4 Análise dos Resultados
4.2 Condicionantes pré-exportadores: (1957 1982): 25 anos
4.2.1 Processo de formação das estratégias internacionais
Ainda que a primeira exportação tenha sido realizada para os Estados Unidos, no ano de 1983, muitas decisões e ações ex-ante exportações (WIEDERSHEIM-PAUL; OLSON; WELCH, 1978) apresentaram-se de fundamental importância para o entendimento do processo de internacionalização da empresa.
A importância destas ações anteriores é enfatizada e defendida pelo Sr. Edson Mororó Moura, que fez questão de frisar que a internacionalização (em seu sentido amplo) da empresa começou a partir do momento da criação da fábrica, onde se iniciou, não apenas no Brasil, mas principalmente no exterior, a busca por tecnologia:
A nossa inserção para o exterior, praticamente se deu com o processo de implantação da fábrica. Nós fomos fundados em mil... há 50 anos atrás, em 1957. Então você (pesquisadora) não faz uma idéia muito boa, nem se você tiver forças, tivesse meditado sobre o que era o Nordeste em 1957... um atraso profundo. Uma região que se dizia na época ser o maior bolsão de pobreza do mundo. Era a área onde tinha a maior quantidade de pessoas pobres, isso era dito por Celso Furtado. Ora, diante de um bolsão de pobreza, nós ficávamos não vou dizer no centro, mas
próximo do centro desse bolsão, não é? Que se chamava polígono da seca. Então, como era que nós íamos fazer baterias, que é uma peça técnica, não é? Complicada... é uma pilha galvânica. Então isso aí nos levou a procurar tecnologia [...] Não conhecia nada de baterias a não ser as leis gerais que regem a parte técnica[...] Além de buscar suporte em órgãos financiadores, o Sr. Edson Moura, em entrevista para Abelhão (2005) reforça também que ele procurou os professores da Universidade Federal de Pernambuco para se aprofundar no conhecimento da fabricação de baterias. No entanto, os professores daqui não sabiam como ajudá-lo, mas o diretor da escola lhe indicou um colega que trabalhava na Universidade de São Paulo:
Meu curso de química industrial foi muito bom, mas não tinha conhecimento para fazer uma fábrica de baterias. Procurei meus professores e eles não conheciam praticamente nada, apenas os princípios eletroquímicos na base da fabricação. O diretor da escola indicou-me um colega do Departamento de Eletrotécnica da Universidade de São Paulo e resolvi ir até lá para dissipar minha ignorância, como costumo dizer. Fui apresentado a um químico que tinha trabalhado 10 anos na Prest- o-lite, uma empresa americana de baterias. Foi a partir daí que comecei a construir a fábrica, comprando peças num ferro velho.
Não somente o Sr. Edson Moura recebeu a indicação para a visita à Universidade de São Paulo, mas o diretor da Escola de Química, também lhe conseguira um estágio numa fábrica importante. Sem dinheiro, mas sedento por conhecimento, o Sr. Edson Moura, recém- formado, seguiu de caminhão rumo ao sudeste, com duas cartas de recomendação na mão (MOURA, 2008).
A fábrica de baterias de São Paulo, na qual o Sr. Edson Moura faria um estágio, era a Satúrnia, a maior fábrica de baterias do país naquela época, e que pertencia ao italiano Aldo Rabioglio. O presidente da fábrica descobriu que o jovem estagiário pernambucano não era nenhum professor de química, mas sim um empreendedor que se preparava para lhe fazer concorrência. Foi o próprio Sr. Edson Moura quem revelou ao empresário o real objetivo de sua presença, omitido na carta de apresentação da Escola Superior de Química. Mas o estágio, para o qual a Satúrnia se propunha até a pagar a conta do hotel, obviamente foi cancelado (MORAIS, 1999).
O Sr. Edson Moura utiliza, então, a outra carta de recomendação, indo à PUC de São Paulo. Ao chegar à faculdade, conheceu um professor que lhe apresentou a um homem que já havia trabalhado durante 10 anos numa fábrica de baterias. O homem o levou para visitar uma fábrica que havia falido e lá o Sr. Edson Moura pôde recrutar um operário, o Antonio Robles, espanhol especialista em montagem de baterias, para vir a Belo Jardim e implantar a fábrica, com alguns poucos equipamentos usados, comprados em São Paulo. Esses equipamentos serviram de base para fazer outros aparelhamentos capazes de fabricar uma bateria (LIMA, 2007; MOURA, 2008).
No entanto, os conhecimentos adquiridos não foram suficientes para o desenvolvimento da fábrica, conforme relato do presidente e fundador da empresa, o Sr. Edson Mororó Moura, “[...] a quantidade de conhecimentos que nós trouxemos de São Paulo foi bastante para construir uma planta muito pequena e muito ineficiente [...]”.
Mesmo com a fábrica ineficiente e a pouca experiência prática do seu principal empreendedor, as placas de baterias que eram fabricadas tiveram boa acolhida no mercado, conforme relato do Sr. Edson Moura, em entrevista a Abelhão (2005).
[...] Não se pode ser empresário ou responsável técnico por uma fábrica de baterias somente com leitura: tem que ter prática, o que eu não tinha. Quebramos a cabeça e passamos maus momentos. Nossa tecnologia não era boa, mas não existiam placas muito boas, e as nossas tinham acolhida no mercado. Quase certamente, eram as melhores do Brasil. Fizemos nós mesmos o equipamento inicial para fabricar as placas de baterias, em Belo Jardim, com os conhecimentos dos mecânicos da Mariola. Usávamos peças usadas.
Inicialmente, em entrevista para Abelhão (2005), o Sr. Edson Moura explica que começou a fazer placas de baterias e atender ao mercado interno, especificamente o Rio de Janeiro:
Pretendíamos fazer apenas placas de chumbo, usadas para recondicionar baterias. Mas o mercado das placas era muito pequeno, e pensei em montar baterias também. As primeiras que fizemos, 100 placas razoavelmente boas, vendemos no Rio de Janeiro. As grandes fábricas de São Paulo não tinham interesse em vender placas, porque as baterias recondicionadas, mais baratas, faziam concorrência a elas. Uma bateria recondicionada é uma bateria nova que se deixa de vender. Como no Rio de Janeiro havia grandes reformadores de baterias, vendíamos lá uma quantidade razoável [...]
Evidencia-se, pelos argumentos acima, o modo empreendedor de formação das estratégias. Observa-se também a intimidade com a formação do produto a ser comercializado, mesmo com recursos escassos, agravados pelo uso de materiais usados, o que nos remete à lembrança da estratégia artesanal, defendida por Mintzberg (1998), perfeitamente alinhada com o modo empreendedor de formação das estratégias (MINTZBERG; AHLSTRAND; LAMPEL, 2000).
O fundador da empresa buscou o conhecimento quanto à sua prática, por meio do acionamento e estabelecimento de redes de relacionamento pessoais, para favorecer o desenvolvimento do produto a ser por ele comercializado. Não foi realizado, na época, nenhum planejamento estratégico formal e se houvesse ocorrido uma análise mais profunda dos recursos disponíveis pela empresa, os fundadores teriam consciência de sua inadequação. Esta análise é corroborada por Nejaim Filho (2007):
Certa vez, ao apresentar a um grupo de distribuidores uma retrospectiva sobre sua empresa, Edson Mororó Moura fez referência à metáfora do besouro, ‘quem não
voaria se tivesse consciência da sua inadequação para a empreitada’. Teimosamente, frisava Mororó, ela desafia as leis da aerodinâmica e com sacrifício alcança a velocidade necessária, conseguindo, finalmente, voar. A metáfora ilustra bem a visão do empreendedor sobre o desafio de produzir baterias para equipar automóveis, em 1957, na cidade de Belo Jardim (a 187 km do Recife). Uma região (o agreste meridional) onde a escassez de recursos como água e mão-de-obra qualificada são visíveis até os dias de hoje.
Na próxima subseção, a fase será analisada consoante os aspectos constituintes da Escola de Uppsala, que se apresentaram mais evidentes.