3.4 DO RECONHECIMENTO DO VÍNCULO DE FILIAÇÃO
3.4.2 Do Reconhecimento Judicial
Consoante dispõem Gagliano e Pamplona Filho (2016, p. 638):
“o reconhecimento judicial do vínculo de paternidade ou maternidade dá-se por meio de ação investigatória. Mais frequentemente é a ação investigatória de paternidade, posto também seja possível a investigatória de maternidade, como no caso da troca de bebês em hospital ou clínica, incidindo, neste caso o art. 1.608,CC/200221”.
Nesse sentido, considera-se relativa a presunção de que a maternidade é sempre certa. Sendo assim, no que se referir a investigação de paternidade, aplica-se no que couber, à
19 Art. 1.860. Além dos incapazes, não podem testar os que, no ato de fazê-lo, não tiverem pleno discernimento. Parágrafo único. Podem testar os maiores de dezesseis anos.
20 Art. 1.614. O filho maior não pode ser reconhecido sem o seu consentimento, e o menor pode impugnar o reconhecimento, nos quatro anos que se seguirem à maioridade, ou à emancipação.
21 Art. 1.608. Quando a maternidade constar do termo do nascimento do filho, a mãe só poderá contestá-la, provando a falsidade do termo, ou das declarações nele contidas.
investigação de maternidade, uma vez que o objetivo das aludidas demandas é o reconhecimento da parentalidade.
Sobre o reconhecimento judicial de filiação, doutrina Nader (2015, p. 345):
O filho havido fora do casamento, em cujo registro de nascimento não conste o nome de um ou de ambos progenitores, dispõe da ação investigatória de paternidade ou maternidade, a fim de obter, oficialmente, a definição de seus nomes e, conseguintemente, a regularização de seu registro de nascimento. Tratando-se de ação de estado, forçosa é a participação do Ministério Público. O rito da ação é o ordinário, podendo o pedido ser cumulativo de alimentos e de herança. A qualquer tempo pode ser ajuizada, pois não se sujeita a prazo decadencial
Ademais, considerável destacar que:
[...] a ação não tem mais como finalidade atribuir a paternidade ou a maternidade ao genitor biológico. Este é apenas um elemento a ser levado em conta, mas deixou de ser determinante. O que se investiga é o “estado de filiação”, dada a sua natureza cultural, que pode ou não decorrer da origem genética. Do contrário seria mais fácil e rápido deixar que os peritos ditassem a filiação. (LÔBO, 2017, p. 259).
Nesse sentido, tem legitimidade ativa para a propositura da ação o filho ou o Ministério Público que atua como legitimado extraordinário, conforme pontuam Gagliano e Pamplona Filho (2016, p. 640):
Muito se discutiu a respeito da legitimidade do Ministério Público, argumentando-se que não poderia intervir em uma seara íntima e atinente a um interesse eminentemente particular. Nunca concordamos com essa crítica, na medida em que é de interesse social a busca da verdade da filiação, exercendo, portanto, as Promotorias de Justiça, um relevantíssimo serviço a toda sociedade brasileira.
Ressalta Madaleno (2015, p. 634) que “o Superior Tribunal de Justiça registra algumas decisões direcionadas a admitir o princípio fundamental da dignidade na investigatória de paternidade avoenga”, dando aos herdeiros, além de continuar com a demanda já instaurada, a oportunidade de os netos investigarem diretamente a relação com seus avós.
Nesse viés, foi constatado “como sendo direito personalíssimo dos netos e, portanto, com legitimidade ativa e possibilidade jurídica do pedido de pesquisarem sua ancestralidade.” (MADALENO, 2015, p. 635).
Embora o art. 1.606 do Código Civil possibilita a sucessão processual aos herdeiros do autor, a doutrina discorda quanto à mencionada possibilidade, nos casos de falecimento daquele no curso da demanda, conforme aclara Nader (2015, p. 346):
Na hipótese de o filho falecer no curso da ação, embora não haja disposição permissiva expressa, a doutrina é divergente. Enquanto Clóvis Beviláqua, Carvalho Santos, Arnoldo Medeiros da Fonseca, entre outros, admitem a continuidade da ação pelos herdeiros, Carlos Maximiliano posiciona-se contra. A favor desta rígida posição milita o argumento a contrario sensu: quando a lei permite a continuidade de uma ação personalíssima pelos herdeiros, expressamente o declara, como em relação à ação de prova de filiação (art. 1.606, parág. único22). Acompanho a interpretação mais liberal, entendendo que o fundamental é a manifestação de propósito do filho em ver afirmada a sua paternidade e que o prosseguimento da ação não apresenta potencial de prejuízo ao ex adverso ou a terceiros.
Os efeitos da sentença judicial, de caráter declaratório, proferida nas ações de investigação de paternidade se aplicam em todas as esferas do direito familiar, registral e sucessório, uma vez que declarada a filiação, aquele filho gozará de iguais direitos e deveres em relação aos outros filhos.
A respeito dos efeitos da referida sentença, explica Rizzardo (2014):
[...] a sentença produzirá todos os efeitos que advêm da relação entre pais e filhos. Averbar-se-á no registro civil a filiação que faltava, com o nome dos avós. O poder marital estende-se ao progenitor declarado. No plano material, nascem o dever de assistência e o direito a alimentos, à guarda ou visita e à sucessão. Quanto à guarda, em geral prossegue com o progenitor que a exercia antes, não se impondo que seja transferida para o reconhecente, ou que o filho vá residir com o pai ou a mãe que contestou a filiação. Naturalmente, se havia dúvidas quanto paternidade ou maternidade, tanto que era contestada, não se pode olvidar a normal falta de sentimentos filiais mais profundos nutridos por aquele a quem se impôs essa nova condição de pai ou mãe. Os termos do art. 1.616 (art. 366 do Código anterior) orientam nessa linha: “A sentença que julgar procedente a ação de investigação produzirá os mesmos efeitos do reconhecimento; mas poderá ordenar que o filho se crie e eduque fora da companhia dos pais ou daquele que lhe contestou essa qualidade.
Portanto, não havendo reconhecimento voluntário, independentemente se a origem filiatória for biológica ou socioafetiva, o filho poderá requerer seu reconhecimento por meio judicial, e sendo aceito o pedido, adquirirá todos os direitos e deveres intrínsecos à relação paterno/materno filial.
22 Art. 1.606. A ação de prova de filiação compete ao filho, enquanto viver, passando aos herdeiros, se ele morrer menor ou incapaz. Parágrafo único. Se iniciada a ação pelo filho, os herdeiros poderão continuá-la, salvo se julgado extinto o processo.
3.4.3 Multiparentalidade: A Possibilidade de Coexistência de Vínculos Filiais de Origens