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2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS: ANÁLISE DE POLÍTICA

2.3 Análise documental e teoria fundamentada nos dados

Os dados levantados na pesquisa foram analisados de dois modos. Em primeiro lugar, os dados relativos ao estudo censitário nacional publicado em 2012, sobre o perfil da população em medida de segurança, foram contrastados aos dados do perfil da população em medida de segurança que tem condições de desinternação, mas permanece internada indevidamente. Houve análises pontuais em períodos determinados concomitantemente à coleta de dados dos processos da VEP, para fins de teste dos dados e das análises. Mas a análise final qualitativa dos dados ocorreu somente ao final da coleta em todos os dados. Os dados relativos à trajetória das políticas de assistência social e de saúde mental foram

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analisados em uma matriz de direitos de cidadania e direitos humanos, à luz das técnicas de análise de conteúdo de política pública (DAGNINO, 2000). No momento da análise dos dados, foi utilizada a técnica da teoria fundamentada, cujas etapas de sistematização foram: leitura integral dos dados; análise dos dados dos processos analisados; registro em formulário dos dados fechados; microanálise dos dados abertos; contração dos dados abertos; codificação; vocabulário controlado; classificação; sistematização e análise (STRAUSS; CORBIN, 2008).

O levantamento dos dados somente teve início após a validação do instrumento pela etapa de pré-teste. Dessa forma, as análises concomitantes ao trabalho de campo ocorreram depois do pré-teste, uma vez que a análise dos dados favorecer a recuperação das evidências em etapas subsequentes. As informações resultantes da análise dos dados do estudo censitário de 2011, dos processos de medidas de segurança em fase de desinternação da VEP e das políticas de saúde mental e de assistência social foram lidas e analisadas na íntegra.

A ficha de registro de informação (Apêndice A) elaborada para realizar a análise documental dos processos da VEP era composta de 30 quesitos a serem recuperados nos processos: número do processo, comarca do processo, cidade/estado de nascimento, data de nascimento, cor/raça, conjugalidade, profissão, diagnóstico, local de moradia, crime, data do crime, data da prisão, crime contra a família, grau de parentesco com a vítima, data da sentença, período da internação determinado na sentença, data da internação, quantidade de exames de cessação de periculosidade realizados, data da cessação da periculosidade, data da sentença de desinternação, local de moradia durante a desinternação, ocorrência de trabalho articulado entre a equipe da VEP e rede socioassistencial e de saúde mental, acesso a benefícios de transferência de renda, reinternação, tipos de acompanhamento de saúde durante a internação e data da extinção da medida de segurança. Essas informações sobre o itinerário de desinternação foram recuperadas por meio de perguntas fechadas e abertas e pré-definidas para analisar os dados dos processos. Foi realizada uma fase de pré-teste com três processos para aperfeiçoamento da ficha de registro de informações. Após a fase de pré-teste, o instrumento foi finalizado e deu-se início ao levantamento de dados.

Na etapa de análise dos dados do tipo qualitativo, fez-se uso da teoria fundamentada (STRAUSS; CORBIN, 2008). Por teoria fundamentada entende-se a técnica ancorada na formulação de teoria a partir dos dados levantados no estudo. Como salienta David Gray (2012), a abordagem de estudo de caso também pode gerar dados que ajudem a desenvolver teoria, já que esta tese conta com a metodologia de um estudo de caso para levantamento

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parcial dos dados a serem analisados utilizando a técnica da teoria fundamentada. Nesse método qualitativo, coleta de dados, análise e teoria mantêm uma completa conjugação que deve estruturar as fases da pesquisa, desde o desenho do instrumento até o momento final da apresentação dos resultados (STRAUSS; CORBIN, 2008).

Entre os tipos possíveis de análise dos dados para a formulação da teoria fundamentada, foi feita a microanálise dos dados. O procedimento da microanálise é uma proposta da teoria fundamentada para uma estratégia inicial de aproximação e apropriação dos dados pelo pesquisador. Ou seja, a microanálise é um tipo de análise detalhada dos dados linha por linha, frase por frase ou trecho por trecho dos documentos analisados, necessária no começo de qualquer estudo a fim de gerar categorias iniciais e, sobretudo, sugerir relações entre as categorias (STRAUSS; CORBIN, 2008).

Há críticas sobre as técnicas da pesquisa qualitativa que tentam desqualificá-la pela facilidade em favorecer que as percepções do pesquisador se sobreponham ao que os dados sugerem (CHARMAZ, 2009). No procedimento da microanálise, a centralidade assumida pelos dados permite que eles provoquem os pressupostos teóricos do pesquisador (STRAUSS; CORBIN, 2008). Nesse sentido, o processo de codificação surge como um modo de focar a análise dos dados naquilo que também emerge inesperadamente da empiria. No momento da microanálise, perguntas gerais e perguntas específicas guiaram o processo de análise. Ao fazer a análise microscópica, os fatos, as ações e os resultados foram conceituados e classificados com base em suas relações.

Esse é um tipo de abstração, redução e relação entre os dados que permite a diferença entre codificação teórica e codificação descritiva (CHARMAZ, 2009; STRAUSS; CORBIN, 2008). A codificação dos dados seguiu dois procedimentos essenciais: a análise foi guiada fazendo perguntas aos dados e também fazendo comparações entre eles (STRAUSS; CORBIN, 2008). As perguntas aos dados são do tipo sensíveis, permitindo uma sintonia entre o analista e aquilo que os dados indicam; teóricas, para favorecer que a codificação dos dados evidencie o processo, bem como a variação e conexão entre eles; práticas ou estruturais, para consolidar a direção da amostragem no desenvolvimento da estrutura da teoria resultante; e orientadoras, para guiar as análises dos documentos (STRAUSS; CORBIN, 2008). Além do guia de perguntas aos dados, foram feitas comparações teóricas entre eles, permitindo não só a comparação incidente entre os dados para classificá-los, mas também comparações teóricas para estimular a análise sobre propriedades e dimensões da amostragem dos dados qualitativos.

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Após a codificação dos dados, eles foram agrupados segundo suas propriedades evidentes, em outras palavras, conforme as similaridades e diferenças apresentadas em suas relações (CHARMAZ, 2009; STRAUSS; CORBIN, 2008). Essa fase de classificação permite não apenas a codificação de fatos, ações e resultados em um modo descritivo, mas também a incidência dos resultados dimensionalmente a partir da identificação e inter-relação das propriedades dos dados. Propriedades são características ou atributos, sejam eles gerais ou específicos, dos dados. Por sua vez, dimensões representam a localização de uma propriedade ao longo de uma linha ou de uma faixa de dados agrupados (STRAUSS; CORBIN, 2008). Essas categorias são importantes para guiar a seleção dos dados, ou seja, definir quais foram centrais e quais foram considerados periféricos.

O projeto de pesquisa que fundamentou esta tese foi submetido a um Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade de Brasília. Os cuidados éticos requeridos para pesquisas com seres humanos foram tomados durante todas as fases do estudo, seguindo todas as recomendações do CEP. As normas estipuladas pelo Conselho Nacional de Saúde, por meio da Resolução 196, de 1996, foram atendidas tanto na elaboração do projeto quanto na execução das fases de levantamento e análise dos dados. Ao CEP, foi solicitada dispensa do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, em razão de grande parte do levantamento de dados se tratar de análise documental. Será mantido o anonimato de todos os sujeitos da pesquisa envolvidos em todas as fases do estudo, e de forma alguma serão divulgados dados que firam a confidencialidade de quaisquer informações pessoais.

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3 FAMILISMO NA ASSISTÊNCIA SOCIAL: UMA GENEALOGIA DAS