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2.3 OS AMBIENTES DE APRENDIZAGEM

2.3.1 Ambientes Complexos de Aprendizagem

Os ACA podem ser entendidos como ambientes de instrução baseados em modelos,

elaborados a partir de contextos complexos e reais, que permitem aos estudantes o

aprendizado a partir de pressupostos construtivistas. O objetivo é promover uma

aprendizagem que seja centrada no estudante, sendo que deve haver o seu engajamento

através de atividades. Sua modelagem é realizada a partir de contextos complexos e atividades

autênticas, em que o aluno possa experimentar níveis variados de complexidade, de acordo

com as suas experiências prévias e o seu próprio ritmo. Os ACA devem basear-se em

experiências reais concretas e a construção do conhecimento deve ser feita pelo aluno, de

forma individual, colaborativa e incremental (ACHTENHAGEN, 2001; PELLEGRINO,

2004).

Nos ACA, há a necessidade de o estudante criar e raciocinar, antes de agir. Por

exemplo, se o ambiente define uma tarefa para os estudantes, esta tarefa deve causar um

desequilíbrio, fazendo com que o estudante raciocine e utilize suas concepções prévias para

resolvê-la. Não basta apenas repassar o conteúdo e avaliar se o estudante adquiriu e gravou as

informações. É preciso que o ambiente permita ao estudante definir seus próprios objetivos de

aprendizagem e a melhor forma para atingi-los. Na perspectiva construtivista, cada estudante

pode ter conhecimentos prévios diferentes dos outros. Assim, seus objetivos podem ser

diferentes e também as suas formas de aprender. Segundo Achtenhagen (2001), os ACA

devem atender a estas complexidades, apresentando aos estudantes a oportunidade de

desenvolver, testar e refinar suas próprias teorias.

Mondadori e Santos (2006) elaboraram um framework para o desenvolvimento de

ambientes complexos de aprendizagem. Pianezzola et al. (2006) partiram deste framework e

definiram uma ferramenta informatizada que permite a modelagem de ambientes complexos

de aprendizagem, utilizando os pressupostos construtivistas para a elaboração de ambientes

com o processo de ensino centrado em modelos.

Achtenhagen (2001) ressalta que os objetivos (goals) do aprendizado e o conteúdo são

pontos-chave em relação aos aspectos didáticos e devem ser abordados e discutidos na

modelagem de um ACA. O foco, então, está nos processos nos quais existe a necessidade de

modelar a realidade em relação aos objetivos do ensino e às descrições científicas da

realidade, montando unidades de conteúdo didático e processos de ensino e aprendizagem de

forma inter-relacionada. O autor ressalta que estes pontos, de modo geral, não são tratados

nem mesmo na elaboração dos currículos.

Algumas iniciativas do uso da tecnologia para o apoio ao processo educacional foram

desenvolvidas utilizando-se a inteligência artificial para a criação de Sistemas Tutores

Inteligentes. A expressão vêm da expressão, em inglês, intelligent tutoring systems (ITS). São

sistemas que visam adquirir, armazenar, transmitir e disseminar o conhecimento para que

possam dar suporte à aprendizagem (PIANEZZOLA et al., 2006). São considerados uma

evolução dos sistemas de instrução assistida por computadores (computer-assisted instruction

– CAI). Estes últimos são originários da área de educação, tendo por base as teorias

behavioristas (de Skinner). As suas estruturas e funções, geralmente, eram pré-definidas e o

conhecimento possuía uma estruturação em que os alunos eram avaliados somente pelas

últimas respostas. Dentre as modalidades, poderiam ser citadas: tutoriais, exercícios e

práticas, simulações e jogos educativos.

Uma sugestão para ultrapassar as características instrucionais dos Sistemas Tutores

Inteligentes (STI) é proposta por Akhras e Self (2002). Os autores relatam que o

conhecimento é construído individualmente pelos estudantes, que fazem seus experimentos

através da modelagem de situações, interações, processos e possibilidades. A primeira

necessidade é a de se ultrapassar a modelagem de estruturas pré-definidas, comuns nos STI e

em processos instrucionais. As estruturas podem ser diferentes para cada estudante. Por este

motivo, propõe-se que a modelagem necessária é a de situações representadas dentro de

contextos.

Akhras e Self (2002) ressaltam que pouco tem sido feito para que os contextos sejam

formalizados de modo que, em um ambiente de aprendizagem, se possa inferir sobre o que

ocorre durante a interação dos estudantes no processo de aprendizagem. Outro elemento

importante que os autores sugerem é a necessidade de ultrapassar a estruturação de modelos

cognitivos e enfocar os modelos de interações e processos. O aprendizado e a ação não podem

ser separados, pois o estudante deve passar por situações em que se interage e interpreta

experiências representadas por estas interações.

A abordagem de Pellegrino (2004) ressalta que a construção de um ACA deve ser

baseada em quatro aspectos essenciais, que são detalhados na sequência: construção do

conhecimento; estudantes; avaliação; comunidade.

a) construção do conhecimento: a construção de um ambiente de aprendizagem

deve ser realizada através de problemas com significados e objetivos apropriados,

apresentando contextos autênticos e atividades que proporcionem relacionamento

com a prática (PELLEGRINO, 2004; KARAGIORGI; SYMEOU, 2005). Os

autores sugerem o uso de elementos que permitam o engajamento do aluno, ou

seja, a sua motivação e o seu envolvimento (JONASSEN, 1994; SAVERY;

DUFFY, 1995; HERRINGTON; STANDEN, 2000; YOUNG, 2003; LEUNG,

2003);

b) estudante: a centralização do processo de ensino deve estar na pessoa do

estudante, sendo que, pela teoria construtivista, a atividade do mesmo sobre os

objetos a serem conhecidos é fundamental. É importante que o aluno defina o

melhor caminho para conduzir o seu aprendizado, e também que aprenda não

somente acumulando informações, mas refletindo sobre os contextos estudados e

as ações. Deve-se permitir a exploração não linear do material pedagógico

(ACHTENHAGEN, 2001; MONDADORI; SANTOS, 2006);

c) avaliação: a avaliação tem sido um dos elementos mais controversos em relação

aos ambientes de aprendizagem (PELLEGRINO, 2004; MONDADORI;

SANTOS, 2006). É importante que sejam criados ambientes em que seja possível

avaliar o processo do aprendizado. Ou seja, a avaliação deve ser de todo o

processo, representando uma avaliação formativa e não somente acumulativa,

referente a pontos específicos do processo de ensino e aprendizagem;

d) comunidade: é importantepermitir a criação de comunidades em que se promova

a colaboração entre os estudantes, fomentando as interações sociais. A abordagem

utiliza aspectos da teoria de Vygotsky (1988), com a necessidade de permitir aos

estudantes que realizem trocas de expertise, construção colaborativa do

conhecimento, articulação e negociações. Pellegrino (2004) ressalta que a

construção colaborativa, a troca de experiências, a negociação entre os estudantes

e a participação dos professores como orientadores pode ser positiva. Mondadori e

Santos (2006) sugerem a realização de sessões de discussão em grupos e a

realização de trabalhos em duplas ou grupos. Gilbert, Morton e Rowley (2007)

propõem levar em conta as diferenças individuais do estudante e também seus

estilos e preferências.

Além disto, dentro da abordagem com os ACA, também é necessário modificar-se a

adoção de estratégias de ensino definidas previamente. Além disto, se deveria enfocar a

construção e a modelagem de possibilidades, em que o aprendizado e o desenvolvimento do

estudante possam ocorrer quando ele encontra contextos com as possibilidades de que

necessita para elaborar e modificar suas próprias estruturas e enfrentar situações desafiadoras.

As estratégias não poderiam ser pré-determinadas (ACHTENHAGEN, 2001; AKRHAS;

SELF, 2002; PELLEGRINO, 2004; KARAGIORGI; SYMEOU, 2005).