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“The Imp of the Perverse” e “William Wilson”

3.4. O leitor e os seus Duplos

Madness lies in the reading.357

Scott Brewster, “Seeing Things: Gothic and the Madness of Interpretation”

Os estados de espírito ambivalentes, articulados à volta dos variados conflitos assumidos pelas personagens de ficção, formam um conjunto de situações que não podem deixar de atrair o leitor. Muitas vezes, o despertar de sentimentos provenientes de terrores sentidos pelo próprio leitor, igualmente impossíveis de verbalizar, torna-se mais eficaz com a inclusão, por parte do autor, de um protagonista-narrador na sua história. Esta técnica é frequentemente utilizada por Poe nos seus contos, com o objectivo de provocar uma situação intimista causada pela existência de um narrador de primeira pessoa, que age junto do leitor como se este fosse o único a quem vai confiar os seus segredos. O leitor fica, assim, com a ilusão de ser o confidente eleito pelo próprio autor. Recordemos, a título de exemplo, e apenas para focar os mais representativos, “William Wilson”, “The Fall of the House of Usher” (1839), “Ligeia” (1839), “The Man of the Crowd” (1840), “Eleanora” (1841), “The Pit and the Pendulum” (1842), “The Oval Portrait”, “The Tell-Tale Heart” (1843), “The Black Cat” (1843), “The Oblong Box” (1844), “The Imp of the Perverse” (1845) e “The Cask of Amontillado” (1846). Contudo, devido ao envolvimento excessivo do leitor, há o risco de se perder o necessário distanciamento estético, porque quem lê sente-se “implicado nos problemas dos narradores por estes o

355 Maria Antónia Lima, Terror na Literatura Norte-Americana, Vol. II, p. 276. 356 T. S. Eliot, “Hamlet”. In Essays, p. 145.

357 Scott Brewster, “Seeing Things: Gothic and the Madness of Interpretation”. In A Companion to the Gothic, p. 291.

colocarem muito perto das suas experiências terríficas.”358 No entanto, na opinião de Terry Heller, essa

proximidade provoca ansiedade no leitor, o que se pode considerar positivo, porque torna mais eficaz esse prazer estético do terrível359.

Se a leitura é também um sintoma da necessidade do leitor de transgredir algumas barreiras, este acto possui, tal como o da escrita, elementos de perversidade que levam Scott Brewster a defender que a fonte da loucura é o próprio texto, ponto de contacto entre o escritor e o leitor: “We should not look outside a text for the source of its madness: madness is already ‘here’, haunting and driving the act of reading.”360 Stephen King analisa a questão de uma forma mais simples. Diz o escritor que a

atracção do leitor pelo livro tem a ver com o facto de o leitor se identificar com a história, mas não tanto em termos psicológicos: “This happens, I think, when readers recognize the people in a book, their behaviors, their surroundings, and their talk. When the reader hears strong echoes of his or her own life and beliefs, he or she is apt to become more invested in the story.”361 Na opinião de Harry

Mathews, no artigo “For Prizewinners” (1999), o interesse do leitor pela narrativa é conseguido

através de uma estratégia mais ligada à maneira como o texto está estruturado. Refere o crítico que o escritor deve ser cuidadoso ao ponto de fornecer ao leitor os materiais e o espaço necessários para a criação de uma experiência. Poe, como já foi explicado, escrevia as suas histórias condicionando a sua criatividade de acordo com a necessidade estética de provocar determinadas emoções no leitor, não escrevendo por isso qualquer palavra ao acaso. O acto de leitura é, assim, “an act of creation for which the writer provides the means.”362 Por isso, é natural que, à semelhança do que se passa com o autor

no acto da escrita, o leitor se sinta projectado nas personagens, nos cenários e na acção, criando, paralelamente à versão do escritor, uma realidade que, embora identifique com a sua, seria incapaz de reproduzir na vida real, com a clareza, a linearidade e a lógica a que o texto literário obriga. Desta forma, poder-se-á entender o modo como o processo de fragmentação do Eu atinge também, ainda que teoricamente, o leitor. Ao serem contaminadas por esta ambivalência gótica, as emoções do leitor tornam-se também ambivalentes, de tal forma que este pode chegar ao ponto de se sentir um Duplo do próprio escritor. De forma igualmente paradoxal, o terror provoca no leitor “não só repulsa e afastamento, mas também atracção e fascínio”363, tornando-o admirador deste género de literatura, ao

encarar as personagens das histórias como uma projecção de si próprio, como se fossem os seus próprios Duplos. Este facto justifica a insistência de Brewster na ideia de que “madness lies in the reading.”364 É esse fascínio que Grixti, em consonância com as teorias que William James publicou na

358 Maria Antónia Lima, Terror na Literatura Norte-Americana, Vol I, p. 61. 359 Apud Maria Antónia Lima, Terror na Literatura Norte-Americana, Vol I, p. 61.

360 Scott Brewster, “Seeing Things: Gothic and the Madness of Interpretation”. In A Companion to the Gothic, p. 285. 361 Stephen King, On Writing, p. 125.

362 Harry Mathews, “For Prizewinners”. In The Review of Contemporary Fiction, p. 86. 363 Maria Antónia Lima, Terror na Literatura Norte-Americana, Vol. I, p. 54.

sua obra Principles of Psychology (1890), refere ter origem num “impulse aboriginal character.”365 Tal

impulso encontra-se relacionado com a ideia de que todos os seres humanos são maus e predadores por natureza, indo ao encontro do fenómeno da fragmentação em Dr. Jekyll: “There is a beast within us which causes us to commit evils that our rational selves blush to think of.”366 A atracção

irreprimível pela violência e o prazer mórbido pelas narrativas góticas levam o escritor a criar universos com aquelas características: ele sabe que existe um público, cujos sentimentos não serão muito diferentes, na sua origem, do fascínio e do prazer sentidos pelo autor durante a produção dos textos. Assim, podemos afirmar que as histórias onde o impulso para o crime leva cidadãos, ditos comuns, a transformarem-se em psicopatas, são as que mais atraem o leitor deste género literário. Este é levado, de forma irracional, a temer duplamente tal ameaça: a possibilidade de ser agredido por um psicopata, que pode ser o seu melhor amigo ou, talvez mais assustador ainda, a eventualidade de poder ser ele o psicopata. Julgamos estar justificado o título do livro de Robert Simon sobre o lado negro do comportamento humano: os homens maus executam na prática os sonhos dos homens bons. Afinal, como observa Maria Antónia Lima no seu artigo “Monstros intelectuais, uma monstruosidade oculta” (2006), o fascínio e, ao mesmo tempo, a inquietação que os monstros nos provocam têm a ver com o facto de eles terem sido criados à nossa imagem e semelhança. Como conclui a autora, “os monstros somos nós.”367 Tal como em Poe, o medo da desagregação psíquica, que atinge as personagens e que

as leva aos actos mais horríveis, contagia o leitor, que cria uma tal relação de envolvimento com o universo proposto pelo escritor que, perversamente, não consegue deixar de ler o que o assusta.

A propósito, recordemos o filme In the Mouth of Madness (1995) de John Carpenter, no qual também a ficção e a realidade se misturam de forma perversa e que tem a leitura e as suas consequências nefastas como ponto de partida da narrativa. Numa clara referência a “At the Mountains of Madness” (1936), um conto de H. P. Lovecratf, embora sobre uma temática diferente, o filme narra a história do desaparecimento de um famoso escritor de romances de terror, Sutter Cane, cuja escrita afecta negativamente o comportamento dos seus leitores. Tal facto leva-nos a supor que a leitura de determinadas obras, em especial as conotadas com o modo Gótico, pode exercer efeitos negativos sobre as pessoas que deixam de ser capazes de separar a realidade da ficção. Em Lunar Park, Ellis envolve-nos numa narrativa onde existe um assassino à solta que utiliza nos seus crimes o mondus

operandi do psicopata Patrick Bateman, protagonista de outro romance do mesmo autor. No

seguimento desta ideia, é possível entender as razões que levam o narrador de The Picture of Dorian

Gray (1891) a afirmar, sublinhando a influência que a leitura de um determinado livro exerceu no

364 Scott Brewster, “Seeing Things: Gothic and the Madness of Interpretation”. In A Companion to the Gothic, p. 291.

365 Joseph Grixti, Terrors of Uncertainty, p .88. 366 Ibidem, p. 86.

comportamento da personagem central do romance: “FOR YEARS, Dorian Gray could not free himself from the influence of this book. Or perhaps it would be more accurate to say that he never sought to free himself from it.”368 Tal como os leitores afectados em In the Mouth of Madness, também

a personagem do romance de Wilde fora “envenenada” pela leitura: “Dorian Gray had been poisoned by a book.”369 Estas influências nefastas têm como principal motivo o facto de a personagem de Wilde

acreditar que a sua vida teria servido de modelo para a história que se encontrava a ler, visto que “the whole book seemed to him to contain the story of his own life, written before he had lived it.”370

Acrescente-se que, se esse envenenamento tem sido, até aqui, referido como psíquico e matafórico, tal não se poderá dizer sobre o tema do romance Il nome della rosa (1980) de Umberto Eco, em que os frades de uma abadia beneditina foram, literalmente, envenenados por um livro. Ler revelou-se, sem dúvida, fatal.