3. RESULTADOS DA PESQUISA
3.1. Análise geral do corpus do Jornal O Globo
O corpus do Jornal O Globo forneceu um total de 253 dados de orações relativas, sendo 151 de orações não preposicionadas – que são introduzidas por articuladores desempenhando função sintática de sujeito e objeto direto – e 102 de orações preposicionadas – que são encetadas por articuladores que desempenham função sintática oblíqua.
Nº TOTAL DE ORAÇÕES RELATIVAS
DADOS %
NÃO PREPOSICIONADAS 151 59.5%
PREPOSICIONADAS 102 40.5%
TOTAL 253 100%
Tabela 5. Total de orações relativas coletadas nos textos do Jornal O Globo
É interessante ressaltar que 59.5% dos dados formam o grupo das não preposicionadas contra 40.5% dos dados que constituem o grupo das preposicionadas, ou seja, há uma maior produtividade das sentenças relativas articuladas por pronomes
relativos que desempenham função sintática de sujeito e objeto direto, do que sentenças relativas articuladas por pronomes relativos que desempenham função sintática oblíqua nuclear/argumental e não nuclear/adjunta.
Tarallo (1983), em seus estudos para justificar essa grande produtividade de orações não preposicionadas, propôs o conceito de Hierarquia de acessibilidade dos sintagmas nominais (SN) (cf. CORRÊA, 1998; CASTILHO, 2010). Segundo esse conceito, o pesquisador explica que há uma maior facilidade de relativizar um SN que desempenha funções sintáticas mais altas – funções sintáticas de sujeito e objeto direto, por exemplo – do que um SN que exerce funções sintáticas mais baixas e, consequentemente, mais complexas para sofrer o processo de relativização.
Desse modo, a hierarquia de acessibilidade dos SNs é um argumento plausível para justificar o grande número de orações relativas não preposicionadas. Abreu (2013), em sua pesquisa para compreender a aquisição das estratégias de relativização pelos falantes brasileiros, corrobora o conceito proposto por Tarallo (1983). Em dados de fala controlada de 23 crianças entre 01 ano e 11 meses até 05 anos e 01 mês de idade, Abreu (2013) identificou um total de 20 construções relativas dentre as quais 07 eram articuladas por pronomes relativos que desempenhavam função sintática de sujeito, e 04 apresentavam o articulador exercendo função sintática de objeto direto.
As demais orações relativas eram articuladas por pronomes relativos que desempenhavam funções sintáticas oblíquas – 02/20 com função de objeto indireto e 07/20 com função sintática de adjunto adverbial – e foram produzidas por crianças mais velhas – entre 04 anos e 01 mês a 05 anos e 01 mês. Partindo desses resultados, Abreu (2013) constata que o processo de aquisição das estratégias de relativização ocorre primeiramente pelas orações relativas mais acessíveis sintaticamente – funções sintáticas de sujeito e de objeto direto – e, posteriormente, com a convivência e experiência cotidiana com a língua, os falantes vão adquirindo as construções sintáticas mais complexas – funções oblíquas.
A pesquisa de Abreu (2013) ratifica, portanto, o conceito da hierarquia de acessibilidade dos SNs proposta por Tarallo (1983), uma vez que demonstra que o processo de aquisição das estratégias de relativização se inicia com as funções sintáticas mais simples e com o passar do tempo, vivenciando a língua, vão-se adquirindo as construções relativas mais complexas. Estes são dois bons argumentos para justificar o grande número de dados de orações relativas não preposicionadas na presente pesquisa.
Tendo um olhar mais detalhado sobre os dados da presente investigação, verificou-se que, de todas as ocorrências coletadas, só foram registradas as variantes padrão e não padrão cortadora, não havendo, dessa forma, ocorrência da variante não padrão copiadora. Devido a esse resultado geral, o estudo desenvolve, a partir dos dados percentuais adquiridos pelas rodadas do programa GoldVarb X, o mapeamento qualitativo das estruturas que caracterizam os padrões de relativização da escrita culta brasileira.
Em relação ao grupo das não preposicionadas, como todos os 151 dados são da variante padrão (cf. Tabela 06) – o que aponta que a regra das estratégias de relativização no grupo das não preposicionadas constitui uma regra categórica, de acordo com a proposta de Labov (2003) –, a pesquisa passou a privilegiar a caracterização das construções encontradas no corpus quanto aos fatores controlados nas variáveis independentes.
GRUPO DE ORAÇÕES RELATIVAS NÃO PREPOSICIONADAS
DADOS %
O. R. PADRÃO 151 100%
O. R. COPIADORA - -
TOTAL 151 100%
Tabela 6. Total de orações relativas não preposicionadas x variantes linguísticas.
A partir desse resultado geral, juntamente com a necessidade de se desenvolver um satisfatório trabalho qualitativo, observou-se o comportamento da variável “função sintática do articulador”. O comportamento desse grupo de fatores foi devidamente observado, em um tratamento qualitativo, de modo a fundamentar a divisão entre o conjunto dos 253 dados de construções relativas: 151 dados de orações relativas com articulador exercendo função sintática de sujeito e objeto direto (grupo das não preposicionadas) e 102 dados de orações relativas com o articulador exercendo função sintática oblíqua (grupo das preposicionadas).
Assim, o trabalho analisa o grupo das não preposicionadas também em relação à função sintática do articulador da construção relativa, se sujeito ou objeto direto15. No corpus, como se apresenta na tabela abaixo, ocorreram 137 dados de orações relativas
15
Para o controle sistemático dessa diferença, contou-se com a estratégia de indicar, no GOLDVARB-X, a variável função do articulador como suposta variável dependente, a fim de obter os índices separadamente.
padrão com função de sujeito e 14 dados de orações relativas padrão com função sintática de objeto direto – vide Tabela 07.
FUNÇÃO SINTÁTICA DO ARTICULADOR O. R. PADRÃO DADOS % SUJEITO 137 90.8% OBJETO DIRETO 14 9.2% TOTAL 151 100%
Tabela 7. Total de orações relativas não preposicionadas x função sintática do articulador
A Tabela 07 evidencia que 90.8% dos dados são articulados por pronomes relativos que desempenham a função de sujeito e apenas 9.2% dos dados são articulados por pronomes relativos que exercem a função sintática do objeto direto. A análise mais detalhada desses dados será realizada na seção 3.2. Em (48a – b), são expostos exemplos de orações não preposicionadas de sujeito – (48a) – e de objeto direto – (48b). (48) a) Embora a decisão dos ministros não tenha efeito vinculante, não sendo obrigatório segui-la em processos que discutam questões idênticas, juízes e membros do Ministério Público acreditam que a justiça terá mais segurança em condenações baseadas em provas indiciárias. – Jornal O GLOBO, DATA: 11/10/2012, NOTÍCIA: juízes ganham força para condenar só por indícios, Caderno Geral, p.07.
b) Por estranha ironia do destino, no mesmo dia em que Carmen Lúcia, ou Carminha, vilã mais odiada das novelas, foi execrada e expulsa de casa pela família que ela tanto prejudicou e enganou, outra Carmen Lúcia, seu extremo oposto, emocionou o país. – Jornal O GLOBO, DATA: 11/10/2012, CARTA DE LEITOR: A condenação do STF, Eliana P. Sales, Rio, Caderno Geral, p.15.
Quanto ao grupo das preposicionadas, a análise inicial identificou 97 dados de orações relativas padrão, 05 dados de orações relativas não padrão cortadora e nenhuma ocorrência da variante não padrão copiadora. A Tabela 08 mostra os dados e os percentuais adquiridos pelo programa Goldvarb X.
GRUPO DE ORAÇÕES RELATIVAS PREPOSICIONADAS
DADOS %
O. R. PADRÃO 97 95.1%
O. R. CORTADORA 05 4.9%
TOTAL 102 100%
Tabela 8. Distribuição das orações relativas preposicionadas pelas estratégias de relativização.
Pode-se observar que 95.1% dos dados são formados pela variante padrão e 4.9% dos dados são formados pela variante não padrão cortadora. Este resultado também faz com que a análise prevista para observar comportamento da regra variável das estratégias de relativização se modifique, pois, embora se previsse analisar três variantes na variável dependente – variante padrão e as não padrão cortadora e copiadora –, apenas duas – variante padrão e a não padrão cortadora – foram encontradas. Assim, a suposta regra variável passou de ternária para binária, de acordo com os moldes labovianos (1972).
Ainda em relação aos percentuais exibidos na Tabela 08, pode-se considerar que as estratégias de relativização no grupo das preposicionadas da escrita culta jornalística do PB constituem uma regra de natureza semicategórica, segundo Labov (2003). Esta constatação é possível primeiramente por motivos de ordem quantitativa, porque os percentuais estão entre 95% e 99% de variação e, segundo Labov (2003), esse enquadramento percentual demonstraria que não se verifica efetivamente uma situação de variação linguística. Haveria basicamente uma variante em uso e a violação à regra seria rara, de modo que ocorreria em construções qualitativamente específicas e, quando se verificasse em construções gerais, seria facilmente identificada pelos falantes. O tratamento da regra encontrada como semicategórica será mais trabalhado na seção 3.3, em que será exposta uma análise qualitativa das ocorrências com base nos resultados adquiridos para as variáveis independentes propostas no presente estudo.
Em (49a – e), há exemplos de orações relativas do grupo das preposicionadas. Em (49a), há uma oração relativa padrão articulada por um pronome relativo que desempenha função sintática de complemento nominal. Em (49b), apresenta-se uma oração relativa padrão articulada por um pronome relativo que desempenha função sintática de complemento circunstancial. Em (49c), há uma oração relativa padrão articulada por um pronome relativo que desempenha função sintática de complemento oblíquo. Em (49d - e), apresentam-se, respectivamente, uma oração relativa padrão articulada por um pronome relativo que desempenha função sintática de adjunto adnominal e adjunto adverbial.
(49) a) Além disso, vive-se num mundo digitalizado em que há enorme e crescente capacidade de armazenamento de informações sobre o cidadão por parte do Estado. A integração desses bancos de dados, aos quais poucos servidores públicos têm acesso, é algo preocupante do ponto de vista dos riscos à privacidade. - Jornal O GLOBO, DATA: 28/09/12, EDITORIAL: A quebra de sigilo pela Receita, Caderno Geral, p.22.
b) Vamos encontrá-lo agora numa viagem por três cidades do exterior, onde passeia como um vagabundo, morando nos melhores hotéis e comendo nos restaurantes mais caros. Oxford (onde havia sido um estudante pobre), Londres (onde raramente se distraíra entre suas pesquisas sobre a antiestrutura das ordens estruturais) e Paris, onde entretinha longas conversas com um colega famoso cuja condescendência ele tomava por cordialidade. - Jornal O GLOBO, DATA: 10/10/12, CRÔNICA: Câncer; formicida e leite condensado, Caderno Geral, p.19.
c) O problema é que a mudança reintroduz, pela porta dos fundos, a famigerada tributação cumulativa sobre faturamento, uma deformidade fiscal desnecessária da qual o país havia praticamente se livrado, graças ao louvável esforço de reforma tributária do primeiro governo do presidente Lula. - Jornal O GLOBO, DATA: 28/09/12, ARTIGO DE OPINIÃO: Improvisação e imediatismo, Caderno Geral, p.22.
d) Eu era imensamente rico, morava num castelo, mas dava poucos presentes. – Mas eu lembro – disse o velho do tersol – do seu desespero no avião cujo trem de aterragem não descia . - Jornal O GLOBO, DATA: 19/09/12, CRÔNICA: conversa de velhos, Caderno Geral, p.23.
e) Decido apropriar-me da zona franca da Divina Comédia e imagino traduzir a cena política do Brasil, segundo as lentes de um Dante redivivo, mantendo a vigilância ética, incômoda, inarredável, com que definiu os crimes deste mundo e as penas do outro. - Jornal O GLOBO, DATA: 19/09/12, CRÔNICA: Dante e a Justiça, Caderno Geral, p.23.
Na seção a seguir, serão detalhados os resultados do grupo das não preposicionadas do corpus extraído do Jornal O Globo.