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CBE, por setor de atividade

3.2 Reprimarização da pauta exportadora

A importância do debate acerca da reprimarização da pauta exportadora brasileira, a partir da abordagem das cadeias globais de valor, se justifica pela alta concentração das exportações brasileiras baseadas em recursos naturais. O que em grande medida, tem contribuído na definição do papel reservado ao Brasil nas cadeias globais, além de ser um tema recorrente na literatura econômica nacional.

Segundo Lacerda, o efeito da participação estrangeira no padrão de comércio brasileiro é mais intenso no Brasil do que o observado em outros países, porque o país sempre teve um grau significativo de participação estrangeira em sua estrutura produtiva. Além disso, pondera que “na fase da globalização, há uma mudança na forma com que as grandes corporações organizam a sua produção internacionalmente. ” (LACERDA, 2008, p.16)

Melo, Ruiz & Castilho (2014, p.16) observam que a pauta exportadora brasileira “sofreu alterações após o processo de abertura comercial, com uma tendência de concentração em produtos industriais intensivos em recursos naturais. ” E, em função disso, com exceção da indústria baseada em ciência,

que apresentou um pequeno aumento e a indústria diferenciada que se manteve, todas as outras indústrias diminuíram de tamanho.

Assim, a organização da produção, do investimento e do comércio internacional passam a ser regidas pelas estratégias das empresas multinacionais, de acordo com seus interesses.

A condição do Brasil, como fornecedor de insumos, implica numa baixa criação e apropriação de valor adicionado, pois suas exportações são compostas por um elevado conteúdo doméstico cuja baixa ou ausência72 de tecnologia refletem diretamente no seu valor.

A especialização passa, assim, a determinar o posicionamento do país nas cadeias globais de valor e, de um modo geral, relacionadas a atividades de baixo valor adicionado.

Em trabalho sobre a desindustrialização no Brasil, Cano apresenta dados sobre a estrutura da pauta exportadora brasileira, segundo níveis de industrialização,73 demonstrando que a participação dos manufaturados caiu de

72 Produtos não industrializados.

60% (em 2000) para 36,7% (em 2011), e, em contrapartida, os produtos básicos aumentaram sua participação de 23,4% (em 2000) para 48,8% (em 2011). Já os semimanufaturados observaram uma menor variação no período observado. (CANO, 2012, p.12)

O autor ainda chama atenção para a extensão da problemática da reprimarização da pauta exportadora por toda a América Latina, baseado em dados74 da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina) que também apontam uma diminuição da contribuição dos manufaturados nas exportações da região.

Segundo Carneiro (2012, p.23), o consenso geral sobre a especialização na produção de commodities é de que ela é negativa. Ainda mais quando associada à volatilidade de preços do mercado internacional, como ocorreu em meados dos anos 2000, causando impactos negativos para as economias latino-americanas, como a variação de suas receitas cambiais e fiscais, abalando inclusive o nível de confiança nas economias da região.

E, especialmente no caso brasileiro, a apreciação do preço internacional destes ativos acentuou a especialização do país, causando a transferência de recursos dos outros setores econômicos para o setor primário.

E no mesmo sentido Gonçalves (2006, p.15) observa que,

Além do problema da volatilidade de preços, a reprimarização das exportações impacta negativamente no dinamismo da economia (efeitos de encadeamento), na geração de emprego, na distribuição funcional da renda e na distribuição da riqueza. Este argumento é verdadeiro na medida em que enclaves da indústria de extração mineral e vegetal ou do agronegócio são intensivos em capital e tendem a ser controlados por grandes grupos privados nacionais e empresas transnacionais

Carneiro (2012, p.11) observa que os países asiáticos foram mais exitosos em sua inserção internacional, classificando-a de virtuosa. Os países asiáticos foram capazes de adotar estratégias de integração produtiva que aumentassem a participação da indústria no produto nacional, impreterivelmente levando a um maior encadeamento da produção e diversificação das exportações. Em contrapartida, a estratégia adotada pelos países

74 No período entre 1980 e 2000, a participação dos manufaturados na região se elevou de 17,6% para 58,2%, caindo para 47,1% em 2010. (CANO, 2012, p.12)

americanos, caracterizada por uma abertura incondicional, rápida e sem planejamento levou a um processo de reprimarização da pauta exportadora.

Lacerda (2013), alerta ainda para o fato de que, numa tentativa de defesa e autopreservação, as empresas brasileiras em resposta ao período de sobrevalorização cambial, passaram a importar produtos que antes eram produzidos no país, sem se dar conta dos prejuízos causados à estrutura produtiva nacional. A valorização do real frente ao dólar parece incentivar a especialização produtiva no Brasil. A preferência pela importação em detrimento à produção local implica na perda de conhecimento, no desenvolvimento de fornecedores locais e em tecnologia agregada, conclui o autor.

Ainda segundo Lacerda, o Brasil não precisa abdicar de sua industrialização por suas exportações de commodities, o país tem condições de atuar nas duas frentes, afastando, assim, o perigo da doença holandesa75.

Em um estudo sobre as exportações de commodities, Ferreira, Dorner & Braun (2014) ponderam que a explosão das exportações brasileiras de commodities, a partir de 2003, colocaram em evidência nossas vantagens comparativas, salientando a diversidade da pauta exportadora agroindustrial brasileira, o que segundo os autores reduziria, por si só, a chance da doença holandesa76 no país.

Os mesmos autores, baseados num cálculo do índice de vantagem comparativa reveladas77 (IVCR) para a indústria brasileira para os anos de 2000-2011, concluíram que o Brasil perdeu competitividade e que apresenta indícios de desindustrialização, possivelmente relacionados à perda de produtividade e à falta de incentivo à inovação.

75 Ou “dutch disease” é um termo utilizado para fazer alusão aos efeitos perversos que a especialização na produção de produtos baseados em recursos naturais pode causar em um país. Foi utilizado, pela primeira vez, para descrever a situação que a Holanda atravessava no final dos anos 70, em função da descoberta de grandes reservas de gás natural, o que produziu um efeito nefasto na indústria do país. A doença se revela quando a especialização nos recursos naturais é tanta que é capaz de alterar a composição da pauta exportadora do país, prejudicando a participação dos outros setores

76 No caso holandês, havia uma única commodity, as reservas de gás.

77 Segundos os autores, o índice teria sido proposto por Balassa em 1965 com base na teoria ricardiana das vantagens comparativas, a base de dados utilizada foi a do Sistema de Análise de Comércio Exterior (ALICE), da Secretária de Comércio Exterior (SECEX). (FERREIRA, DORNER & BRAUN, 2014, p.125)

Os resultados apresentados pelo índice78 revelaram que no período observado a indústria perdeu vantagem comparativa nas exportações. Apenas em 2000, o índice atingiu valor igual a 1, nos demais anos o índice variou entre 0,74 e 0,95, o que, de acordo com sua proposição, significa que o país possui desvantagem comparativa revelada para as exportações industrias.

Muito embora o debate sobre a desindustrialização79 do país já se encontre em curso não existe qualquer consenso sobre o tema.

Laplane (2012), em declaração ao Valor Econômico pondera que

Há um entendimento muito claro de que é preciso duas coisas para implementar uma nova reorganização produtiva: sofisticar os métodos de produção e gestão e concentrar as cadeias produtivas próximas ao mercado consumidor.

Assim, partindo da afirmação do autor, nos dois itens seguintes, pretendemos discutir a importância do papel da inovação e da tecnologia na abordagem das cadeias globais de valor, a fim de compreender como os avanços tecnológicos podem auxiliar o país, na questão da apropriação de valor. Como também pretendemos avaliar o impacto da inserção nacional sobre o emprego, considerando o enfoque dado à qualificação da mão de obra na teoria das cadeias globais e valor.

Tanto a questão tecnológica como a de emprego são geralmente apontados pela literatura das cadeias globais de valor como elementos centrais para o upgrading funcional, principalmente para os países em desenvolvimento. Pois a qualificação da mão de obra e a assimilação de novas tecnologias podem garantir ao país ou à empresa a delegação de novas funções e ou tarefas que impliquem na apropriação de uma proporção maior de valor.

78 IVCR > 1 significa que o país possui vantagem comparativa revelada nas exportações da indústria, por outro lado, IVCR<1 significa que o país apresenta desvantagem comparativa para as exportações da indústria.

79 Processo caracterizado pela diminuição do peso relativo do emprego na indústria, em detrimento de sua participação nos demais setores. Silva (2014, p.68) chama atenção sobre a desindustrialização precoce que pode ocorrer antes mesmo que a estrutura produtiva do país esteja totalmente consolidada, refletindo negativamente no nível de renda da população.