Acto V Na cena V, que na antologia corresponde ao acto V, cena I, nos vv 971-973,
1.2.2. Amor Paternal
O QUE SE MANTEVE…
…ACERCA DA BONDADE PATERNAL -PATER BENIGNUS
Acto V – Na cena VIII, a que correspondem na antologia acto V, cena III, nos vv.1046-
1049, Quérea, feliz pelo seu casamento e por tanta felicidade, louva a bondade do pai e a fortuna/destino - “ou será que devo louvar a fortuna que foi quem dirigiu e quem encerrou tão oportunamente num só dia tantas e tão importantes coisas? Ou ainda a bondade e a condescendência do meu pai? Ó Júpiter, por favor, conserva-nos estes bens!”644.
643
Cf: 129; 302: propter me hisce aliquid esse euenturum Mali; / nam iam diu aliquam causam quaerebat senex / quam
ob rem insigne aliquid faceret eis; nunc repperit.
Cf. Sylvae variorum … cit., p.107.
644
Cf. pp. 135; 307: incipere, an fortunam conlaudem, quae gubernatrix fuit, / quae tot res tantas tam opportune in unum
conclusit diem, / na mei patris festiuitatem et facilitatem? O Iuppiter, / serua, obsecro, haec Bona nobis!
1.2.3. -Amizade
Gnatão, o amigo bajulador e interesseiro, servirá de referência a Jerónimo Osório, tratadista de pedagogia política, usando este a expressão “Gnatones Terentiani” como sinónimo de aduladores. Este papel era desempenhado por certas entidades cortesãs que, pelos seus interesses pessoais - ambição e cobiça-, pervertiam com cinismo e bajulação (obsequium/adsentatio) o ideal de uera amicitia, de fides et gratia apregoados por Terêncio, Cícero e adoptados por todos os humanistas renascentistas, como veremos, a
posteriori, na análise da peça de Luís da Cruz, Pródigo645.
645
Cf. NAIR DE NAZARÉ CASTRO SOARES, “Gratidão e Lealdade…” cit., pp. 252, 253. Sobre os Gnatões Terencianos, vide infra, p. 225.
1.3.
H
EAUTONTIMORUMENOS(163 A.C )O HOMEM QUE SE PUNIU A SI MESMO
RESUMO DO ARGUMENTO (Periocha) da antologia da Companhia
“Menedemo, no campo, atormenta-se, por ter sido a causa da partida do filho Clínia
para o serviço militar. Com o regresso do filho, o pai regozija-se; e, concluído o casamento, a comédia tem um remate feliz”646.
ACTOS E CENAS
Seguindo os canônes clássicos, a antologia manteve o prólogo e os cinco actos, no entanto as doze cenas eliminadas, como veremos, não se ajustavam ao periocha do antologista jesuíta que queria dar destaque à relação pai/filho. São desprezados por completo diálogos relacionados com a trama amorosa de jovens enamorados. As paixões dos dois jovens vizinhos, Clínia e Clitifão, por mulheres estrangeiras, pobres, traiçoeiras e gananciosas, colocava-os, na visão paterna, em situação de risco, já que poderiam perder o discernimento e os bens paternos. Mesmo o diálogo do casal, Cremes e Sóstrata, é eliminado. Aliás as relações desta família não interessavam ao argumento da antologia Aqui, mantêm-se apenas as cenas que contribuem para esse argumento idóneo à educação dos alunos, onde impera a compaixão relacionada com a personagem principal, o pai Menedemo, tão ilustrativa do espírito cristão do auto-penitente, que se “auto-flagela”, assumindo o mea culpa num amor de pai encarado pelo próprio progenitor como amparo, conforto, abastança, linhagem e integridade da pátria. Os pais, mais experientes e sabedores das coisas da vida, queriam escolher o que na sua óptica era o bem e o melhor para os seus filhos. Estes nem sempre estavam receptivos às ordens daqueles, que lutavam por os afastar das paixões que entendiam ser perdição; porém os (des)mandos do coração dos jovens eram mais incisivos que as sábias advertências dos velhos pais - o eterno conflito de gerações.
646
AGOSTINHO DE JESUS DOMINGUES, Os Clássicos Latinos nas Antologias Escolares dos Jesuítas nos Primeiros …cit., p. 234: In agro cruciatur Menedemus, quod Cliniam filium abire in militiam compulerit. Adventu filii, laetatur pater: et
initis nuptiis fabula feliciter absolvitur.
Na obra original, C. Sulpici Apollinaris Periocha, diz que o pai severo impeliu o descendente Clínia, apaixonado por Antífila, a partir para a guerra e arrependido atormenta-se a si próprio por esta sua conduta. Mais tarde, quando regressa (Clínia), desvia-se da casa do pai para ir para casa de Clitifão, este amava a cortesã Báquis. Como Clínia mandasse chamar a sua desejada Antífila, aparece Báquis como amiga/amada de Clínia e traz consigo Antífila, vestida de escrava; Clitifão enganaria o seu pai com este facto; este (Clitifão), com as artimanhas de Siro, tira ao velho (pai) dez minas para a sua cortesã. Antífila é reconhecida como irmã de Clitifão. Clínia casa com ela e Clitifão com outra esposa (não a cortesã).
PERSONAGENS
Mantêm-se os velhos Cremes, pai de Clitifão, e Menedemo, pai de Clínia; os dois jovens, Clitifão , filho de Cremes e amante de Báquis, e Clínia, filho de Menedemo e amante de Antífila; Siro, escravo de Clitifão; e a matrona Sóstrata, mulher de Cremes e mãe de Clitifão.
São eliminadas três mulheres: Antífila, a jovem namorada de Clínia; Báquis, a cortesã amante de Clitifão, Frígia, a escrava de Báquis; a Ama de Sóstrata, escrava Cantara (?); Dromão, escravo de Menedemo, também é eliminado.
1.3.1.- Amor Paixão (dimensão individualista) / Amor matrimonial-conjugal (dimensão comunitária)
O QUE SE OMITIU…
…ACERCA DE INTRIGAS E ENREDOS AMOROSOS, DESENCAMINHADORES DOS JOVENS FILHOS. ESSES MALES AFASTAM DA OBEDIÊNCIA AOS DESEJOS E ÀS ORDENS PATERNAS, APROXIMAM DOS DESMANDOS DE SENSUALIDADE E DA MÁ FORMAÇÃO DE CARÁCTER.
No acto I, a cena II da peça de Terêncio é eliminada na íntegra da antologia. Acontece o mesmo às cenas II, III e IV do acto II. É significativa a redução das cenas originais no texto adaptado pelo antologista, quando adicionamos ainda a eliminação das cenas II e III do acto III e das cenas I, II, IV, V e VI do acto IV.
Acto I - Na cena II, Cremes, imagem do paterfamilias romano - à luz do mos maiorum
- é o pregador de serviço com as suas lições de moral sobre comportamento e verdadeiro querer filial. Nos vv.194-196, o mesmo, dialogando com seu filho Clitifão sobre Clínia, afirma que a prosperidade e a felicidade (Bona) encontram-se nos “Pais, pátria florescente, amigos, família, parentes, riqueza…Verdade seja que estas coisas o são consoante o
espírito de quem as possui. Para quem as sabe usar, são um bem; para quem as usa com desacerto, um mal”647.
Acto II - Na cena II, nos vv. 233-234, movido pelo pensamento de que a sua amada
Antífila o tenha colocado “longe da vista e do coração”, revela a Clitifão a sua inquietação e angústia nas coisas do amor, expondo as possíveis causas para a perda e perdição da amada - “a ocasião, o lugar, a idade, a mãe depravada que a tem em seu poder e que só no dinheiro acha doçura”648.
Na cena IV, após ter ouvido e visto Antífila, que, em conversa com Báquis, diz ter-se empenhado “sempre a fundo em acomodar a felicidade dele à minha felicidade.” (vv. 396- 397), no v. 398, Clínia confessa o seu grande amor - “Ah, é por isso, minha querida Antífila, que só tu me fazes regressar à pátria”649.
…ACERCA DAS MULHERES AMADAS,ANTÍFILA E BÁQUIS - PAR FEMININO DE CONDUTA OPOSTA -, MAS AMBAS VALORIZADAS PELO “FEMINISMO DE TERÊNCIO”
Acto II - Na cena I, desaparecidos da antologia os versos a partir do v. 223 até ao final,
v. 229, resta-nos o início do monólogo de Clitifão que denuncia o relacionamento que mantém com o seu pai. (como veremos mais abaixo).
Nos versos eliminados, Clitifão compara as duas mulheres, a de Clínia é “uma cachopa educada com honestidade e recato, ignorante das artes das cortesãs. A minha é mandona, provocante, altaneira, pródiga, com a mania das grandezas.”. A reprodução das palavras da amante no discurso do submisso Clitifão revelam-nos a mulher dominadora, que não é para brincadeiras: “são as palavras da minha amante: ‘Dá-me isto’ e ‘Traz-me aquilo” […] E tudo o que posso dar é ‘Está bem: sem dúvida’650.
Na cena II, nos vv. 239, 240, Clitifão, tentando acalmar o ansioso Clínia que aguardava pela sua Antífila, atribui às mulheres o dom da demora em se aprumar - “E sabes como são os costumes das mulheres: enquanto bolem daqui, enquanto se afreimam dacolá, um ano é passado”651.
647
Cf. pp. 51; 30: Parentis, patriam incolumem, amicos, genus, cognatos, ditias…, / Atque haec perinde sunt ut illius
animust qui ea possidet: / Qui utinscit,ei Bona; illi qui non utitur recte,mala. 648
Cf. pp. 54; 33: Occasio, locus, aetas, mater cuius sub imperiost mala, / Cui nihil iam praeter pretium dulcest.
649
Cf. pp. 70; 44:Vah! Ergo, mea Antiphilia, tu nunc sola reducem me in patriam facis;
650
Cf. pp. 53; 32: Habet bene et pudice eductam, ignaram artis meretriciae. / Meast potens, procax, magnifica,
sumptuosa, nobilis; […] amicae dictae […] «Da mihi! » atque «adfer mihi!».; Tum quod dem ei «Recte» est.
Vide supra, p. 158, nota 579; p. 159, nota 582; p. 172, nota 630. E ainda, vide infra, p. 203, nota 751; pp. 203-206.
651
Nos vv. 285-291, o hábil Siro esclarece quer Clínia quer Clitifão quanto à fidelidade de sentimentos e à vida casta da zelosa, recatada e fiel amada daquele, Antífila, durante a ausência do seu amado. Assim, quando o escravo da casa de Cremes, juntamente com o escravo da casa de Menedemo, Dromão, apareceu de improviso na residência dela para a trazer à presença do inquieto e descrente Clínia, fica-se a saber - “Encontrámos a moça a tecer cuidadosamente a sua teia, modestamente vestida com um traje de luto (por causa, penso, da morte da velha), sem uma jóia e arranjada como as que se arranjam para si mesmas, sem nenhum desses arrebiques femininos de má sorte; tinha os cabelos soltos e lançados negligentemente em torno da cabeça…E já chega!”652. Continua o criado, no v. 307, a dizer que a reacção dela face ao nome Clínia, pronunciado pelos mensageiros, foi de emoção e saudade - “Claramente se entendia que esta reacção era filha da saudade”653.
Nos vv. 322-323, Siro comprova-nos a paixão de Clitifão por Báquis, dizendo-lhe: “Tu queres amá-la, tu queres possuí-la, tu queres estar em condições de lhe dar prendas. E não queres que haja riscos nessa posse”654.
Acto II – Na cena III, nos vv. 365-368., Siro fala com Clitifão que fica admirado por
este ter convencido a sagaz Báquis a entrar no engodo/disfarce de se fazer passar por amante de Clínia, passando Antífila sua escrava. Aqui, através da situação descrita pelo criado, aparece como a mulher habilidosa e ciente dos seus intentos: “Topei com um soldado que lhe pedia desesperadamente uma noite: e ela manobrava o fabiano com habilidade para lhe inflamar o coração desejoso com a abstinência; e, ao mesmo tempo, para se conservar, o melhor possível, nas tuas boas graças”655.
Na cena IV, esta cortesã que nos é apresentada pelas personagens que dela falam como Clitifão e Siro como ávida e faustosa, revela um espírito reflexivo, resignado e saudoso de uma vida virtuosa, como a de Antífila. A meretrix bona, conceito genuinamente terenciano, depreende-se das palavras proferidas por Báquis (modelo típico da mulher agarrada à opulência das jóias, vestidos e banquetes) em tom confessional a Antífila (modelo típico da mulher reservada, pobre dedicada ao lar e ao amor conjugal). Nos vv. 388- 395, nota-se o desânimo desta cortesã que compara o uso da beleza e o procedimento destes dois tipos de mulheres com destinos diferentes, de vários homens umas, de um
652
Cf. pp. 59; 36, 37: Texentem telam studiose ipsam offendimus, / Mediocriter uestitam ueste lugubri, / Eius anuis causa
opinor quae erat mortua, / Sine auro, tum ornatam ita uti quae ornantur sibi, / Nulla mala re esse expolitam muliebri; / Capillus pexus prolixus circum caput/ Reiectus neclegenter, pax!
653
Cf. pp. 60; 38: Facile scires desiderio id fieri tuo.
654
Cf. pp. 62; 39: Vis amare, uis potiri, uis quod des illi effici; / Tuom esse in potiundo periculum non uis […].
655 Cf. pp. 67; 42: […] nam miserum quemdam offendi ibi militem / Eius noctem orantem; haec arte tractabat uirum / Vt illius animum cupidum inopia incenderet / Eademque ut esset apud te hoc quam gratissimum.
homem só outras- “É vantajoso, para vocês, serem bem comportadas; a nós, a gente com quem temos de lidar, não no-lo permite. É a atracção da nossa beleza que induz os nossos amantes a cortejar-nos; quando esta declina, transferem o coração para outro lado. E se, neste entretanto, não tivermos tomado algumas providências, vivemos no abandono. Vocês, quando decidem passar a vida só com um homem, cujo carácter está em harmonia perfeita com o vosso, têm pessoas que a vocês se dedicam. Graças a isso, estão realmente ligadas um ao outro, de tal sorte que nenhuma desgraça pode cair sobre o vosso amor”656.
Acto III - Na cena II, nos vv. 522-524, as palavras de Siro, em conversa com o seu
patrão Cremes, traçam-nos o perfil da cortesã Báquis - “ Mulher simpática e espirituosa, a cortesã”; “tem uma beleza de arregala-olho”; “Não como as mulheres de outras eras, mas, pelos padrões de agora, uma pêssega de estalo”657.
…ACERCA DA ATRACÇÃO SEXUAL
Acto III - Na cena III, no v. 570, Cremes, alertando o filho Clitifão, depois de o ter
visto apalpar a que ele julgava amante de Clínia (Báquis), e nunca desconfiando que realmente era amante do seu filho, acaba por lhe confidenciar de homem para homem: “Eu sei o que são amantes: ofendem-se gravemente com coisas que nem sequer se imaginariam”. Nos vv. 573-574, continua - “a atracção sexual comporta muitas exigências. A tua presença impede-os de as satisfazer. Faço ideia por mim próprio”658.
…ACERCA DA BOA MÃE, DA ESPOSA SUBMISSA E APAZIGUADORA,SÓSTRATA
Acto IV – Na cena I, no v. 623 demonstra por um lado a obediência cega às ordens do
marido de coração duro, à maneira do mos maiorum, o qual rejeitando ter um filho do sexo feminino, leva-a a dar a filha - “não cuides que me atrevi a fazer algo contrário às tuas ordens”659. Todavia, por outro lado, nos vv. 631; 649- 652, ao jeito de humilde fêmea
656
Cf. pp. 70; 43, 44: Nam expedit bonas esse iobis; nos, quibuscum est res, non sinunt; / Quippe forma inpulsi nostra
nos amatores colunt; / Haec ubi imminuta est, illi suom animum alio conferunt; / Nisi si prospectum interea aliquid est, desertae uiuimus. / Vobis cum uno semel ubi aetatem agere decretumst uiro, / Cuius mos maximest consimilis uostrum, hi se a duos adplicant; / Hoc beneficio utrique ab utrisque vero deuincimini / Vt numquam ulla amori uestro incidere possit calamitas.
657
Cf. pp. 81; 52: Mulier commoda et faceta haec meretrix; Et quidem hercle forma Iuculenta; Ita non ut olim, sed uti
nunc, sane bona. 658
Cf. pp. 86; 55: Noui ego amantium animum: aduortunt grauiter quae non censeas; Multa fert libido: ea facere
prohibet tua praesentia. / Ego de me facio coniecturam; […]. 659
submissa ao dominador macho, deixa transparecer que a sua atitude foi a salvação para a criança (Antífila): “Se errei, meu caro Cremes, foi sem saber.”; “Tontas e tremendamente supersticiosas como somos todas, quando dei a criança a expor à tal mulher, tiro do dedo o anel e digo-lhe que o exponha juntamente com a menina. Assim, se a velha morresse, a menina não ficaria privada de uma parte dos bens”660.
O QUE SE MANTEVE…
…ACERCA DA PAIXÃO DE CLÍNIA
Acto I -Na cena II, nos vv. 188-189, Clitifão confirma-nos, através das informações
que dá a Cremes, que Clínia, após ter regressado da Ásia e se ter “refugiado” na sua casa, “ tem medo de tudo: da zanga do pai e da reacção da amante a seu respeito. Está perdido de amor por ela. E por causa dela é que houve esta desavença e a sua largada para fora”661.
… ACERCA DOS DISPENDIOSOS RECURSOS NECESSÁRIOS NO RELACIONAMENTO COM UMA CORTESÃ.
Acto III – Na cena I, nos vv. 446-449, Cremes apresenta a Menedemo a forma como
ele entendia a vida de Antífila, julgando-a cortesã. Assim, ela poderia estar “obrigada pela necessidade e contra vontade, começou depois a ganhar a sua subsistência com os dinheiros do povinho. Agora, que ninguém a pode possuir senão à custa de grande dispêndio”662.
… ACERCA DA RELAÇÃO CONJUGAL DE CREMES E SÓSTRATA
660
Cf. pp. 96, 97; 61, 62: Si peccaui, mi Chreme, insciens feci.; Ut stultae et misere omnes sumus / Religiosae, cum
exponendam do illi, de digito anulum / Detraho et eum dico ut uma cum puella exponeret, / Si moreretur, ne expers partis esset de nostris bonis.
661
Cf. pp. 50; 30: Timet omnia: patris iram et animum amicae se erga ut sit suae; / Eam misere amat; propter eam haec
turba atque abitio euenit. 662
Cf. pp. 76; 47: […] ea coacta ingratiis / Postilla coepit uictum uolgo quaerere. / Nunc cum sine magno intertrimento
non potest / Haberi […].
Acto V - Na cena III, que na antologia correspode à cena II, nos vv. 1008; 1019-1022,
podemos ver que na conversa entre o casal Cremes e Sóstrata aquele usa palavras pouco lisonjeadoras para a sua companheira - “ficas na tua com essa impáfida toda, minha estúpida!”; “porque ele é a tua cara estampada no feitio. Facilmente provarás que ele nasceu de ti, porque é tal-qual como tu. Não há defeito nele que não tenha herdado de ti: ninguém, a não seres tu, poderia ter dado ao mundo um filho semelhante”663.
…ACERCA DO EMPENHO MATERNO NA RESOLUÇÃO DE DESAVENÇAS FAMILIARES E NA APRESENTAÇÃO DE SOLUÇÕES: ARRANJAR UMA MOÇA DA MESMA TERRA PARA CASAR COM O FILHO
Acto V - Na cena IV, nos vv. 1025- 1027, Clitifão, em jeito de filho renegado e num
tom épico-trágico, dirige-se à sua mãe Sóstrata e apela ao sentir materno - “suplico-te que te lembres dele e tenhas agora piedade do meu desamparo, e que me digas quem são os meus pais: é o que te peço e rogo”664.
Na cena V (corresponde à cena IIII da antologia), nos vv. 1053; 1060, “Anda lá, meu querido Cremes!”; “Meu querido filho, eu te darei, podes crer, uma mocinha jeitosa de quem vais gostar sem esforço - a filha do nosso vizinho Fanócrates”665.
1.3.2.- Amor Paternal (autoridade- patria potestas) e Filial (respeito)
Realçamos no acto I, cena I, bem como no acto III, cena I e no acto IV, cena VIII (corresponde ao acto IIII, cena III da antologia) os diálogos das personagens pela predominância das questões paternais e filiais, seguindo o rigor da tradição - Menedemo, pai afectivo de Clínia e homem recolhido e o seu vizinho extrovertido Cremes, pai esperto de Clitifão. Apenas é retirada da antologia jesuíta a cena I do acto V, ainda que sejam
663
Cf. pp. 138, 90: In qua re nunc tam confidenter restas, stulta; pp. 140; 91: Id quod est consimilis moribus; / Conuinces
facile ex te natum; nam Tui similis est probe; / Nam illi nihil uiti est relictum quin sit et itidem tibi; / Tum praeterea talem nisi tu nulla pareret filium.
664
Cf. pp. 140; 92: obsecro, / Eius ut memineris atque inopis nunc te miserescat mei, / Quod peto aut uolo, parentes meos
ut commonstres mihi.
Cf. Sylvae variorum … cit., p. 119: o texto latino original é mantido.
665 Cf. pp. 143, 145; 94, 95: Age, Chremes mi; Gnate mi, ego pol tibi dabo illam lepidam quam tu facile ames.
interlocutores as mesmas personagens destacadas. No entanto, aí o motivo da conversa não interessa para o enredo preferido pelo antologista que destaca as relações dos pais preocupados com as “freimas de amor” (v. 110) dos seus filhos de “coração doente” (v. 100). Estes correm o risco de se afastarem de um casamento como manda a lei de Deus e dos Homens católicos, de maneira a cumprir a tradição.
O QUE SE OMITIU…
…ACERCA DO CONHECIMENTO DA VERDADE POR PARTE DE CREMES SOBRE A RELAÇÃO AMOROSA ENTRE CLITIFÃO E A SUA AMANTE, A CORTESÃ BÁQUIS
Acto V - Na cena I, nos vv. 900, 902, 903 e 908, Menedemo esclarece o seu vizinho
quanto a Báquis ser amante de Clitifão e não Clínia, como tinha acreditado Cremes levado pelas artimanhas de Siro. Informa-o do que viu em casa - “Já não falo dos beijos e abraços.”; “Tenho, no fundo da casa, um compartimento que dá para as traseiras. Levaram lá para dentro uma cama, estenderam-lhe as cobertas…”666. Cremes, elucidado, reconhece: “Menedemo, então é a amante do meu filho. Estou morto.”
Nos vv. 925-927, é Menedemo que dá conselhos a Cremes, ao invés do que se passa nos primeiros actos e cenas - “faz que ele sinta em ti um pai; faz que ele se atreva a confiar-te tudo, a fazer-te pedidos e solicitações - não vá buscar ajuda alhures e abandonar-te”667.
Nos vv. 945-946, Cremes desenganado, depois de descoberta toda a tramóia de seu filho e Siro, toma uma atitude radical em relação ao seu descendente - “que desbarata em devassidão e sem-vergonhice, eu o abata, o reduza ao ponto de não saber para onde se há- de voltar”668. Nos vv. 949-:952, acrescenta algo mais - “como se deve fazer com os filhos, é com palavras que o meterei na ordem. Mas Siro, se eu tiver vida e saúde, hei-de deixá-lo
666
Cf. pp. 126, 127, 128; 82, 83: Mitto iam osculari atque amplexari […]; Est mihi ultimis conclaue in aedibus quoddam