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“The Imp of the Perverse” e “William Wilson”

3.6. O Duplo como Psicopata

Alguns dos protagonistas das obras referidas até aqui, para além de escritores e professores de Escrita Criativa, são também psicopatas. À primeira vista, não é fácil entender o elo existente entre esta profissão e o crime levado a efeito por personagens que seriam incapazes de tais actos. No entanto, se seguirmos ainda o ponto de vista de Grixti, que considera a literatura de terror um meio de libertação dos “excesses of build-up psychic energy in order to maintain healthy equilibrium”372,

concluímos que o escritor utiliza a própria literatura para, quer através do acto da criação, quer através da projecção nas personagens que inventa, libertar os seus instintos mais primitivos e destruidores, que o podem impelir para actos puníveis pela lei ou pela consciência. No caso do artista em geral, e no do escritor em particular, tratar-se-á de simular a prática de um crime que fica automaticamente legitimado pela arte, tornando aceitável o que é condenável, ou transformando o horrendo em algo sublime. O escritor norte-americano Stephen King, autor de inquietantes histórias de terror, com

milhões de exemplares vendidos em todo o mundo e com muitas delas adaptadas ao cinema, ajuda-nos a compreender a razão de, numa mesma personagem, existirem o escritor e o assassino, ambos Duplos do autor que os criou. No capítulo “Toolbox” de On Writing, um texto de características autobiográficas e uma reflexão sobre a sua própria escrita e sobre o seu processo criativo, este escritor explica como nasce um texto de ficção, entrando em diálogo com Maggie Kilgour, quando refere o monstro de Frankenstein como alegoria da Criação. King sublinha a importância das palavras e a relação destas com as emoções que o escritor pretende transmitir:

Words create sentences; sentences create paragraphs; sometimes paragraphs quicken and begin to breathe. Imagine, if you like, Frankenstein’s Monster in its stab. (…) You feel as Victor Frankenstein must have when the dead conglomeration of sewn-together spare parts suddenly opened its watery yellow eyes. Oh my God, it’s breathing, you realize. Maybe it’s

even thinking. What in hell’s name do I do next? 373

Seguindo este paralelismo, torna-se claro que a obra literária, e sobretudo a literatura Gótica, possa ser considerada produto de um excesso, de um desejo de ultrapassar os limites traçados pela consciência e pela moral. Consciente dessa perversidade, e ao sentir necessidade de reflectir sobre esse sentimento que domina todo o seu processo criativo, o autor procura escrever sobre os seus sentimentos mais obscuros, de forma a trazê-los à luz. E fá-lo através da escrita e, sobretudo, através da criação de personagens que exercem a sua própria actividade profissional. King, referido por Bret Easton Ellis como uma das suas principais influências, assume a escrita como um processo de auto-conhecimento. A determinada altura do seu ensaio, o autor revela que o texto de The Shining tinha sido produzido sob o efeito do álcool e, como sentira necessidade de chamar a atenção para o grave problema que então atravessava, a escrita foi uma das formas que conseguiu utilizar para pedir ajuda e lançar para o exterior sinais do seu desespero. Após esta confissão, King conclui: “I was, after all, the guy who had written The Shining without even realizing (at least until that night) that I was writing about myself.”374 Neste caso específico, o seu percurso para um auto-conhecimento

concretizava-se nas descrições das perturbações psicológicas sofridas pelo escritor Jack Torrance. Este, movido por acessos de ansiedade e terror provocados pelo acto da escrita e levado por um impulso que não conseguia controlar, perseguiu a família até à morte, devido, segundo Maria Antónia Lima, “a um enorme sentimento de tédio e vazio vividos na solidão do Overlook Hotel.”375 King refere

uma outra história que escreveu na época em que se encontrava mergulhado no álcool e na heroína,

The Tommyknockers (1987), sobre uma escritora que descobre uma nave espacial extraterrestre

enterrada no quintal com a tripulação em hibernação. Ao serem despertados, os tripulantes apoderam-

373 Stephen King, On Writing, p. 104. 374 Ibidem, p. 71.

se da mente das pessoas, que entregam a alma para se libertarem dos invasores. King confessa: “It was the best metaphor for drugs and alcohol my tired, overstressed mind could come up with.”376

De facto, e criando alguma relação com a célebre frase de Wilde, há fases da vida de Stephen King que parecem ter saído de alguns dos seus romances, tal a identificação entre o escritor e alguns dos protagonistas que criou. É também sob o efeito do álcool, e nessa altura também já viciado em drogas, que escreve Misery (1987), perseguido por um pensamento que o aterrorizava constantemente: “I had no idea of how to live any other life. (…) What would happen to me without dope?”377 Este

comportamento duplo não seria muito diferente das atitudes levadas a cabo pelas suas personagens-escritores: Ben Mears em Salem’s Lot (1975), Jack Torrance em The Shining, Paul Sheldon em Misery, Thaddeus Beaumont em The Dark Half ou mesmo Mort Rainey em Secret

Window, Secret Garden (1990). Todos acabam por revelar comportamentos duplos e paradoxais,

deixando vir à superfície os seus instintos criminosos, originados pelo medo e, paradoxalmente, pela obsessão que lhes provoca a sua própria escrita378. Em On Writing, verificamos também que um dos

interesses que, na sua perspectiva, pode dar origem a um romance, é a atracção que a violência exerce em pessoas fundamentalmente boas, como acontece em The Shining e em The Dark Half 379.

Ao criar personagens que exercem a profissão de escritores, tal como procedeu Ellis no seu último romance, King pretende reflectir e fazer reflectir sobre os aspectos que envolvem o acto criativo, mostrando que estes escritores são seres solitários, em constante conflito consigo próprios, com a família e com as obras que criam. Numa atitude rodeada de um certo desejo perverso, constroem uma projecção de si próprios, como forma de melhor conhecerem os mecanismos do seu trabalho como artistas, e concluem o que King revela na referida autobiografia: “Writing is a lonely job”380. Tal estatuto transforma os actos da escrita e da auto-reflexividade num círculo vicioso,

interminável e paranóico. Nesta linha de pensamento, somos levados a questionar se os universos ficcionais não serão, muitas vezes, mais importantes e mais reais para quem os cria do que o mundo real onde vivem. É José Luís Peixoto que, a propósito do seu último livro, Cal (2007), confessa, numa entrevista, o que se pode integrar nesta sequência de ideias:

A minha vida é bipolar: ora estou fora de casa em acções de promoção dos livros, (…) ora não saio de casa absorvido com a escrita. (…) Sou obsessivo para o melhor e para o pior. O aspecto positivo disto é que estes são períodos de escrita fulgurantes. Passam-se dias em que o mundo real é o ficcional. Como mal e durmo pior entre outros pormenores calamitosos. Mas escrevo. Escrevo sempre.381

376 Stephen King, On Writing, p. 71. 377 Ibidem, p. 70.

378 Maria Antónia Lima, Terror na Literatura Norte-Americana, Vol. I, p. 85. 379 Stephen King, On Writing, p. 165.

380 Ibidem, p. 51.

O escritor português confirma o que já aqui foi exposto: a profissão de escritor é um trabalho solitário e que, atingindo por vezes momentos de algum desequilíbrio, pode conduzir, se não à insanidade, pelo menos a um caminhar constante à beira do precipício. Ao analisar o comportamento dos escritores-protagonistas dos romances acima referidos, o acto da escrita, para além de solitário, pode tornar-se perigoso. A situação de perigo ameaça não só o escritor, que se confronta com as dúvidas e medos que trazem o seu dark side à superfície, mas também com os que o rodeiam, sentindo estes uma natural dificuldade em entender o que se passa com o escritor. Tal situação ocorre em The

Shining, onde a família de Jack Torrance se tornou manifestamente incapaz de compreender um

homem afectado pela própria escrita e impossibilitado de distinguir a realidade da ficção, devido à alteração da sua personalidade, provocada também pelas memórias de infância: “Jack (…) knew exactly how many blows it had been because each soft whump against his mother’s body had been engraved on his memory like the irrational swipe of a chisel on stone. Seven whumps. No more, no less.”382

Como já tivemos oportunidade de observar, a necessidade de tornar a escrita num processo de auto-conhecimento por parte do escritor é uma questão transversal à maioria das obras do género Gótico. Também Bret Easton Ellis vai sentir o efeito da sua escrita e sofrer a perseguição de um romance de 1991 – American Psycho – que o irá assombrar no decorrer da narrativa de Lunar Park.