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CAPÍTULO 2 – ANÁLISE DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE ENFRENTAMENTO ÀS

3 ESTRUTURA DO PROGRAMA CRACK, É POSSÍVEL VENCER : PONTOS DE

3.1.3 Eixo estruturante do programa: autoridade

No eixo autoridade, os objetivos são ações para reduzir a oferta de crack e

outras drogas ilícitas, com metas de repressão ao tráfico e ao crime organizado, assim

como de meios que garantam, de maneira geral, segurança à sociedade. Foram

doadas, dentro do pacote de incentivos à adesão ao programa, bases móveis aos

municípios e estados aderentes ao programa, as quais monitoram, em micro-ônibus

adaptados, os locais de venda e consumo do crack. Ainda tem-se a previsão de

desenvolvimento de operações especiais que atuem na repressão do tráfico ilícito e

de capacitação dos policiais que atuam próximo às áreas de risco.

A política de segurança, dentro do eixo autoridade, fortaleceu todas as ações

preexistentes no enfrentamento ao tráfico de drogas e monitoramento das áreas de

fronteira. Ainda, foram capacitados os agentes de segurança pública em curso com

três módulos, todos voltados para ações de combate ao tráfico e forma de abordagem

aos usuários e dependentes (BRASIL, 2014a).

Aqui são dois os programas oferecidos: Policiamento ostensivo e de

proximidade – Polícia Comunitária, com uso de tecnologias de menor potencial

ofensivo, e programas de Capacitação de profissionais de segurança pública.

A polícia comunitária tem por função apoiar a implantação de policiamento

de proximidade dos pontos de maior incidência de uso de drogas nos estados, Distrito

Federal e municípios com guarda Metropolitana superior a 150 agentes. O Governo

Federal disponibilizou equipamentos como: bases móveis com videomonitoramento

(micro-ônibus adaptado), apoiadas por veículos e motocicletas; tecnologias de menor

potencial ofensivo; e a instalação de câmeras de videomonitoramento em pontos fixos

como forma de possibilitar maior segurança à população, preservando as

intervenções urbanas a serem feitas nessas localidades e melhorando a pronta

atuação policial. Possui como marco legal o Decreto n. 7.179, de 20 de maio de 2010,

que institui Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, e Decreto

n. 7.637, de 8 de dezembro de 2011, que altera o Decreto n. 7.179.

Com relação à Capacitação de profissionais de segurança pública, a

Secretaria Nacional de Segurança Pública formatou a construção de cursos

específicos para qualificar a atuação dos profissionais de segurança pública – policiais

militares, policiais civis, bombeiros militares e guardas municipais – com atuação no

programa Crack, é possível vencer. De acordo com o programa, as capacitações são

modulares, totalizando 160 horas, ou quatro semanas, de aulas presenciais nos

seguintes temas:

Módulo I – Curso Nacional de Multiplicador de Polícia Comunitária (80

h/aula): é uma especialização no tema de polícia de proximidade que

apresenta conceitos, ferramentas, técnicas e práticas que orientam a

rotina dos profissionais de segurança pública.

Módulo II – Tópicos Especiais em Policiamento e Ações Comunitárias

– TEPAC, Redes de Atenção e Cuidado (40 h/aula): é um curso

formatado de maneira conjunta por especialistas nas áreas de saúde,

assistência social e políticas sobre drogas. Tem como objetivo

capacitar profissionais de segurança pública que atuarão nas cenas

de uso de crack e outras drogas de forma que possam reconhecer as

redes de atenção, prevenção e cuidado e o seu papel neste cenário.

Módulo III – Tópicos Especiais em Policiamento e Ações Comunitárias

– TEPAC, Abordagem policial a pessoas em situação de risco (40

h/aula): é um curso construído para orientar os profissionais de

segurança pública no sentido do emprego racional e adequado das

tecnologias de menor potencial ofensivo, baseado nos princípios que

regem as ações policiais, sobretudo, o princípio da dignidade da

pessoa humana, da legalidade, da necessidade, da proporcionalidade

e da razoabilidade e da defesa dos direitos humanos (BRASIL, 2010,

online).

De acordo com as informações da Secretaria Nacional de Segurança Pública,

até outubro de 2015 foram capacitados 7.731 policiais, nos municípios e estados

(todos os 26 Estados e Distrito Federal) que realizaram a pactuação (BRASIL, 2014a).

As ações policiais são objeto de muita observação na execução do programa,

as quais requerem atenção por parte dos gestores públicos, uma vez que os agentes

acabam por se cercar de violência para conter usuários e dependentes. Esse fato

afasta os usuários e dependentes ainda mais do ingresso voluntário aos programas e

dificulta o diálogo com os agentes que desenvolvem as ações de saúde e assistência

social. O diálogo entre os eixos é um dos pontos de fragilidade do programa, pois

enquanto a segurança pública ancora-se na ideologia proibicionista, com uso da

violência no enfrentamento às drogas, os representantes da saúde, assistência social

e educação tendem a adotar a ideologia da redução de danos, por meio do

convencimento e suporte aos usuários e dependentes.

O alinhamento dos discursos em torno da ideologia de redução de danos não

é tarefa fácil para os agentes da segurança pública, uma vez que as polícias operam

diretamente com a população, em contato direto com a violência gerada pelo tráfico

ilegal de drogas. A constante capacitação e apoio psicológico aos agentes que lidam

com o tráfico é um dos mecanismos a serem empregados para o sucesso do

programa. É necessário cuidar de todos os envolvidos diretamente com as drogas.

Entre os operadores dos três eixos do programa, a polícia está mais exposta

à rede de corrupção formada pelo tráfico de drogas do que outros agentes públicos,

em razão do contato direto com a violência gerada pelo tráfico, esta, a corrupção,

considerada importante elemento garantidor do tráfico e promotor da violência. A

polícia, quando corrupta, protege e favorece o tráfico de drogas.

Em pesquisa recente elaborada pelo instituto Datafolha, 8.550 pessoas foram

ouvidas pela Pesquisa Nacional de Vitimização no Estado do Rio de Janeiro, e 7,2%

(619 pessoas) afirmaram já terem sido vítimas de extorsão ou tiveram que pagar

propina a algum policial militar. Em todo o Brasil, foram ouvidos cerca de 78 mil

entrevistados, e a média nacional de corrupção pratica por policiais foi classificada em

2,6%. Os estados do Amapá (5,3%), Pará (5,3%), Rio Grande do Norte (5%),

Amazonas (4,8%), Alagoas (3,8%), Pernambuco (3,6%), Goiás (3,5%) e Mato Grosso

(3,1%) também registraram percentuais acima da média nacional, mostrando que a

corrupção entre policiais se localiza predominantemente nos Estados do Norte e

Nordeste do País (CRISP, 2013).

A corrupção policial é um desafio a ser enfrentado pelos governos no

enfrentamento às drogas, pois se trata de uma frente de trabalho importante para o

sucesso do programa, que envolve ações de redução de danos e de combate ao

tráfico.

A criminalização das drogas expõe considerável número de pessoas à

violência, desde usuários, moradores das regiões onde o tráfico opera suas ações e

as polícias que estão em contato direto com essa realidade.