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5 OLIVER TWIST VISUAL – AS ADAPTAÇÕES INFANTIS ILUSTRADAS

5.1 OS TEXTOS

5.1.2 Colombesi e Musio, Moraes e Saló

Há duas versões em português da adaptação em italiano ilustrada por Cosimo Musio: uma brasileira (ref. B33) e uma portuguesa (ref. P31). A brasileira (ref. B33b) foi publicada pela Editora Globo (do grupo empresarial de comunicações, Organizações Globo) em 1995 como volume da coleção Grandes Clássicos Juvenis e destinada à venda em bancas, juntamente com as revistas da editora (Turma da Mónica, Época e muitas outras). Consta que Charles Dickens é o autor e Carlos Moraes o responsável pela “tradução e adaptação”. Mas, efetivamente, não se trata de uma “adaptação” por parte de Moraes, pois uma comparação minuciosa revela que ele traduziu seu texto a partir do italiano de Paola Colombesi, o qual

teve várias edições.5 A edição italiana consultada, (ref. T34 de 2007) faz parte de uma coleção

Alla scoperta dei grande classici (Descobrindo os grandes clássicos), que inclui uma seleção

de histórias normalmente consideradas favoritas, mesmo em 2007 – Treasure Island,

Robinson Crusoe, trabalhos de Dumas e Verne. Consta que foi do texto do próprio Dickens

que Colombesi fez a adaptação, mas é provável que a adaptadora tivesse usado uma tradução italiana integral do texto inglês.

Em comum com seu texto fonte italiano, a versão de Moraes divide o texto em dez partes, cada uma com um título, mas sem numeração. Mantém, como a italiana, todos os nomes próprios na sua forma inglesa, exceto, na versão brasileira, o nome Noah, que passa a ser Noé. São mencionados poucos nomes de lugares, ficando em inglês os nomes menos comuns como

Barnet e Field Lane. São domesticados, como em todas as versões, os que já têm nomes

portugueses, como Londres e Tâmisa (Londra e Tamigi na versão italiana). As medidas e moedas britânicas são mantidas (milhas, libras esterlinas). A versão brasileira segue a italiana, por usar pouco os tratos Sr. e Sra. Estes termos são mais usados, aqui, para se fazer a distinção entre Bumble e a esposa dele, bem como para se referir ao Sr. Brownlow. A versão italiana contém um sumário dos capítulos e uma biografia pequena de Dickens, juntamente com sua imagem, na orelha do livro. A brasileira exclui esse material e não oferece outras informações sobre o livro ou seu(s) autor(es). E, finalmente, nesta breve comparação entre a versão italiana e a brasileira, ambas reproduzem com detalhes o assassinato de Nancy, acompanhado por uma ilustração amedrontadora (ref. B33 e P31, p. 36).

As ilustrações foram feitas pelo ilustrador italiano Cosimo Musio, em atividade a partir dos anos 1970. O seu nome aparece na versão italiana, mas não é mencionado na brasileira. Essas duas versões têm uma ou duas ilustrações por cada duas páginas, perfazendo um total de 35. Percebe-se que 34 das 35 são idênticas nas duas versões 6, com apenas pequenas divergências quanto ao tamanho do desenho, à sua posição na página e à seqüência das

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A edição brasileira (ref. B33a) refere a Dami Editora de Milano como detentor dos direitos autorais, datado de 1993. A edição italiana examinada pelo pesquisador é da mesma Editora Dami, mas é datada de 2007, alegando ser a “prima edizione” (“primeira edição”). O texto e projeto gráfico são idênticos à edição brasileira. Tudo indica, então, que houve várias edições da adaptação por Colombesi com o mesmo conjunto de ilustrações por Musio (mas ver mais adiante).

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A única diferença é que a versão brasileira inclui na página 11 uma ilustração que a italiana não tem e exclui outra que a italiana coloca na página 47. (Isso é mais um indício da possibilidade de ter havido outras versões anteriores, com mais ilustrações por Musio e um texto maior.) As capas, ambas dominadas pelo mesmo desenho de Oliver, também são diferentes: no fundo a italiana mostra uma pequena imagem de Fagin com Monks; a brasileira mostra vários personagens do livro, mas exclui Fagin.

imagens. O estilo é naturalista, quase fotográfica às vezes, com toques impressionistas e um amplo uso de cores, luz e sombra. O que mais chama a atenção, porém, nessas imagens é que os personagens representados são, pela visão deste pesquisador, indiscutivelmente italianos. E são retratados de um modo idealizado, típico da pintura popular italiana do século XX: todos são, no olhar do observador europeu da época atual, muito bonitos ou com traços imponentes.

Quanto a Fagin, parece velho e sabido, mas é difícil ver nele a encarnação do mal. Seria mais um velho sardônico e talvez amargurado (Figura 18). Não se observam nele as características estereotipadas do anti-semitismo tradicional, nem outro traço especificamente judeu, com a possível exceção da barba, quase sempre associada aos judeus. Em duas das cinco ilustrações em que aparece, usa o mesmo chapéu chato com aba larga (Figura 19) que consta dos desenhos de 1837 de Cruikshank (Figura 3). Esse item de vestuário é identificado freqüentemente com a figura do judeu desde os tempos medievais, mas não necessariamente em contextos anti-semíticos.7

Figura 18. Cosimo Musio, 1995 e antes (ref. B33a, p.9)

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Em Rubens (1967, p. 168), pode ser visto um retrato (c. 1788) de Lord George Gordon, aristocrata escocês que encabeçou uma revolta contra as autoridades britânicas e em seguida se converteu ao judaísmo; morreu na prisão em 1793. (Estes eventos formam o fundo do romance histórico de Dickens, Barnaby Rudge, de 1840-41). Gordon é retratado usando “a roupa que adotou apos sua conversão ao judaísmo; barba comprida e o largo chapéu de feltro usado pelos judeus poloneses.” (“In the dress he adopted after his conversion to Judaism; long

beard and the large felt hat worn by Polish Jews.”) Um chapéu parecido é usado até os dias de hoje por muitos

Figura 19. Cosimo Musio, 1995 e antes (ref. B33a, p.27)

Quanto ao texto verbal, mais uma vez, não há menção ao judaísmo de Fagin, nem na versão italiana, nem na brasileira. Depois da primeira aparição, ele é chamado de “il vecchio”/ “o velho” ou simplesmente “Fagin”. Não há quase nenhuma tentativa de se caracterizar o personagem – a raiva e agressividade nem são mencionadas. O texto brasileiro segue cuidadosamente o italiano, com relação à primeira e à última aparição do criminoso. Ambos os trechos são singularmente brandos em comparação com o texto de Dickens:

Ali ficava na casa de Fagin, um velho coberto de rugas que morava com um grupo de jovens de aparência pouco recomendável. (ref. B33a, p. 10)

Fagin foi preso com o resto do bando e condenado à morte, sob a acusação principal de ter induzido Sikes a matar Nancy. Antes de ser enforcado, recebeu a visita de Brownlow e Oliver. O medo da morte quase o levara à loucura. Mas,num instante de lucidez, revelou a Oliver o esconderijo de algumas cartas que confiara a Monks. (ref. B33a, p. 39)8

Houve uma segunda edição da tradução de Moraes, publicada pela editora paulista Carthago na década atual (ref. B33b). Trata-se de uma cópia exata, inclusive na encadernação, da versão da Editora Globo, apenas substitui-se o nome da editora e da coleção, além de excluir o nome do tradutor/adaptador ou qualquer informação a respeito dos dados da publicação, dos direitos autorais, até do ISBN! A nova coleção se chama Coleção a criança

na escola e na sala de aula, consistindo de 60 volumes que, aparentemente, não estavam

disponíveis para serem adquiridos separadamente, na editora.

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Trata-se de uma tradução errada do texto italiano, onde consta, corretamente, que Monks tinha confiado as cartas a Fagin, e não o contrário.

Quanto à versão lusitana da adaptação ilustrada por Musio (ref. P31), essa foi publicada na década de 1970 pela Editora Europa-América de Mem Martins, em Portugal. As ilustrações são as mesmas da edição italiana e da brasileira descritas acima, mas em menor quantidade – 30 no lugar de 35. São, freqüentemente, mais cheias - os fundos das cenas são maiores e mais detalhados. O texto verbal é mais extenso, apesar do número menor de páginas (30 em comparação com 46), o que é possibilitado pelo tamanho menor da fonte (11, contra 15 da italiana e 16 da brasileira). A obra é organizada do mesmo modo, em divisões não numeradas, cada uma com um título. São 16 divisões contra dez das outras versões, mas alguns dos títulos são iguais (por exemplo, “Nancy e Sikes raptam Oliver” versus “Nancy e Sikes capturam Oliver”, e “A velha Sally” na versão portuguesa e na brasileira). A versão de Portugal faz referência ao ilustrador Musio, mas não menciona a procedência original italiana, apenas o tradutor português Eduardo Saló.

Há pequenas diferenças de ênfase reveladas em uma comparação com a versão brasileira, como a exclusão da ilustração do assassinato de Nancy, apesar de um tratamento mais extenso deste evento no texto verbal. Mas a edição se destaca, de todas as outras estudadas nessa seção, por dois motivos: pela sua origem e pelo tratamento dado a Fagin.

Quanto à origem, a versão de Saló é descrita no verso da folha de rosto como a “tradução da obra Oliver Twist de Charles Dickens, publicada por Editorial Timun Mas S.A., de

Barcelona, Espanha”.9

Não conseguimos localizar a versão de Barcelona, mas foi verificado que a Timun Mas é uma editora espanhola especializada em livros infantis e didáticos. Não se pode comprovar, mas, o mais provável, é que a editora espanhola tenha traduzido, para o espanhol, uma versão italiana ilustrada por Musio.

Não se sabe, porém, se essa versão italiana seria aquela de Colombesi. Há, certamente, muitas semelhanças entre a versão de Portugal e a versão italiana de 2007, inclusive a divisão do texto em seções quase idênticas e o tratamento igual, palavra por palavra, de certos eventos, como o fim de Fagin. O texto de Saló, porém, é mais extenso em muitos pontos da história e inclui detalhes que normalmente não aparecem nas adaptações, nem nas condensações, de Oliver Twist. Na página 14, por exemplo, é relacionada a maioria dos lugares pelos quais Oliver e Sikes passaram no caminho para o assalto da casa que fica em

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A origem espanhola do texto-fonte de Saló se mostra de forma clara no uso do nome Ines, em vez de Agnes, que consta em todos os textos ingleses e nas adaptações brasileira e italiana analisadas aqui.

Chertsey: Hyde Park, Kensington, Isleworth, Hampton, Sunley, Shepperton, na ordem que constam no Capítulo XXI da edição de Oliver Twist de 1846 (ref. T02).

Pergunta-se: houve consulta por parte de Saló ou, ainda, do criador do texto-fonte espanhol ilustrado, a um texto integral para complementar as informações contidas na adaptação italiana? É possível – teoricamente, um adaptador ou tradutor pode se aproveitar de várias fontes da mesma história. Mais provável, porém, a nosso ver, seria que existisse uma adaptação italiana mais extensa, dos anos 1970, que gerou não somente a versão de Saló, mas também a brasileira de 1996 e a italiana de 2007, discutidas acima.

De qualquer forma, a “árvore” de procedência dessa versão seria uma das maiores (em termos de etapas distintas) das versões impressas de Oliver Twist. Uma possível reconstrução mostraria as seguintes “gerações”:

Dickens de 1838 (ref. T01) -> Dickens de 1867 (ref. T03) -> tradução integral italiana

-> adaptação ilustrada italiana (provavelmente uma edição mais extensa de T34) -> adaptação ilustrada espanhola (ref. T35)

-> adaptação ilustrada de Portugal de Saló (ref. P31).

E ainda existe a possibilidade da ingerência de outra versão integral nas últimas duas re- escrituras, conforme conjeturado acima.

Essas dúvidas sobre as fontes estão relacionadas ao outro ponto de divergência da versão de Saló. Trata-se da única adaptação ilustrada infantil de todas as examinadas no curso desta pesquisa – em inglês, espanhol, italiano e português – a fazer referências ao “judeu”. Lamentavelmente, não se sabe se essas menções (são dez no total) devem ser atribuídas a Saló ou ao tradutor espanhol do italiano ou ainda ao adaptador italiano. Vemos que Saló persiste com elas, mas pode ser que ele até tenha reduzido o número dessas menções, em comparação aos hipotextos.

A primeira vez que surge a palavra “judeu” é quando the Artful Dodger (o “Trapaceiro” nessa versão) oferece a Oliver “hospitalidade no domicílio de um eu conhecido que era judeu” (ref. P31, p. 9). O italiano tem apenas “um suo conoscente” (ref. T34, p. 8). Logo em seguida vem a descrição de Fagin: “um velho encarquilhado, de rosto grosseiro e desagradável” (ref.

P31, p. 9). Esse texto menciona, mais do que no italiano e no brasileiro, a ironia maléfica e a cólera do velho. Não obstante, essa tendência não é muito forte e passaria sem maior comentário, não fosse o uso constante do termo “judeu”.