• Nenhum resultado encontrado

1.4 DO PROBLEMA, DOS OBJETIVOS E DA METODOLOGIA

2.2.2 Ambiente cognitivo e manifestabilidade mútua

A noção de contexto, que abordamos em subseção anterior, é essencial para caracterizar o que Sperber e Wilson denominam de ambiente cognitivo de um indivíduo. Para Sperber e Wilson (2001, p. 89), o ambiente cognitivo de um indivíduo compreende um conjunto de suposições que ele tem a capacidade de representar mentalmente e de aceitar como verdadeiro e que lhe é manifesto em um determinado momento. O ambiente cognitivo de um indivíduo é formado pelo conjunto de todos os fatores que ele tem a capacidade de apreender ou inferir, abrangendo, simultaneamente, seu ambiente físico e suas capacidades cognitivas. Por conseguinte, segundo Vianna (2005 apud CALDEIRA, 2007, p. 38), ele “[...] é muito mais do que o contexto físico: inclui tudo o que está na cabeça do ouvinte, tudo que ele vê e sente, tudo a que tem acesso para interpretar uma determinada fala”.

Segundo Silveira e Feltes (1999, p. 121), uma suposição será manifesta a alguém desde que seja capaz de ser construída ou aceita como verdadeira ou provavelmente verdadeira por ele. Como afirmam Sperber e Wilson, ser manifesta significa ser perceptível ou ter a probabilidade de ser inferida. A definição de quais suposições serão mais manifestas em um dado momento depende do ambiente físico e das capacidades cognitivas de um indivíduo, o que gera variações em seu grau de manifestabilidade. Como esclarecem os autores, a organização cognitiva dos seres humanos torna certos tipos de fenômenos38 particularmente salientes, assim, ao ser percebido um fenômeno, certas suposições acerca dele geralmente serão mais acessíveis do que outras (SPERBER; WILSON, 2001, p. 80-81).

Quando as suposições tornam-se mutuamente manifestas aos participantes de um ato comunicativo, surge o que a teoria denomina de ambiente cognitivo mútuo39. Para haver comunicação, algumas suposições devem se tornar mais ou menos manifestas para ambos os interlocutores, já que, em um ato comunicativo, o que se almeja é a alteração ou alargamento do ambiente cognitivo partilhado entre o falante e o ouvinte. Conforme Silveira e Feltes (1999, p. 28), o ambiente cognitivo mútuo compreende a intersecção entre os ambientes cognitivos de duas pessoas diferentes, sendo formado pelo conjunto de todos os fatos que são manifestos a ambas, ainda que, no decorrer da comunicação, não se possa determinar de

38 Objetos ou acontecimentos perceptíveis, segundo Sperber e Wilson (2001).

39 É importante lembrar que Sperber e Wilson (2001) consideram o conhecimento mútuo como “uma criação filosófica sem contrapartida próxima na realidade” (p. 79), porém os autores admitem que qualquer teoria da comunicação humana “tem que incorporar alguma noção do que seja uma informação partilhada” (p. 79). A proposta dos autores para essa noção configura-se nos conceitos de ambiente cognitivo mútuo e de suposições mutuamente manifestas.

forma conclusiva o que efetivamente é manifesto a ambas. Assim, é o ambiente cognitivo mútuo que viabiliza as informações essenciais à compreensão em um ato comunicativo.

Sperber e Wilson apontam que as pessoas não partilham ambientes cognitivos totais. Ainda que partilhem o mesmo ambiente físico e tenham capacidades cognitivas semelhantes, os ambientes físicos nunca são rigorosamente idênticos. Além disso, as capacidades cognitivas são afetadas pelas informações já memorizadas, diferindo, assim, de uma pessoa para a outra. Depreende-se disso que, a despeito de partilharem um mesmo ambiente cognitivo, não é correto supor que formem as mesmas suposições, mas que simplesmente tenham a capacidade de fazê-lo (SPERBER; WILSON, 2001, p. 83).

É importante ressaltar que, segundo Sperber e Wilson, apesar de todos os seres humanos viverem em um mesmo mundo físico,

não construímos todos a mesma representação; por um lado, devido às diferenças dos nossos ambientes físicos mais reduzidos e, por outro lado, devido às nossas capacidades cognitivas. As capacidades perceptuais variam em eficácia de um indivíduo para outro. As capacidades inferenciais também variam, e não apenas na sua eficácia. As pessoas falam em línguas diferentes, acabaram por dominar conceitos diferentes; como resultado, podem construir representações diferentes e chegar a inferências diferentes. Têm também memórias diferentes, teorias diferentes que aplicam às suas experiências de maneiras diferentes. Por isso, nem que todos partilhassem o mesmo estreito ambiente físico, aquilo a que propomos chamar os seus ambientes cognitivos seria mesmo assim diferente (2001, p. 79, grifo dos autores).

Cada suposição que pode ser percebida ou inferida em um ambiente cognitivo mútuo será mutuamente manifesta e fornecerá evidências diretas para sua utilização, seja falsa ou verdadeira (uma suposição não precisa ser necessariamente verídica o que a diferencia do conhecimento), desde que não seja invalidada de imediato (SPERBER; WILSON, 2001, p. 80).

Sperber e Wilson defendem que, por ser a comunicação um processo assimétrico, a responsabilidade de evitar incompreensões fica com o falante. É o falante quem deve escolher as suposições a que o ouvinte terá acesso e que possivelmente utilizará no processo de compreensão de um ato comunicativo. Pelo fato de a cognição humana ser orientada pela relevância, o falante deve inferir que suposições sua audiência irá desenvolver, fornecendo evidências para isso (SPERBER; WILSON, 2001, p. 89). Mas, por haver graus de sofisticação na interpretação de um enunciado, como sugerem Sperber (1994) e Wilson (2000), as expectativas de relevância do ouvinte podem ser desapontadas, uma vez que nem sempre os falantes são competentes ao produzir seus enunciados. O falante sempre pode fazer predições

erradas acerca do que será otimamente relevante, pois ele não tem acesso pleno ao que está na mente do ouvinte ou que tipo de inferência o ouvinte fará.

Conforme graus de sofisticação na interpretação de um enunciado, segundo Sperber (1994) e Wilson (2000), há três estratégias de interpretação que um ouvinte pode utilizar: otimismo ingênuo, otimismo cauteloso e compreensão sofisticada.

A estratégia de otimismo ingênuo é a mais simples. Nela o ouvinte assume que o ouvinte tanto é benevolente quanto competente. Nessa situação a primeira interpretação acessada, suficientemente relevante é confirmada como a que o falante pretendia transmitir. Normalmente, segundo Sperber (1994, p. 11), é a estratégia de crianças muito jovens, pois “o padrão de inferência consiste em ir acriticamente onde as ideias sugeridas pelo sentido linguístico do enunciado irá levá-lo: olhar para a relevância fácil; supor que foi pretendida”. Ou seja, um ouvinte otimista ingênuo restringe-se ao significado linguisticamente codificado, pois, nas inferências desta estratégia, a atribuição de intenções não entram como premissas.

A estratégia de otimismo cauteloso é um pouco mais sofisticada. Nela, o ouvinte percebe que o falante pode ser benevolente, mas não necessariamente competente. Para que se alcance o significado do falante, o ouvinte pressupõe a atribuição de intenções, ou seja, exige uma camada extra de metarrepresentação, pois o ouvinte passa a considerar qual interpretação era efetivamente pretendida pelo falante. É estratégia que já pressupõe o desenvolvimento de uma teoria da mente.

A estratégia de compreensão sofisticada permite lidar com situações em que os falantes não são benevolentes, pois estes podem pretender uma interpretação que pareça relevante o suficiente sem de fato o ser. Ou seja, pode-se lidar com situações em que os falantes querem parecer benevolentes, mas não o são de fato. “Ouvintes competentes (que são geralmente também falantes competentes) percebem que os falantes usam a comunicação para perseguir seus próprios fins, o que pode corresponder, em alguns aspectos até com os propósitos de sua audiência, e diferir em outros” (SPERBER, 1994, p. 13). Pressupõe níveis de metarrepresentação mais elevados. Cremos que, nesta estratégia, entra em pauta o que Sperber et al. (2010) denominam de vigilância epistêmica em relação à confiança na fonte da informação, isto é, o falante é confiável?

Como em nossa tese interessa-nos o uso da linguagem verbal enquanto input em uma consulta ao mecanismo de busca, é interessante acrescentar que as habilidades do falante ao formular seus enunciados (domínio linguístico e da interface) e as pretensões subjacentes de sua busca (preferências nos termos da teoria da relevância) são constritores da consulta.