• Nenhum resultado encontrado

5 RESULTADO E DISCUSSÃO

5.1 ANÁLISE DOS SEGMENTOS DA CAPOEIRA E SEUS DISCURSOS EM RELAÇÃO

5.1.1 Análise do discurso purista e tradicionalista

A tarefa de conceituar e identificar o que é tradicional faz dessa ação um exercício extremamente complexo. A ferramenta da tradição é um forte mecanismo de empoderamento e de legitimação. Contraditória, passível de múltiplas interpretações, a tradição é elemento vivo e constante nas manifestações culturais. Na capoeira, identificamos tradições, plurais, em

que cada grupo específico entende a sua maneira o que é digno de preservação, manutenção, perpetuação e de reprodução inquestionável.

Amanda Alves e José Barros (2012) tratam da questão da identidade e da diversidade:

Sabemos que as identidades se afirmam por meio de demarcações particulares e se desenham na intenção entre o “eu” e o “nós”, entretanto, no contexto dos processos de globalização, nos vemos envolvidos em uma malha de experiências culturais que cruzam e se sobrepõem, o que faz da experiência de pertencimento e das relações identitárias, um complexo processo marcado por tensões entre originalidades e hibridações (ALVES; BARROS, 2012, s.p.).

A tradição é então elemento ativo na formação da identidade, o que fazem em comum, o que nos identifica como modus operandi, essas questões são distintas nas diferentes vertentes. Assim, registrar bens culturais marcados por significativa diversidade, representa também provocar, entre os líderes da arte, uma busca por uma expansão de conscientização, marcada pela capacidade de exercer um potencial de coesão e transformação social, ao lidar com o contraditório e com outras realidades.

Para ilustrar a questão e trazer maior propriedade, buscaremos refletir a respeito da fala dos mestres e da opinião das principais representações no âmbito da capoeira. Em entrevista concedida ao autor em maio de 2011, Mestre Itapoan63 ao ser questionado a respeito da preservação das escolas tradicionais e sobre a existência de estilos variados na atualidade respondeu da seguinte forma:

Primeiro, eu não acredito que existam vários estilos diferenciados. Variações de estilos de capoeira eu só conheço capoeira Angola e capoeira Regional. Essa coisa que se diz aí de capoeira contemporânea é uma coisa inclusive errada, porque contemporâneo é tempo. A capoeira Regional é minha contemporânea assim como a capoeira Angola é de Pastinha, então isso remete a tempo, certo? O que existem são pessoas que misturam as duas por necessidade às vezes comercial e às vezes por curiosidade, o cara quer fazer as duas e acaba sem uma denominação para ela...Olha, se você fizesse judô, e tivesse judô y, x, z, t, quer dizer, de uma forma ou de outra ia diluir o

63 Raimundo Cesar Alves de Almeida nasceu em 13 de Agosto de 1947 em Salvador Bahia e é conhecido no universo da capoeira como Mestre Itapoan. Treinou e conviveu com Mestre Bimba de 1964 até 1972, quando Mestre Bimba foi para Goiás. Tem em seu histórico grande envolvimento na busca por organização da arte, fundou a representativa Associação Brasileira de Capoeira (ABPC) e a Federação Baiana de Capoeira. Cirurgião dentista, tornou-se também escritor e publicou importantes livros para a capoeira, e é conhecido como um dos maiores defensores e conhecedores da capoeira Regional.

E t evistaà o edidaàaoàauto àe à àdeà aioàdeà àe àB asíliaà oàeve toà IVàVe haàMa di ga à oàCe ado .

judô nas modalidades todas, nesses pseudoestilos todos que as pessoas estão criando. Capoeira é a mesma coisa se você diluir muito a capoeira Regional e a capoeira Angola, pensando em estar fazendo um novo estilo você está enfraquecendo dois estilos fortes e criando uma série de vertentes que não se segura numa discussão durante dez minutos (entrevista direta: MESTRE ITAPOAN, 2011).

As duas vertentes citadas pelo mestre são baianas e oriundas especificamente de Salvador. Pesquisas e registros históricos, discutidos no início do trabalho, falam de focos irradiadores em outros Estados e em outros pontos da Bahia, e que não estavam conectados a Bimba, tampouco a Pastinha. No item 3.1.4, detalhamos a trajetória do Mestre Arthur Emídio, considerado como um dos maiores formatadores da capoeira carioca. Ele foi diretamente de Itabuna, onde aprendeu capoeira com Teodoro Ramos (Mestre Paizinho), para o Rio de Janeiro (IPHAN, 2007). Esse é um exemplo clássico em que não conseguiríamos, e ou, não poderíamos denominar sua capoeira como Angola ou Regional, e menos ainda tentar gerar sobrenomes a sua Capoeira.

Distanciando-nos do intuito de rebater ou criticar opiniões e posicionamentos, nossa intenção é descortinar problemáticas e discursos crônicos que ocorrem na capoeira. Assim como Mestre Arthur Emídio foi destacado como um exemplo, poderíamos destacar outros grandes expoentes históricos, somente no Estado da Bahia. Agrupar tudo que não está relacionado a Bimba como Angola é uma forma de simplificar a capoeira e principalmente exercer uma forte estratégia de identidade por meio de demarcações.

Figura 6- Mestre Itapoan, Mestre Pombo de Ouro e Mestre Camisa Roxa (da esquerda para direita), alunos de Mestre Bimba, em debate promovido no encontro "Venha Mandigar no Cerrado," Taguatinga - 2011.

Bem como de entender que tudo que se faz hoje acontece por influência direta de Mestre Bimba.

A bipartição da capoeira em Angola e Regional acontece nos primeiros anos da década de 1930. Conforme já tratado nos capítulos iniciais do trabalho, a terminologia Angola ganha força para promover um contraponto com a Regional (VIEIRA, 1996). O ensino mais formal da capoeira ganhou corpo a partir desse período, mas muitos referenciais já haviam se envolvido com a arte antes disso, ou tiveram orientações de distintos mestres, o que era extremamente comum na época. Os capoeiristas aprendiam por “oitiva”, termo era aplicado na capoeira para se referir ao aprendizado por observação, seguido por tentativas para replicar os movimentos visualizados, ou também relacionado às dicas e as orientações mais informais e individuais.

Para fortalecer o entendimento, vejamos alguns posicionamentos como o do Mestre João Pequeno64:

Foi com ele que tudo começou, que se originou a Capoeira Angola. O maior precursor, um baiano nascido no Pelourinho em 5 de abril de 1889, chamado Vicente Ferreira Pastinha, ou mestre Pastinha (depoimento público: MESTRE JOÃO PEQUENO, 1998, p.10).

Na citação de Mestre João Pequeno está feita a ligação direta entre a capoeira Angola e mestre Pastinha. Então, naturalmente, os que não estão vinculados diretamente a Pastinha ou aos seus discípulos não podem ser entendidos como “angoleiros”.

Em sequência, outra diferente inserção pode ser verificada por intermédio de Mestre Suassuna65. O Mestre nos conta que não se fixou em um grupo específico, que sempre gostou da capoeira como um todo e que percorria a capoeira Angola e a Regional. Fazia visitas aos Mestres Bimba e Pastinha, além das apresentações com os Mestres Canjiquinha, Gato, Caiçara e outros. E assim recebeu todas essas influências que forneceram recursos para o desenvolvimento do seu trabalho atual.

Acreditamos que as diferentes inserções e diferentes compreensões da capoeira, envolvendo os Mestres Itapoan, João Pequeno e Suassuna, não podem receber classificações como menos ou mais tradicionais, nem deveriam ser feitas escalas de valoração, em relação aos seus entendimentos e trajetórias, como se existe alguma formatação melhor do que a outra.

64 João Pereira dos Santos, Mestre João Pequeno, nasceu em dezembro de 1917. Foi considerado um dos maiores ícones da capoeira Angola em conjunto com seu eterno parceiro, Mestre João Grande. Defensor e continuador da capoeira de Mestre Pastinha recebeu título de cidadão da cidade de Salvador e também título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Uberlândia e ainda Comendador da Cultura da República pelo Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. O Mestre faleceu em dezembro de 2011, e deixou saudade nos capoeiristas das variadas vertentes, pois transitava por diversos grupos ensinando com humildade e sabedoria.

Entrevista concedida à Revista Capoeira de nº 2, referente ao mês de julho/ agosto de 1998, na seção: Personalidade, (p.10 e 11).

65

Reinaldo Ramos Suassuna, nasceu em Itabuna em janeiro de 1938. É reconhecido como um dos maiores difusores da capoeira no exterior na atualidade, por intermédio do seu grupo denominado de Cordão de Ouro. Ícone na capoeira e na musicalidade, gravou dezenas de músicas e exerce grande influência no meio capoeirístico, além da musicalidade, também pelo estilo de jogo criado por ele denominado de miudinho. Entrevista concedida a Revista Praticando Capoeira (edição especial) Ano 1, nº 3, (p.14 e 15), 2000.

Mestre Nestor Capoeira66, que realizou enorme contribuição nesse trabalho, em longa entrevista concedida ao autor, nos falou:

Tradição é algo difícil de realmente definir. A capoeira de mestre Pastinha é tradicional? Para mim, ele é tão “tradicional” quanto mestre Bimba, Canjiquinha, Waldemar e outros das décadas de 1940 e 1950... Para mim, a angola criada por mestre Pastinha foi uma resposta de um grupo de capoeiristas (Amozinho e aquela turma) ao sucesso de Bimba com sua academia. Faz parte da luta pela conquista da hegemonia, dentro da capoeira de Salvador... Outro enfoque que quase ninguém menciona: a capoeira de mestre Waldemar, no “barracão” do bairro da Liberdade em Salvador, era muito mais “tradicional” que a de Pastinha e a de Bimba, pois nas rodas do “barracão” existia realmente um acontecimento social, e não o “comércio” de uma academia (como em Bimba, Pastinha, e todos os que vieram depois). Então existem todas estas controvérsias sobre “tradição”. Existem muitas ideias preconcebidas que não examinam com isenção os acontecimentos do passado, e que, na verdade, são movidas pela emoção (gostar mais de tal mestre ou tal estilo, etc.) (entrevista direta: MESTRE NESTOR CAPOEIRA, 2012).

A palavra tradição vem do latim traditio, traditione, tradere, que significa entregar ou transmitir. No Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, a palavra é tratada como transmissão de valores, relacionada a questões espirituais e à oralidade, envolvendo hábitos, costumes e crenças. Dessa maneira, a palavra recebe peso histórico nas relações sociais, por estar, de certa forma, relacionada ao sagrado. Quem infringe então as normas da tradição da capoeira é passível de receber classificação de herege. Mas quem são os que vão classificar os hereges?

Mestre Bimba reinventou a capoeira, seus toques e movimentos; ele literalmente reinventou uma tradição. Genialidade ou desrespeito, fica a passividade de interpretações, bem como o que seria a capoeira autêntica. Para comprovar a dificuldade da questão, verificaremos a fala do Mestre Alex Carcará67, de Brasília, ainda tratando do tradicional.

66 Nestor Sezefredo dos Passos Neto (Nestor Capoeira) nasceu em setembro de 1946, em Belo Horizonte. Foi pioneiro no ensino da capoeira na Europa em 1971, publicou diversos livros e atuou amplamente em produções audiovisuais e em diversos espetáculos no Brasil e no exterior. Formou-se em Engenharia e defendeu dissertação de Mestrado e tese de Doutorado na UFRJ em estudos relacionados à capoeira e à cultura.

Entrevista concedida ao autor em setembro de 2012 – Brasília / Rio de Janeiro.

67 Alex Charles Rocha (Mestre Alex Carcará) é professor de Educação Física, Conselheiro do Conselho de Educação Física e Lazer da Secretaria de Esportes do Distrito Federal, do Conselho Federal e Regional de Educação Física (CREF-7) e da Liga Metropolitana de Capoeira do Distrito Federal. Recebeu o prêmio de profissional do ano na categoria de lutas no evento Brasília Capital Fitness em 2013.

Eu mesmo vim de uma linha mais de capoeira Angola, meu mestre era o Mestre Chibata. Eu fui estudar de onde ele veio e cheguei a dois mestres, quando ele era criança e adolescente, e ele veio da linha dos escravos ainda. Então é muito mais tradicionalista o tipo de trabalho que faço (entrevista direta: MESTRE ALEX CARCARÁ, 2013).

É muito comum no meio da capoeira, a autoclassificação de capoeira Angola como simples distinção da Regional. Mesmo quando está sendo tratada de uma capoeira ainda relacionada ao período escravo, como citado pelo Mestre, que antecede o período de possíveis classificações de capoeira.

Como já tratado em capítulo anterior, não poderia existir algo mais tradicional do que um elo entre o passado original e os tempos de hoje. E em se tratando de tradição, remetemos obviamente a um passado e à nossa memória social. Assim, Mestre Zulu68, em entrevista concedida em setembro de 2013, nos alerta em relação ao quão complexo e amplo é esse universo. E exemplifica fazendo uso de uma memória histórica indubitável: “o berimbau, por exemplo, foi inserido na capoeira”. Ou seja, não é originário da mesma. Os primeiros registros etnográficos relacionados à capoeira (verificar capítulo 3.1.3) realmente não revelam essa conexão. Considerado como um dos símbolos máximos da capoeira, o instrumento musical já existia, em formatos distintos na África, antes do anúncio da capoeira. Então, em uma visão tradicionalista, quem teria sido esse possível transgressor que fez essa junção?

A ligação África e período escravo sempre legitimam. Por exemplo, Mestre João Pequeno, em sua entrevista, frisa a ligação de aprendizado de Mestre Pastinha a um africano oriundo de Angola, de nome Benedito. Tais afirmações posicionam e distinguem as pessoas em um universo extremamente questionador. Contudo, nenhum enquadramento ou contextualização histórica vão substituir ou superar o filtro comportamental das ações práticas de cada liderança na capoeira.

Entrevista concedida ao autor em 02/09/2013 em Brasília.

68 Antonio Batista Pinto (Mestre Zulu) nasceu em maio de 1946 em Unaí – MG Fundador do Grupo Beribazu, exerceu pioneirismo na relação da capoeira com a escola e na formatação da capoeira com caráter educacional e formativo. Organizou um dos maiores eventos de capoeira do País, denominado de Grande Roda Brasileira de Capoeira, que reuniu capoeiristas de todo o Brasil entre 1976 e 1994, consecutivamente. Formatou sua capoeira com base em um ideário, que explora aspectos multidisciplinares como: preparação física, aspectos técnicos, táticos e psicológicos, consolidados dentro do binômio arte-luta.

Procuramos também entrevistar duas das mais expressivas lideranças da capoeira Angola da atualidade, mas negaram sua participação. Talvez o fato de ser mestre de capoeira e também pesquisador tenha gerado dificuldades, pois represento, para alguns, uma vertente diferente da deles. Contudo, o silêncio já é uma grande resposta!

É obvio que existem sim, tradições, e o objetivo não é negar. Existem formas de fazer e que devem ser respeitadas, assim como as ritualísticas, normas e regras já bem estabelecidas no universo da capoeira. O que gostaríamos de chamar a atenção é para os discursos exacerbadamente puristas e tradicionalistas, que no intuito de negar a diversidade, acabam se transformando em verdadeiras ações contraditórias cercadas de exclusão e sectarismo.

A vertente em questão vê a Bahia como o foco irradiador da capoeira para o Brasil e para o mundo, sendo assim não seria cabível, receber apoio governamental igual aos outros estados, ou sem consulta prévia aos mestres do estado. A comprovação desse entendimento está no Manifesto da Bahia, presente no anexo do trabalho, onde se questionou a presença de alguns mestres e o critério para inserção deles no Encontro Pró-Capoeira do nordeste. Questionou-se a legitimidade dos mestres que discutiriam junto aos agentes governamentais as formas de apoio à capoeira. O ponto pode ser ratificado na fala do Mestre Itapoan:

A Bahia inclusive foi quem registrou a capoeira primeiro, como Patrimônio Imaterial baiano, depois é que o Brasil registrou como Patrimônio Nacional. Mas, como uma defesa para segurar ela aqui, não que o governo estivesse pensando em investir profundamente na capoeira. A gente sabe que não... entendeu? As autoridades e o poder público nunca foram benevolentes com a capoeira (entrevista direta: MESTRE ITAPOAN, 2011).

Praticamente a totalidade dos entrevistados, capoeiristas, envolvendo as distintas vertentes, relatou desconfiança em relação à aproximação do Estado no dado momento. A relação histórica complexa, aliada a visão tradicionalista e uma busca por apoio consistente e duradouro, foram responsáveis pelo certo descrédito. A política dos editais promoveu um apoio mais democrático, mas sofreu também certas críticas, compartilhada por vários mestres, novamente relacionada à perenidade, que pode ser aglutinada na fala do mestre Itapoan:

Esse premio Viva meu Mestre é uma piada rapaz, primeiro vamos dizer que você vai dar 15 mil reais para uma pessoa, que é agraciada com isso, vamos dizer, um Mestre da Cultura popular, se isso fosse todo mês, se ele recebesse cinco mil por mês, tipo uma aposentadoria, tudo bem. Mas 15 mil, muitos desses Mestres vão pegar esse dinheiro e fazer novas dívidas, pagar algumas e fazer novas dívidas, e pagar com o que depois, se acaba nisso aí (entrevista direta: MESTRE ITAPOAN, 2011).

5.1.2 Análise do discurso esportivo

As principais motivações para o discurso esportivo, na atualidade, ou para esse enquadramento de capoeira, estão vinculadas à visibilidade de apoio, dos mais variados tipos, e também como forma de busca por ascensão, equiparando a arte a outras modalidades esportivas com maior divulgação e representação social.

Em um grande fórum realizado no Rio de Janeiro em julho de 2011 (Rio Capoeira 2011 – 1º Fórum Internacional de Capoeira), Mestre Boneco69, principal organizador do evento, de caráter internacional, afirmou: “Se nós não tivermos a organização de sermos um esporte olímpico, a gente fica para trás. Hoje, todo mundo está patrocinando os esportes olímpicos” (depoimento público: MESTRE BONECO, 2011).

A revista Capoeira: arte luta brasileira realizou cobertura do evento, e divulgou matéria na edição especial de nº 14, reafirmando os objetivos do encontro por intermédio da matéria de Adriano Chediak:

O foco principal foi debater os diversos temas que dizem respeito à evolução da capoeira como esporte, procurando preservar seus ritos, história e tradições e sua inclusão no rol das práticas olímpicas, porém sem abandonar os elementos que tornam a manifestação artística e cultural sem similares. Outro objetivo proposto foi o de divulgar o Brasil, promovendo a língua portuguesa como turismo (depoimento público: CHEDIAK, 2011, p.24).

As discussões giraram em torno de ações que pudessem promover uma união entre a classe tão segmentada. Mestre Pinatti70 falou sobre a necessidade imediata de uma “união psicológica da classe”. Um dos principais envolvidos no debate, ele exemplificou um possível modelo de competição: “As alternativas são competições com contato físico ou como apresentação individual através de avaliação da técnica feita por um júri, como na ginástica

69 Luis Roberto Simas, Mestre Boneco, ator e modelo, atuou em filmes novelas e seriados. Um dos fundadores do Grupo Capoeira Brasil, morou por muitos anos nos Estados Unidos, onde lecionou e preparou diversas estrelas de Hollywood para trabalhos cinematográficos. Levou a capoeira de maneira relevante ao mercado de entretenimento mundial, realizando divulgação da capoeira em uma parcela significativa de canais de televisão e revistas no Brasil e no mundo. Para saber mais sobre o evento em questão verificar link:

http://sportv.globo.com/site/programas/sportv-news/noticia/2011/07/capoeira-tenta-mudar-regras-para-se- transformar-em-esporte-olimpico.html.

70 Nascido em abril de 1930 em Orlândia interior de São Paulo, Djamir Pinatti é um verdadeiro líder e é considerado o precursor da capoeira paulista. Seus posicionamentos podem ser conferidos também no endereço: http://sportv.globo.com/site/programas/sportv-news/noticia/2011/07/capoeira-tenta-mudar- regras-para-se-transformar-em-esporte-olimpico.html.

olímpica” (depoimento público: MESTRE PINATTI, 2011, s/p.). Antevendo retaliações dos críticos, que argumentam que o formato proposto fragmentaria a capoeira e excluiria seus aspectos culturais, históricos, folclóricos e ritualísticos, Mestre Boneco complementou: “A gente só não pode perder a essência porque se não fica limitado, não fica a arte da capoeira”. Posto então o desafio pra os mestres inseridos no Brasil e no mundo, a expectativa natural e já esperada, a partir dessa grande mobilização, é que cada liderança defenderia uma concepção na qual esteve inserido ao longo de sua vida, ou em que perceba vantagens mais individualizadas.

Porém, em contraponto, Mestre Nestor Capoeira levanta um interessante posicionamento, ao falar da capoeira atual e das possibilidades da possível formatação esportiva para o futuro:

A mentalidade dos jogadores mudou, e tudo em volta também. Mas me parece que, apesar das mudanças e das críticas de muita gente (que devem ser examinadas com cuidado e atenção), não houve decadência, nem deturpação... Só me resta dizer que não sou favorável às competições de capoeira, com juízes e pontos e etc. Nem sou favorável às misturas cap- jiujitsu etc. Mas se uma fatia ampla da capoeira quiser (muitos capoeiristas estão ligados em inserir golpes da capoeira nos torneios internacionais de pancadaria tipo MMA ou UFC que tem enorme sucesso), eu aceito; mas só se continuarmos a praticar o jogo, em paralelo a estas possíveis novidades (entrevista direta: NESTOR CAPOEIRA, 2012. Grifo nosso.).

Mestre Nestor relata a aceitação de outros formatos, distintos aos da sua concepção, desde que isto não implique na exclusão do que considera uma essência da capoeira, o jogo. O jogo possui conceito extremamente amplo, assim como a capoeira, então, fazer vivo o elemento do jogo no universo da capoeira é aceitar uma universalidade de símbolos. Talvez, um dos principais ensinamentos ao iniciar a capoeira, é que não dançamos capoeira,

Documentos relacionados