CAPÍTULO III – DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL
7. Percurso Profissional
7.1. Ano letivo de 2012/
No ano letivo de 2012/2013, fiquei colocada na ilha Terceira, situada no arquipélago dos Açores. Nesse ano, foram-me atribuídas as funções de professora de Apoio Educativo numa escola situada numa das freguesias rurais a cerca de sete quilómetros da cidade da Praia da Vitória. A principal atividade desenvolvida pelos habitantes desta freguesia centrava-se em torno da Base Aérea das Lajes3.
Com o intuito de desenvolver um trabalho o mais proveitoso possível e, desde logo, poder traçar uma possível estratégia que melhor se adequasse ao desenvolvimento da minha atividade, procurei apropriar-me de informações relativas às possíveis vivências e experiências dos alunos com quem iria trabalhar, fazendo um reconhecimento do meio envolvente onde a escola se encontrava inserida.
Assim, no início do ano, foram-me atribuídos dezoito alunos integrados no Regime de Apoio Educativo, pertencentes a diferentes anos de escolaridade (1.º, 2.º, 3.º e 4.º anos). Posteriormente (no final do 1.º período e início do 2.º), integraram o Regime de Apoio Educativo mais cinco alunos, o que perfez um total de vinte e dois alunos a beneficiarem de Apoio Educativo.
De acordo com o artigo 35.º da Portaria n.º 75/2014 de 18 de novembro, o Programa de Apoio Educativo é entendido como “um conjunto de estratégias e atividades de apoio, de caráter pedagógico e didático, organizadas de forma integrada, para complemento e adequação do processo de ensino e aprendizagem” (Portaria 75/2014)4 e que se destina “prioritariamente às crianças ou jovens com graves dificuldades de aprendizagem” (Portaria 75/2014)4.
Tendo em conta o exposto, cabe ao professor de Apoio Educativo promover, de forma sustentada, a diferenciação pedagógica e uma diversificação de atividades que permitam o alcance do sucesso educativo e escolar, por parte do aluno.
Como tal, iniciei uma análise de cada processo dos alunos e um diálogo com as docentes titulares de turma para poder traçar objetivos, selecionar estratégias, atividades e recursos que fossem ao encontro do seu desenvolvimento cognitivo e da sua realidade sociocultural.
3 Infraestrutura aeronáutica da Força Aérea Portuguesa que alberga um destacamento militar Norte-americano.
4http://www.edu.azores.gov.pt/alunos/eduespeapoioedu/Documents/PortariaN.752014%20NOVO%20RGAPA.p
Após avaliação diagnóstica, constatei que os alunos apresentavam dificuldades a vários níveis e em diversas áreas do conhecimento, sendo que o maior entrave ao desenvolvimento das competências a atingir, por estes alunos, prendia-se com as dificuldades apresentadas ao nível das competências da leitura e escrita, que comprometiam a sua prestação nas restantes áreas do saber, uma vez quea leitura e a escrita (com maior incidência a leitura) são a chave para o acesso a outras aprendizagens.
Desta forma, os objetivos de aprendizagem eram muito específicos e individualizados, tal como as atividades para os atingir. As estratégias utilizadas foram selecionadas por mim segundo dois critérios. O primeiro foi a superação das dificuldades destes alunos de uma forma cativante, uma vez que a maioria apresentava um certo grau de desmotivação para a aprendizagem. O segundo foi a seleção de materiais que normalmente esses alunos não utilizavam, para assim tentar encontrar outra forma de explorar conceitos e conteúdos.
Apesar de as atividades desenvolvidas durante o apoio educativo incidirem no reforço das competências que estavam a ser desenvolvidas em contexto de sala de aula, nas áreas de português e matemática, com exceção do apoio prestado a um aluno do primeiro ano, estas eram diversificadas e apelavam ao lúdico, de modo a promover o gosto pela vida escolar.
Assim sendo, optei por recorrer a atividades lúdicas que envolviam o jogo, dado que, e segundo Piaget (1990), o jogo não é apenas uma forma de entretenimento no sentido de gastar a energia da criança, mas sim um meio que a enriquece e contribui para o seu desenvolvimento intelectual, criando entusiasmo sobre o conteúdo a ser trabalhado, motivando o aluno a expressar-se, a agir e a interagir na sala de aula, em contexto de aprendizagem, constituindo uma vantajosa ferramenta.
Como tal, foram utilizados jogos de adivinhas, dominós de leitura (Figura 1), jogos para reforçar conteúdos gramaticais, entre outros.
Além destes jogos, e com vista a colmatar o elevado número de erros cometidos, foram também criadas rotinas de ortografia, que se realizavam durante os primeiros minutos do apoio, que contemplavam o preenchimento de lacunas em palavras, ditado de palavras, ditado de imagens, sendo utilizado o computador para projetar as imagens, ordenação de sílabas e formação palavras.
Durante o apoio educativo, foram também aplicadas atividades dirigidas ao desenvolvimento das competências da leitura e da escrita, sendo para isso utilizadas estratégias de leitura diversificadas, como por exemplo: a leitura silenciosa, a leitura em voz alta, a leitura utilizando as emoções e expressões (como se estivesse a rir, a chorar, a fazer um relato de futebol, como se tivesse algo na boca). Para a escrita, foram utilizadas respostas a questionários, construção de textos de acordo com o preenchimento prévio de um plano, descrição de imagens, ordenação de histórias, entre outros.
Para o aluno do 1.º ano e atendendo ao facto de o mesmo não acompanhar o desenvolvimento das atividades de aprendizagem da leitura e da escrita da turma a que pertencia, pois apresentava um desfasamento ao nível da linguagem e das atitudes (competência do saber-estar) comparativamente aos restantes alunos da turma, em coordenação com a docente titular, ficou decido que o aluno deveria desenvolver atividades que fossem ao encontro das suas necessidades imediatas. Assim sendo, antes de se iniciar o ensino formal da leitura e da escrita, foram desenvolvidas atividades de treino percetivo, treino da atenção, atividades de alfabetização e atividades de consciência fonológica. Só mais tarde, após a verificação de que algumas das dificuldades apresentadas pelo aluno tinham sido superadas, se iniciou o ensino formal da leitura e da escrita, tendo por base o método das 28 palavras.
Para tal, tive a necessidade de construir vários materiais que, além de permitirem a aprendizagem da leitura e da escrita, fossem capazes de promover, no aluno, o gosto pela aprendizagem, uma vez que a desmotivação era um grande entrave à mesma.
Então, e seguindo a mesma lógica utilizada com os restantes alunos a frequentarem o apoio, também para este aluno foi dada primazia a atividades de caráter lúdico, como sendo: puzzles, dicionários ilustrados, caça palavras, imagens a três dimensões, identificação de diferenças, bem como a utilização de material informático (mesa de e-blocks).
Ao longo do ano letivo, procurei utilizar métodos e técnicas favoráveis a uma aprendizagem motivadora, ativa, diversificada e transversal, que incrementassem a autonomia dos alunos. Planeei as aulas, juntamente com as docentes titulares de turma, de modo a pôr
em prática as vantagens do trabalho colaborativo que, de acordo com Roldão (2007: 27), se estrutura “essencialmente como um processo de trabalho articulado e pensado em conjunto, que permite alcançar melhor os resultados visados”, tornando-se, deste modo, uma mais-valia para a instrução efetiva.
Apesar de, no final do ano letivo, terem sido observadas evoluções nas aprendizagens dos alunos que frequentaram o Apoio Educativo, estas ficaram aquém do que poderia ter sido alcançado, já que ao professor de Apoio Educativo estão também agregadas as funções de substituição, em caso de falta do professor titular. Atendendo a esta função, durante o ano tive que efetuar algumas substituições de caráter relativamente prolongado (fiz uma substituição superior a um mês e ainda todas as sextas-feiras, durante o período da tarde), o que levou a interrupções no trabalho desenvolvido com os alunos do Apoio Educativo, impedindo desta forma o alcance de melhores resultados.
Apesar de tudo o que foi apresentado, o professor de Apoio Educativo tem um papel fundamental na expansão de uma escola que se preocupa com as especificidades de cada aluno, contribuindo desta forma para dar resposta às suas necessidades com estratégias diversificadas e individualizadas, permitindo o desenvolvimento de uma escola de qualidade para todos.