CAPÍTULO III – DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL
7. Percurso Profissional
7.2. Ano letivo de 2013/
No ano letivo de 2013/2014, fui colocada na ilha Graciosa, segunda menor ilha do Arquipélago dos Açores. A escola onde desenvolvi a minha prática pedagógica ficava situada a quatro quilómetros da vila principal da ilha Graciosa – Santa Cruz. A população desta freguesia obtinha os seus rendimentos, sobretudo, das atividades agropecuária e comércio.
A turma que me foi atribuída era constituída por doze alunos de dois anos de escolaridade: cinco alunos do 2.º ano e sete alunos do 3.º ano.
Aquando do início do desenvolvimento da prática letiva nesta turma, a minha primeira preocupação foi perceber em que ponto de aprendizagem os alunos se encontravam, para assim traçar as estratégias que melhor se adequassem ao perfil de alunos com os quais iria trabalhar.
Desta forma, o primeiro passo foi a aplicação da avaliação de diagnóstico, já que é essencial que o professor conheça bem os seus alunos, faça um bom diagnóstico, pois só
analisando dificuldades e capacidades poderá prestar um ensino verdadeiramente individualizado, potenciando aptidões ou talentos.
Após análise dos resultados obtidos nesta avaliação e de algumas atividades de leitura e escrita que já tinha implementado, verifiquei que um aluno que constituía o grupo do 3.º ano não acompanhava, ao nível da aprendizagem, o grupo de alunos do seu ano de matrícula, estando aquém do que seria esperado. Como tal, houve a necessidade de o aluno desenvolver as competências respeitantes ao 2.º ano.
Com a avaliação de diagnóstico, também me foi possível verificar que o grupo do 2.º ano apresentava uma capacidade de leitura e escrita abaixo do que seria esperado para esse ano, apresentado um elevado índice de erros ortográficos e uma fluência leitora baixa e muito silabada.
Assim, durante este ano letivo e para ambos os grupos de trabalho, na área de língua portuguesa, foram trabalhadas, como estratégia pedagógica, as sequências didáticas5 (Anexo I e Apêndice I) que foram construídas por todos os docentes, nos quais também me incluía, da Escola Básica 1, 2, 3 e Jardim de Infância Francisco Ornelas da Câmara (Ilha Terceira), em contexto formativo e colaborativo, nos anos letivos de 2011/2012 e 2012/2013. Refira-se que todas as sequências trabalhadas tinham inerente uma história, em torno da qual se desenvolviam todas as competências de língua portuguesa.
Além do desenvolvimento das sequências didáticas e com a finalidade de ultrapassar as dificuldades apresentadas, principalmente pelo grupo do 2.º ano, mas que se estenderam também ao 3.º ano, foram criadas rotinas que incluíam, entre outros, ditado de palavras, completamento de palavras, ditado de imagens, leitura de palavras e pseudopalavras tendo em conta o tempo demorado (com cronometro).
Foram ainda trabalhados com maior particularidade (até ao fim do 1.º período) os casos de leitura no 2.º ano. Para o desenvolvimento desta tarefa eram apresentadas imagens aos alunos, ou mesmo desenhos no quadro, que continham esses casos de leitura e que os mesmos, oralmente, legendavam, enquanto a docente escrevia, ou apresentava a palavra escrita e os questionava sobre o que todas tinham em comum, cuja resposta culminava no caso de leitura em estudo. A partir daí, era explorada a regra inerente a cada caso de leitura e,
5Uma sequência didática carateriza-se por ser um conjunto de atividades de ensino e de aprendizagem
organizadas a partir da situação atual/pré-requisitos (conhecimentos prévios de tipo declarativo e procedimental). As atividades de ensino são planeadas por etapas para promover experiências de aprendizagem passíveis de desenvolver as competências (Machado 2010).
em conjunto, procedíamos à criação de uma lista de palavras que continham esse mesmo caso e que os alunos copiavam para o seu caderno de vocabulário (Figura 2).
Figura 2 – Caderno de vocabulário com casos de leitura (2º ano)
Seguidamente, eram realizados exercícios de completamento de palavras, escrita de frases substituindo imagens por palavras, legendagem de imagens, entre outros exercícios propostos nos seus livros (manual e livro de fichas), que serviam de complemento ao estudo do caso de leitura. A par disto, eram também trabalhados pequenos textos e a sua interpretação, que depois eram lidos, sendo avaliada a leitura em tabela de avaliação (Apêndice II).
A fim de ultrapassar algumas das dificuldades apresentadas ao nível da competência leitora, foi desenvolvido um projeto intitulado “Já sei ler”, em que, semanalmente, todos os alunos escolhiam um livro (requisitado por mim na Biblioteca Municipal, uma vez que a escola não possuía recursos) e levavam para casa para lerem. Além de lerem o livro, em esquema de rotatividade de acordo com uma escala mensal (Apêndice III), os alunos abrangidos teriam de elaborar, conjuntamente com os seus familiares, algo que lhes permitisse apresentar o livro aos colegas e que, ao mesmo tempo, os motivasse a levarem o livro na semana seguinte. Os objetos ou desenhos construídos teriam de incidir no uso de material reciclado, a fim de evitar gastos e permitir que todos os alunos pudessem participar no projeto sem se sentirem constrangidos (Figuras 3 e 4).
Figura 3 – Trabalho realizado após a leitura do livro O Espantalho Enamorado de Guido Visconti e Giovanna Osellame
Figura 4 – Trabalho realizado após a leitura do conto “O valente soldadinho de chumbo”
Refira-se que os livros que eram requisitados pelos alunos, na sua grande maioria, eram os elencados nos Planos Regional e Nacional de Leitura e também os considerados como obras de leitura obrigatória pelo documento das Metas Curriculares. Os alunos que não estavam escalonados para a apresentação do livro preenchiam uma mini ficha de leitura (Anexo II).
Este projeto teve uma grande adesão por parte dos alunos e dos seus familiares, que se mostraram empenhados em ajudar os seus educandos, tanto na leitura dos livros requisitados, como na realização de algo que identificasse o livro lido. A este propósito, Marques (1997: 33) afirma que, “quando os pais e professores colaboram mutuamente […], os alunos e as famílias ganham porque melhoram o aproveitamento escolar e os pais ficam mais bem informados, acerca da educação e da escola”.
Apesar de ser uma turma relativamente pequena (12 alunos), o facto de ser constituída por dois anos de escolaridade implicou um esforço mais acentuado quer na organização e gestão curricular, quer na própria ação pedagógica. Além disso, e de acordo com Mingat e Ogiet (1995), a mistura de alunos de diferentes anos de aprendizagem constitui um contexto desfavorável às aprendizagens, uma vez que a atenção do docente tem de ser dividida e cada grupo de alunos só recebe a atenção direta do professor durante um tempo parcial. No entanto, no final do ano, todos os alunos obtiveram menção positiva a língua portuguesa e melhoraram, consideravelmente, a sua competência leitora.
Neste sentido, considero que as estratégias utilizadas foram ao encontro das necessidades apresentadas pelos alunos no início do ano e permitiram ultrapassar as dificuldades apresentadas pelos mesmos, incluindo o aluno que desenvolveu competências relativas ao segundo ano de escolaridade.