POSICIONAMENTO DOS PAÍSES NAS CADEIAS GLOBAIS DE VALOR
2.4 Ambiente local
Antes de analisarmos a participação do Brasil nas cadeias de valor na esfera local, devemos resgatar as principais características da inserção brasileira que foram destacadas nos itens anteriores, a saber:
- o posicionamento do Brasil, em geral, ocorre no início das cadeias de valor, no sentido upstream, ou seja, como provedor de commodities baseadas em recursos naturais que serão incorporados nas exportações de outros países, o que implica na apropriação reduzida de valor para o país;
- devido ao porte da economia nacional e à diversidade de sua indústria, o valor doméstico das exportações nacionais é bastante elevado, podendo ser comparado, neste aspecto, com economias como a dos Estados Unidos e Japão; - observa-se um isolamento do país no comércio e nas negociações de acordos regionais, multilaterais e inter-regionais, o que afeta diretamente a inserção do país nas cadeias de valor;
- o conteúdo estrangeiro presente nas exportações nacionais tem origem majoritária da Europa e dos Estados Unidos, salientando a participação crescente dos países asiáticos.
A seguir, apresentaremos alguns outros indicadores que corroboram com as evidências destacadas ao longo do capítulo, ao mesmo tempo em que nos forneceram pistas de oportunidades e riscos à inserção brasileira nas cadeias globais.
O gráfico 13 representa o valor adicionado estrangeiro contido nas exportações nacionais. É interessante observar que entre os anos de 1995 e 2009, a contribuição do valor adicionado estrangeiro aumentou nos setores: agricultura; mineração; equipamentos elétricos e de máquinas, sugerindo uma maior integração do Brasil nas cadeias globais nestes segmentos.
Do outro lado, os segmentos que reduziram o conteúdo estrangeiro em suas exportações temos: o setor de madeira e papel, transportes, têxteis e vestuário; metais básicos e de telecomunicações.
Gráfico 13. Valor adicionado estrangeiro nas exportações brasileiras, por indústria (em %)
Fonte: OCDE/OMC, Trade in Value added indicators- Brazil (2013, p.1)
O valor estrangeiro adicionado às exportações nacionais nos setores químico, de equipamentos de transporte e de equipamentos elétricos representa cerca de 15% do total. Mas se observarmos apenas a variação entre os anos de 1995 e 2009, o setor de equipamentos elétricos apresentou o maior crescimento, embora ainda esteja abaixo da média para os países membro da OCDE que é de 31%,
Observando o gráfico a seguir, que retrata de forma isolada o segmento de serviços, constatamos que a indicação do aumento da inserção brasileira nas cadeias globais da indústria de equipamentos elétricos parece se confirmar.
Gráfico 14. A participação dos serviços nas exportações brutas, por setor de atividade, 2009
conteúdo estrangeiro conteúdo doméstico participação observada em 1995
Fonte: OCDE/OMC, Trade in Value added indicators- Brazil (2013, p.4)
Já em termos de valor adicionado, os dados da OCDE e OMC (2013) apontam que menos de 40% das exportações nacionais foi originado do setor terciário, número menor que dos países membros da OCDE de 48%. Com relação às exportações em termos brutos, a participação dos serviços alcançou a média registrada dos demais países.
O incremento da participação do Brasil no offshoring de serviços é uma excelente oportunidade de alavancar o posicionamento do Brasil em atividades que capturem maior valor adicionado para o país, conforme ilustração da curva do sorriso (gráfico 1), observamos o papel preponderante do segmento de serviços na apropriação de valor na cadeia produtiva.
Além do mais, seria um modo de proporcionar acesso às pequenas e médias empresas nas cadeias globais, com o fornecimento de seus serviços às filiais estrangeiras estabelecidas no país, sem mencionar a possibilidade de aprimoramento das capacidades das firmas nacionais gerado pelo contato com as grandes empresas.
Destacamos abaixo, segundo dados da UNCTAD (2013), a participação nas cadeias globais de valor de um grupo de economias em desenvolvimento com perfil exportador em 2010.
Tabela 1 Participação nas cadeias globais de valor, em %, países selecionados: 2010.
Economias em desenvolvimento As 25 principais economias exportadoras
CINGAPURA 82% CINGAPURA 82%
HONG KONG, CHINA 72% BÉLGICA 79%
MALÁSIA 68% HOLANDA 76%
CORÉIA 63% REINO UNIDO 76%
ÁFRICA DO SUL 59% HONG KONG, CHINA 72%
CHINA 59% SUÉCIA 69%
TUNÍSIA 59% MALÁSIA 68%
FILIPINAS 56% ALEMANHA 64%
TAILÂNDIA 52% CORÉIA 63%
TAIWAN, PROVÍNCIA DA CHINA 50% FRANÇA 63%
EGITO 50% CHINA 59%
MARROCOS 48% SUÍÇA 59%
CHILE 48% RÚSSIA 56%
VIETNÃ 48% ARÁBIA SAUDITA 56%
INDONÉSIA 44% ITÁLIA 53%
MÉXICO 44% TAILÂNDIA 52%
PERU 42% JAPÃO 51%
TURQUIA 41% TAIWAN, PROVÍNCIA DA CHINA 50%
PAQUISTÃO 40% ESPANHA 48%
ARGENTINA 39% CANADÁ 48%
MACAO, CHINA 38% ESTADOS UNIDOS 45%
BRASIL 37% MÉXICO 44%
INDIA 36% AUSTRÁLIA 42%
BANGLADESH 36% BRASIL 37%
COLÔMBIA 26% ÍNDIA 36%
Fonte: Relatório de investimentos da UNCTAD, adaptação nossa (2013, p.132 e 134).
Dentre os 25 países em desenvolvimento selecionados na figura acima, o Brasil ocupa a vigésima segunda colocação, demonstrando uma baixa adesão às cadeias globais de valor. Em verde, destacamos a participação dos países do bloco dos BRICS, para efeitos de comparação com o Brasil, em vermelho. A diferença em relação à Índia é ínfima. Ainda, se observarmos a inserção das principais economias exportadoras nas cadeias globais, o país ainda perde duas posições, ficando em penúltimo lugar, nesta lista, a China figura em 11º e a Rússia em 13º lugar, demonstrando uma maior participação nas cadeias de valor.
E se considerarmos ainda a participação do Brasil nas exportações mundiais, que nos últimos anos tem oscilado em torno de 1% do total, o cenário é ainda mais alarmante, o país está reduzindo sua participação na economia mundial.
Os gráficos 15 e 16, nos trazem informações sobre o destino e origem das exportações e importações brasileiras, dentre as quais destacamos:
- A Argentina é o único parceiro comercial da região que figura nos gráficos, demonstrando o potencial de comércio regional que pode ser explorado;
- A China já desponta como parceira comercial do país, em termos brutos. Se observarmos em valor adicionado os Estados Unidos continuam a ser o principal receptor das exportações brasileiras. Isso se deve à concentração das importações chinesas em commodities que posteriormente serão processadas e exportadas para outros países;
- A relação comercial entre os BRICS também é um aspecto importante a ser notado, pois o país mantém relações estreitas com China, Índia e Rússia. - Outro aspecto interessante de se observar é o fato de que tanto nas exportações como nas importações, os parceiros são praticamente os mesmos. No gráfico das importações, o México sai de cena para entrada da Holanda.
Gráfico 15. Destino das exportações brasileiras em termos brutos e de valor adicionado (V.A.), 2009 (em % do total).
Exportações brutas Exportações por V.A.
Fonte: OCDE/OMC, Trade in Value added indicators- Brazil (2013, p.3)
Gráfico 16. Origem das importações brasileiras em termos brutos e de valor adicionado (V.A.), 2009 (em % do total).
Importações brutas Importações por V.A.
Fonte: OCDE/OMC, Trade in Value added indicators- Brazil (2013, p.3)
Poderemos observar que em termos de valor adicionado, tanto o superávit comercial com a China como o déficit com os Estados Unidos foram menores, graças ao elevado conteúdo doméstico das exportações brasileiras em contraponto com o maior conteúdo estrangeiro das exportações destinadas ao Brasil.
Em relação à questão tarifária, o gráfico abaixo nos traz informações de dois segmentos da economia, o primário e secundário.
Gráfico 17. Tarifas sobre exportações brutas e sobre valor doméstico adicionado nas exportações, 2009.
Manufatura Agricultura
Tarifas sobre as exportações brutas Tarifas sobre valor doméstico das exportações
Fonte: OCDE, OMC & BANCO MUNIDIAL, 2014
No setor de manufaturas, a variação entre a tarifação das exportações brutas e sobre o valor doméstico das exportações apresentada pela China é singular, ainda mais quando comparado aos demais países.
O Brasil, por sua vez, segue a tendência dos outros países ao manter as tarifas em termos brutos e de valor doméstico bastante próximas, contudo, está entre os três países com tarifas mais elevadas. O estudo da OCDE, OMC & BANCO MUNDIAL (2014, p. 30) sugere que se o país reduzisse as tarifas de exportação no setor de eletrônicos, as vendas se elevariam em cerca de 26%.
No setor de agricultura, o cenário é distinto, Brasil e Índia configuram com as menores cargas tarifárias sobre o setor, refletindo o incentivo que o setor recebe para a exportação. No caso brasileiro, a tarifação para exportações do setor de manufatura é o dobro do praticado no setor agrícola.
Segundo Blyde (2014), a questão da escalada tarifária é bastante usual, o que dificulta o acesso de países latino-americanos a segmentos de valor agregado mais elevado nas cadeias produtivas, uma vez que os países impõem tarifas baixas aos insumos baseados em recursos naturais e tarifas mais elevadas em setores de maior valor adicionado
Muito embora, a questão do alto custo tarifário seja um problema estrutural da economia brasileira, e há muito tempo esteja no centro da pauta de
debates econômicos. Em relação à inserção nas cadeias globais de valor, ela não constitui no único, ou no maior gargalo para a integração do país. Uma das maiores barreiras de entrada que o país enfrenta, hoje, é a questão do transporte e logística, além da infraestrutura, há muito esgotada.
Apesar dos avanços tecnológicos recentes, a questão do tempo despendido para o transporte de mercadorias continua a ser um ponto sensível na tomada de decisões de investimento. Em um ranking sobre qualidade em logística, realizado pelo Banco Mundial, em 2014, o Brasil ficou em 94º lugar num total de 160 países. (FERRAZ, GUTIERRE&CABRAL, 2014, p.24)
Além do mais, o comércio por valor adicionado (bens intermediários) é bem mais sensível aos atrasos do que o comércio de bens finais, em muitas indústrias, tais como a automobilística, onde a produção é sequenciada, assim, o atraso na entrega de peças e componentes pode representar um ônus elevado para empresa.
Em uma estimativa feita por Ferraz et al. (2014, p. 24), utilizando modelos de equilíbrio geral, os autores concluíram que se o Brasil35 reduzisse em 50% o tempo de atraso nas aduanas portuárias, isso afetaria positivamente o produto interno bruto nacional em 0,21% ao ano
35 Brasil leva cerca de sete dias para liberar as importações e seis dias no caso das exportações, já no caso dos Estados Unidos esse tempo é reduzido para apenas 2 dias (BANCO MUNDIAL, 2012 APUD FERRAZ, GUTIERRE&CABRAL, 2014, p.24).
CAPÍTULO 3
CADEIAS GLOBAIS DE VALOR: DESAFIOS E