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Anonymous e o midialivrismo hackerativista

5 Dois estudos de caso midialivristas

5.2 Anonymous e o midialivrismo hackerativista

A rede de ativismo hacker Anonymous (figura 6) informou pelas redes o turbilhão in loco e dominou os nós de relevância no Facebook dos protestos das chamadas jornadas de junho nos dias 13, 17, 18 e 20 de junho de 2013, segundo estudo capitaneado pelo cientista social Sérgio Amadeu. A pesquisa baseou-se em 500 mil comentários e mensagens postadas na rede social com 50 palavras-chave relacionados aos protestos e mostrou o poder influenciador do coletivo hacker nesses dias (MAGALHÃES; VALENTE, 2013)

Vídeos ao vivo, textos e informações produzidas pelos Anonymous e outras fontes como Mídia Ninja e o Movimento Passe Livre circularam pela web em junho de 2013, principalmente nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Enquanto isso, a mídia corporativa vendia a tese de que as ruas das principais capitais brasileiras eram invadidas por “vândalos” ou “revoltosos de classe média que não valem nem 20 centavos”, como afirmou o comentarista Arnaldo Jabor na Rede Globo de Televisão16.

As manifestações de junho de 2013 surpreenderam os observadores mais desavisados pelas suas proporções. A reivindicação do cancelamento do aumento do transporte coletivo em 20 centavos mobilizou os mais diversos espectros sociais e políticos para os protestos. Enquanto ventríloquos engravatados como Jabor e José Luiz Datena vociferavam contra os protestos, a população tomava as ruas de Rio de Janeiro e São Paulo.

No caso de Datena em seu programa vespertino Brasil Urgente, o apresentador afirmava que a população paulistana era contrária ao protesto, enquanto isso uma enquete na tela mostrava apoio ao movimento17, Datena chegou a mudar a pergunta e acrescentou baderna na pergunta, mesmo assim a população continuava a apoiar em grande maioria os protestos de junho 2013, o que exemplifica como a grande mídia ainda tenta entorpecer os sentidos dos telespectadores pelas telas da sala de estar.

16 Arnaldo Jabor fala sobre onda de protestos contra aumento nas tarifas de ônibus. https://www.youtube.com/watch?v=luLzhtSYWC4. Acessado em 23 de julho de 2019.

17 Datena surpreendido em pesquisa! Passe Livre, Disponível em:

<https://www.youtube.com/watch?v=7cxOK7SOI2k>. 13 de junho de 2013. Acessado em 14 de maio de 2019.

Da Praça Tahir no Cairo, passando pelo Occupy em Nova Iorque ao Acampamento do Sol espanhol, os protestos de junho de 2013 no Brasil inserem-se no novo fazer político do século XXI, fortemente influenciado pelo ciberativismo.

Reenconttramos a resistência dos favelados contra as remoções18, dos índios

contra as megabarragens e as estradas que atravessam as reservas, dos negros e dos pobres por cotas raciais e sociais, dos pontos de cultura contra a restruturação reacionária do Ministério da Cultura, dos operários das megaobras por trabalho digno. Por embrionários que tenham sido e sejam, os movimentos de ocupação (OcupaRio, OcupaSampa e Ocupasalvador) mostram aqui também que o devir-sul da multidão é ao mesmo tempo um devir-multidão dos pobres (COCCO, 2014, p. 103).

Cocco (2014) afirma que o trabalho imaterial no capitalismo contemporâneo gera concretamente valor num contexto biopolítico. Atividades cognitivas, comunicativas, linguísticas e afetivas formam uma espécie de “alma”.

Voltando às manifestações de 2013, em especial ao momento posterior a junho daquele ano, Alonso (2016, apud AIDAR; PRATES, 2017) afirma que houve polarização entre grupos à esquerda e grupos à direita do espectro político, se no início os socialistas e autonomistas eram maioria, com o tempo, os protestos impulsionaram os mais diversos grupos políticos.

“A partir de meados de 2015, emergiram grupos de direita, os que apoiaram o impeachment e as pautas neoliberais. Entre os principais estão: à esquerda, Frente Brasil Popular e Povo sem medo, e à direita VPR (Vem pra rua) e MBL (Movimento Brasil Livre). Tais grupos ocuparam as ruas principalmente em 2016, apoiados intensamente nas convocações nas páginas desses movimentos no Facebook” (AIDAR; PRATES, 2017, p. 3).

O surgimento de grupos Anonymous no Brasil ocorreu em 2010, três antes da Jornadas de junho de 2013. O discurso de que "todos são anons", desde que simpatizem pela mobilização do grupo acabou atraindo a atenção, principalmente de jovens que começam a se interessar por engajamento político e pretendiam fugir de um movimento mais engessado (RODRIGUES, 2016).

18 Contingentes populacionais foram removidos no Rio de Janeiro para as obras da Copa do Mundo em

2014 e da Olimpíada em 2016. O filme Mormaço lançado em 2019 por Marina Mellande relata como o poder público passou por cima dos direitos por moradia digna dos mais pobres em prol dos interesses econômicos imediatistas para a realização da Copa do Mundo (nota do autor).

O Anônimos forma um coletivo que mostra a força da mídia livre e como o jogo havia mudado para a mídia corporativa. “A separação do informacional do seu substrato físico desloca a complexidade social e biológica da vida humana em favor de uma forma reificada de inteligência” (SANTAELLA, 2007, p. 215).

Machado et al. (2012, p. 6) apontam “o surgimento dos grupos autodenominados Anonymous por volta de 2006 no 4Chan, fórum de imagens muito popular nos Estados Unidos no qual era possível enviar mensagens preservando (ao menos publicamente) o anonimato”.

O 4chan apareceu como um lugar para troca de imagens entre usuários admiradores do mangá japonês, mas pouco a pouco foi ganhando novos usos. Como o 4chan é uma rede pobre para divulgação e compartilhamento de material de fãs, ela não tem como guardar o log das operações de rede por mais de algumas poucas horas. Quando a memória lota, a rede automaticamente recobre o material guardado. Isto deu aos diferentes grupos uma capacidade de manter-se na invisibilidade. Se o 4chan quando nasceu era apenas um fórum para troca de imagens, com o tempo tornou-se um canal para comunicação intensa e efêmera. Através dele, coletivos e movimentos testaram rapidamente o potencial de alguma forma de comunicação. Deste modo, produziram efeitos virais, geraram manias, modas e sucessos instantâneos (ANTOUN; MALINI, 2013, p. 169)

As primeiras ações desses grupos que deram origem ao Anonymous eram pautadas pelo princípio do lulz, palavra que remete ao plural de “LOL” (laughing out loud, ou, traduzindo: rindo em voz alta) e eram de pura trolagem como trotes telefônicos ou sucessivos pedidos de pizza a determinados endereços alvo (MACHADO et al., 2012). Em um canal do site, o /b/ do 4chan, rolava pornografia e fotos exibicionistas de adolescentes mescladas a uma conversa sem começo nem fim. É desse ambiente que se originou um grupo que vai se autodenominar Anonymous, que adota a máscara do anarquista do século XVII, Guy Fawkes, popular na história em quadrinhos “V de Vingança”, adaptado também para o cinema, que tornou-se conhecido em máscaras usadas pelos ativistas das manifestações nas ruas em diversas cidades (ANTOUN; MALINI, 2013).

Há certa relação entre as ações do anons e características do Situacionismo (ver capítulo 4) e dos happenings que criam situações diversas, rápidas e impactantes, com alta qualidade passional (HOME, 1999 apud RODRIGUES, 2016). Os anons apelam,

muitas vezes, para o lado emocional do seu público, seja através do humor ou de vídeos apelativos, nas quais o resultado final é também inesperado (RODRIGUES, 2016).

Figura 6 - Meme Anonymous – primeiro avatar do grupo (RODRIGUES, 2016, p. 42)

Os Anonymous não constituem um grupo homogêneo ou possui um núcleo central de ativistas, mas diz respeito a uma ideia, a um modo de ação, a uma forma de protesto. Não se configura como um coletivo dotado de regras bem definidas, mas de conjunto heterogêneo de grupos e indivíduos espalhados por vários lugares, que se unem e se segregam a todo momento, a depender da ação a ser realizada, com diferentes conotações e configurações em cada localidade (MACHADO et al., 2012).

O Anonymous realiza ações ativistas como o #Oppayback (figura 7) , como, por exemplo, no momento em que as empresas de cartão de crédito bloquearam doações ao

site Wikileaks19. O movimento hackativista derruba os servidores dos sites dessas empresas causando prejuízos durante certo tempo para elas. A ação também cria atenção entre a população e a imprensa para nesse caso o próprio Wikileaks e o Anonymous. O hackativismo é uma modalidade de ciberativismo que utiliza robôs que geram massivo acesso a um determinado site com a intenção de derrubá-lo (RODRIGUES, 2016).

O hackativismo ou midialivrismo hacker20, praticados pelo Wikileaks e o Anonymous, conseguem através da invasão de computadores de empresas, governos e agências governamentais de segurança trazer transparência e questionar as decisões do poder constituído e dos bilionários que cada vez mais concentram a renda no mundo.

“Um hacker pode realizar uma ação ciberativista sozinho. Porém, habitualmente preferem trabalhar em grupos. Primeiro por uma questão de respaldo em relação à ação: quanto mais pessoas envolvidas, mais facilmente as brechas de segurança que permitiriam um reconhecimento de um dos hackers podem ser encontradas e resolvidas. Segundo, agindo como um coletivo hacker é mais fácil legitimar a ação perante à sociedade. E, por fim, por uma questão de ética hacker, valoriza-se o trabalho colaborativo em detrimento do individualismo” (RODRIGUES, 2016, p. 35 e 36).

Importante ressaltar que o hackativismo é ilegal já que a invasão de sistemas, servidores e contas de e-mail; fraudes; apoio a pirataria; divulgação de dados de particulares e modificação de homepages são enquadradadas por leis nacionais. Os hackativistas acreditam que o descumprimento das leis são meios para a conscientização do coletivo e geram questionamentos relevantes para a sociedade ou para determinados grupos (RODRIGUES, 2016).

19WikiLeaks é uma organização de mídia multinacional e uma biblioteca de dados. Fomos fundadas pelo nosso editor, Julian Assange, em 2006. O WikiLeaks é especializado na análise e publicação de grandes conjuntos de dados de arquivos oficiais censurados ou restritos que envolvem guerra, espionagem e corrupção. Até agora, publicou mais de 10 milhões de documentos e análises” (WIKILEAKS, 2019.

Disponível em: <https://wikileaks.org/What-is-WikiLeaks.html>. Acessado em 10 de julho de 2019.

Tradução do autor.

Figura 7 – Meme #Oppayback Anonymous.

Fonte: Anonymous members indicted for #Oppayback Disponível em: <https://www.itnews.com.au/news/anonymous-members-indicted-for-oppayback-359710>. Acessado em 18 de agosto de 2019.

Em frente ao ataque constante de corporações, mídia comercial e governos à liberdade da web, o Anonymous faz um contraponto a essas ameaças para preservar um ambiente mais plural nas redes. O Anonymous surgiu também como reação ao monitoramento de “mensagens suspeitas” pelo governo do presidente George W. Bush após os ataques às torres gêmeas em 11 de Setembro de 2001.

Com o discurso da preservação da segurança do homem comum e manipulando o medo dos norte-americanos de ataques terroristas, o governo de Bush atropelava a liberdade e a privacidade do cidadão comum. Além da liberdade nas redes digitais, o Anonymous defende em suas ações outras pautas políticas como a proteção ao meio ambiente e a luta a favor dos direitos humanos.

Colleman (2011, apud MACHADO; SAVAZONI; SILVEIRA, 2012, p. 7) relata que, “a partir de 2008, os Anonymous deixam de se valer principalmente da zombaria para se tornar um movimento essencialmente político. Isso ocorreu após a realização de uma grande onda de protestos on e off-line contra a Igreja da Cientologia e a favor da liberdade de expressão. O episódio central dessa transição ocorreu quando essa Igreja produziu um vídeo no qual o ator Tom Cruise falava dos supostos inequívocos benefícios recebidos por aqueles que seguem essa doutrina”.

Como o vídeo era para divulgação interna entre os seguidores, mas foi descoberto e posteriormente publicado em diversos blogs norte-americanos, a Igreja da Cientologia processou veículos de comunicação por violar direitos autorais. O coletivo produziu um vídeo contra a Igreja e organizou uma onda de trolling. Rapidamente, os protestos ganharam dimensão global e em 10 de fevereiro de 2008, milhares de pessoas foram às ruas de várias capitais do mundo usando a máscara que imita o rosto de Guy Fawkes em frente às unidades da Igreja (MACHADO et al., 2012).

O Anonymous guarda relação com o projeto Luther Blissett, criado pelo coletivo italiano Wu-Ming em 1994 e que se definia como um pseudônimo multiusuário, uma entidade em aberto e foi compartilhada por hackers de todo o mundo (ZONACURVA, 2014).

Artistas, ativistas e muitos outros organizaram zombarias, passaram notícias falsas à mídia, coordenaram heterodoxas campanhas de solidariedade às vítimas da repressão, entre outras ações no espírito de Blissett. HOME (apud ZONACURVA, 2014) explica que Blissett coloca abaixo as noções ocidentais de identidade, individualidade, valor e verdade.

O apelido dessa não-identidade foi retirado de um jogador inglês de origem jamaicana, que jogou durante as décadas de 70 e 90 no pequeno clube de Watford, da cidade de Hertfordshire, próxima a Londres. Contratado pelo Milan da Itália, foi considerado uma das piores contratações do clube e devolvido ao clube inglês onde continuou a carreira (ZONACURVA, 2014).

No final dos anos 90, ativistas digitais usaram Luther Blissett para trapacear com a mídia italiana com a intenção de questionar o aparvalhamento dos sentidos dos espectadores e leitores (ZONACURVA, 2014).

Seguem dois exemplos:

 Em 1994, jornais de Bolonha começaram a receber uma série de cartas informando que entranhas de animais haviam sido deixadas em lugares públicos da cidade. A imprensa cobre o caso (sem checar devidamente) e publica várias matérias sobre o absurdo e o horror do acontecimento. Meses depois, Luther Blissett reivindica a autoria das cartas (ZONACURVA, 2014).

 Em junho de 1995, Loota, uma fêmea de chimpanzé, vítima de experiências de um laboratório farmacêutico e resgatada por ambientalistas, iria participar da Bienal de Veneza com suas pinturas. Alguns jornais publicam a notícia. Mais uma de Luther (ZONACURVA, 2014).

Tanto Luther Blisset como os Anonymous oferecem duas formas semelhantes de midalivrismo em que os poderes estabelecidos são ridicularizados e questionados. Sem centralidade, eles propõem ações em que a união de pessoas forma coletivos instantâneos que se engajam para determinado objetivo que vão desde zombar da mídia comercial até a o vazamento de informações sigilosas de governos e empresas.