The Rules of Attraction, The Informers e Glamorama
5. O Duplo e os Processos de Auto-referencialidade em Bret Easton Ellis
5.2. A “Monstruosidade Oculta” em American Psycho
5.2.3. Processo de Construção – Proximidades entre o Escritor e a Personagem
5.2.3.3. American Psycho, uma Herança do Puritanismo
De acordo com David Punter677, depois de Brown, Poe e Hawthorne terem lançado as bases do
género Gótico Americano, estavam definidos os motivos que levaram esse género literário a preocupar-se com a patologia da culpa, ligada ao Puritanismo e às fragmentações provocadas nos cidadãos e na sociedade pela vivência dos seus princípios. Como afirma Allan Lloyd-Smith em
American Gothic Fiction, “the predestinarianism underlying Calvinism represents man as helplessly
working out a fate he can only pretend to choose.”678 Tal como vimos no capítulo três desta
dissertação, a condenação eterna era, pois, uma certeza logo após o nascimento do ser humano. Essa ameaça era reforçada ao longo da vida, devido aos comportamentos provocados pela pressão social, pela educação e pela família. O conceito puritano da depravação inata transformava cada americano num pecador, que partilhava com todos o pecado original, trazido para o Novo Mundo pelos Founding
Fathers. A frase inicial do romance American Psycho é retirada do Canto III, nono verso, de Inferno,
primeiro livro da Divina Comédia (1321) de Dante. As palavras, sinistras e aterradoras, encontravam-se inscritas nos portões do Inferno, prestes a serem atravessados pelo protagonista: “ABANDON ALL HOPE YE WHO ENTER HERE.”679 No texto de Ellis, a frase profética
encontra-se escrita em graffiti vermelho-sangue nas paredes do Chemical Bank, em Nova Iorque. A ligação deste aviso à frase que encerra o romance, “THIS IS NOT AN EXIT”680, revela a conclusão
possível a que o autor chegou, depois de uma narrativa sobre excessos, caos e sofrimento. Como refere Sonia Baelo Allué, entre a primeira frase e a última “a spiral of violence and death is to follow.”681
Essa violência está envolta, desde o início da história, numa penumbra que nos obriga a um estado de constante incredulidade perante a narrativa de Bateman. Este estado de dúvida sobre a veracidade da acção aumenta quando verificamos que o protagonista não sofre quaisquer
676 Bret Easton Ellis, entrevista a Peter Murphy, acedido a 25/04/08, em: http://www.laurahird.com/newreview/breteastonellis.html.
677 David Punter, The Literature of Terror, p. 190. 678 Allan Lloyd-Smith , American Gothic Fiction, p. 70. 679 Bret Easton Ellis. American Psycho, p. 3.
680 Ibidem, p. 399.
681 Sonia Baelo Allué, “The Aesthetics of Serial Killing: Working Against Ethics in the Silence of the Lambs (1988)
consequências ou penalizações pelos crimes que afirmou cometer. Este sentimento paradoxal, fundamentado na dúvida permanente, remete-nos para o que sentiu Goodman Brown, protagonista do conto “Young Goodman Brown”, de Hawthorne, no dia seguinte às cerimónias na floresta. A incerteza sobre o que Brown presenciou entra em diálogo com a dúvida de Bateman, que sente dificuldade em acreditar nas suas próprias palavras: “All of it drawing to the true crescendo, in which you are left, afraid, in the dust, wondering if it was all real or not.”682 No final do conto de Hawthorne, Brown
afasta-se da mulher, Faith, e da comunidade, sentindo-se inseguro e vulnerável. Incapaz de compreender a verdadeira essência da natureza humana, o protagonista não teve a capacidade para entender a sua própria natureza. No final do romance de Ellis, Bateman não consegue vislumbrar qualquer alteração na sua forma de viver em sociedade, sendo por isso condenado, por si e pela própria sociedade, a permanecer do lado de dentro dos portões do Inferno. Embora tenham um desenlace diferente, os casos de Brown e Bateman partem de um motivo comum: a tentativa de explicar o inexplicável e a incerteza das suas alucinações, estas provocadas pela mente fragmentada. Este espaço de terror é caracterizado por Richard Chase como “the borderland of the human mind where the actual and the imaginary intermingle.”683
A expressão “evil is the nature of mankind”684, presente no conto de Hawthorne, pode ser
utilizada como justificação dos actos paranóicos de Patrick Bateman, cujo percurso se encontra ligado à obsessão puritana pela visão negativa do carácter humano. Esta noção reflecte-se no contexto doméstico e na relação com a família e com a comunidade, e que Hawthorne aprofunda em The
Scarlet Letter, fazendo o Mal nascer de uma família desestruturada e amaldiçoada pelo pecado do
adultério, clara fuga ao socialmente aceite. Em American Psycho, Bateman, mimetizando os juízes implacáveis de Salem, condena quem não segue os seus parâmetros sociais ou profissionais, excluindo todos os que não se parecem consigo, quer por excesso, quer por defeito: colegas de profissão com sucesso, pobres, sem-tecto ou prostitutas. A obsessão pela perfeição e a condenação de tudo o que possa representar infecção, contágio ou malformação natural pode ser encontrada em Hawthorne, no conto “The Birth Mark” (1843), quando o cientista Aylmer, em nome da pureza e da perfeição, provoca a morte da mulher, ao remover-lhe um sinal que esta tem na face. Há um exceder dos limites impostos pela ética e pela moral, quando este lado mais negro da sociedade se torna mais visível.
Lloyd-Smith refere ser da natureza do Gótico a preocupação com o lado negro da sociedade685,
frequentemente condicionada por motivos religiosos. Nos contos de Hawthorne, o discernimento das
682 In American Psycho Review, acedido em 23/05/08, em:
http://www.geocities.com/Athens/Forum/8506/Ellis/American.html. 683 Richard Chase, The American Novel and Its Tradition, p. 19.
684 Nathaniel Hawthorne, “Young Goodman Brown”. In The Scarlet Letter and Selected Tales, p. 327. 685 Allan Lloyd-Smith, American Gothic Fiction, p. 34.
personagens é afectado pela já referida “religious depravity that grotesquely distorts the mindscape”686,
que as conduz a angustiantes crises existenciais, bem como a atitudes condenáveis, provocadas por uma histeria mística. Na sua condição de protagonista-narrador e com as capacidades de raciocínio alteradas por diversos factores, entre os quais a droga, o álcool e alguma histeria social, Bateman elabora leituras muito pessoais da realidade e do mundo do qual activamente faz parte. Se Brown sonhou com as cerimónias na floresta, porque adormeceu quando se dirigia para a clareira, Bateman terá sofrido alucinações constantes devido à ingestão excessiva e continuada de droga e bebida. Os ambientes de depravação do século XIX, na Nova Inglaterra de Hawthorne, continuam a existir na Nova Iorque do século XXI de Ellis, onde a sociedade se caracteriza por viver e protagonizar, segundo Patrick O’Donnell, “the age of overexposure and pornography.”687 O homem não é hoje capaz de
maiores males do que os de épocas anteriores. O que marca a diferença, segundo Jung, é o facto de o homem possuir agora “incomparably more effective means with which to realize his propensity to evil.”688 Deste modo, as personagens dos romances de Bret Easton Ellis, envolvidas no mundo da
moda, da publicidade, do cinema e do consumismo, ao retirarem de forma arbitrária, e repetida, o prazer imediato do seu quotidiano, afastam-se, cada vez mais, da saída deste mundo infernal contido para além da terrífica inscrição dantesca. Refere o autor, no capítulo “End of the 1980s”:
Justice is dead. Fear, recrimination, innocence, sympathy, guilt, waste, failure, grief, were things, emotions, that no one really felt anymore. Reflection is useless, the world is senseless. Evil is its only permanence. God is not alive. Love cannot be trusted. Surface, surface, surface was all that anyone found meaning in… this was civilization as I saw it, colossal and jagged…689
O facto de Patrick Bateman sentir as suas máscaras prestes a cair, remete-nos para outro conto de Hawthorne, “The Minister’s Black Veil”, e para a expressão ameaçadora do pastor que avisa: “’There is an hour to come (…) when all of us shall cast aside our veils.”690 Há um princípio comum a
Bateman e ao pastor, mas com uma diferença quando nos referimos às consequências da queda da máscara. Quando Mr. Hooper alerta a comunidade para a revelação do pecado, dizendo que todos nós temos um dia de deixar cair o véu, provoca um sentimento de terror porque a revelação dos pecados se torna comprometedora e condenável. Em Bateman, a iminente queda das máscaras e a consequente exposição da sua verdadeira identidade revelam-se motivo de terror, por estar prestes a ser desocultado, perante os outros e perante si próprio, o seu lado mais desprotegido, a sua identidade
686 Ibidem, p. 53.
687 Patrick O'Donnell: “Engendering Paranoia in Contemporary Narrative”. In boundary 2, Vol. 19, No. 1, New
Americanists 2: National Identities and Postnational Narratives, (Spring, 1992), p. 193. Acedido a 22/07/08, em:
http://www.jstor.org/stable/303455.
688 C. G. Jung, “The Undiscovered Self”. In Selected Writings, p. 194. 689 Bret Easton Ellis, American Psycho, p. 375.
zero. Numa linguagem mais próxima da de Poe, podemos concluir que a parede erguida que ocultava dos outros as suas fragilidades estava prestes a desmoronar-se.
Em Poe, Hawthorne ou em Ellis, os comportamentos ambivalentes situam-se para além do entendimento dos comuns mortais. Fica claro, porém, tanto em “The Minister’s Black Veil” como em
American Psycho, que a crítica é direccionada a uma sociedade ameaçada pelo Mal que ela própria
origina e promove, independentemente da época e das diferentes nuances comportamentais dos seus elementos. Hawthorne e Ellis vêm alertar a sociedade para os perigos da intolerância, do consumismo e do radicalismo, levando todos a desconfiar do próprio sistema que ajudam a manter, mas do qual querem sair, sem sucesso. Na Nova Inglaterra de Nathaniel Hawthorne o Mal podia ser combatido com a oração e a condenação à fogueira dos que, aliados ao Diabo, punham em causa o equilíbrio da civilização. Em Ellis, porém, o Mal não é representado abstractamente por uma figura mefistofélica que possa ser combatida com o Bem. Para o autor de American Psycho, o Mal é uma figura fisicamente presente na sociedade americana, simbolizado, segundo Suglia, pelo “money-grubbing, racist, homophobic and misogynistic yuppie businessman: the axis and apotheosis of American culture.”691