• Nenhum resultado encontrado

5 OLIVER TWIST VISUAL – AS ADAPTAÇÕES INFANTIS ILUSTRADAS

5.1 OS TEXTOS

5.1.4 Kincaid, Peter Oliver e Franca Neto

As versões ilustradas por Kincaid são, por muito, as mais extensas das infantis ilustradas em português, sendo quase o dobro do tamanho das versões mais próximas (ver Tabela 3). A adaptação foi originalmente publicada na Inglaterra pela Brimax em 1988 (ref. T33), com o texto verbal escrito por Peter Oliver. Foi traduzido para a língua portuguesa em duas versões: a portuguesa em 1993 (ref. P32), em uma tradução por M. Mendonça Soares, e a brasileira em 1996, traduzida por Alípio Correia de Franca Neto e Sandra Mara da Silva Franca (ref. B34). As duas edições em português buscam reproduzir com exatidão o texto do adaptador inglês e têm o leiaute e as ilustrações idênticas à edição inglesa.

As ilustrações dominam o livro e acompanham todo o enredo da história, ocupando páginas inteiras, bem como as margens das páginas. O ilustrador Kincaid14 recebe destaque, na capa e na folha de rosto das três edições, especialmente na brasileira, em que as letras do

13

O meme do assassinato de Nancy, porém, é resistente demais para sofrer essa censura à violência, mesmo nessa versão para crianças pequenas. No texto consta: “Fora de si, Sikes golpeou-a com tamanha violência que a matou” (p. 24)

14

Eric Kincaid (1931- ), ilustrador britânico de livros infantis, renomeado por seu estilo versátil e sua atenção a detalhes.

seu nome, são do mesmo tamanho das de Charles Dickens. O adaptador Oliver, porém, não é mencionado na edição brasileira e somente aparece na folha de rosto da portuguesa.

Todas as três edições têm introdução de uma página com um resumo da história. Essa fala de Londres, que “à noite, à proporção que a neblina espectral recobre o Tâmisa. . . se torna um lugar onde só canalhas como Fagin e Sikes se aventuram” (B34, p. 6). Resume-se o objetivo principal do livro assim:

Com seu toque seguro, o mestre ilustrador Eric Kincaid recriou com carinho o mundo de Dickens. . . Essa edição de Oliver Twist foi cuidadosamente adaptada para fazer o texto, originariamente escrito em forma de série para um jornal, mais acessível aos jovens leitores. Para crianças e adultos, esse é um modo agradável de usufruir um dos mais queridos contos de Dickens.” (ref. B34, p. 6)

Não há outro material paratextual nessas versões, exceto um pequeno resumo da história e uma fotografia e biografia de Kincaid nas orelhas da inglesa. Esta edição parece não fazer parte de qualquer coleção. A versão portuguesa corresponde ao volume três da coleção

Clássicos de sempre e a brasileira integra uma série sem nome. Estas duas edições incluem

uma lista das outras obras das suas respectivas coleções, muitas das quais aparecem em ambas.15

As versões em português têm 19 capítulos sem títulos, igual à inglesa. Também mantêm todos os nomes em inglês, inclusive Noah. Na versão inglesa, há poucos nomes de lugares – identificou-se apenas Saffron Hill, Pentonville, Newgate, Smithfield, Hyde Park e Bow

Street16 - estes são, também, mantidos nas versões em português. Pounds e guineas são traduzidos como “libras” e “guinéus”, mas com relação às medidas de distância existe certa confusão por parte dos tradutores, como pode ser visto dos exemplos seguintes, tirados dos primeiros parágrafos do capítulo III das três versões (ref. T33, P32, B34, p. 18)

Inglês Português Brasileiro

nearly five miles seis milhas quase cinco milhas seventy miles sete milhas 110 quilômetros twenty miles vinte milhas 30 quilômetros.

As ilustrações de Kincaid predominam, mas em um livro desse tamanho, o texto verbal também é substancial, sendo mais extenso de que nas outras edições infantis ilustradas. É de

15

A coleção brasileira (B34) inclui o habitual Gulliver etc., mas concentra-se em obras de autores britânicos do século XIX, como Peter Pan, O livro da selva e Sherlock Holmes.

16

se esperar, então, que o personagem Fagin apareça mais, e receba descrições mais completas do que nas outras versões. De fato, ele aparece mesmo, em todas as mesmas ocasiões, em que está no texto de Dickens, sempre como uma pessoa malvada e diabólica. “Maldoso”, “malvado” e “perverso” são os epítetos usados nos textos em português, traduzidos do inglês “evil”, contudo, ele é geralmente referido como “Fagin” ou “o velho” (“the old man”).

Ao introduzir o personagem, as três versões seguem cuidadosamente vários dos detalhes que Dickens escreveu em 1837. No texto brasileiro (ref. B34, p.20) lê-se:

As paredes e o teto se haviam tornado inteiramente negros em virtude do tempo e da sujeira. Uma vela, presa ao gargalo de uma garrafa de cerveja, luzia em cima de uma mesa [...] Ao pé do fogo, onde a brasa crepitava, um homem muito velho e encarquilhado estava cozinhando algumas salsichas numa frigideira. Seu rosto vil e horrendo estava parcialmente oculto pela barba ruiva e emaranhada. Vestido com uma roupa de flanela engordurada, dividia a atenção entre as salsichas e um grande número de lenços de seda secando num cabide de pé.

Nota-se que o cabelo ruivo escondendo o rosto que Dickens menciona (ver Seção 3.3.3) se transformou em barba ruiva, o que de fato, faz mais sentido. Na versão de Portugal, o texto é parecido com o brasileiro, com “vil e horrendo” substituído pelos adjetivos mais suaves “maldoso e feio” (ref. P32, p. 20). Na página 22, os papéis são invertidos e a versão de Portugal mostra palavras mais contundentes: o “hideous grin” de Peter Oliver se transforma em um “riso odioso” no Brasil e em um “sorriso repugnante” em Portugal.

A humildade irônica na recaptura de Oliver é descrita na página 32, da mesma forma que consta do texto de Dickens (ver trecho (b) da Seção 3.3.3). Também a raiva, o medo de

morrer e as qualidades animalescas nas páginas 49 e 89.Curiosamente, Peter Oliver inclui na

página 80 a cena que se passa entre Fagin e Noah (ver trecho (c) da Seção 3.3.3) que faz referência ao nariz grande considerado tipicamente judeu, escrevendo “Fagin tapped his nose

with a finger, and Noah, knowingly, did the same”. Como não se tem conhecimento a partir

do texto da natureza israelita de Fagin, a piada não faz sentido, mas foi traduzida para o português nos mesmos termos do inglês: “Fagin tocou o nariz com um dedo e Noah, astuciosamente, fez o mesmo” (ref. B34, p. 80).

O fim de Fagin mostra uma imagem menos bestial no texto de Oliver do que no de Dickens – parece um velho em desespero, retratado para despertar um pouco de simpatia:

Fagin was sitting on a stone bench, rocking himself from side to side. Around his head was a bandage. He had been wounded during his capture. . . . Oliver looked at Fagin. He had suffered so much at the hands of the old man but even now he felt sorry for him. . . . The jailer put his hands on Fagin´s shoulder. The old man struggled with

the power of desperation but finally his strength gave up. He sank to the floor and let out a terrible cry. Oliver and Mr. Brownlow left and the heavy cell door clanged shut.” (ref. T33, p. 106-107).

Em português, a representação foi feita em termos parecidos. A versão brasileira sugere:

Fagin estava sentado num banco de pedra, balançando o corpo de um lado para outro. Tinha uma atadura na cabeça. Fora ferido durante a sua captura. . . .Oliver encarou Fagin. O menino sofrera muito nas mãos do velho, mas, neste momento, sentiu pena dele. . . . O carcereiro pôs as mãos no ombro de Fagin. o homem se debateu com as forças que lhe davam o desespero, mas por fim desistiu. Ficou agachado no chão e deu um grito horripilante. Oliver e o Senhor Brownlow foram embora, e a pesada porta da cela fechou-se com um estrondo. (ref. B34, p. 106-107).

A imagem visual de Fagin criada por Kincaid parece dar mais ênfase aos aspectos bestiais do personagem de Dickens do que o texto escrito de Peter Oliver. As 187 ilustrações do livro, são geralmente feitas em um estilo naturalista, com muito detalhamento do vestuário dos personagens, das emoções expressas nos rostos deles e também do ambiente. Alguns desses personagens, porém, recebem um tratamento que é muito caricatural. Esse é o caso do Senhor e da Senhora Bumble, de Monks e de Sikes. Este último parece uma caricatura de Silvester Stallone. Nos 37 desenhos em que Fagin aparece, ele também se assemelha a uma caricatura, a uma criatura com fisionomia exagerada e movimentos reptilianos (Figuras 22, 23 e 24). A mudança, no texto escrito, da posição do cabelo ruivo emaranhado da cabeça para a barba abriu espaço para uma careca, o que, juntamente com a boca desdentada, pode ter sido o modelo usado por Cabral na sua condensação anti-semítica de 2002 (ref. B23 – ver Seção 4.3 e trecho (9) (a) de Apêndice C).

Figura 23. Eric Kincaid, 1988 (ref. T33, P32, B34, p. 85)

Figura 24. Eric Kincaid, 1988 (ref. T33, P32, B34, p. 106)

Em geral, a construção visual de Fagin mostra uma pessoa bem diferenciada dos outros personagens, com aspectos diabólicos e animalescos que poderiam ser vistos como altamente anti-semíticos se tal figura tivesse sido chamada de “judeu”. A ilustração que dá realce à

brincadeira com o nariz (Figura 25) indica que atitudes preconceituosas não ficaram longe do pensamento do artista. O contraste com a próxima adaptação a ser analisada é quase total.

Figura 25. Eric Kincaid, 1988 (ref. T33, P32, B34, p. 80)