5 OLIVER TWIST VISUAL – AS ADAPTAÇÕES INFANTIS ILUSTRADAS
5.1 OS TEXTOS
5.1.6 Anne de Graaf, Perez Montero e Leo Cunha
Seria difícil fazer uma análise mais completa da adaptação criada por Anne de Graaf17, pois a versão brasileira (ref. B35) é a tradução de uma em inglês (ref. T36) que tem sido impossível localizar, mesmo nas bibliotecas européias. Pelo que consta no livro brasileiro, a versão em inglês foi publicada pela Scandinavia Editora, da Dinamarca, em 1994. A brasileira foi publicada em 1997 pela Editora Dimensão de Belo Horizonte. De Graaf é referida como a
“re-contadora” e Leo Cunha18
identificado como o tradutor.
Na página 2 dessa versão, há três pequenos parágrafos de introdução, falando da pobreza do jovem Dickens, da natureza “carinhosa e confiante” de Oliver e da adaptadora Anne de Graaf que “reescreve esta história emocionante, usando uma linguagem mais simples e moderna, para os leitores de hoje.” A contracapa do livro oferece mais detalhes da história, que “mostra como na deprimente pobreza londrina daquele tempo, cento e cinqüenta anos atrás, o bem triunfa sobre o mal.”. Também informa que de Graaf “se mantém fiel ao original como condensa o conto, assegurando a legibilidade de Oliver Twist em nosso tempo.” Fica
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Anne de Graaf, premiada escritora norte-americana de origem holandesa com 80 títulos publicados, quase todos infantis com uma mensagem declaradamente cristã; também jornalista, tradutora e palestrante.
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claro, porém, pelo tipo físico do livro e pelo tamanho da fonte utilizada (14), que “os leitores de hoje” visados são as crianças.
Essa tradução de Cunha é a única versão que muda muitos nomes dos personagens para tipicamente brasileiros: Bumble vira Bento; Sowerberry, Saraiva; Monks, Marques;
Brownlow, Brown; Charley, Carlito; Maylie, Marli; e Jack Dawkins, Tiago Dawkins. Oliver Twist, Fagin, Bill Sikes e Nancy continuam inalterados. Quanto aos lugares, os únicos nomes
encontrados no texto são “Londres”, “a Ponte de Londres” e “Roma”. Milhas viram “quilômetros”, mas em uma ilustração uma placa de sinalização mostra “London 70 miles”. O texto é dividido em 25 capítulos, cada um com um título de duas a quatro palavras. Fora da pequena introdução e do comentário na contracapa já mencionados, não há outro material editorial.
O ponto forte do livro são as ilustrações de José Perez Montero19, que colaborou com de Graaf em vários outros livros. Ocupam quase a metade do impresso e são de estilo caricatural, bastante coloridas e incluem muitos detalhes dos personagens, do vestuário e dos ambientes. O efeito é, algumas vezes, certamente um pouco cômico.
Figura 27. José Perez Montero, 1994 (ref. B35, p. 20-21)
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Fagin aparece em três dos 31 desenhos e nunca é visto muito de perto. O primeiro mostra Fagin ensinando a seus discípulos a roubar (Figura 27). Ele é retratado como velho, com rugas, cabelo e barba ruivos, roupa de pobre. Mais uma vez, ele é representado como careca e se pode perguntar se essa representação não teria sido influenciada pela de Kincaid (Figura 22).
As salsichas da primeira aparição de Fagin no texto de Dickens (ver trecho (a) da Seção 3.3.3) estão em plena evidência na figura acima. Essa aparição é tratada pela adaptadora de Graaf e pelo tradutor Cunha da seguinte maneira:
Um velho enrugado, que fritava lingüiças, virou-se para os garotos. - É você, Olho-Vivo! – resmungou.
Tinha o rosto coberto de pêlos vermelhos emaranhados, e roupas muito ensebadas. Soltou um risinho horrível para Oliver e se inclinou para cumprimentá-lo. (ref. B35, p. 18)
As descrições de Fagincontinuam a ser deste nível, ao longo do livro. Ainda na página 18, ele “soltou uma risada que pareceu um cacarejo.” Na página 28, ele “encarou os dois [Carlito e Olho-Vivo] com olhar malvado”. Na página 30, “Fagin vasculhou os bolsos da roupa de Oliver e urrou de satisfação quando achou o dinheiro.” Nesta ocasião ele jogou Oliver em um quartinho onde “passou semanas e semanas trancafiado [...], recebendo apenas pão e água.” Parece ser uma versão exagerada da cena em Capítulo XVIII do texto de Dickens (ref. T02), em que Oliver fica restrito a um quarto durante uma semana – não se fala nada, porém, dele receber somente pão e água. Ao contrário da impressão deixada por de Graaf e/ou Cunha e com exceção do episódio em que Fagin, enraivecido, agride Oliver, que termina sendo protegido por Nancy (ver ref. T02, Capítulo XVI), o tratamento que o órfão recebe de Fagin é geralmente bom, como narrado por Dickens; certamente melhor do que recebia no orfanato e na casa dos pobres, como observado por Butterworth (2009). Mais uma distorção ocorre na página 42: aqui, “Fagin torceu para que Oliver estivesse morto, para finalmente receber o dinheiro de Marques.” No texto de Dickens, foi Monks (Marques) e não Fagin quem desejou a morte de Oliver (ref. T02, capítulo XL).
A responsabilidade de Fagin no assassinato de Nancy (não descrito, apenas anunciado nessa versão) fica evidente, como no texto de Dickens, mas de Graaf/Cunha transformaram as sutilezas do autor inglês em algo mais abertamente maléfico. Com “uma cara demoníaca” Fagin informa Sikes da traição de Nancy; Sikes sai gritando “Vou matá-la!” Fagin, nesse momento, “deu seu primeiro sorriso da noite” (ref. B35, p. 51).
O fim de Fagin é tratado peremptoriamente: “Na noite da morte de Bill, a polícia encontrou e prendeu Fagin. Foi condenado à morte por enforcamento” (p. 62). Não resta dúvida, porém, que no texto verbal dessa versão, encontramos um dos retratos mais negativos do personagem, o que não é confirmado pelas ilustrações. Enfatiza-se mais a malvadeza do que a bestialidade do vilão e as características do estereótipo anti-semítico ficam reduzidos aos cabelos ruivos e à obsessão por dinheiro. Mais uma vez, a palavra “judeu” não aparece no texto.