2. O JORNALISMO NA ERA DA PÓS-VERDADE E FAKE NEWS
4.1 ANÁLISE DO SITE FEITO SOBRE MARIELLE APÓS SUA MORTE
O texto que será analisado a seguir foi formulado após a morte de Marielle. Trata-se de um trecho do site feito sobre ela, na seção “Quem é Marielle”. A página foi criada pelo partido da vereadora, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), e a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, na qual ela trabalhava.
Figura 1 - Imagem do site Marielle Franco.
Fonte: https://www.mariellefranco.com.br/quem-e-marielle-franco-vereadora
Este texto traz algumas características relacionadas à vereadora. A maneira com que as palavras (mulher, negra, cria da favela da Maré) aparecem na frase apontam para uma contradição existente na sociedade em que vivemos. Contradição esta que é originada pelos sentidos relativos à escravidão, como o preconceito racial e os lugares que o negro já ocupa ou ocupou no passado. Portanto, como pode uma mulher negra, pobre e cria da favela ter feito faculdade e mestrado? Esse enunciado presente neste site sugere outros enunciados, que lhe dão sentido. Os outros enunciados funcionam aqui como pré-construídos.
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Segundo o estudo feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Marielle destaca-se do senso comum e entra para os 10,4% de mulheres negras que se formam no Brasil no ensino superior com idade entre 25 e 44 anos (CARTA CAPITAL, 2018). Diante destes dados fica evidente que a mulher negra com ensino superior no Brasil é a minoria. E essa realidade é resultado da escravidão dos negros, que perdurou oficialmente no Brasil até a Lei Áurea entrar em vigor no ano de 1888.
Pêcheux ensina acerca de formação discursiva (de agora em diante FD):
Chamaremos, então, formação discursiva aquilo que, numa formação ideológica dada, isto é, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada, determinada pelo estado da luta de classes, determina o que pode ser dito (articulado sob a forma de uma arenga, de um sermão, de um panfleto, de uma exposição, de um programa, etc) (PÊCHEUX, 1988, p.160).
Portanto, na FD apresentada sobre a escravidão, inscrevem-se até hoje, sujeitos que se identificam com tais saberes. Neste caso não se trata de trabalhar a historicidade que é refletida no texto, mas a historicidade do texto, ou seja, compreender como o texto produz sentidos como discurso (ORLANDI, 1995). E ao se repetir, a história se materializa pela memória e é representada pela paráfrase, que é quando são produzidas diferentes formulações do mesmo dizer sedimentado. Por isso que um dizer próprio do período da escravatura ainda hoje pode ter lugar. Pela análise da historicidade do texto, isto é, do seu modo de produzir sentidos, podemos falar que um texto pode ser [...] atravessado por várias formações discursivas (ORLANDI, 1995).
Em outra perspectiva, a historicidade é a história do sujeito e do sentido (ORLANDI, 1995). E é dessa forma que funciona a ideologia na AD, ela acaba por se tornar material nos dizeres possíveis em determinada FD. A ideologia é a condição para a constituição do sujeito e dos sentidos (ORLANDI, 1999), sendo ela tanto o caminho que leva o sujeito a significar o que foi dito quanto o apagamento desse caminho. Porém, isso não é evidente. Somente quando o analista percorre o caminho do dizer pela historicidade, é que ele chega ao gesto de interpretação produzido pela ideologia.
Por essa razão é possível entender que, a sociedade brasileira ainda traz no seu cotidiano vestígios de preconceito racial e de gênero, onde sujeitos negros não podem/devem ocupar um lugar que anteriormente era pertencente somente aos homens brancos. A ideia da mulher como ser inferior e incapaz de ser protagonista
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social e da história é também transportada através dos séculos. A posição de sexo mais fraco não é incomum mesmo nos dias atuais (COUTINHO, 2010).
Essa questão é refletida na definição de poder por Dreyfus e Rabinow (2010):
O termo "poder" designa relações entre "parceiros" (entendendo-se por isto não um sistema de jogo, mas apenas - e permanecendo, por enquanto, na maior generalidade - um conjunto de ações que se induzem e se respondem umas às outras). É necessário distinguir também as relações de poder das relações de comunicação que transmitem uma informação através de uma língua, de um sistema de signos ou de qualquer outro meio simbólico. Sem dúvida, comunicar é sempre uma certa forma de agir sobre o outro ou os outros. Porém, a produção e a circulação de elementos significantes podem perfeitamente ter por objetivo ou por conseqüências efeitos de poder, que não são simplesmente um aspecto destas. Passando ou não por sistemas de comunicação, as relações de poder têm sua especificidade... "Relações de poder"; "relações de comunicação", "capacidades objetivas" não devem, então, ser confundidas. [...] Trata-se de três tipos de relação que, de fato, estão sempre imbricados uns nos outros, apoiando-se reciprocamente e servindo-se mutuamente de instrumento. [...] O funcionamento das relações de poder, evidentemente, dão uma exclusividade do uso da violência mais do que da aquisição dos consentimentos; nenhum exercício de poder pode, sem dúvida, dispensar um ou outro e freqüentemente os dois ao mesmo tempo. [...] A relação de poder e a insubmissão da liberdade não podem, então, ser separadas. O problema central do poder não é o da "servidão voluntária" (como poderíamos desejar ser escravos"): no centro da relação de poder. "provocando-a" incessantemente, encontra-se a recalcitrância do querer e a intransigência da liberdade. Mais do que um "antagonismo" essencial, seria melhor falar de um "agonismo" - de uma relação que é, ao mesmo tempo, de incitação recíproca e de luta; trata-se, portanto, menos de uma oposição de termos que se bloqueiam mutuamente do que de uma provocação permanente. (DREYFUS; RABINOW, 2010)
Assim, Marielle é alvo de dois preconceitos, um por ser negra, outro por ser mulher. Pinto (2007) disserta sobre a trajetória das mulheres negras, na qual Marielle se encaixa:
O destaque dado para as trajetórias de mulheres negras deve-se ao meu entendimento de que essas mulheres precisam sair da invisibilidade a que estão submetidas na sociedade. Sua participação na sociedade brasileira foi historicamente atrelada à imagem das criadas, das mães-pretas, ou das práticas sexuais “livres” e “desonrosas”. Quando há uma alusão a estas mulheres nos estudos e pesquisas sobre gênero ou mesmo sobre relações raciais, elas aparecem como participantes das profissões de baixa remuneração e pouca valorização social como é o caso do emprego doméstico (PINTO, 2007, p.12).