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CAPÍTULO 2 – ANÁLISE DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE ENFRENTAMENTO ÀS

4 REARTICULAÇÃO DO PROGRAMA CRACK, É POSSIVEL VENCER SOB A

4.2 AMPLIAÇÃO DA COBERTURA DO PROGRAMA: ASPECTO TERRITORIAL E

A cobertura abrange pessoas e serviços. “A cobertura a cidadãos diz respeito

à garantia de acesso da população e aos serviços de saúde” (LOBATO;

GIOVANELLA, 2012, p. 103). Com relação à cobertura aos dependentes de crack,

esbarra-se em uma questão que merece atenção: a criminalização do usuário. Há

uma dificuldade em alcançar o maior número possível de usuários para receberem

atenção do estado quanto à gestão das drogas e consequente redução de danos.

A criminalização do usuário é uma característica da política proibicionista, que

impõe uma barreira entre as ações estatais e da sociedade civil e os usuários, pois se

assumir enquanto usuário implica assumir uma prática criminosa. Esse aspecto é

prejudicial ao atendimento aos usuários, todavia não retira o caráter universal da

cobertura.

Quanto ao sistema de saúde, podem-se enumerar como seus principais

componentes a cobertura (quem é coberto, por quem e para quem), o financiamento,

a força de trabalho, a rede de serviços, os insumos, a tecnologia e o conhecimento

(recursos materiais e humanos disponíveis para o funcionamento), as organizações

(as agências públicas e privadas responsáveis pelas funções do sistema) e a

regulamentação (regras de funcionamento e responsabilidades) (LOBATO;

GIOVANELLA, 2012, p. 102). A relação com o sistema de serviços de saúde que gera

atenção aos dependentes de crack, mais específico que o estudo de todo o sistema

de saúde, segue a mesma dinâmica de elementos.

De acordo com a legislação brasileira em vigor, Lei n. 11.343/2006, o usuário

incide em crime, mesmo que a pena seja admoestação verbal, multa ou prestação de

serviço à comunidade, pois forma-se um processo e, ao final, perde a primariedade,

pois a lei apenas eliminou a previsão legal de encarceramento do usuário. A questão

está sendo discutida no Supremo Tribunal Federal, mas até a data de fechamento

desta pesquisa ainda não tinha sido julgada.

A ilegalidade do uso de drogas encoberta o seu número real, pois quem se

declara usuário de drogas incorre em crime, logo, prefere a clandestinidade. Assim,

não se sabe ao certo o verdadeiro número de usuários de crack no país, ficando

deficitária a oferta de acompanhamento e tratamento dessas pessoas, bem como o

planejamento de políticas públicas.

A pesquisa mais recente e de maior abrangência foi realizada pela Fundação

Oswaldo Cruz, publicada em 2014. Essa pesquisa entrevistou as cenas públicas de

consumo de crack, não alcançando outros tipos de usuários, a exemplo dos que

consomem a droga em lugares restritos, como residências, por exemplo. A pesquisa

denomina esse público como o tipo que faz a gestão do uso da droga com apoio da

família (FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ – FIOCRUZ, 2014).

A cobertura somente será integral, de fato, quando o uso e o porte de droga

não for mais crime, e os dependentes puderem, sem medo do aparato policial e

judicial, revelar-se e, assim, possibilitar ao Estado planejar e ofertar ações de redução

de danos.

Quanto ao alcance, a política deve ser planejada com a cobertura universal e

gratuita, garantindo a toda população o acesso aos serviços de acompanhamento e

tratamento ao vício do crack. Com relação ao atendimento e especificidade dos

serviços prestados, esses deverão respeitar os diferentes perfis de usuários, com

oferta de acompanhamento específico a fim de atender os diferentes grupos. Exemplo

dessa segmentação é particularizar o atendimento ao adolescente, à mulher e aos

moradores de rua. Cada grupo deverá ter planejada uma inserção e acompanhamento

distintos, com técnicas de abordagem e oferta de serviços próprios.

A Constituição Federal adotou o modelo de Estado Social, prestador de

serviços sociais com meios garantidores do desenvolvimento social. A política de

drogas, em especial a voltada para o crack, precisa da composição dos elementos

saúde, educação, moradia, assistência social, trabalho, segurança e erradicação da

pobreza, a fim de atingir os escopos constitucionais.

O modelo de igualdade social e defesa da dignidade da pessoa humana

estampado na Constituição Federal facilita a composição da rede universal de

cobertura. Todavia a legislação que criminaliza o uso e o porte de drogas representa

um obstáculo ao acesso à rede.

O fortalecimento das ações desempenhadas pela estrutura já existente na

área da saúde e da assistência social amplia o alcance das ações voltadas aos

dependentes de crack e, ao mesmo tempo, consolida a rede de atendimento

preexistente. Em síntese, as ações para enfrentamento ao crack podem ser

desenvolvidas utilizando-se a rede de saúde e de assistência social já existente, que

é de cobertura universal, pois além de se garantir essa amplitude na cobertura,

garante-se a continuidade das ações, que estarão inseridas dentro de uma política de

Estado já consolidada.

O primeiro aspecto quanto à cobertura refere-se à interiorização do programa

Crack, é possível vencer, a fim de abarcar as cidades com população inferior a 200

mil habitantes. O programa apresentou como elemento de fragilidade do programa o

seu alcance, contemplando apenas as capitais e municípios com mais de 200 mil

habitantes.

Outro aspecto da cobertura refere-se à ampliação dos setores atendidos pelo

programa, que deverá prever as diferentes formas de abordagem e de oferta de

serviços. Com relação à abordagem, é necessário que seja utilizada uma abordagem

para cada público alvo, respeitando suas peculiaridades. Assim, deve haver uma

inserção diferenciada para mulheres (FURTADO; ALIANE; ESPER; SOUZA, 2013),

adolescentes (SOUZA; AMATO; SARTES, 2013) e família e sociedade (SILVEIRA;

SILVA, 2013). Esses são exemplos de grupos que no conteúdo da ação precisam de

direcionamento especial de ações.

No que se refere à mulher usuária de álcool e drogas, os autores descrevem

a dificuldade em levantar dados sobre o consumo, uma vez que ocorre no ambiente

doméstico e as mulheres, em razão do forte preconceito e por questões morais,

preferem omitir essas informações quando entrevistadas por profissionais da saúde.

Com relação a essa abordagem, os autores da pesquisa chamam a atenção para que

seja feita por mulheres, a fim de torná-la mais acolhedora e a mulher se sentir mais à

vontade para falar. Os autores relacionaram como fatores que podem facilitar o

consumo de álcool e drogas “consumo problemático de álcool pelo parceiro (marido,

namorado), história prévia de depressão, abuso físico e/ou sexual e estresse”

(FURTADO; ALIANE; ESPER; SOUZA, 2013, p. 168).

Os maiores obstáculos para inserção desse público em programas de

recuperação referem-se às condições psicossociais das mulheres “depender

financeiramente de outros, vergonha diante da sociedade e da família, culpa, medo

de perder a guarda dos filhos, falta de apoio do companheiro e presença de

cormobidades psiquiátricas” (FURTADO; ALIANE; ESPER; SOUZA, 2013, p. 168).

Com relação à abordagem da política para com os adolescentes, esta deverá

levar em consideração as peculiaridades enfrentadas nessa fase da vida. Um

importante aspecto é levar em consideração a linguagem, a relação com os pais,

escola e amigos. É necessário trabalhar nesse grupo específico as recaídas, retorno

ao consumo de drogas e as habilidades sociais, uma vez que “são fundamentais para

a estruturação de vínculos estáveis e seguros e são o repertório de que a pessoa

dispõe para lidar com as demandas das situações interpessoais” (SOUZA; AMATO;

SARTES, 2013, p. 200).

A cobertura universal deve prever, dentro do seu contexto de universalidade,

atenção especial para os grupos que possuem peculiaridades próprias. A família e o

entorno social do usuário e dependente de crack se constituem em importantes

sujeitos da política de drogas.

A família do século XXI possui contornos diferenciados do modelo familiar dos

séculos anteriores: “diminuição do número de filhos, o trabalho feminino fora de casa

– com isso as crianças passaram a ficar mais tempo nas escolas –; o planejamento

familiar passu a ser consensual entre os cônjuges, com o advento da pílula

anticoncepcional”. A família passou a ter uma nova dinâmica, influenciada por

aspectos interiores (intrafamiliar) e aspectos externos (interfamiliar), que se

relacionam intimamente com o comportamento, inclusive com relação ao consumo

e/ou abuso de drogas (SILVEIRA; SILVA, 2013, p. 210).

Alguns elementos devem ser levados em consideração para a criação de um

ambiente familiar favorável a comportamentos saudáveis: valorização das relações e

dos princípios básicos de uma comunicação clara e autêntica; e coerência entre os

limites e regras com as atitudes e palavras. Ainda, os profissionais que atuarem no

núcleo familiar deverão cercar-se de cuidados na abordagem, “evitando visões

deterministas, moralistas e/ou culpabilizadoras” (SILVEIRA; SILVA, 2013, p. 2018). As

ações direcionadas à família e entorno social dos usuários e dependentes devem

priorizar:

Oferecer acolhimento e orientação;

Conhecer a cultura familiar, sua linguagem, crenças e normas;

Fazer diagnóstico diferencial para propor à família o plano de

tratamento;

Estabelecer junto com a família um plano de tratamento após o

diagnóstico diferencial;

Detectar e orientar a família em relação às suas próprias

competências;

Orientar e motivar a família a participar do processo de tratamento;

Evitar julgamentos e preconceitos (SILVEIRA; SILVA, 2013, p. 2018).

Outro elemento que merece atenção quanto à cobertura refere-se à ampliação

dos serviços ofertados, envolvendo mais setores do que os quatro previstos no

programa – saúde, assistência social, segurança pública e educação. É necessário

que se tenha a oferta de opções aos usuários, para que paulatinamente substitua o

consumo do crack por outras opções de prazer.

A política deve promover ações conjuntas, no sentido de integrar tratamento

e prevenção, com ações coordenadas entre as diferentes áreas. O “tratamento da

dependência química deve ser considerado como um conjunto de técnicas e

intervenções desenvolvidas com o intuito de favorecer a redução ou a abstinência do

consumo de substâncias psicoativas” (RIBEIRO; LARANJEIRA, 2010, p. 24).

O tratamento deve se dar na forma de várias ações, fornecendo opções aos

usuários no tratamento. Ainda, deve oferecer suporte à família e entorno social, de

maneira que o plano de ação de tratamento deixe claras as etapas a serem

alcançadas, incluindo o acompanhamento pós-tratamento. Cada usuário e depende

atendido pelo programa deve ter construído um plano de ação, a fim de possibilitar o

acompanhamento do tratamento. Trata-se da individualização do tratamento, que

deverá agregar todos os setores envolvidos.

A definição das ações que comporão o programa de drogas e dos

profissionais que desempenharão cada papel deve ser estabelecida na lei que define

o programa e especificada em suas minúcias nos regulamentos. Assim, além da

definição dos papéis, é possível ter segurança jurídica que todas as ações serão

contempladas, fugindo do jogo de empurra-empurra feito pelos entes federados

quando as ações são de competência comum, como as estabelecidas no artigo 23 da

Constituição Federal.

A descrição dos agentes envolvidos dependerá das ações intersetoriais

determinadas pelo programa. No caso do enfrentamento ao crack, são necessárias

ações multidisciplinares, que abarquem o máximo de possibilidades aos usuários e

dependentes, para que optem por outras atividades em vez do consumo da droga.

A oferta de serviços poderá ser segmentada a depender do grupo no qual se

quer atingir, como, por exemplo, políticas específicas para moradores de rua,

mulheres, adolescentes, pessoas negras e pardas, pessoas sem estrutura familiar etc.

Os principais serviços ofertados no programa são nas áreas da saúde e

assistência social, incluídos os usuários, os dependentes e familiares que convivem

com os beneficiários do programa. Deverão ser oferecidos serviços específicos para

moradores de rua, pois demandam ações diferenciadas dos usuários e dependentes

que possuem uma estrutura familiar que lhes dê apoio. Também os serviços devem

ser específicos para as mulheres, principalmente pelo fato de gerarem filhos e serem,

via de regra, as únicas responsáveis pela prole. Aqui são necessárias ações de

amparo material e empoderamento feminino, com apoio em saúde, moradia, inserção

no mercado de trabalho, creche e apoio psicológico.

Ainda, deverão ser oferecidos serviços e atividades que atendam às

demandas da juventude, com espaços para cultura, lazer, esportes e convívio social;

às demandas do homem adulto, negro ou pardo, de baixa escolaridade e

desempregado que, de acordo com a pesquisa da FIOCRUZ, consiste no maior

número de usuários e dependentes de crack encontrados nas cenas públicas de uso.

A rede de atendimento deverá contemplar ações específicas de amparo à

família e à comunidade que envolve os usuários e dependentes, que deverão ser

tratados em conjunto. Uma das falas do programa Crack, é possível vencer foi o não

estabelecimento de ações específicas que atendam à família, que fortaleça os laços

familiares e comunitários.

Os serviços poderão ser classificados de acordo com a prioridade, a depender

da localidade em que serão desenvolvidos e o público que será atendido. Aqui,

cita-se mais um ponto que fortalece a necessidade de planejamento com os cita-setores

envolvidos na política, as organizações da sociedade civil e o diagnóstico do perfil dos

beneficiários dos programas.

Em linhas gerais, apresentam-se como ações prioritárias:

a) Alta Prioridade: retirada das ruas, reestabelecimento da saúde e auxílio

controle na administração da droga;

b) Média Prioridade: atendimento ambulatorial (médico e psicológico),

reestabelecimento dos laços familiares e ações de assistência social

aptas a proporem alternativas de prazer, que substituam o uso da

droga, como cultura, esporte e lazer;

c) Baixa Prioridade: reinserção educacional e profissional e campanhas

preventivas.

Cada setor chamado a construir o programa indicará os profissionais e os

serviços a serem efetivados dentro da sua área de atuação. São atividades

cumulativas desenvolvidas pelo Estado.

Por fim, o que se propõe no componente cobertura do programa é a

readequação espacial, com a interiorização do programa, ampliação da oferta de

serviços e o estabelecimento de diferentes formas de abordagem, levando-se em

consideração os grupos a serem atingidos, bem como a ampliação dos serviços

ofertados, de maneira a ampliar os setores.