4 Análise dos Resultados
4.7 Fase 4: Concentração em Belo Jardim (1995-atual)
4.8.5 Análise contextualista-processual das fases
Com relação a esta última fase analisada, evidenciam-se tanto os modelos de internacionalização voltados ao contexto externo quanto aos dirigidos ao contexto interno da empresa. No início da fase, a entrada no mercado argentino decorreu tanto de elementos externos, como a vantagem de localização, via mercado estabelecido pelas networks, assim como de elementos relacionados ao contexto interno, como as vantagens de propriedade e de localização.
A visão baseada nos recursos, relacionada ao contexto interno da empresa constituiu-se como poderosa ferramenta para o enfrentamento da crise na Argentina, especificamente os recursos organizacionais e financeiros, favorecendo a reputação da empresa naquele país.
Quanto ao processo estratégico relacionado aos modelos de internacionalização utilizados, percebe-se que a Escola de Uppsala e seus componentes, tais como gradualismo, aprendizado e distância psíquica apresentaram papel relevante nesta fase.
O retrato da trajetória do grupo com relação às mudanças que tiveram maior representatividade no processo de formação de suas estratégias internacionais é visualizado no quadro 10(4) abaixo, de acordo com a orientação de Pettigrew (1987), com a dimensão de conteúdo (o que mudou); contexto (por que mudou) e processo (como mudou). Estas dimensões são apresentadas em relação às teorias selecionadas para este estudo e ao longo das fases desvendadas.
FASES
DIMENSÕES
Conteúdo Contexto Processo
Condicionantes pré-exportadores
(1957-1982)
• Fundação da Empresa • Contrato com a parceria Chloride (inglesa)
• Contrato com a parceria Hoeppecke (alemã) • Criação da SUDENE • Programa da USAID para empresários brasileiros • Aprendizagem • Networks 1 Nordestinos em Nova York (1983-1985)
• Exportação para Nova York • Estabelecimento de escritório comercial em Nova York
• Crise econômica brasileira • Estertores do regime militar • Aprendizagem • Networks • Oportunismo
• Alta distância psíquica
2 Mercado de
Porto Rico (1985-2007)
• Fundação da Wayotec
• Importação de sucata de bateria para o Brasil
• Operações internacionais que resultaram em investimentos altos nas operações brasileiras • Manutenção de Porto Rico para operações com o México.
• Proibição de
importação de sucata de bateria para o Brasil
• Aprendizagem • Networks • Oportunismo • Baixa distância psíquica • Desenvolvimento de vantagens de propriedade 3 Moura Export (1989-1995)
• Fundação da Moura Export • Programa da Qualidade em Belo Jardim • Encerramento da Moura Export • Crise na economia brasileira • Aprendizagem • Início da reestruturação da empresa 4 Concentração em Belo Jardim (1995-2007)
• Concentração das atividades fabris em Belo Jardim
• Consolidação do programa de qualidade em Belo Jardim • Consolidação de parceiro no mercado inglês • Desvalorização do Dólar • Reestruturação da empresa e do organograma • Aprendizagem • Oportunismo em novos mercados • Desenvolvimento de vantagens de propriedade • Networks 5 Criação da BASA (1997-2007) • Instalação da BASA na Argentina
• Venda para mercado de reposição argentino • Fornecimento para Volkswagen
• Início de fornecimento para FIAT em Córdoba • Encerramento da terceirização e criação do departamento operacional de exportação no escritório em Piedade • Consolidação do planejamento estratégico • Crise na Argentina • Pressão do governo argentino para taxar exportações • Networks • Aprendizagem • Desenvolvimento de vantagens de propriedade • Desenvolvimento de vantagens de internalização • Baixa Distância Psíquica
Quadro 9 (4): Dimensões da mudança nas fases da trajetória da Acumuladores Moura S/A Fonte: Pesquisa de Campo (2007).
4.8.6 Síntese dos principais achados
Nesta fase, entre os achados encontrados, está o modo de entrada via componente de um produto, o carro exportado pela montadora. Ressalta-se que o processo foi resultante do uso do poder de barganha da empresa montadora.
Observa-se, em relação ao modo de formação das estratégias internacionais, que houve planejamento para não entrar no mercado argentino, a princípio. Este receio, em muito, está relacionado à falta de experiência da empresa naquele mercado. Posteriormente, já na Argentina, a empresa é incluída no planejamento estratégico corporativo da matriz brasileira.
A menor distância psíquica, que acarreta maiores similaridades entre os países, permitiu que o aprendizado anterior no mercado nacional, de enfrentamento de crises econômicas, mostrou-se fundamental para o gerenciamento da crise em um mercado próximo, como o argentino.
Com relação aos recursos, percebe-se que, na Argentina, a empresa tem conseguido bem desenvolver recursos intangíveis e valiosos, como reputação. Esse recurso foi desenvolvido como fruto da boa gestão financeira na crise argentina, que permitiu à empresa a sua manutenção naquele mercado.
No âmbito nacional, houve o término da terceirização das atividades operacionais de exportação, em decorrência do desenvolvimento dos recursos. Assim, a empresa percebeu que seria melhor a reintegração dessas atividades, por meio da criação de um departamento operacional para as exportações.
Assim como na RBV, Peteraf (1993) defende os recursos ex-ante competição, observou-se, na análise empírica dos resultados, que existiram fatores relacionados à Escola de Uppsala, como as networks, ex-ante competição internacional, que capacitaram a Acumuladores Moura a entrar de um modo mais arrojado no mercado argentino. Entre esses fatores, está a associação às montadoras com alto grau de internacionalização antes do momento em que a empresa estudada adentrou mais fortemente na competição do mercado internacional. Como essas montadoras possuem um grau de internacionalização maior, puxaram a empresa para maior inserção em mercados internacionais, como no mercado argentino.
As networks são exploradas pela Escola de Uppsala, contudo não da forma como uma inserção internacional prévia. A maior experiência internacional dessas montadoras e a certificação que capacita seus fornecedores a instalar-se em mercados internacionais diversos constituíram um elemento desencadeador da instalação da BASA na Argentina.
As vantagens de localização na Argentina começam a ocorrer por pressão governamental em industrialização das empresas exportadoras naquele País; fator este coadunado com o apregoado pelo Paradigma Eclético da Produção Internacional. Um ponto a ser ampliado nessa literatura é a vantagem de localização não somente em um país, mas em blocos econômicos regionais, como o Mercosul.
As vantagens de internalização foram decisivas para a instalação da BASA na Argentina. A empresa era parceira da UNIONBAT e tentou implementar sua cultura de qualidade, mas esses recursos foram difíceis de se transferir. Assim, à empresa coube o papel de internalizá-los, para garantir a conta da FORD.
Percebem-se, nesta última fase, todas as evidências do Paradigma Eclético da Produção Internacional como favoráveis para a instalação de uma unidade produtiva estrangeira. Atualmente a BASA apenas faz a recarga da bateria, quando esta chega do mercado nacional. Todavia, a empresa nacional ainda precisa ganhar escala e chegar próximo à capacidade máxima para que a produção nacional possa se internacionalizar.
Na figura 10(4) a seguir, estão representados três frameworks, visando fotografar os achados empíricos mais relevantes, destacados nas grandes fases, a saber: a primeira, no período pré-exportador, a segunda, pré-Moura Export e a última, pós-Moura Export. Evidencia-se, assim, como as teorias configuraram-se ao longo do tempo definido pelas fases. Dado o caráter dos achados dessas fases, mesmo a sua segmentação foi guiada por argumentações dos respondentes do estudo. A fase pré-exportadora, em decorrência da importância desta fase, na percepção do fundador e presidente, Sr. Edson Moura; e as grandes fases pré e pós-Moura Export, decorrentes da indicação do Vice-Presidente Comercial, Sr. Edson Viana, acerca das possibilidades de sucesso e fracasso vivenciadas pela empresa.
Figura 10(4): Principais configurações teoria-fases Fonte: autora (2008)
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