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1. F INALIDADE E DUCATIVA

2.2. O E SPAÇO E O T EMPO

Tendo nós a consciência de sermos redutores, devido às múltiplas indicações constantes nos documentos de referência, iremos explanar, à semelhança do que temos vindo a fazer, alguns dos dados relativos à ordem adquirida pelo espaço e pelo tempo durante um ano lectivo, num colégio jesuíta.

A organização do espaço estava ao serviço do aluno, mais especificamente, estava relacionada com a sua psicologia humana, para que tudo no colégio pudesse ir ao encontro da aprendizagem gradual e significativa. Havia cuidados por parte do Prefeito de Estudos Inferiores na fixação do lugar a ocupar pelos alunos ordeiros e respeitadores, seguindo critérios de comodidade “para os mais nobres”, tendo os jesuítas e religiosos a obrigação de se sentarem separados dos externos312. Nos actos públicos, não havia “lugares especiais” para os que tivessem sucesso “para afastar qualquer espécie de ambição ou desejos não bem ordenados”313. Ao bedel, o ajudante do professor, cabia a tarefa de distribuir os lugares nos actos públicos314.

Na sala, a compostura e o silêncio à saída deveriam propiciar o ambiente tranquilo e ordenado, sendo esta atitude acrescida de moderação e modéstia, o que também era

309

.Cf. LADISLAUS LUKÁCS S.J., Monumenta Paedagogica Societatis Iesu… cit., p. 370, nº 7: […] linguarum scientiam et

dignitatem privatim ac publice tueantur. 310

Cf. Ibid., pp. 448-454; p. 408, nº 34.

311

Cf. Ibid., pp. 453-454, nº 7: Poteri a moderatore poenae loco aliquid literarium exigi, iuberique, ut eorum nomina,

qui minus bene aut diligenter se gesserint, publice recitentur. 312

Cf. Ibid., p. 408, nº 29: […] nobilibus quidem commodiora, nostris veros et aliis item religiosis, si adsint ab externis

separata subsellis […].

313 INACIO DE LOIOLA,Constituições da Companhia... cit., nº 390. 314

solicitado aos alunos na entrada e saída da capela, estando sob controlo do Prefeito de Estudos Inferiores e dos professores destas classes315.

No pátio do recreio e na própria sala de aula, ao Prefeito das classes inferiores competia manter a ordem, fazendo reinar a tranquilidade e evitando as más acções com armas, com gente ociosa, com confusões e gritos. Proibiam-se também os juramentos e os insultos ou algo que não fosse honesto e fosse imoral316.

Quando nas Constituições se diz “nada fechado, isto é, porta ou armário”317, corrobora-se, mais uma vez, a atmosfera familiar e de confiança almejado.

De seguida, centrar-nos-emos na apresentação de aspectos articulados com a componente lectiva/curricular, para, depois, nos referirmos aos tempos de quietação, v. g., paragens para descanso temporário, breve ou mais duradoiro, neste último caso os períodos de férias.

Todos os cargos tinham responsabilidades no que dizia respeito à disposição do tempo nos colégios, factor valioso nesta pedagogia sem pressas e com cuidados na formação integral de cada aluno. Certamente, compreendemos que no topo da hierarquia o Provincial estivesse “constantemente” atento à constância no cumprimento dos horários de aulas, e a possíveis reparos relacionados com o calendário escolar, observando e deliberando, o que colocava a tónica na perseverança318.

Não havia limite de tempo nas classes; atendendo ao ritmo de aprendizagem de cada um. Existia, sim, a preocupação de ver “quanto tempo se há-de dar a cada matéria, e quando se há-de passar à seguinte”319. O Provincial era advertido para a delimitação do tempo do curso de Retórica e de Humanidades320- adaptabilidade tida em conta nos horários e calendarização321. Todos os professores de Gramática, Humanidades e Retórica eram alertados na segunda regra, atribuída a cada um destes graus, para a distribuição do tempo. Na entrega das composições aos alunos, todos os professores do primeiro ciclo de estudos tinham prazos a cumprir322.

315

Cf. Ibid., p. 4.10, nº 45; p. 442, ns. 43, 44.

316

Cf. Ibid., p. 410, nº 43: Nihil in atrio, nec in scholis, etiam superioribus patiatur armorum, nihil ociosorum, nihil

concursationum atque clamorum; nec iuramenta, nec iniurias verbo aut facto illatas, nec inhonestum aut dissolutum quid in eis permittat. […].

317

INACIO DE LOIOLA,Constituições da Companhia... cit., nº 427.

318

Cf. LADISLAUS LUKÁCS S.J., p. 364-365, nº 35: […] Quod autem constitutum fuerit, in eo constanter perseverandum […].

319

INACIO DE LOIOLA,Constituições da Companhia... cit., nº 357. 320

Cf. LADISLAUS LUKÁCS S.J., Monumenta Paedagogica Societatis Iesu… cit., p. 359, nº 18.

321 Cf. INACIO DE LOIOLA,Constituições da Companhia... cit., nº 435. 322

O tempo era cronometrado de forma a controlar a pontualidade e assiduidade. Virá a propósito salientar, conforme os costumes dos vários colégios, o recurso a um “sinal [que] será dado com uma campainha que tocará para deitar, refeições, etc.”323. O bedel ou auxiliar educativo com um relógio avisava o Prefeito ou o Professor, conforme os casos, nas lições ou nas disputas324.

As datas, dias e horas eram distribuídas, afixadas e atempadamente dadas a conhecer para a realização de actos públicos, como exames325 e proclamação de prémios326, exercícios escolares327, para que os alunos pudessem aproveitar bene as horas de estudo privado328. Nos exames, se o aluno pedisse mais tempo do que o estipulado para a sua realização, desde que o fundamento residisse no esmero do trabalho, não seria permitida a saída da aula e a tolerância dada não devia ir mais além do pôr do sol329.

O descanso e as horas de sono necessárias para um bom aproveitamento levam a que “(…) os Escolásticos não estudem em tempos prejudiciais à saúde corporal, que dêem ao sono tempo suficiente”330, “ para os estudantes de artes ou de teologia em especial, e também para os outros, deverá haver um tempo de estudo pessoal e tranquilo (…)”331. Na legislação do Reitor, é proposto para os alunos um descanso semanal de um dia inteiro ou horas posmeridianas 332. Os avisos para os feriados são também uma constante333 e o tempo de oração é agendado334.

Para rematar esta análise, assente no principal documento legislador deste sistema educatico que temos vindo a citar, poderemos indicar dois tópicos que marcavam este “jogo dramático” do professor-aluno, ancorado numa exercitação contínua e multifacetada, imagem de marca do método didáctico apresentado.

Desta feita, ficamos com a ideia de que, além do professor, todas as pessoas que trabalhavam no colégio uniam forças para ajudar o aluno no seu aproveitamento e no seu

323

Cf. INACIO DE LOIOLA,Constituições da Companhia... cit., nº 436.

324

Cf. Ibid., pp. 445, nº 5.

325

Cf. Ibid., nº 390; Cf. LADISLAUS LUKÁS S.J., Monumenta Paedagogica Societatis Iesu…cit., p. 376, nº 23; pp. 413, 414, ns. 2, 6, 10.

326

Cf. Ibid., p. 415, nº 11.

327

Cf. INACIO DE LOIOLA,Constituições da Companhia... cit., nº 379. As declamações realizadas ao sábado de cada mês (Cf.Ibid., p. 428, nº 16)

328

Cf. .LADISLAUS LUKÁCS S.J., Monumenta Paedagogica Societatis Iesu… cit., p. 377, nº 27, p.408, nº 30; p. 443, nº 10.

329

Cf. Ibid., p. 415, nº 5: Si quis longius spatium ad rem accuratius perficiendam expetit, is, modo ne pedem e schola

efferat, neque ultra occasum solis tempus proroget, quamdiu voluerit, maneat. 330

INACIO DE LOIOLA,Constituições da Companhia... cit , nº 339.

331

Ibid., nº 384.

332

Cf. LADISLAUS LUKÁCS S.J., Monumenta Paedagogica Societatis Iesu… cit., p. 371, nº 19.

333 Cf. Ibid., p. 405, nº 7; p. 427, nº 15. 334

comportamento. Com efeito, todos eram educadores, directa ou indirectamente, nos vários cantos do colégio, desde a aula à capela, ao corredor, ao recreio e às próprias reuniões.

Estamos perante um sistema de ensino, apologista do estudo como dever desejado, que promovia uma moral cristã entroncada na autoridade, no labor persistente, sofrido e sem pressas, na motivação/emulação e na amizade/companheirismo. Compreendemos, deste modo, a recorrência a termos como diligência, modéstia, esmero, bons costumes e outros a eles associados. Podemos afirmar que os homens, integrados neste modo de ensinar e de aprender, são encarados nas suas vivência, auto-consciência e transcendência.