Comentário Sobre o Texto I Ascensão e “ Reinado” de Samuel
III. Ascensão e Reinado de Davi (ISm 15.1—2Sm 8.18)
6) Amigos Ampliam Aliança (23.15-18) 15Vendo, pois, Davi que Saul saíra à busca de
sua vida, esteve no deserto de Zife, em Hores. l6Então se levantou Jônatas, filho de Saul, e foi ter com Davi em Hores, e o confortou em Deus; 17e disse-lhe: Não temas; porque não te achará a mão de Saul, meu pai; porém tu reinarás sobre Israel, e eu serei contigo o segundo; o que também Saul, meu pai, bem sabe. 18E ambos fizeram aliança perante o Senhor; Davi ficou em Hores, e Jônatas voltou para sua casa.
Em seguida a sua retirada de Queila, Davi dirigiu seus homens vinte e cinco a trinta quilômetros mais ao sudeste, para o deserto de Judá, a leste de Zife e Maom. Essas cidades, localizadas respectivamente a cinco quilômetros e meio e a treze quilô metros e meio ao sul de Hebrom, jazem ao longo das partes mais elevadas da árida encosta ocidental que desce para o Mar Morto. Esse território propiciou a Davi e seus homens alguma pastagem e conside rável proteção, embora a persistente perseguição por Saul (23.14) tornasse difícil ocultar-se.
Bem quando as crescentes pressões da vida clandestina de Davi estavam para
minar sua fé e sua vontade de resistir, Jônatas apareceu, novamente querendo paz com seu amigo. A aliança que foi firmada aqui no deserto de Zife marca um decidido progresso além de quaisquer outras alianças anteriormente feitas entre os dois homens. Estritamente falando, essa era uma proposta para formar um governo de coalizão, com Davi como chefe e Jônatas como a segunda pessoa em importância.
A narrativa biblica não apresenta qual quer informação sobre os acontecimentos que conduziram ao encontro de Davi e Jônatas, e nenhuma interpretação de seu significado para Israel se faz notar. Con tudo, podemos especular que a aliança de Zife foi o resultado de planejamento cuida doso da parte dos dois jovens. Ambos entenderam que o profundo abismo que se desenvolvia dentro de Israel era o resultado da insegurança e temor irracionais de Saul, que forçaram Davi a sair da corte do rei. Igualmente podiam prever que a preo cupação de Saul com a perseguição a Davi estava reabrindo caminho para um ressur gimento do poder filisteu (cf. 23.1-14,27; 28.1—31.13). Do jeito como tudo se achava, nem Davi nem Jônatas conseguiriam formar um governo viável sem a colabo ração do outro, porque cada um deles era respaldado por grupos que representavam interesses por demais poderosos para serem ignorados.
Uma coalizão, entretanto, ainda era possível. Conquanto a paciência e fé de Davi tivessem diminuído bastante, ele não havia empregado suas forças contra Israel. Jônatas, de sua parte, estava em posição de garantir que Saul não conseguiria capturar seu amigo Davi. Juntos seriam capazes de restabelecer um governo pací fico para Israel. Primeiro, porém, era pre ciso levar Saul em conta.
Desde o princípio da doença de Saul, nem Jônatas nem Davi têm sido descritos em ações que fossem contrárias aos mais elevados interesses do rei. Conquanto esti vessem convencidos de que o Senhor estava em processo de demonstrar seu apoio ao
reinado de Davi, não devia haver qualquer idéia de, à força, remover Saul do trono. Eles tinham de esperar pacientemente e aguardar que o Senhor tratasse com Saul segundo a sua vontade e seu próprio tempo. Ikmbéin Saul, meu pai, bem sabe (veja comentário sobre 24.16-22).
7) Zifeus Traem Davi (23.19-29)
19Então subiram os zifeus a Saul, a Gibeá, dizendo: Não se escondeu Davi entre nós, nos lugares fortes em Hores, no outeiro de Haquila, que está à mão direita de Jesimom?20Agora, pois, 6 rei, desce apressadamente, conforme todo o desejo da tua alma; a nós nos cumpre entregá-lo nas mãos do re i.21 Então disse Saul: Benditos sejais vós do Senhor, porque vos compadecestes de mim. 22Ide, pois, informai-vos ainda melhor; sabei e notai o lugar que ele freqüenta, e quem o tenha visto ali; porque me foi dito que é muito astuta 23Pelo que atentai bem, e informai-vos acerca de todos os esconde rijos em que ele se oculta; e então voltai para mim com noticias exatas, e eu irei convosco. E há de ser que, se estiver naquela terra, eu o buscarei entre todos os milhares de Judá. MEles, pois, se levan taram e foram a Zife adiante de Saul; Davi, porém, e os seus homens estavam no deserto de Maom, na campina ao sul de Jesimom.25 E Saul e os seus homens foram em busca dele. Sendo isso anunciado a Davi, desceu ele à penha que está no deserto de Maom. Ouvindo-o Saul, foi ao deserto de Maom, a perseguir Davi. “ Saul ia de uma banda do monte, e Davi e os seus homens da outra banda. E Davi se apressava para escapar, por medo de Saul, porquanto Saul e os seus homens iam cercando a Davi e aos seus homens, para os prender. 27Nisso veio um mensageiro a Saul, dizendo: Apressa-te, e vem, porque os filisteus acabam de invadir a terra. “ Pelo que Saul voltou de perseguir a Davi, e se foi ao encontro dos filisteus. Por esta razão aquele lugar se chamou Selá-Hamalecote. 29Depois disto, Davi subiu e ficou nos lugares fortes de En-Gedi.
Este é o primeiro de dois relatos de uma tentativa pelo povo de Zife de entregar Davi nas mãos de Saul (cf. 26.1-25). Em ambos os contextos, a tradição dos zifeus precede imediatamente uma experiência em que Davi demonstra seu respeito por Saul como o ungido do Senhor, após o rei ter milagro samente ficado ao alcance de Davi. Numerosos outros paralelos também existem (cf. 23.19 e 26.1; 24.2 e 26.2; 24.16 e 25.17; 24.30 e 26.25; 24.22 e 26.25). Os dois relatos respaldam mutuamente a auten-
ticidade histórica em geral da experiência, mas é difícil ter certeza acerca das circunstâncias que cercam o incidente básico.
O acordo entre Davi e Jônatas para formar um governo de coalizão para Israel (cf. 23.15-18) ainda se deparava com um problema básico: Saul permanecia no trono e continuava perseguindo Davi. Os zifeus, bem cientes do poderio e espírito de vingança de Saul, estavam preparados para entregar Davi da mesma forma como o povo de Queila estivera antes deles (23.1-14). Sabendo que os fora-da-lei de Davi tinham sido vistos no deserto ao redor de Maom, Saul e suas forças estavam inspecionando aquela área quando notícias de um ataque filisteu contra Israel chegaram ao rei. Saul interrompeu a busca e retirou-se para combater os filisteus sem saber que Davi estava logo ali depois da próxima escarpa. Indubitavelmente, gerações posteriores assi nalaram uma montanha específica onde Davi tinha por tão pouco escapado de ser capturado por Saul: Por esta razão aquele lugar se chamou Selá-Hamalecote, sendo Selá-Hamalecote termo hebraico que signi fica “a penha de escape”.
A providência divina novamente se revelou no espetacular livramento de Davi, cuja captura pelo rei era quase certa. O chocante contraste entre as personalidades de Saul e Davi é visto na comparação deste incidente com o que se segue.
8) Saul Entregue a Davi (24.1-22) a. Davi Poupa Saul (24.1-15)
‘Ora, quando Saul voltou de perseguir os filis teus, foi-lhe dito: Eis que Davi está no deserto de En-Gedi. 2Então tomou Saul três mil homens esco lhidos dentre todo o Israel, e foi em busca de Davi e dos seus homens, até sobre as penhas das cabras monteses. 3E chegou no caminho a uns currais de ovelhas, onde havia uma caverna; e Saul entrou nela para aliviar o ventre. O ra Davi e os seus homens estavam sentados na parte interior da caverna. 4Então os homens de Davi lhe disseram: Eis aqui o dia do qual o Senhor te disse: Eis que entrego o teu inimigo nas tuas mãos; far-lhe-ás como parecer bem aos teus olhos. Então Davi se levantou, e de mansinho cortou a orla do manto de Saul.
5Sucedeu, porém, que depois doeu o coração de Davi, por ter cortado a orla do manto de Saul. 6E disse aos seus homens: O Senhor me guarde de que eu faça tal coisa ao meu senhor, ao ungido do Senhor, que eu estenda a minha mão contra ele, pois é o ungido do Senhpr. 7Com essas palavras Davi conteve os seus homens, e não lhes permitiu que se levantassem contra Saul. E Saul se levantou da caverna, e prosseguiu o seu caminha “Depois também Davi se levantou e, saindo da caverna, gritou por detrás de Saul, dizendo: Ó rei, meu senhor! Quando Saul olhoii para trás, Davi se inclinou com o rosto em terra, e lhe fez reverência. ’Então disse Davi a Saul: Por que dás ouvidos às palavras dos homens que dizem: Davi procura fazer-te mal? 10Eis que os teus olhos acabam de ver que o Senhor hoje te pôs em minhas mãos nesta caverna; e alguns disseram que eu te matasse, porém a minha mão te poupou; pois eu disse: Não estenderei a minha mão contra o meu Senhor, porque é o ungido do Senhor. nOlha, meu pai, vê aqui a orla do teu manto na minha mão, pois cortando-te eu a orla do manto, não te matei. Considera e vê que não há na minha mão nem mal nem transgressão alguma, e que não pequei contra ti, ainda que tu andes à caça da minha vida para ma tirares. lzJulgue o Senhor entre mim e ti, e vingue-me o Senhor de ti; a minha mão, porém, não será contra ti. 13Como diz o provérbio dos antigos: Dos ímpios procede a impiedade. A minha mão, porém, não será contra ti. 14Após quem saiu o rei de Israel? a quem persegues tu? A um cão morto, a uma pulga! 15Seja, pois, o Senhor juiz, e julgue entre mim e ti; e veja, e advogue a minha causa, e me livre da tua m ãa
Após escapar por pouco de ser pego por Saul no deserto de Zife, Davi dirigiu-se uns 25 quilômetros para o leste, entrando no deserto de Judá até chegar a uma área que margeava o Mar Morto. A vida nessa área é basicamente sustentada por uma fonte de águas quentes chamada En-Gedi, que emerge das rochas quase 120 metros acima do Mar Morto. O território circunvizinho, exceto o oásis adjacente à fonte, é árido e acidentado, sendo assim ideal para fugitivos em busca de esconderijo.
A narrativa bíblica não registra o resul tado da expedição de Saul contra os filis teus. Pode ter-se tratado de um rápido ataque de fustigação ou mesmo um alarme falso, pois não se registra qualquer batalha. Não obstante, mais uma vez o rei não deixaria de procurar Davi. Com três mil homens de elite, Saul seguiu a Davi até En-
-Gedi. Uma vez mais, porém, o Senhor interveio. Desta vez para entregar Saul nas mãos de Davi.
Davi estava agora em condições de, numa oportunidade aparentemente dada por Deus, remover o último obstáculo que bloqueava o plano seu e de Jônatas para restaurar a estabilidade do governo de Israel (23.15-18). O rei poderia ser morto, ou mesmo capturado, e a dissipação das ener gias de Israel, acarretada por sua perseguição a um súdito leal, teria fim. Com Saul fora do caminho, um governo de coalizão poderia ser estabelecido, devol vendo assim a razão e a ordem à estrutura política de Israel.
Davi, contudo, não estava ansioso por tomar controle pessoal de questões sob juris dição divina. Diferentemente de Saul, ele estava disposto a aguardar o tempo divi namente apontado (cf. 13.1-15) para levar a efeito a ordem do Senhor (cf. 15.1-23). Davi, portanto, controlou seus homens, que recomendavam a pronta execução de Saul, e, em vez disso, apenas cortou a barra do seu manto.29 Se Saul devia ser deposto como rei de Israel, Deus teria de prover seus próprios meios para depô-lo. Davi não ergueria a mão contra o ungido do Senhor.
Não obstante, a oportunidade devia ser totalmente aproveitada. Mostrando a barra do manto de Saul para provar que o rei havia realmente estado à mercê dele, Davi repre endeu Saul por sua insistente disposição em considerá-lo desleal.
b. Saul Admite a Injustiça (24.16-22) 16Acabando Davi de folar a Saul todas estas palavras, perguntou Saul: É esta a tua voz, meu filho Davi? Então Saul levantou a voz e chorou. 17E disse a Davi: Di és mais justo do que eu, pois me recompensaste com bem, e eu te recompensei com mal. 18E tu mostraste hoje que procedeste bem para comigo, por isso que, havendo-me o Senhor entregado na tua mão, não me mataste.
29 M cK ane (p. 148,149) sugere que n o co rtar o m anto do rei, Davi uniu*se a Sam uel era rejeitar Saul como o ungido do Senhor (cf. 15.27). Isto explicaria sua contrição diante de seu a to (v. 5 -7)quando veio a perceber a natureza duradoura da bênção de Deus. Observe- -se a sem elhança deste ato com o de Aias (lR s 11.26*40).
19Pois, quem há que, encontrando o seu inimigo, o deixará ir o seu caminho? O Senhor, pois, te pague com bem, pelo que hoje me fizeste.20Agora, pois, sei que certamente hás de reinar, e que o reino de Israel há de se firmar na tua mão. 21Portanto jura- -me peio Senhor que não desarraigarás a minha descendência depois de mim, nem extinguirás o meu nome da casa de meu pai. 2ZEntão jurou Davi a Saul. E foi Saul para sua casa, mas Davi e os seus homens subiram ao lugar forte.
Davi provou que era inocente de intenções traiçoeiras, recusando-se a matar Saul na caverna de En-Gedi. O rei, portanto, foi forçado a admitir que suas suspeitas quanto a Davi tinham sido injustas o tempo todo e que ele tinha estado tratando injus tamente seu súdito. Davi provara a si mesmo que era um homem superior ao manter sua compostura diante da séria provocação e por recusar a violar sua integridade, retri buindo o mal com o mal. Ao reconhecer tal fato, Saul estava admitindo que não tinha mais condições para governar. A administração de justiça era uma respon sabilidade básica do rei, e seu julgamento tinha-se provado seriamente deficiente.
À luz de sua confissão de que era injusto, Saul reconheceu que Davi reinaria em Israel; e pediu um tratamento magnânimo para sua família quando Davi chegasse ao poder. Esta passagem é geralmente consi derada tão-somente uma declaração antecipada do papel que Davi iria futura mente desempenhar em Israel (Hertzberg, p. 197; McKane, p. 147). Como tal, porém, está apenas remotamente ligado à situação difícil de Davi em En-Gedi. O reconheci mento por Saul aparentemente significou muito pouco para Davi em termos de enco rajamento, e nada significou para Saul se julgarmos por suas atitudes.
Por outro lado, as declarações de Saul fora da caverna em En-Gedi são notavel mente semelhantes às de Jônatas quando se. encontrou com Davi no deserto de Zife (23.15-18). Ali ambos fizeram aliança para estabelecer um governo de coalizão com Davi à frente e Jônatas como o segundo em importância. Parece mesmo que as negociações de Jônatas foram feitas com
pleno conhecimento de seu pai e sua apro vação: “E [Jônatas] disse-lhe: Não temas; porque não te achará a mão de Saul, meu pai; porém tu reinarás sobre Israel, e eu serei contigo o segundo; o que também Saul, meu pai, bem sabe” (23.17).
É verdade que as ações de Saul subse qüentes à visita de Jônatas não refletem qualquer disposição de sua parte em renun ciar a seu reinado. Não obstante, Saul pode ter encorajado essa aliança e a amizade de Jônatas para com Davi para dar a seu inimigo uma falsa sensação de segurança. Caso soubesse das intenções do pai, Jônatas jamais teria empreendido tal missão, mas Saul parecia capaz de enganar seu próprio filho a fim de alcançar seus propósitos (cf. 20.3).
Se Saul de fato tentou ludibriar Davi com uma aliança falsa, seu conluio com os zifeus foi ainda mais condenável. Igualmente, o ato pelo qual Deus frustrou seus planos na Psnha de Escape (23.28) foi ainda mais apropriado, porque a traição de Saul fora inútil e o Senhor o havia entregue às mãos de Davi em En-Gedi. A poderosa demons tração divina de apoio a Davi forçou Saul a estabelecer um acordo ainda menos vanta joso do que aquele que Jônatas fizera com Davi em Zife. Desta vez Jônatas não foi mencionado, mas Davi reafirmou seu compromisso anterior de agir generosa mente para com a família de Saul (Jônatas) (20.42).
É possível que Saul nunca tenha dese jado cumprir sua parte neste novo acordo, e Davi certamente teve todos os motivos para ser cauteloso. Ainda mais desconfiado da integridade de Saul do que antes, Davi retornou à fortaleza quando Saul foi para Gibeá, talvez para preparar uma transfe rência de poder.
Desafortunadamente, nada mais se diz quanto ao resultado do reconhecimento por Saul do direito de Davi governar (cf. comen tário sobre 24.16-22). É interessante, contudo, observar que a natureza da narra tiva bíblica muda um pouco ao final do capítulo 24.0 rápido progresso da ascensão
de Davi ao poder experimenta uma pausa, e interessantes facetas de sua existência clandestina são apresentadas: Samuel morre (25.1); Davi arranja duas esposas (25.2-43) e perde uma outra (25.44). Somente com uma segunda versão da traição dos zifeus e da miraculosa entrega de Saul às mãos de Davi (26.1-25) é que o relato retoma seu ritmo. Então, grandemente descoroçoado, Davi torna-se vassalo de Áquis, rei de Gate, enquanto aguarda maiores mudanças em Israel. Talvez, mais profundamente do que temos percebido, a nova direção que a narra tiva bíblica toma tenha sido influenciada pela morte de Samuel (25.1; cf. lCr 29.29).
É esta a tua voz? Estas palavras melhor se encaixam em 26.17, onde a escuridão impede que Saul reconheça facilmente a Davi. Neste contexto Saul parece estar expressando surpresa diante da bondade de Davi: “Você está realmente falando sério, Davi?”
Sei. Esta palavra em hebraico (yada‘ti) pode transmitir uma ampla variedade de sentidos, além deste mais comum que aparece em nossa tradução. A tradução “confesso” ou “reconheço” estaria bem mais de acordo com a interpretação do parágrafo acima (cf. Jr 3.13; 14.20; SI 51.3).
9) Davi se Casa com Abigail (25.1-44) Este relato do casamento de Davi com Abigail coloca-se entre as obras-primas lite rárias do Antigo Testamento. O autor combinou nítidas descrições das persona gens, romance, intriga, sabedoria e humor num dos mais belos exemplos de redação de breves histórias da literatura antiga. Não se trata, porém, duma simples história. O que a princípio parece ser apenas um relato bem feito de um dos casamentos mais inte ressantes de Davi, na realidade fala de uma sutil, mas séria crise moral na vida de Davi.
Em En-Gedi Davi havia recusado fazer justiça divina com suas próprias mãos. Ele conseqüentemente havia tratado Saul com extrema generosidade a despeito das repe tidas tentativas do rei em tirar sua vida. Ao tratar Nabal, contudo, Davi esteve pronto
para liquidar todos os membros do sexo masculino de toda uma família por causa de um insulto e de alimento de que neces sitava. Somente a oportuna intervenção de Deus na pessoa da bela esposa de Nabal reteve a mão de Davi. O Senhor novamente demonstrou seu providencial cuidado por seu príncipe ungida
a. Davi Vende Proteção (25.1-17)
'O ra, faleceu Samuel; e todo o Israel se ajuntou e o pranteou; e o sepultaram na sua casa, em Ramá. E Davi se levantou e desceu ao deserto de Parã. 2Havia um homem em Maom que tinha as suas possessões no Carmela Este homem era muito rico, pois tinha três mil ovelhas e mil cabras: e estava tosquiando as suas ovelhas no Carmela 3Chamava-se o homem Nabal, e sua mulher chamava-se Abigail; era a mulher sensata e formosa; o homem, porém, era duro, e maligno nas suas ações; e era da casa de Calebe. 4Ouviu Davi no deserto que Nabal tosquiava as suas ovelhas, se enviou-lhe dez mancebos, dizendo-lhes: Subi ao Carmela, ide a Nabal e perguntai-lhe, em meu nome, como está. 6Assim lhe direis: Paz seja contigo, e com a tua casa, e com tudo o que tens. 7Agora, pois, tenho ouvido que tens tosquiadores. Ora, os pastores que tens acabam de estar conosco; agravo nenhum lhes fizemos, nem lhes desapareceu coisa alguma por todo o tempo que estiveram no Carmela 8Pergunta-o aos teus mancebos, e eles to dirãa Que achem, portanto, os teus servos graça aos teus olhos, porque viemos em boa ocasiãa Dá, pois, a teus servos e a Davi, teu filho, o que achares à mão. ’Chegando, pois, os mancebos de Davi,