Ambiente Oceânico Profundo é um Mundo Desconhecido
Cerca de 70% de toda a superfície terrestre, correspondente a 361x106
quilômetros quadrados são recobertos por águas oceânicas. Se for admitida uma profundidade média de 3,8 quilômetros para os oceanos, o volume total das águas oceânicas atingirá a surpreendente cifra de 1.370x106 quilômetros cúbicos. Além disso, atribuindo-se um peso de 1,03 grama para cada centímetro cúbico chega-
se à cifra realmente astronômica de 1.410x1021 gramas para o peso total das águas
oceânicas existentes na superfície terrestre. São encontrados 34 gramas de sal (cloreto de sódio) dissolvidos em cada litro de água oceânica atual, que corresponde a 99% do sal em solução naturalmente encontrado na superfície terrestre.
Os oceanos são caracterizados por números tão surpreendentes como os supracitados e mantém, através de suas superfícies, incessantes intercâmbios de matéria (água e substâncias em solução ou suspensão na água) e energia (principalmente calor) com a atmosfera continuamente sobrejacente. Deste modo, dá origem aos ambientes naturais da superfície terrestre, em especial ao clima. Os estágios evolutivos pelos quais passaram as águas oceânicas da superfície terrestre, desde a origem da Terra há 4,6 bilhões de anos até os dias atuais, são razoavelmente conhecidos pelas pesquisas de composições químicas e de razões de isótopos estáveis de carbono e oxigênio de conchas carbonáticas fósseis de moluscos. Com base nessas pesquisas sabe-se, por exemplo, que há cerca de 2 bilhões de anos passados as composições químicas das águas oceânicas já estavam definidas. Além disso, durante as etapas evolutivas das águas oceânicas volumes gigantescos de dióxido de carbono atmosférico foram enclausurados nas rochas carbonáticas quimicamente precipitadas. Presume-se que a composição química do ar atmosférico semelhante a atual, que possibilitasse a vida efêmera e frágil como, por exemplo, do homem moderno seria alcançada somente com a subseqüente atuação de plantas verdes (com clorofila), através do processo de fotossíntese.
O papel desempenhado pelos oceanos e águas oceânicas, na superfície terrestre, é atualmente conhecido só na porção rasa, desde a linha de maré vazante
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costa afora até cerca de 200 metros de profundidade, limitada à plataforma continental. Este setor determina a zona fótica, que varia segundo a área oceânica, mas até cerca de 80 metros tem-se a zona eufótica, onde as quantidades de luz são suficientes para as plantas realizarem a fotossíntese e a zona disfótica está situada a maiores profundidades. Na zona eufótica há reprodução de seres vivos, como de diatomáceas que constituem o fitoplâncton (seres vivos vegetais flutuantes) e outras algas. Por exemplo, os corais hermatípicos (construtores de recifes) vivem em simbiose com algas fotossintetizadoras e, portanto, inexistem em locais mais profundos que a zona eufótica. Na zona disfótica normalmente não ocorre reprodução efetiva de vegetais. A maioria dos recursos marinhos naturais, consumida pelos seres humanos nos dias de hoje, é coletada na área da plataforma continental.
O que significa plataforma continental, que é um termo técnico ligado à geomorfologia submarina? Corresponde ao fundo oceânico muito plano e suavemente inclinado, em geral situado a menos de 200 metros de profundidade de água com média mundial de cerca de 130 metros, que se estende nas adjacências dos continentes. Nas regiões costeiras de áreas glaciadas e recobertas por geleiras quaternárias como, por exemplo, nas adjacências do Continente Antártico, por influência do peso das geleiras continentais, exibem profundidades bem maiores. As superfícies relativamente planas das plataformas continentais inclinam-se cerca de 7 minutos rumo costa afora, mas nas proximidades dos pólos em altas latitudes podem ocorrer vales de erosão glacial e morfologias de depósitos glaciais afogados. Nas profundidades atuais superiores a 20 metros ocorrem depósitos de cascalhos com areias grossas e afloramentos rochosos que, na borda externa da plataforma continental, foram datados em 17 mil anos passados, que são interpretados como produtos de nível oceânico baixo do Estádio Glacial Wisconsiniano (último estádio glacial). A área ocupada pelas plataformas continentais atuais representa cerca de 17% da área oceânica total e, em função da fotossíntese vegetal, da mistura vertical das águas e do suprimento suficiente de sais e nutrientes originários dos continentes, formam as melhores áreas de pescaria. Conhecem-se também ocorrências de recursos minerais comparáveis aos que existem sobre os continentes e, parte deles, já se acham em exploração. Como exemplos reais desses casos têm-se o da cassiterita na Tailândia e do diamante na África do Sul.
Por vários anos durante a década de 1970, vários pesquisadores ligados às entidades governamentais, tais como, D.N.P.M. (Departamento Nacional de Produção Mineral), C.P.R.M. (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais), Petrobrás (Petróleo Brasileiro S/A) e D.H.N. (Diretoria de Hidrografia e Navegação) da Marinha do Brasil, desenvolveram pesquisas científicas básicas sobre a plataforma continental do Brasil. A potencialidade da produção petrolífera brasileira, que teria alcançado a autossuficiência, conta com a Bacia Submarina de Campos, situada costa afora do Estado do Rio de Janeiro, que atualmente representa cerca de 80% da produção total. Neste caso, já foi ultrapassada a borda externa da plataforma continental e, deste
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modo, a prospecção petrolífera atingiu o talude continental a mais de 1.000 metros de profundidade de água.
O talude continental refere-se a um plano, que começa na borda externa da plataforma continental e cai para o fundo oceânico profundo com inclinação relativamente forte (3° a 6°). Este plano é delimitado mundialmente, na sua extremidade inferior, pela elevação continental, ou fossa submarina. A existência de terraços marinhos e vales submarinos torna a geomorfologia desta superfície muito complexa. Nas costas do Oceano Pacífico, a oeste da América do Norte e no Japão, o plano exibe dois patamares, que são delimitados entre si por penhascos. A superfície deste plano pode ser formada por embasamento rochoso ou por espesso depósito sedimentar. No primeiro caso, acredita-se que constitua um local onde ocorreram freqüentes correntes de turbidez e escorregamentos e o embasamento é composto por rochas continentais. No segundo caso representam porções frontais de depósitos marinhos rasos de proveniência continental, que podem ser encontrados em taludes continentais suaves ou em áreas com deltas oceânicos.
Denomina-se de elevação continental a parte soerguida do fundo oceânico profundo comprida e larga, que ocorre no sopé do talude continental. Atinge larguras de 0 a 600 quilômetros, exibe inclinações de 1/40 a 1/2.000 e ocorre em profundidades de 1.400 a 5.100 metros. No limite superior grada transicionalmente para o talude continental, mas no limite inferior passa repentinamente para montes ou planícies submarinas profundas. Na costa Norte-Americana subdivide-se em porções superior e inferior e ao sul do Cabo Hatteras transforma-se em bancadas com muitos degraus. As elevações continentais representam leques ou aventais submarinos compostos de sedimentos argilosos e sílticos carreados por correntes de fundo provenientes das plataformas continentais e, conforme a prospecção sísmica, sabe- se que exibem estruturas de prismas de sedimentos. Nas adjacências da foz do Rio Amazonas, na região norte do Brasil, existe um grande leque submarino situado a uma profundidade de cerca de 4 mil metros, que se localiza na base do talude continental e na porção terminal de um vale submarino. Sedimentologicamente é composto de areias oceânicas profundas, que contém carapaças de foraminíferos de águas oceânicas rasas, que teriam sido transportados e sedimentados por correntes de turbidez.
Os oceanos profundos, que ocupam a maior parte dos oceanos, variam desde alguns milhares de metros até cerca de 11 mil metros nas partes mais profundas. Embora existam algumas discrepâncias na subdivisão, os oceanos profundos referem- se normalmente aos fundos submarinos situados entre 4 a 5 mil metros. Ocorrem argilas oceânicas e vasas submarinas e presume-se que existam poucos organismos vivos. As cadeias (ou cordilheiras) oceânicas referem-se aos grandes relevos dos fundos oceânicos soerguidos abruptamente. Representam cadeias montanhosas dos fundos oceânicos, que freqüentemente são designadas de cadeias submarinas, cujas amplitudes altimétricas e extensões são superiores às existentes sobre os continentes.
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Na porção ocidental do Oceano Pacífico muitas formam ilhas, que na porção média são compostas de basaltos (rochas vulcânicas básicas) superpostas por recifes de corais, que formam inúmeras cadeias oceânicas dispostas na direção NW-SE. No Oceano Índico ocorrem muitas cadeias oceânicas sem sismicidade de direção N-S. Especialmente a cadeia oceânica de longitude leste 90° exibe conspícuo declive acentuado no lado ocidental e estende-se em linha reta por 4.500 quilômetros, presumindo-se que seja uma estrutura semelhante a um “horst”. Por outro lado, em contraposição à cadeia oceânica tem-se a fossa oceânica, que constitui uma zona deprimida comprida e estreita no fundo oceânico, delimitada por planos relativamente inclinados. O comprimento pode atingir alguns milhares de quilômetros e a largura é de cerca de 100 quilômetros e, em relação ao fundo oceânico adjacente, pode apresentar alguns quilômetros de profundidade. A maioria das fossas oceânicas exibe seção transversal assimétrica em forma de letra “V”, com declive acentuado no lado continental e suave no lado oceânico. Nas vertentes das fossas oceânicas podem ser encontrados sulcos, coincidentes com falhas continentais, que as seccionam obliquamente. Nas superfícies das vertentes desenvolvem-se bancadas com vários degraus e as fossas oceânicas inclinam-se, na parte central, com vertentes muito abruptas. Os fundos das fossas submarinas apresentam-se geralmente aplainados por estarem colmatados de sedimentos e, em seção longitudinal, descem em degraus para maiores profundidades. Das 27 fossas oceânicas existentes na Terra, 22 estão no Oceano Pacífico, 4 no Oceano Atlântico e 1 no Oceano Índico. Entre as fossas oceânicas do Oceano Pacífico, as orientais são mais rasas e retilíneas e as ocidentais são mais profundas e formam arcos dirigidos para o lado oceânico. No lado continental dessas fossas oceânicas sucedem- se zonas vulcânicas e sísmicas e as zonas de anomalia gravitacional seguem as fossas oceânicas ou as suas porções internas e as intensidades de fluxo térmico crustal são também baixas nas cercanias das fossas oceânicas. Os epicentros de terremotos profundos distribuem-se em um plano inclinado de 30° a 60° rumo ao continente. A partir da estrutura geológica das vizinhanças das fossas oceânicas foi desenvolvida a seguinte teoria ligada a sua origem. O fato de anomalia gravitacional ser encontrada na maioria das fossas oceânicas significa, que o sial (denominação genérica para a matéria constituinte da metade superior da crosta terrestre) é anormalmente espesso nesta porção. Como as correntes de convecção térmica, ao colidirem com os continentes, mergulham para baixo, são aí formadas zonas de falhas inclinadas para os continentes e a crosta forma flexura para baixo para originar a fossa oceânica nesta porção.
Como foi acima citado, empregando-se vários princípios físicos, e diversos conhecimentos sobre os fundos oceânicos, ligados à geomorfologia submarina, à geologia e aos depósitos sedimentares têm sido pesquisados por métodos de prospecção gravitacionais, magnéticos, sísmicos e radioativos. A utilização de informações precisas tornou possível a descoberta e a exploração de recursos subterrâneos oceânicos de jazidas de carvão, campos de petróleo, bem como de outros minerais.
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O progresso alcançado pela moderna tecnologia durante 50 e poucos últimos anos tem sido extraordinário e, na realidade, representa um fato espantoso. Quase todas as inúmeras fantasias científicas, entre tantas idealizadas pelo escritor francês Júlio Verne transformaram-se em realidade. Satélites artificiais já foram disparados ao planeta mais afastado do Sistema Solar e pesquisas em nanotecnologia também passam por avanços rápidos, mas a vida oceânica profunda ainda poderia ser considerada como um mundo desconhecido. Os conhecimentos sobre os fundos oceânicos, de uma área que corresponde a cerca de 70% da superfície terrestre, limitam-se somente à porção mais rasa e presume-se a existência de mais da metade da biodiversidade da vida oceânica em fundos oceânicos profundos. Mas, até agora estão disponíveis apenas conhecimentos insuficientes. O ambiente submarino profundo é escuro e representa um mundo inóspito submetido a condições de pressão hidráulica altíssima e não seria nenhum exagero considerar que é menos explorado que a superfície lunar.
Como resultados de pesquisas oceanográficas dos 200 anos passados, foram relatadas cerca de 230 mil espécies de seres vivos. No mesmo período, animais que vivem na atmosfera, na pedosfera, nos lagos e rios de âmbito aquáticos continentais já descritos, atingem 1,5 milhão de espécies. Embora atualmente sejam desconhecidos estima-se a possibilidade de que, em futuro próximo, 2 milhões de seres vivos de oceanos profundos sejam descobertos e imagina-se que 90% seriam representados por microrganismos.
A última fronteira da superfície terrestre, que é representada pelo fundo oceânico profundo, deverá ser reconhecido em futuro próximo e deverá ter início o dia da sua exploração. Neste caso, cada vez mais não se deve esquecer da importância da conservação ambiental. Atualmente, 1.700 pesquisadores de 70 países dedicam-se ao projeto intitulado “Levantamento da vida oceânica”. Espera-se que, até o ano 2010, estejam coletados materiais suficientes para se conhecer a vida oceânica. Os resultados de pesquisas da biodiversidade oceânica, que serão obtidos desta maneira, representam talvez a mais importante questão ligada à vida ou morte do futuro da humanidade. Sem esses conhecimentos, a possibilidade de não se atingir a autossuficiência alimentar da população mundial total, que hoje já somaria 6,5 bilhões de habitantes e estaria em constante crescimento, seria perfeitamente admissível.
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