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As técnicas de reprodução artificial têm a finalidade de facilitar o processo de procriação nos casos de problemas com a reprodução humana de forma natural. Além disso, as técnicas podem ser usadas na preservação social e/ou oncológica de gametas, embriões ou tecidos germinativos, desde que exista a probabilidade de sucesso e não gere nenhum risco grave à saúde do(a) paciente tampouco a do descendente, nos termos da Resolução n.º 2.168/17 do CFM (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2017).

Consoante, aos parágrafo 1° e 2° da resolução 2.168/17 do CFM, a idade máxima das candidatas à gestação por técnicas de reprodução artificial é de 50 anos, considerando que para tal limite de faixa etária, há exceções que deverão ser fundamentadas pelo médico assistente baseadas em critérios técnicos e científicos, comprovando que a paciente não possui nenhum tipo de comorbidade e que a mesma encontra-se informada e ciente dos riscos que ela e seu possível descendente poderão correr a partir da intervenção (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2017).

Nesse viés, a idade da candidata definirá a quantidade de embriões que serão transferidos, conforme estabelecido no tópico da 7 da referida resolução: a) mulheres até 35 anos: até 2 embriões; b) mulheres entre 36 e 39 anos: até 3 embriões; c) mulheres com 40 anos ou mais: até 4 embriões; d) nas situações de doação de oócitos e embriões, considera-se a idade da doadora no momento da coleta dos oócitos. O número de embriões a serem transferidos não pode ser superior a quatro (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2017).

Nesse sentido, será necessário o consentimento livre e informado de todos os pacientes que serão submetidos as técnicas de reprodução. Esse consentimento deverá ser formalizado por meio de um formulário especial onde constará todos os aspectos médicos envolvidos na técnica, bem como, a concordância por escrito, dos pacientes após esclarecimentos sobre os

assuntos relativos às técnicas de reprodução artificial. (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2017).

Em relação à manifestação da vontade, Ana Maria Alencar refere-se a ele como um requisito intrínseco ao processo da reprodução artificial. (ALENCAR, 2011).

Além disso, a autora dá ênfase a mais um requisito, o consentimento obrigatório, necessário para:

[...] todos os pacientes submetidos às técnicas de reprodução assistida, inclusive aos doadores. Tal consentimento deve ser obtido através de formulário especial que deve ser assinado após os participantes receberem as orientações expostas de forma detalhada. Tais orientações devem ser acessíveis no nível intelectual e cultural do paciente, na competência, no entendimento e na voluntariedade.

Destaca-se, ainda, que as técnicas de reprodução artificial não poderão ser usadas a fim de selecionar o sexo, ou qualquer outra característica biológica do futuro filho, salvo quando houver a finalidade de evitar doenças no possível descendente. Sendo proibida a fecundação de oócitos humanos para outra finalidade que não seja a procriação humana. (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2017).

4.1.1 Pacientes das Técnicas de Reprodução Artificial

Consoante já abordado no tópico anterior, além de declarem o livre consentimento as pacientes deverão ser capazes para se submeter às técnicas de reprodução artificiais. Nesse sentido, a Resolução 2.168/17 do Conselho Federal de Medicina, estabelece quem são as pessoas legitimadas para utilização desta técnica de reprodução:

Todas as pessoas capazes, que tenham solicitado o procedimento e cuja indicação não se afaste dos limites desta resolução, podem ser receptoras das técnicas de reprodução assistida desde que os participantes estejam de inteiro acordo e devidamente esclarecidos sobre o mesmo, conforme a legislação vigente. (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2017)

Além disso, a resolução 2.283/20 alterou a redação do item 2 do inciso II, aprimorando o texto do regulamento afim de tornar a norma mais abrangente ´´ evidenciou-se, deste modo, a alteração do texto normativo, de modo a adotar-se nova redação, mais geral e abrangente, que não exclua possíveis interessados na RA, nem permita interpretações heterodoxas que prejudiquem a eficácia da norma. Por esse motivo, passa-se a indicar a técnica para a generalidade das pessoas em sociedade: “heterossexuais, homoafetivos e transgênero”.

(CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2020) desde que respeitado o direito à objeção por parte do médico assistente. Nesse interim, é permitida a gestação compartilhada, “[...] situação em que o embrião obtido a partir da fecundação do(s) oócito(s) de uma mulher é transferido para o útero de sua parceira [...]”, nos casos de união homoafetiva feminina, mesmo não havendo infertilidade. (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2017)

4.1.2 Referente às Clinicas, Centros ou Serviços que Aplicam as Técnicas de Reprodução Artificiais

As clínicas e centros que aplicam as técnicas de reprodução artificial são responsáveis pelo controle de doenças infecciosas, pela coleta, pelo manuseio, pela conservação, pela distribuição, pela transferência e descarte do material biológico humano.

Além dessas atribuições, terão que apresentar tais requisitos: a) um diretor técnico, com registro obrigatório no CRM23 de sua jurisdição, além do registro de especialista em áreas de interface de RA24, que será responsável por todos os procedimentos médico e laborais executados; b) deverá ter um registro permanente onde todas as gestações, dos nascimentos e das malformações de fetos ou recém nascidos provenientes das técnicas de RA aplicadas na referida clínica, assim como dos procedimentos laborais na manipulação de gametas e embriões; c) um registro permanente dos exames laborais a que foram submetidos os pacientes afim de evitar a transmissão de doenças. (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2017). Os registros deverão ficar disponíveis aos Conselhos Regionais de Medicina para fiscalização.

4.1.3 Doação de Gametas ou Embriões

A resolução 2168/17 do CFM, também estabelece requisitos no que tange a doação de gametas e embriões. Nesse sentido, a idade limite para doação de material biológico é de 35 anos para a mulher e 50 anos para os homens, não sendo permitido aos médicos, funcionários e demais integrantes das clínicas, unidades ou serviços figurar como doadores nos programas de RA.

Todavia, as doações não poderão ter caráter lucrativo ou comercial, sendo mantida em anonimato a identidade tanto dos doadores assim como dos receptores e vice-versa. Salvo em situações especiais, as informações sobre os doadores poderão ser fornecidas somente por

23 Conselho Regional de Medicina 24 Reprodução Assitida

motivação médica e repassadas exclusivamente à eles, resguardando-se a identidade civil dos doadores. (Resolução 2168/17 do CFM)

Nesse interim, colhe-se do entendimento do referido julgado:

Todavia, entendeu o STJ (REsp 1608005/SC, Rel. Ministro PAULO DE TARSO SANSEVERINO, TERCEIRA TURMA, julgado em 14/05/2019, DJe 21/05/2019) que o anonimato não se trata de uma regra absoluta, podendo ser dispensado, como no caso de uma doadora do material biológico que foi também a doadora do útero, reconhecendo a Justiça como pais apenas o casal homoafetivo (sendo um deles o doador do sêmen e o outro irmão da doadora dos óvulos e do útero) que idealizou o projeto parental, se valendo, para tanto, da reprodução assistida.

Assim, constata-se que o sigilo da identidade do doador só poderá ser quebrado por meio de ordem judicial (COELHO, 2012, p.358).

4.1.4 Gestação por Substituição

Sobre a gestação por substituição, também conhecida por cessão temporária do útero destaca a Resolução n.º 2.168/17 do CFM:

As clínicas, centros ou serviços de reprodução assistida podem usar técnicas de RA para criarem a situação identificada como gestação de substituição, desde que exista um problema médico que impeça ou contraindique a gestação na doadora genética, em união homoafetiva ou pessoa solteira. (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2017)

Destaca-se que a cessão temporária do útero não poderá ter caráter lucrativo ou comercial.

Para tal, a cedente temporária do útero deverá deve pertencer à família de um dos parceiros em parentesco consanguíneo até o quarto grau. Exemplos: mãe, filha, avó, irmã, tia, sobrinha e, por último, prima (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2017).

Destarte, o termo de consentimento livre e informado também e requisito obrigatório nesse caso, conforme estabelece a referida resolução: “Termo de consentimento livre e esclarecido assinado pelos pacientes e pela cedente temporária do útero, contemplando aspectos biopsicossociais e riscos envolvidos no ciclo gravídico-puerperal, bem como aspectos legais da filiação.” (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. 2017).

Outrossim, será obrigatória a apresentação do Termo de Compromisso, a qual estabelece claramente as questões referentes à filiação da criança, além do compromisso com o seu registro civil, devendo esta documentação ser providenciada durante a gestação.

Caso a cedente do útero for casada ou viver em união estável, deverá haver o termo de consentimento do marido ou do companheiro, apresentado por escrito.

4.1.5 Reprodução Artificial Post Mortem

Em relação à reprodução artificial post mortem, a Resolução n.º 2.168/17 do CFM traz em seu texto permissão para o uso dá técnica, desde que “[...] haja autorização prévia específica do(a) falecido(a) para o uso do material biológico criopreservado, de acordo com a legislação vigente.” (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2017).

Nesse sentido, o art. 1.597, incisos III e IV do Código Civil de 2002 reconhecem presumidamente os filhos havidos na constância do casamento, a qualquer tempo, quando se tratar de embriões excedentários decorrentes da concepção artificial homóloga (BRASIL, 2002).

Contudo, a reprodução heteróloga post mortem carece de previsão legal, conforme redação do art. 1.597, inciso V do Código Civil de 2002, que reconhece presumidamente os filhos “havidos por inseminação artificial heteróloga, desde que tenha prévia autorização do marido” (BRASIL, 2002), porém não declara se essa presunção se dá mesmo após a morte do doador do material genético.

Considerando-se tal situação, a doutrina pátria diverge sobre o assunto nos casos de reprodução artificial heteróloga post mortem, ponto que será abordado no decorrer deste trabalho.

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