POSICIONAMENTO DOS PAÍSES NAS CADEIAS GLOBAIS DE VALOR
2.1. Posicionamento nas cadeias globais de valor
Estabelecer o posicionamento do país na cadeia de valor é essencial para se estabelecer as oportunidades de upgrading de uma economia, setor ou indústria. O posicionamento na cadeia poderá ser:
a) Upstream (a montante): a produção de insumos no início da cadeia de valor, países especializados no fornecimento de recursos naturais ou intangíveis que envolvem o início do processo produtivo, tais como pesquisa e desenvolvimento, planejamento e design.
b) Downstream (a jusante): produção de bens e serviços no final da cadeia de valor, em geral, os países se especializam na montagem do produto ou nos serviços aos clientes.
O exemplo do posicionamento do Brasil na cadeia global da Nutella é bastante interessante. De um lado, o país participa como fornecedor de insumo (açúcar) para a confecção do produto (posição upstream), ao mesmo tempo em que participa no processo produtivo, já que a empresa responsável pelo produto, a Ferrero International S.A,22 fabrica o produto em suas instalações em Poços de Calda (posição downstream). (MIROUDOT&BACKER, 2012).
22 A empresa possui 9 fábricas: 5 na Europa, 2 na América do Sul, 1 no Canadá e outra na Austrália.
As atividades concentradas no meio da cadeia são intensivas no uso de mão de obra, que em geral são atividades ligadas à manufatura. O comprimento das cadeias de valor aumenta na mesma proporção em que o processo produtivo se fragmenta. O fenômeno de “offshoring-outsourcing” tende a afetar com mais intensidade os estágios inicias da produção que são os de menor valor adicionado (CATTANEO, GEREFFI, MIROUDOT e TAGLIONI, 2013, p.12).
A participação nas cadeias globais de valor é mensurada a partir da combinação de duas medidas: o valor adicionado doméstico incorporado nas exportações de terceiros e pelo valor estrangeiro adicionado às exportações nacionais. Portanto, a combinação destes dois indicadores23 determinará o índice de participação de uma economia nas cadeias de valor, o gráfico abaixo apresenta o índice de participação de países selecionados.
Gráfico 2. Participação nas CGV, para países participantes e não participantes da OCDE, 2008
Fonte: OCDE, 2012b apud CATTANEO, GEREFFI, MIROUDOT e TAGLIONI, 2013, p.11
O engajamento dos países europeus nas cadeias de valor é bastante homogêneo, em termos percentuais apresenta participação muito próxima àquela observada pela China, muito disso se deve à integração do comércio regional, como veremos mais adiante.
23 O índice de participação nas cadeias globais de valor foi criado por Koopman, Powers, Wang e Wei (2011) e foi quantificado em cerca de 57 países pela OCDE. (2013)
Devido ao pequeno porte de suas economias, países como Luxemburgo e Eslováquia apresentam elevada participação nas cadeias globais, porque importam uma parcela considerável de insumos estrangeiros.
A participação do Brasil é uma das mais baixas entre os países selecionados no gráfico. O país apresenta uma pequena vantagem sobre a Argentina, país vizinho e um de seus principais parceiros comerciais. A baixa participação do Brasil e da Argentina nas cadeias globais levanta uma outra questão, a da tímida integração regional dos países da América do Sul, assunto que exploraremos com mais ênfase adiante, entretanto, é oportuno registrar a participação do Chile que chega a 50%.
Ainda com relação aos países latino-americanos, a inserção do México é relativamente baixa (um pouco mais de 40%) ainda mais se considerarmos sua participação no acordo de livre comércio com Canadá e Estados Unidos (NAFTA) e sua proximidade com os Estados Unidos que favorece o país na atração de atividades de offshoring.
Em relação ao bloco dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o Brasil é o país com o menor índice de participação nas cadeias globais de valor, conforme dados do gráfico acima.
Segundo Canuto (2013), o país tem permanecido às margens das transformações do comércio internacional. Segundo o autor, o “isolamento” do Brasil se deve à forte densidade das cadeias locais que trazem impactos negativos ao país, em relação `a sua competitividade, produtividade e crescimento.
No gráfico abaixo, poderemos observar a média do tamanho das cadeias globais entre os anos de 1995 e 2009.
O index no eixo esquerdo reflete o número de estágios da produção entre um bem e seu consumidor final.
Gráfico 3. Tamanho médio das cadeias globais de valor.
Fonte: Miroudot e Backer (2012, p. 14)
Podemos verificar que o conteúdo doméstico nas cadeias se manteve estável no período observado. Já o valor adicionado estrangeiro adotou uma trajetória ascendente até 2005, com destaque para o período entre 1995 e 2000 quando houve um intenso movimento de liberalização das economias mundiais. A oscilação observada no gráfico entre os anos de 2008 e 2009, está associada a crise do subprime deflagrada pelo mercado imobiliário norte-americano que atingiu as economias mundiais como um todo. Durante a crise, observou-se que as cadeias diminuíram de tamanho em comparação com 2005, as empresas mais sólidas permaneceram, consolidando suas posições nas cadeias de valor.
Já no ano de 2009, observou-se a retomada da produção doméstica em alguns setores, o que pode ser observado através do pequeno avanço do conteúdo doméstico em 2009.
No gráfico seguinte, poderemos observar o nível de fragmentação da cadeia global, ou melhor, o tamanho24 da cadeia de valor sendo possível distinguir o valor adicionado doméstico, do estrangeiro.
O índice assumirá o valor 1, no eixo esquerdo, quando houver um único estágio de produção e seu valor aumentará de acordo com a incorporação de insumos da mesma ou de outra indústria, considerando a média do tamanho da cadeia do setor. É possível diferenciar o valor doméstico do internacional através do cálculo do índice referente à indústria e ao seu segmento. (DE BACKER&MIROUDOT, 2012, p. 5-6)
O eixo esquerdo do gráfico representa a participação de bens intermediários na produção final do bem ou do serviço, assim o valor igual à 1 indica a ausência de bens intermediários na cadeia de valor, o que não ocorre em nenhum dos segmentos selecionados, muito embora o segmento imobiliário apresente uma parcela pequena de valor estrangeiro adicionado.
24 O índice proposto por Fally (2011) foi calculado para a avaliação da inserção da economia norte-americana. (MIROUDOT&BACKER, 2012)
Gráfico 4. Tamanho das cadeias globais selecionadas, 2008.
doméstico internacional
Fonte: Miroudot e Backer (2012, p.15)
O tamanho das cadeias se relaciona com o número de estágios ou melhor, de elos que ligam a cadeia. Assim, quanto maior o número de elos, maiores também serão as oportunidades de inserção nas cadeias globais. Dentre os exemplos selecionados, observa-se que a cadeia de TV e equipamentos de comunicação é a mais longa e a parte majoritária do valor adicionado é internacional.
Em geral, as cadeias ligadas ao setor terciário tendem a serem mais curtas, entretanto, as áreas de construção, transporte e armazenamento apresentam cadeias mais longas que a média do segmento.
E finalmente, no gráfico abaixo podemos observar simultaneamente a participação do Brasil nas cadeias globais de valor, por indústria selecionada e a sua distância25 do consumidor final.
O índice representado no gráfico, reflete o número médio de estágios da produção de um bem por indústria, considerando a participação de cada estágio no valor adicionado, até seu consumidor final.
25 O índice que mede a distância ao consumidor final foi objeto de estudo de Fally (2011) e Antràs et.al.(2012). (MIROUDOT &BACKER, 2012, P. 43-44).
O menor valor apurado foi igual a um, o que significa que o bem ou serviço foi diretamente para o consumidor final, ou seja, não houve qualquer tipo de intermediação ou processamento.
Assim, quanto mais longe uma indústria estiver de seu consumidor final isso indicará que o segmento está posicionado mais a montante na cadeia de valor (MAREL, 2015, p.3).
Gráfico 5. Participação do Brasil e distância do consumidor final
Fonte: Miroudot e De Backer (2012, p.13)
O segmento de mineração é o que apresenta maior distância do mercado consumidor final, em sentido oposto, o segmento de educação se encontra mais próximo de seu público.
Interessante observar que no segmento agrícola, tanto o seu engajamento (participação superior a 40%) nas cadeias globais como a sua distância do consumidor final, reforçam o argumento de que o país é provedor de insumos baseados em recursos naturais para o mundo. Em contraste, a indústria de alimentos apresenta baixa participação nas cadeias globais, um pouco superior aos 10%, sugerindo uma predileção pelo mercado doméstico.
Distância do consumidor final participação nas CGVs
Devemos ressaltar que os setores de combustível, educação, finanças e seguro e construção apresentam índice de participação acima de 70%, a média de participação do país gira em torno dos 38%, vide gráfico 5.
No geral, a participação do setor terciário também é superior à média de participação do país nas cadeias globais de valor, conforme podemos observar nos segmentos de: serviços de negócios; outros serviços sociais; construção; finanças e seguro e de transporte e armazenagem, o que corrobora com a tendência mundial de aumento da importância do setor de serviços na criação de valor.