2.3 INFERÊNCIAS, IMPLICATURAS E EXPLICATURAS
2.3.2 Implicaturas
Diferentemente das explicaturas, as implicaturas são suposições que não são explicitamente comunicadas pelo falante. São implicações pretendidas de um enunciado, dedutíveis do significado explícito do falante juntamente com um conjunto apropriado de suposições contextuais. Para Sperber e Wilson (2001, p. 291), “uma implicatura é uma suposição ou implicação contextual que uma pessoa falante, com a intenção de a sua elocução ser manifestamente relevante, tenha manifestamente a intenção de tornar manifesta ao ouvinte”.
Sperber e Wilson (2001, p. 290) afirmam que “as implicaturas de uma elocução são recuperadas pela referência feita às expectativas manifestas pela pessoa falante sobre o modo como a sua elocução deveria conseguir a relevância ótima”. Envolve, portanto, o reconhecimento da atitude proposicional do falante.
Conforme Sperber e Wilson (2001, p. 291-293), há duas espécies de implicaturas: a) as premissas implicadas, que são fornecidas pelo ouvinte com base na memória ou a partir do desenvolvimento de esquemas de suposições recuperadas da memória. A identificação de tais premissas baseia-se na facilidade de seu acesso e no fato de elas conduzirem a uma interpretação compatível com o princípio da relevância;
b) as conclusões implicadas, que são deduzidas das explicaturas do enunciado e do contexto. Sua identificação é possível, pois o falante tenciona que elas se tornem manifestamente relevantes ao ouvinte e conta com o fato de que o ouvinte seja capaz de derivá-las.
Como Sperber e Wilson (2001, p. 292) destacam, a identificação de ambas as espécies deriva da primeira interpretação que se possa inferir e que seja compatível com o princípio da relevância.
Em teoria da relevância, as implicaturas de um enunciado podem variar em sua força. Nesse sentido, Sperber e Wilson (2001, p. 294) esclarecem que
algumas implicaturas são tornadas tão fortemente manifestas que o ouvinte mal pode evitar recuperá-las. Outras são tornadas manifestas menos fortemente. Basta que o ouvinte tenha de prestar atenção a algumas dessas implicaturas fracas para que a relevância da interpretação pretendida se torne manifesta.
Para os autores, as implicaturas mais fortes são aquelas que são totalmente determinadas, isto é, cuja responsabilidade de serem fornecidas para que a interpretação seja compatível com o princípio da relevância é inteiramente do falante e, portanto, aquelas que o ouvinte é fortemente encorajado a fornecer. Quando esse encorajamento é mais fraco e o leque de possibilidades que o ouvinte pode escolher se torna mais amplo, mais fracas tornam- se essas implicaturas e, assim, maior o compartilhamento da responsabilidade do ouvinte ao derivá-las. Em situações nas quais as implicaturas são mais fracas e há maior indeterminação, menos confiança terá o ouvinte acerca de que suas premissas e conclusões implicadas reflitam os pensamentos da pessoa falante (SPERBER; WILSON, 2001, p. 297-298 e 347).
Temos defendido que existe uma linha contínua de casos, desde as implicaturas cuja intenção a pessoa falante era serem recuperadas especificamente pelo ouvinte até às implicaturas cuja intenção da pessoa falante era apenas a de que fossem tornadas manifestas para levarem a mais modificações no ambiente cognitivo mútuo da pessoa falante e do ouvinte, das quais a pessoa falante apenas pretendia que a sua elocução fosse relevante e de assim conseguir efeitos cognitivos ricos e não inteiramente previsíveis (SPERBER; WILSON, 2001, p. 300-301).
Wilson (2004) argumenta que quanto mais evidente for a intenção do falante em transmitir uma proposição em particular e nenhuma outra a fim de satisfazer a expectativa de relevância do ouvinte, mais forte a comunicação será. Isso ocorre, porque somente um conjunto muito pequeno de hipóteses equivalentes satisfará as expectativas de relevância do ouvinte. Porém, quando há um conjunto amplo de suposições e de conclusões semelhantes capazes de satisfazer as expectativas de relevância do ouvinte, está-se diante de uma comunicação fraca que não produz um conjunto determinado de implicações, “mas um fortalecimento marginal de um amplo conjunto de implicações dentre as quais o ouvinte é livre para escolher”. Segundo a autora, caracteristicamente, um significado do falante compreende um misto de comunicação forte e fraca, ou seja, uma combinação de implicaturas fortes e fracas (2004, lição 7, p. 11).
Wilson e Sperber (2005, p. 244) acrescem que uma proposição é fortemente implicada quando sua recuperação é essencial para que se alcance uma interpretação que seja capaz de satisfazer às expectativas do ouvinte e que ela é fracamente implicada quando sua
recuperação auxilia na construção de uma certa interpretação, sem no entanto ser essencial em si, uma vez que o enunciado oferece uma escala de implicaturas similares possíveis.
Veja-se um exemplo em que as noções dos três níveis de compreensão de um enunciado serão ilustrados em relação ao enunciado de Henrique:
João: Você conseguiu baixar o aplicativo? Henrique: Meu irmão me ajudou.
Nível da forma lógica:
Alguém ajudou alguém a fazer algo. Nível da explicatura:
Meu [de Henrique] irmão me [Henrique] ajudou Ø [a baixar o aplicativo]. Nível da implicatura:
Se o irmão de Henrique o ajudou a baixar o aplicativo, então, <possivelmente> ele conseguiu baixar o aplicativo.
Apresentados os fundamentos da teoria da relevância, no próximo capítulo abordaremos os alicerces da teoria de conciliação de metas cujo propósito está em conectar, do ponto de vista simbólico, a noção de relevância com a noção de meta a partir da modelação de contextos proativos, nos quais os indivíduos podem intervir deliberadamente, esperando que suas intervenções possam contribuir para alcançar seus interesses.
3 TEORIA DE CONCILIAÇÃO DE METAS
Este capítulo foi dividido em três seções. A primeira seção expõe os fundamentos da teoria de conciliação de metas, a segunda seção evidencia a modelação da teoria em suas diversas etapas e a última seção apresenta a noção de heteroconciliação.