Comentário Sobre o Texto I Ascensão e “ Reinado” de Samuel
IV. Narrativa da Sucessão (9.1— 20.26)
2. Davi Enfrenta Sírios e Amonitas (10.1-19)
'Depois disto morreu o rei dos amonitas, e seu filho Hanum reinou em seu lugar. 2Então disse Davi: Usarei de benevolência para com Hanum, filho de Naás, como seu pai usou de benevolência para comigo. Davi, pois, enviou os seus servos para o consolar acerca de seu pai; e foram os servos de Davi à terra dos amonitas. 3Então disseram os príncipes dos amonitas a seu senhor, Hanum: Pensas, porventura, que foi para honrar teu pai que Davi te enviou consoladores? Não te enviou antes os seus servos para reconhecerem esta cidade e para a espiarem, a fim de transtorná- -la? 4PeIo que Hanum tomou os servos de Davi, rapou-lhes metade da barba, cortou-lhes metade dos vestidos, até as nádegas, e os despediu. 5Quando isso foi dito a Davi, enviou ele mensa geiros a encontrá-los, porque aqueles homens estavam sobremaneira envergonhados; e mandou dizer-lhes: Deixai-vos estar em Jericó, até que vos torne a crescer a barba, e então voltai. 6Vendo, pois, os amonitas que se haviam feito abomináveis para com Davi, enviaram e alugaram dos sírios de Bete-Reobe e dos sírios de Zobá vinte mil homens de infantaria e do rei Maacá mil homens, e dos homens de Tbbe doze mil. 70 que ouvindo Davi, enviou contra eles a Joabe com todo o exército dos valentes. *E saíram os amonitas, e ordenaram a batalha à entrada da porta; mas os sírios de Zobá e de Reobe, e os homens de Tobe e de Maacá estavam à parte no campa ’Vendo, pois, Joabe que a batalha estava preparada contra ele pela frente e pela retaguarda, escolheu alguns homens dentre a flor do exército de Israel, e formou-os em linha contra os sírios; 10e entregou o resto do povo a seu irmão Abisai, para que o formasse em linha contra os amonitas. UE disse-lhe: Se os sírios forem mais fortes do que eu, tu me virás em socorro; e se os amonitas forem mais fortes do que tu, eu irei em teu socorra 12Tem bom ânimo, e sejamos corajosos pelo nosso povo, e pelas cidades de nosso Deus; e faça o Senhor o que bem lhe parecer. 13Então Joabe e o povo que estava com ele travaram a peleja contra os sírios; e estes fugiram diante dele. 14E, vendo os amonitas que os sírios fugiam, também eles fugiram de diante de Abisai, e entraram na cidade. Então Joabe voltou dos amonitas e veio para Jerusalém. >5Os sirios, vendo que tinham sido derrotados diante de Israel, trataram de refazer-se. 16E Hada- dézer mandou que viessem os sírios que estavam da outra banda do rio; e eles vieram a Helã, tendo à sua frente Sobaque, chefe do exército de Hada- dézer. l7Davi, informado disto, ajuntou todo o Israel e, passando o Jordão, foi a Helã; e os sirios se puseram em ordem contra Davi, e pelejaram contra ele. 18Os sirios, porém, fugiram de diante de Israel; e Davi matou deles os homens de sete-
centos carros, e quarenta mil homens de cavalaria; e feriu a Sobaque, general do exército, de sorte que ele morreu ali. “ Vendo, pois, todos os reis, servos de Hadadézer, que estavam derrotados diante de Israel, fizeram paz com Israel, e o serviram. E os sírios não ousaram mais socorrer aos amonitas.
Conquanto a maior parte dos relatos das guerras estrangeiras de Davi foram relatadas antes do sumário de seu reinado ou como parte dele (8.1-18), estas narra tivas sobre a guerra amonita são aqui incluídas para prover um pano de fundo para a história de Bate-Seba. Embora os relatos de guerra contenham bem poucas referências cronológicas, esta narrativa parece suprir uma explicação para a eclo são de hostilidades tanto com os amonitas como com os sírios. De fato, Bright (p. 181, 182) considera que a guerra de Davi com Amom foi a primeira que ele travou na formação do império de Israel. A ação contra Moabe (8.2,13 e s.), Edom (8.13,14; lRs 1.15-18) e Síria (8.3-12) viriam então em seguida.
Se a seqüência precedente estiver cor reta, deve-se compreender o crescimento do império não como o produto da ambi ção de Davi, mas como o resultado da proteção divina em face da provocação internacional. Certamente, na campanha amonita, foi Hanum, e não Davi, quem desejou a guerra.
Embora Israel e Amom tivessem sido inimigos durante os primeiros anos do reinado de Saul (ISm 11.1-11), Davi fora capaz de restabelecer — e aparentemente tencionava manter — relações amistosas com seus vizinhos do leste. Com a morte do rei de Amom, Davi enviou represen tantes diplomáticos para transmitir suas condolências e reafirmar suas intenções pacíficas. Não obstante, tomando medidas cujo propósito era humilhar os enviados oficiais de Davi e lançar seu governo no ridículo, Hanum, o novo rei de Amom, mandou a delegação de Israel de volta em condição humilhante. Dificilmente Hanum
lhes teria causado tal humilhação se não estivesse razoavelmente bem assegurado de respaldo militar no caso de uma retaliação por Israel.
De qualquer maneira, Hanum tinha um bom exército quando Davi inevitavelmente buscou resgatar a dignidade de seus homens (cf. a reação de Davi ante a recusa sarcás tica de Nabal, ISm 25.21,22). Quando Joabe se aproximou com a nata dos soldados do exército de Israel, os amonitas se reuniram fora dos portões da cidade, convidando ao ataque, enquanto mercená rios dos estados sírios próximos esperavam para atacar os israelitas pela retaguarda. Percebendo as conhecidas táticas de cilada, Joabe empregou parte de suas tropas para combater os sírios, enquanto o restante, sob o comando de Abisai, enfrentava os amonitas. Quando os sírios sucumbiram diante de Joabe e seus homens, os amonitas se retiraram para dentro da cidade, de modo que o embate terminou com a vitória de Israel, mas com Hanum em, segurança.
Os aliados sírios de Amom, sem dúvida alarmados com notícias da vitória de Joabe, reagruparam suas tropas e começaram a trazer reforços dos mais distantes recantos de seus domínios. Sabendo dessa imensa mobilização de forças inimigas, Davi tomou a iniciativa, cruzando o Jordão e atacando com todo o exército israelita. Os sírios fugiram novamente, após sofrerem pesadas perdas tanto de vidas como de bens. Daí em diante, os sírios cessaram de se intro
meter nos assuntos da Transjordânia. Rapou-lhes metade da barba (v. 4). No antigo Oriente Médio considerava-se uma barba inteira como marca de masculinidade e maturidade. Normalmente a barba era rapada só como sinal de lamentação ou desgraça iminente. (Is 15.2; Jr 41.5). Davi fez com que seus diplomatas ficassem em Jericó até que suas barbas crescessem para que a presença deles em Jerusalém não servisse como uma acusação de que eram pequenos o poder e o prestígio de Davi.
3. A Tragédia no Rastro do Pecado (11.1—12.31)
1) Davi Sucumbe à Concupiscência (11.1-13)
'Tendo decorrido uii) ano, no tempo em que os reis saem à guerra, Davi enviou Joabe, e com ele os seus servos e todo o Israel; e eles destruíram os amonitas, e sitiaram a Rabá. Porém Davi ficou em Jerusalém. 2Ora, aconteceu que, numa tarde, Davi se levantou do seu leito e se pôs a passear no terraço da casa real; e do terraço viu uma mulher que se estava lavando; e era esta mulher mui formosa à vista. 3Tendo Davi enviado a indagar a respeito daquela mulher, disseram-lhe: Porventura não é Bate-Seba, filha de Eliã, mulher de Urias, o heteu? 4Então Davi mandou mensageiros para trazê-la; e ela veio a ele, e ele se deitou com ela (pois já estava purificada da sua imundicia); depois ela voltou para sua casa. 5A mulher concebeu; e mandou dizer a Davi: Estou grávida. 6Então Davi mandou dizer a Joabe: Envia-me Urias, o heteu. E Joabe o enviou a Davi. 7Vindo, pois, Urias a Davi, este lhe per guntou como passava Joabe, e como estava o povo, e como ia a guerra. 8Depois disse Davi a Urias: Desce a tua casa, e lava os teus pés. E, saindo Urias da casa real, logo foi mandado apôs ele um presente do rei. 9Mas Urias dormiu à porta da casa real, com todos os servos do seu senhor, e não desceu a sua casa. 10E o contaram a Davi, dizendo: Urias não desceu a sua casa. Então perguntou Davi a Urias: Não vens tu duma jornada? por que não desceste a tua casa? “ Respondeu Urias a Davi: A arca, e Israel, e Judá estão em tendas; e Joabe, meu senhor, e os servos de meu senhor estão acam pados ao relento; e entrarei eu na minha casa, para comer e beber, e para me deitar com minha mulher? Como vives tu, e como vive a tua alma, não farei tal coisa. 12Então disse Davi a Urias: Fica ainda hoje aqui, e amanhã te despedirei. Urias, pois, ficou em Jerusalém aquele dia e o seguinte. 13E Davi o convidou a comer e a beber na sua presença, e o embebedou; e à tarde saiu Urias a deitar-se na sua cama com os servos de seu senhor, porém não desceu a sua casa.
Esta história do pecado de Davi com Bate-Seba serve como uma introdução teológica ao corpo da N arrativa da Sucessão. Nosso estudo até este ponto tem revelado uma convicção por parte do autor de que Deus se envolvia nos negócios dos homens, recompensando o bem e punindo o mal. Em particular, o progresso de Israel era influenciado pela condição espiritual do povo e especialmente pela estatura moral de seus líderes.
Assim, a nação prosperou sob a orien tação correta de Samuel (ISm 7.13), mas seus filhos corruptos contribuíram bastante para o fracasso da antiga liga tribal sob os juizes (ISm 8.1-9). Semelhantemente, os exércitos de Israel experimentaram consi derável êxito durante os primeiros anos do reinado de Saul, mas os filisteus recupe raram a vantagem quando ele foi rejeitado por resistir à direção de Deus (cf. comen tário sobre ISm 13.1-15; 15.10-23).
Por outro lado, Davi, sendo um homem segundo o coração de Deus (ISm 13.14), havia desfrutado extraordinário êxito. Ele não era retratado como um homem perfeito (ISm 20.5,6; 21.1-5), mas o Senhor repetidas vezes interveio para protegê-lo e ajudá-lo a evitar uma séria transgressão moral (ISm 25.32,33). Sob a liderança de Davi, Israel foi transformado de dois reinos em conflito, sujeitos ao domínio filisteu, numa impor tante potência do mundo mediterrâneo oriental.
Contudo, quando Israel começou a enfrentar sérias dificuldades internas, o povo buscou uma explicação teológica para a mudança da sorte do país. Uma resposta imediata foi dada pelas flagrantes transgres sões morais de Davi no caso Bate-Seba. Conquanto este sórdido episódio sem dúvida acentuasse os muitos problemas nacionais e precipitasse outros, a cobiça da esposa de Urias por Davi não foi a única causa das dificuldades de Israel. As rivali dades regionais que Saul enfrentara (cf. comentário sobre ISm 9.1,2) tinham sido simplesmente ignoradas quando Davi tornou-se rei de todo Israel. Elas, portanto, estavam aguardando somente uma provo cação mínima para irromperem novamente (20.1; lRs 12.1-5). Além disso, sob a lide rança de Davi o país havia embarcado numa política de atuação internacional, e o trabalho de construção da nova capital em Jerusalém se fazia de acordo com um plano fenício (5.11). Desenvolviam-se até mesmo planos para tirar a arca do Senhor de sua tenda e colocá-la num templo comparável ao palácio do rei (7.1-7,13).
Esses problemas não foram ignorados, mas o autor concentrou a atenção no cerne da questão. As falhas de Davi como líder de seu povo eram resultado não da magni tude dos problemas que ele defrontava, mas das deficiências pessoais de natureza moral e espiritual. O poder tendia e ainda tende a corromper os poderosos. O que Davi havia aprendido como um fugitivo (ISm 25.32-35), tinha esquecido como rei de Israel. Seu pecado com Bate-Seba era apenas a expressão exterior de sua resis tência interior à direção divina.
O restante da Narrativa da Sucessão se ocupará, portanto, da repercussão teológica dessa experiência, dando especial destaque à disputa pelo trono israelita. As mais terrí veis tragédias a se abaterem sobre Davi e a nação serão vistas como a devida retri buição para os erros que ele cometeu contra Urias (12.10-12).
Os exércitos partiram para o campo no tempo em que os reis saem à guerra — normalmente entre abril e junho, após as chuvas de primavera terem cessado e após os camponeses das milícias terem terminado o trabalho em suas terras, no cultivo de cereais fundamentais à economia do país. Após suspenderem o ataque no outono precedente, Davi reiniciou o cerco de Rabá, atual Amã, enviando uma força expressiva sob o comando de Joabe para pilhar a terra e acampar-se ao redor da cidade.
O passeio de Davi no terraço da casa real era algo bastante natural. As coberturas planas das casas antigas eram freqüente mente empregadas como excelente lugar para dormir e para estar (cf. ISm 9.25).
Bate-Seba era filha de Eliã, um membro das tropas de elite de Davi (23.34), e neta de Aitofel, um de seus conselheiros. Aitofel posteriormente apoiou a rebelião de Absalão (15.12,31), talvez como conse qüência do relacionamento ilícito de Davi com Bate-Seba.
Davi mandou mensageiros para trazê- -la. Não se poderia manter em segredo um arranjo desses numa cidade tão pequena quanto Jerusalém era na época. O autor
bíblico não menciona qualquer cumplici dade de Bate-Seba, mas sob a lei judaica ela era igualmente culpada por ter deixado de gritar (Dt 22.22-24). Ambos estavam sujeitos à pena de morte.
Pois já estava purificada da sua imun dícia. Veja Levítico 15.19-24. Esse era considerado o período mais fértil de uma mulher.
Quando se tornou evidente que a natu reza havia apanhado Davi e Bate-Seba na armadilha do pecado, Davi tentou esconder sua culpa. Urias foi chamado da frente de batalha e encorajado, num gesto de aparente benevolência por parte do rei, a cumprir novamente seu papel de marido. Lava os teus pés é provavelmente um eufe mismo para designar relação sexual; pelo menos assim o entendeu Urias. Seja porque suspeitava dos verdadeiros motivos do rei, seja porque não estava disposto a desfrutar um privilégio que seus companheiros de armas não podiam ter, Urias recusou voltar para casa e, em vez disso, se alojou com a guarda real. Quando fracassou o plano de Davi de, com bebida forte, fazer Urias mudar de idéia, não conseguiu enxergar nenhuma saída de seu dilema a não ser fazer com que Urias fosse morto.
2) Davi Manda Matar Urias (11.14-27)
14Pela manhã Davi escreveu uma carta a Joabe, e mandou-lha por mão de Urias. lsEscreveu na carta: Ponde Urias na frente onde for mais renhida a peleja, e retirai-vos dele, para que seja ferido e morra. 16Enquanto Joabe sitiava a cidade, pôs Urias no lugar onde sabia que havia homens valentes. 17Quando os homens da cidade saíram e pelejaram contra Joabe, caíram alguns do povo, isto é, dos servos de Davi; morreu também Urias, o heteu. 18Então Joabe mandou dizer a Davi tudo o que sucedera na peleja; 19e deu ordem ao mensa geiro, dizendo: Quando tiverdes acabado de contar ao rei tudo o que sucedeu nesta peleja, 20caso o rei se encolerize, e te diga: Por que vos chegastes tão perto da cidade a pelejar? Não sabieis vòs que haviam de atirar do muro? 21Quem matou a Abimeleque, filho de Jerubesete? Não foi uma mulher que lançou sobre ele, do alto do muro, a pedra superior dum moinho, de modo que morreu em Tebez? Por que chegastes tão perto do muro? Então dirás: Também morreu teu servo Urias, o heteu. 22Partiu, pois, o mensageiro e, tendo
chegado, referiu a Davi tudo o que Joabe lhe orde nara. 23Disse o mensageiro a Davi: Os homens ganharam uma vantagem sobre nós, e saíram contra nós ao campo; porém nós os repelimos até a entrada da porta. 24Então os flecheiros atiraram contra os teus servos desde o alto do muro, e morreram alguns servos do rei; e também morreu o teu servo Urias, o heteu. “ Disse Davi ao mensageiro: Assim dirás a Joabe: Não te preocupes com isso, pois a espada tanto devora este como aquele; aperta a tua peleja contra a cidade, e a derrota. Encoraja-o tu assim. “ Ouvindo, pois, a .mulher de Urias que seu marido era morto, o chorou. 27E, passado o tempo do nojo, mandou Davi recolhê-la a sua casa; e ela lhe foi por mulher, e lhe deu um filha Mas isto que Davi fez desagradou ao Senhor.
Davi tinha sido bastante desajeitado em seus esforços por encobrir seu adultério com Bate-Seba. Primeiro, envolvera alguns servos em sua insensatez e, depois, revelara uma atitude abertamente solícita para com um marido desconfiado. Seu plano de desfazer-se de Urias não era menos trans parente. Com profunda crueldade, Davi determinou a Joabe que ordenasse a suas tropas que deixassem Urias sozinho no meio da batalha para que ali encontrasse a morte. Reconhecendo os efeitos perniciosos que uma traição aberta dessa natureza teria sobre o moral de suas tropas, Joabe revelou um desrespeito ainda maior pela vida humana ao manter os planos do rei em segredo e ao determinar que seus soldados marchassem para a batalha. Empregando táticas que, com certeza, resultariam em elevadas baixas, Joabe enviou um contin gente de seus melhores soldados para um assalto infrutífero perto do muro da cidade (o suprimento dágua do inimigo? cf. 12.27). A capital amonita não foi tomada na ocasião, mas Urias, juntamente com um bom número de seus companheiros, foi morto. Quase como se estivesse atraindo a ira do rei, Joabe instruiu seu mensageiro a só dar notícia da morte de Urias no fim de seu relatório. De qualquer forma, o acesso de ira que Davi teve por causa da violação por Joabe dos mais elementares princípios táticos de cerco foi subitamente interrompido quando soube que o marido de Bate-Seba estava morto (veja o comen
tário sobre o v. 23, abaixo). O leitor fica a imaginar quantas outras vezes Joabe foi tentado a empregar seu conhecimento desse sórdido acontecimento como um instru mento para manipular seu comandante- em-chefe.
Após um breve período de luto por seu marido, Bate-Seba mudou-se para o palá cio e deu à luz um filho de Davi. Assim, parecia que Davia tinha com êxito evitado pagar as conseqüências de seu pecado. A questão, porém, não estava encerrada, pois embora Urias estivesse morto, a questão não estava. A medida do desprazer do Senhor ainda se faria mostrar.
Na Septuaginta, o versículo 22 indica que Davi reagiu tal como Joabe previra. Deve-se provavelmente dar preferência a essa versão, uma vez que no hebraico o relatório do mensageiro a Davi, no versí culo 23, começa com uma palavra (Ki) que freqüentemente introduz a resposta a uma pergunta anterior. Assim Davi perguntara: Por que vos chegastes tão perto do muro? O mensageiro respondeu, dizendo que os homens ganharam uma vantagem sobre nós. (Cf. McKane, p. 231).
Passando o tempo do nojo. O período costumeiro de luto estrito era de sete dias (Gn 50.10; ISm 31.13). O novo casamento de uma viúva logo após a morte do marido era provavelmente bastante comum no antigo Oriente Médio. A menos que tal mulher retornasse para a casa de seu pai ou tivesse filhos para sustentá-la, ela não tinha qualquer proteção nem direito aos bens (Gn 38.11; Nm 27.8-11).
3) Natã Acusa Davi (12.1-15a)
'O Senhor, pois, enviou N atã a Davi. E, entrando ele a ter com Davi, disse-lhe: Havia numa cidade dois homens, um rico e outro pobre. 20 rico tinha rebanhos e manadas em grande número; 3mas o pobre não tinha coisa alguma, senão uma pequena cordeira que comprara e criara; ela crescera em companhia dele e de seus filhos; do seu bocado comia, do seu copo bebia, e dormia em seu regaço; e ele a tinha como filha. 4Chegou um viajante à casa do rico; e este, não querendo tomar das suas ovelhas e do seu gado para guisar para o viajante que viera a ele, tomou
a cordeira do pobre e a preparou para o seu hóspede. 5Então a ira de Davi se acendeu em grande maneira contra aquele homem; e disse a Natã: Vive o Senhor, que digno de morte é o homem que fez issa 6Pela cordeira restituirá o quádruplo, porque fez tal coisa, e não teve com paixão. 7Então disse N atã a Davi: Esse homem és tu! Assim diz o Senhor Deus de Israel: Eu te ungi rei sobre Israel, livrei-te da mão de Saul, *e te dei a casa de teu senhor, e as mulheres de teu senhor em teu seio; também te dei a casa de Israel e de