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No Brasil, os Registros Públicos são regulamentados pela Lei n.º 6.015, de 31 de dezembro de 1973, especificamente nos art. 29 a 115 que tratam do registro civil de pessoas naturais.

Por sua vez, a Constituição da República de 1988 em seu artigo 5°, inciso LXXVI, estabeleceu o instituto da gratuidade do registro civil de nascimento para as pessoas consideradas pobres, na forma da lei.

O registro civil de nascimento, assim, é considerado direito fundamental e torna-se ferramenta indispensável ao pleno exercício dos direitos trazidos pela nova ordem constitucional.

Nessa perspectiva, Maria Helena Diniz (2016, p. 316) elucida que “o registro de nascimento é uma instituição pública destinada a identificar os cidadãos, garantindo o exercício de seus direitos”.

O registro de nascimento, além de previsto na Constituição da República, está estabelecido no Código Civil de 2002, no artigo 9º, I, e artigo 33, I, da Lei de Registro Públicos, sendo regulamentado com minúcias a partir do artigo 50 da Lei 6.015/1973. Cabe, nesse ponto, ressaltar que assento de nascimento é lavrado no livro A, do Registro Civil de Pessoas Naturais, contendo os requisitos que se encontram dispostos no artigo 54. Veja-se:

Art. 54. O assento do nascimento deverá conter:

1°) o dia, mês, ano e lugar do nascimento e a hora certa, sendo possível determiná-la, ou aproximada;

2º) o sexo do registrando;

3º) o fato de ser gêmeo, quando assim tiver acontecido; 4º) o nome e o prenome, que forem postos à criança;

5º) a declaração de que nasceu morta, ou morreu no ato ou logo depois do parto; 6º) a ordem de filiação de outros irmãos do mesmo prenome que existirem ou tiverem existido;

7º) Os nomes e prenomes, a naturalidade, a profissão dos pais, o lugar e cartório onde se casaram, a idade da genitora, do registrando em anos completos, na ocasião do parto, e o domicílio ou a residência do casal.

8º) os nomes e prenomes dos avós paternos e maternos;

9o) os nomes e prenomes, a profissão e a residência das duas testemunhas do assento, quando se tratar de parto ocorrido sem assistência médica em residência ou fora de unidade hospitalar ou casa de saúde;

10) o número de identificação da Declaração de Nascido Vivo, com controle do dígito verificador, exceto na hipótese de registro tardio previsto no art. 46 desta Lei; 11) a naturalidade do registrando. (BRASIL, 1973)

Em 14 de novembro de 2017, o Conselho Nacional de Justiça editou o Provimento n.º 63, que instituiu modelos de certidão de nascimento, casamento e óbito além de dispor sobre o reconhecimento voluntário e a averbação da paternidade e maternidade socioafetiva no Livro “A” e sobre o registro de nascimento e emissão da respectiva certidão dos filhos havidos por reprodução assistida.

Mais especificamente, na Seção III, do Provimento n.º 63 CNJ estão estabelecidos os requisitos necessários para o registro de nascimento dos filhos havidos pela técnica de reprodução assistida.

Anteriormente ao Provimento n.º 63 do CNJ, o reconhecimento e o registro de filiação socioafetiva só era possível por via judicial, havendo necessidade de ingressar com uma ação judicial pleiteando a intenção desejada.

Com a publicação do referido provimento, o reconhecimento da filiação socioafetiva poderá ser efetuada extrajudicialmente em todo território nacional, sem a necessidade de intervenção do Poder Judiciário.

Portanto, para que seja possível o reconhecimento da filiação socioafetiva, o Provimento n.º 63 do CNJ estabelece requisitos específicos, além daqueles constantes do art. 54 da Lei n.º 6015/1973.

Conforme disposto no art. 16, se os pais forem casados ou conviverem em união estável, poderá somente um deles comparecer ao ato de registro, desde que apresente a documentação estabelecida no art. 17 do referido provimento, que será a certidão de casamento, certidão de conversão de união estável em casamento, escritura pública de união estável ou sentença em que foi reconhecida a união estável do casal (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2017). Nos casos de casais homoafetivos, o art. 16 do Provimento n.º 63 do CNJ, em seu parágrafo 2º, estabelece que o assento de nascimento deverá ser adequado para que constem os nomes dos ascendentes, sem referência a distinção quanto à ascendência paterna ou materna.

Nesse sentido, o reconhecimento da ascendência biológica não importará no reconhecimento do vínculo de parentesco e dos respectivos efeitos jurídicos entre os doadores e o filho gerado por meio da reprodução artificial. Essa possibilidade tem previsão no artigo 17, § 3°, do referido provimento do CNJ.

Destarte, em relação ao direito de personalidade, a possibilidade de haver por parte do filho o conhecimento da identidade biológica e genética dos seus genitores, explica Fujita (2011, p.77) que:

[...] cabe ao filho originário da técnica de reprodução assistida heteróloga o direito de conhecer o doador anônimo do sêmen ou a doadora anônima do óvulo, mediante ação investigatória de paternidade, ou de maternidade, em face do pai biológico ou da mãe biológica, sem que isso venha a importar na declaração do estado de filho natural, porquanto a relação paterno-filial, ou materno-filial, já resta fixada e reconhecida com o pai socioafetivo ou com a mãe socioafetiva.

Contudo, a recusa ao registro de nascimento e a emissão da respectiva certidão de filhos havidos pela técnica de reprodução assistida será vedada aos oficiais registradores, nos termos do Provimento n.º 63, art. 18, do CNJ.

Por fim, o artigo 17, § 2º do Provimento n.º 63 do CNJ estabelece que, nos casos de reprodução assistida post mortem, além dos documentos exigidos no caput do art. 17, a depender do caso, deverá ser apresentado termo de autorização prévia específica do falecido para tal ato, lavrado por instrumento público ou particular com firma reconhecida.

Outrossim, nas hipóteses nas quais se utiliza a gestação por substituição, não constará do registro o nome da parturiente informado na declaração de nascido vivo, devendo ser apresentado termo de compromisso firmado pela doadora temporária do útero, esclarecendo a questão da filiação, conforme art. 17, §1º, da resolução sob análise.

Por fim, cabe aclarar que a Declaração de Nascido Vivo (DNV) do Ministério da Saúde, citada no provimento ora analisado, é regulada pela Portaria n.º 116, de fevereiro de 2009 e consiste em documento padrão de uso obrigatório em todo o território nacional, para a coleta dos dados sobre nascidos vivos e considerado como documento hábil para os fins do artigo 51 da Lei nº 6.015/1973 (LOBO, 2017).

Por fim, evidencia-se que o Provimento n. 63/2017 do Conselho Nacional de Justiça encontra-se em harmonia com a orientação trazida na Resolução n. 2168/2017 do Conselho Federal de Medicina e ambas as normas são de grande relevância, uma vez que são elas que tratam da regulamentação da reprodução medicamente assistida no país, cada qual em sua esfera.

Trata-se de tema de fundamental relevância para a sociedade, pois a utilização de tais técnicas, apesar do elevado custo para o padrão econômico da maioria da população brasileira, representa importante ferramenta de planejamento familiar, com procura e prática em crescimento no país.

Desse modo, imprescindível que haja maior reflexão sobre as questões em torno desse tipo de técnica para informar as pessoas da sociedade e mesmo para o conhecimento dos operadores do direito sobre o assunto.

5 CONCLUSÃO

O presente trabalho teve como objetivo principal a análise acerca dos requisitos da reprodução assistida e dos aspectos registrais do assento de nascimento do filho havido por essa técnica de reprodução.

Em análise ao panorama social familiar no país, verificou-se que, há muitos anos, o modelo familiar brasileiro deixou de ser singular – fundado apenas no casamento, como era na época do Código Civil de 1916 – para ser plural, poliforme, multifacetado.

Essa transformação, fruto da alteração do comportamento social nos arranjos familiares, reclamou uma nova ordem jurídica para que fossem disciplinadas essas novas relações.

Nessa senda, o art. 226 da Constituição da República refletiu o desiderato de poliformismo familiar ao estabelecer que a família seja base da sociedade e tem especial proteção do Estado, sendo reconhecida como entidade familiar a união estável (§3º) e a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes (§4º) (BRASIL, 1986), não limitando o reconhecimento de novos núcleos familiares que podem vir a surgir.

Nesse cenário, tendo-se em conta as mudanças no quadro da família contemporânea e considerando que é cada vez mais frequente a utilização das técnicas de reprodução artificial humana na sociedade brasileira, o presente trabalho tem como propósito analisar os requisitos estabelecidos atualmente para a efetivação dessas técnicas e as implicações no ato de registro de filhos havidos por elas.

Demonstrou-se que a filiação consanguínea, na guarida do Código Civil de 1916, era de caráter decisivo para o estabelecimento da paternidade e da maternidade, pautada pelo critério biológico presumido.

Diante da constitucionalização do Direito das Famílias, porém, permitiu-se o amparo jurídico de diferentes modelos de concepções familiares, sendo também o afeto reconhecido como importante fator gerador dos vínculos familiares.

Nesse ponto, verificou-se que a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 estabeleceu, na cláusula geral inclusiva do art. 226, uma acepção familiar plural e, segundo os direitos e garantias fundamentais, descentralizada, democrática, igualitária, superando a família exclusivamente matrimonializada.

Em consonância com a nova ordem constitucional, o art. 1.593 do Código Civil dispõe no sentindo de que a parentalidade pode ser, além de consanguínea, derivada outra origem, admitindo o reconhecimento da paternidade desbiologizada ou socioafetiva.

Tal alteração aliada ao livre planejamento familiar propicia aos indivíduos o uso das técnicas de reprodução humana artificiais para auxiliar a concretização do sonho da paternidade/maternidade, tão desejado por algumas pessoas como forma de realização pessoal. As técnicas em questão constituem formas de fecundação assexual, isto é, sem existência do ato sexual, e são utilizadas quando da impossibilidade ou da dificuldade em gerar um filho por meio da reprodução natural e podem ser concretizadas diante dos avanços da biotecnologia e da medicina.

Estudou-se que, em razão das diversas formas de reprodução artificial assistida, o Código Civil reconhece, em seu artigo 1.597, incisos III e IV, a filiação fruto de concepção artificial homóloga e, em seu artigo 1.597, inciso V, da heteróloga (BRASIL, 2002).

Todavia, o Código Civil não regulamenta o procedimento de referidas técnicas. Assim, os requisitos para a realização da reprodução mediante as técnicas autorizadas no país foram analisados, tanto sob o aspecto jurídico (Código Civil), médico (Resolução n.º 2168/2017 do CFM) e registral (Provimento n.º 63/2017 do CNJ).

Destarte, ao estudar os temas expostos, foi possível perceber que as técnicas de reprodução artificial possibilitaram a abertura de novos rumos nos conceitos de família da sociedade brasileira.

Evidenciou-se que o Provimento n. 63/2017 do Conselho Nacional de Justiça encontra- se em harmonia com a orientação trazida na Resolução n. 2168/2017 do Conselho Federal de Medicina e ambas as normas são de grande relevância, uma vez que são elas que tratam da regulamentação da reprodução medicamente assistida no país, cada qual em sua esfera, apesar da possibilidade da técnica ser enunciada no art. 1.597 do Código Civil.

Ultimado o estudo neste trabalho monográfico, reforça-se a justificativa da importância no aprofundamento do tema, pela significativa relevância do assunto abordado, que traz grandes consequências no mundo jurídico, merecendo destaque a desnecessidade de judicialização do pedido de registro de nascimento em nome dos pais que idealizaram a filiação medicamente assistida, quando houver gestação por substituição ou uso de quaisquer das técnicas por casal homoafetivo.

Trata-se de tema de temática extremamente relevante para a sociedade, pois a utilização de tais técnicas, apesar do elevado custo para o padrão econômico da maioria da população brasileira, representa importante ferramenta de planejamento familiar, com procura e prática em crescimento no país.

Dessa forma, revela-se fundamental que haja maior reflexão sobre as questões vinculadas a esse tipo de técnica para informar as pessoas da sociedade e mesmo para o conhecimento dos operadores do direito sobre o assunto.

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éticas para a utilização das técnicas de reprodução assistida – sempre em defesa do aperfeiçoamento das práticas e da observância aos princípios éticos e bioéticos que ajudam a trazer maior segurança e eficácia a tratamentos e procedimentos médicos –, tornando-se o dispositivo deontológico a ser seguido pelos médicos brasileiros e

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