaterra, mas em várias cidades da França e da Itália, tenha influenciado essa sensação de não pertencimento. Nascido em Torquay, Devon, em 1821, Burton mudou-se alguns anos depois com a família – formada pelos pais, Joseph e Martha, e os irmãos, Maria e Edward – para a cidade francesa de Tours, onde havia uma comunidade inglesa expatriada; quando completou nove anos de idade, a família deixou o local. Foi o começo de um “vagar incessante”, segundo Brodie (1967, p. 32): 14 mudanças ao longo de dez anos – apesar de afirmar sentir um “deleite selvagem” por escapar de escolas e professores, Burton recordava que viajar com a família era uma “aflição severa”. Em meio a essas perambulações, foi feita uma parada na Inglaterra, pois o pai de Burton desejava que seus filhos tivessem uma educação inglesa, o que foi mais tarde considerado pelo explorador como uma atitude sensata, uma vez que

para ser bem-sucedido na Inglaterra, os garotos devem ser criados em um ambiente especial. Primeiro, escola preparatória; depois, Eton e Oxford, com uma excursão ocasional para França, Itália e Alemanha [...] para perceber que a Inglaterra não é o mundo todo.21

Mas, naquele momento, ele e seu irmão detestaram a Inglaterra, já que tudo em Brighton, onde aportaram, parecia “tão pequeno, tão afetado, tão feio” em contraste com as construções imponentes de Tours e Paris: “Nós nos revoltamos contra a comida grosseira e mal cozida, e, acostumados ao excelente Bordeaux francês, [achamos que] o vinho do porto, o

sherry e a cerveja tinham gosto de remédio; o pão era só casca e migalha, e o leite parecia

separação; o biógrafo descartou essa possibilidade, pois, segundo ele, a habilidade de Burton como linguista o preveniria de cometer esse tipo de erro.

21 BURTON, I., 1893, v. 1, p. 21: “To succeed in English life, boys must be brought up in a particular groove.

First the preparatory school, then Eton and Oxford, with an occasional excursion to France, Italy, and Germany [...] to find that England is not the whole world.”

33 água e giz”22

. Diante das dificuldades de adaptação, eles retornaram para o continente, o que foi visto por Burton, no final de sua vida, como uma das razões pelo “fracasso” da sua carreira profissional, já que não teria cultivado as relações necessárias para garantir sua ascensão na sociedade inglesa, pois não teria aprendido as suas regras de sociabilidade: “Quanto mais inglês você for, até mesmo no corte de cabelo, melhor”23

, afirmou.

Como apontou Brodie (1967, p. 32), Burton não se tornou um francês mesmo após viver anos na França – em carta escrita em 1884, escreveu que seus infortúnios na vida começaram “pelo fato de não ser um francês”24

. Com relação à sua nacionalidade, o explorador descreveu a si mesmo como “uma criança abandonada, um errante, uma chama de luz sem foco”25

. Ainda de acordo com a biógrafa (ibid., p. 35), Burton aprendeu com o padrão errante do pai que sempre poderia “fugir, se possível para outro país”, quando achasse a vida “intolerável”.

Após uma temporada na Itália, ele foi estudar no tradicional Trinity College, em Oxford. Não se sentiu muito bem recebido quando lá chegou, em 1840: depois de cultivar por algum tempo um “esplêndido bigode, invejado por todos os garotos no estrangeiro”, foi motivo de chacota de dois colegas ingleses. Seguindo a etiqueta continental, desafiou o rapaz mais alto para um duelo. O jovem olhou-o intrigado, pois a prática já estava em declínio na Inglaterra há algum tempo, mas ainda era costume em terras francesas e italianas. “Fui embora abatido, senti que tinha vindo parar em meio a épiciers [comerciantes de temperos]”, escreveu. Não muito tempo depois, a própria instituição exigiu que ele se livrasse do bigode, pois o estilo usado ia contra as regras internas do local26. Depois desse primeiro estranhamento, Burton tornou-se até popular entre os estudantes, praticando boxe e esgrima, esporte que treinava desde a adolescência (ASSAD, 1964); também ampliou seu estudo sobre artes ocultas e místicas (LOVELL, 1998).

22 Ibid.: “We revolted against the coarse and half-cooked food, and, accustomed to the excellent Bordeaux of

France, we found port, sherry, and beer like strong medicine; the bread, all crumb and crust, appeared to be half baked, and milk meant chalk and water.”

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BURTON, I., 1893, v. 1, p. 32: “The more English they are, even to the cut of their hair, the better.” 24 “My misfortunes in life began with not being a Frenchman.”

25 BURTON, I., 1893, v. 1, p. 32: “a waif, a stray; [...] a blaze of light, without a focus.”

26 Ibid., p. 70: “My reception at College was not pleasant. I had grown a splendid moustache, which was the envy of all the boys abroad [...] I declined to be shaved until formal orders were issued to the authorities of the college. [...] As I passed through the entrance of the College, a couple of brother collegians met me, and the taller one laughed in my face. Accustomed to continental decorum, I handed him my card and called him out. But the college lad, termed by courtesy an Oxford man, had possibly read of duels, had probably never touched a weapon, sword or pistol, and his astonishment at the invitation exceeded all bounds. Explanations succeeded, and I went my way sadly, and felt as if I had fallen amongst épiciers.”

34 Mas seu verdadeiro interesse eram as línguas estrangeiras. Pelas suas andanças, já havia aprendido o francês, o italiano e os dialetos provençal e bearnês (o primeiro da região da Provence francesa, e o segundo da Gasconha), e, para resolver a deficiência que tinha no conhecimento do latim e do grego clássico, foi contratado o Dr. William Alexander Greenhill (1814-1894), que lia tratados de medicina gregos preservados em documentos árabes. Segundo Lovell (1998, p. 524-530), foi na casa desse professor que o interesse pela língua árabe despertou em Burton. Como não havia nenhuma tutoria do idioma em Oxford, ele começou a “atacar” sozinho a gramática de árabe existente na biblioteca de Greenhill (ibid.). Segundo Burton, aprender uma língua era um trabalho de “memória pura, que, depois da infância, se vale de toda assistência artificial possível”; e garantiu que conseguia aprender uma língua em dois meses usando o seguinte sistema criado por ele:

Adquiria uma gramática e um vocabulário simples, marcava as formas e palavras que sabia que eram absolutamente necessárias, e decorava-as ao carregá-las no meu bolso e observá-las por alguns momentos ao longo do dia. Nunca trabalhava mais de um quarto de hora por vez, porque depois disso o cérebro perdia o seu frescor. Após aprender cerca de 300 palavras, o que é feito facilmente em uma semana, eu me voltava para livros de leitura fácil [...] e sublinhava todas as palavras que desejava recordar para poder ler as minhas anotações ao menos uma vez por dia. Tendo terminado o volume, praticava as minúcias da gramática com cuidado e, em seguida, escolhia outro livro sobre um assunto que me interessasse. O pescoço da língua estava rompido, e o progresso era rápido. Se me deparasse com um som novo, como o ghayn do árabe, treinava minha língua para repeti-la milhares de vezes ao dia. Quando lia, invariavelmente fazia-o em voz alta para que o ouvido pudesse ajudar a memória.27

O único porém era que Burton escrevia o árabe erroneamente da esquerda para direita e não da direita para a esquerda, que é a forma correta. Ao ver essa peculiaridade de Burton na casa de Greenhill, o arabista espanhol Don Pascual de Gayangos (1809-1897) gargalhou, e ensinou o jovem a escrever o alfabeto da maneira certa (BURTON, I., 1893, p. 77).

27 BURTON, I., 1893, v. 1, p. 81: “My system of learning a language in two months was purely my own invention, and thoroughly suited myself. I got a simple grammar and vocabular, marked out the forms and words which I knew were absolutely necessary, and learnt them by heart by carrying them in my pocket and looking over them at spare moments during the day. I never worked more than a quarter of an hour at a time, for after that the brain lost its freshness. After learning some three hundred words, easily done in a week, I stumbled through some easy book-work [...], and underlined every word that I wished to recollect, in order to read over my pencillings at least once a day. Having finished my volume, I then carefully worked up the grammar minutiae, and I then chose some other book whose subject most interested me. The neck of the language was now broken, and progress was rapid. If I came across a new sound like the Arabic Ghayn, I trained my tongue to it by repeating it so many thousand times a day. When I read, I invariably read out loud, so that the ear might aid memory.”

35 A pouca atenção dada ao ensino de árabe na educação formal inglesa, em favor da “crença absurda de que o conhecimento de latim e grego ajudava a preparar um homem para administrar um império”, exasperou Burton ao longo de toda sua vida. Não entendia como a Inglaterra, à época, nas palavras dele, “o maior império maometano[28] do mundo” negligenciava o “arabismo” e desencorajava o seu aprendizado no Serviço Civil Indiano, onde era “comparativamente mais valioso que o grego ou o latim”29

.

Para Robert Irwin (2008, p. 208), esse paradoxo manifestava a “estagnação” das universidades britânicas na primeira metade do século XIX, cuja vida intelectual era permeada pela “intensa religiosidade da época” e por “controvérsias teológicas” – tanto que Burton estava estudando para seguir uma carreira eclesiástica. O fato de Oxford e Cambridge enfrentarem pouca concorrência dentro da Grã-Bretanha e de uma proporção “minúscula” da população frequentar a universidade também favoreciam essa “estagnação”. Ao mesmo tempo, a própria natureza do ensino britânico era calcada nos estudos clássicos.

A partir das últimas décadas do século XVIII, houve uma renovação do interesse pela cultura grega e pela romana, incentivada em parte pelo entusiasmo romântico pela revolta dos gregos contra os turcos, pelo culto romântico a ruínas e pela descoberta, em meados do século XVIII, das ruínas de Pompeia; e, acima de tudo, pela crescente importância das chamadas “escolas públicas” [public schools] (em termos americanos, caríssimas escolas particulares) e pela ênfase que essas escolas davam ao estudo dos clássicos como formação de caráter. [...] O grego e o latim treinavam a mente e formavam bons cidadãos; e um conhecimento detalhado da história do império romano moldava pensamentos dos governantes durante o domínio britânico na Índia.(Ibid., p. 188-189)

Só durante a década de 1870 é que uma reforma universitária abriu caminho para a formalização dos estudos orientais na Grã-Bretanha, trazendo, a partir daí, prestígio nessa área para Cambridge e Oxford, que passaram a contratar renomados orientalistas para suas cátedras (ibid., p. 210), ainda que tenha havido algumas tentativas “infrutíferas” nos séculos XVII e XVIII de estabelecer o ensino regular do árabe em Oxford (ibid., p. 110).

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É, no mínimo, estranho o fato de Burton usar a expressão “maometano” para designar o império colonial indiano da Inglaterra – a seu ver, o que continha o maior número de súditos muçulmanos do período – uma vez que, no vocabulário europeu, é uma forma pejorativa de definir a religião islâmica. Conforme Said (2013, p. 106), “maometano” é a “designação europeia relevante (e insultuosa)”, enquanto “islã” é o nome muçulmano correto. Assim, “maometano” traz a ideia de que o islã é uma “„heresia‟ [...] „compreendida‟ como a imitação de uma imitação cristã da verdadeira religião”.

29 BURTON, R., 1885, v. 1: “Apparently England is ever forgetting that she is at present the greatest Mohammedan empire in the world. Of late years she has systematically neglected Arabism and, indeed, actively discouraged it in examinations for the Indian Civil Service, where it is incomparably more valuable than Greek and Latin.”

36 Mas Burton não conseguiu terminar sua educação formal: em março de 1842, foi expulso de Oxford por ter ido assistir a uma prova de hipismo, o que havia sido proibido pela instituição. Assim, conseguiu convencer o pai a obter uma posição no exército da Companhia Britânica das Índias Orientais (EIC, na sigla em inglês)30. Segundo Dane Kennedy (2005, p. 28), o corpo militar da Companhia não tinha o mesmo prestígio que o da Coroa, mas, mesmo assim, era um “modo de vida respeitável e potencialmente lucrativo para um homem como Burton, com um status marginal de cavalheiro e com meios financeiros limitados”. Havia uma espécie de hierarquia entre os oficiais dos dois exércitos: os da Coroa achavam-se superiores aos da Companhia, o que era demonstrado por várias práticas que discriminavam um e não o outro (GODSALL, 2008).

Em 1839, a Inglaterra havia entrado em guerra contra o Afeganistão, e muitos jovens ambiciosos das classes médias britânicas se alistaram com o intuito de conseguir fama e glória nos campos de batalha; Burton estava entre eles. Este fato ocorreu em meio ao chamado “Grande Jogo”, momento marcado pelo avanço imperial por parte da Rússia e da Inglaterra na Ásia central, área estratégica para os dois impérios em expansão. O império russo havia mostrado sua força após as guerras russo-persa (1826-28) e russo-turca (1828-29), o que deixou as forças britânicas apreensivas, até mesmo “histéricas”, segundo Lawrence James (1998, p. 181), com um possível avanço russo até a Índia: seguindo essa lógica, “era

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Na primeira metade do século XIX, a Índia era controlada por duas forças militares distintas: as tropas da Coroa Britânica, que viajavam regularmente pelo subcontinente indiano, e as legiões independentes da Companhia Britânica das Índias Orientais, que governou a Índia até 1858. Esta começou como uma organização comercial no século XVIII. Segundo Lovell (1998, p. 650-661), à medida que a Companhia se desenvolvia, ela conseguiu obter o direito de manter forças de segurança independentes para proteger as suas propriedades e os seus funcionários em terras estrangeiras. Na metade do século XIX, seus rendimentos haviam crescido, em grande parte devido ao lucrativo comércio de ópio com a China; ao mesmo tempo, adquiriu grandes pedaços de terra, e as antigas forças de segurança se tornaram um verdadeiro exército. Ainda que nominalmente subordinada ao exército regular da Coroa, na prática o exército da Companhia era controlado pelos diretores da organização. Esses diretores eram muito poderosos e governavam partes do subcontinente indiano a partir de três centros, ou “presidências”: Bombaim, Madras e Bengala. Cada uma dessas administrações tinha em suas formações regimentos distintos de britânicos e indianos, sob o comando de oficiais britânicos. Thomas McDow (2010, p. 495) possui, no entanto, uma visão diferente da presença da Companhia na Índia. Segundo ele, em 1784 a Companhia tinha sido absorvida pelo governo, quando oficiais britânicos tomaram os negócios financeiros, políticos e militares na Índia. “Com efeito, muitos dos oficiais da companhia vinham da estrutura governamental. Nos próximos 50 anos, o governo tentou estender seu controle por toda a Índia, primeiramente por meio do exército da Companhia. Entretanto, nos primeiros 35 anos do século XIX, a Companhia perdeu seus monopólios comerciais na Índia e na China, mas manteve seu papel administrativo na Índia. Assim, na primeira metade do século XIX, o colonialismo britânico na Índia não era dominante em termos de governo, nem era o principal agente do comércio. Da mesma forma, muitas partes do subcontinente estavam além do controle da Companhia ou da Coroa.”

37 inevitável que depois de conquistados os khanatos31 da Ásia central, a Rússia se voltasse para a Índia”. Assim, a política externa britânica trabalhou para que a frota naval do czar ficasse longe da região do Mar Mediterrâneo, para que a integridade do império turco-otomano fosse mantida (especialmente no que concernia às suas províncias no Oriente Médio) e para que os governantes da Pérsia e do Afeganistão “aprendessem a temer” o poderio britânico. Uma espécie de “guerra fria” foi, portanto, instalada, culminando com a desastrosa invasão ao Afeganistão, que tinha por intuito preservar o domínio britânico na região32.

Burton embarcou para a Índia em junho de 1842, sendo designado para o 18º Regimento da Infantaria Nativa de Bombaim. Ainda na Inglaterra, começou a aprender hindustani (língua base para o que hoje são o urdu, uma das línguas oficiais do Paquistão, e o hindi, uma das línguas oficiais da Índia) com o escocês Duncan Forbes (1798-1868). Em Bombaim, continuou seus estudos não só de hindustani, mas também de gujarati e de uma vertente indiana do persa, sob a responsabilidade de Dosabhai Sohrabji, um parsi33. Este,

31 Khanato é o nome do estado ou de uma jurisdição chefiada por um khan, nome dado aos soberanos locais de alguns países da Ásia central. MERRIAM-WEBSTER DICTIONNARY. Disponível em: <https://www.merriam- webster.com/dictionary/khanate>. Acesso em: 03 maio 2017.

32 Um pouco antes de Burton ser enviado à Índia, eventos dramáticos se desenrolaram no Afeganistão sob ocupação britânica. Para garantir sua influência no país, os britânicos procuraram costurar uma política de alianças com lideranças locais que não foi bem-sucedida. Em novembro de 1841, o explorador escocês Sir Alexander Burnes(que também viajou disfarçado de “oriental” por essas regiões), representante britânico em Cabul, foi morto por uma multidão de locais; um funcionário importante da Companhia e conhecido orientalista, Sir William Hay Macnaghten, também foi assassinado, mas por um líder afegão. Não havia chances de as tropas britânicas estacionadas em Candahar, no sul do país, cruzarem as montanhas até Cabul em pleno inverno rigoroso. Por fim, após uma série de negociações, os britânicos aceitaram deixar o Afeganistão. Em janeiro de 1842, a guarnição começou uma marcha até Jalalabad, localizada 150 quilômetros a leste de Cabul, acompanhada de afegãos que apoiaram os invasores, além de mulheres e crianças. Das 16 mil pessoas que formavam essa coluna, poucos sobreviveram à travessia até Jalalabad. Um dos sobreviventes, o Dr. William Brydon, contou que afegãos atacaram as tropas, matando grande parte das pessoas – com exceção das mulheres e das crianças –, enquanto outros morreram congelados nas montanhas. A opinião pública na Inglaterra, enraivecida, demandou retaliação. Os britânicos acabaram por enviar, alguns meses depois, novas forças de