Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
PUC-SP
Fernando do Valle
Aspectos da mídia livre como
resistência digital
Mestrado em Tecnologias da Inteligência e Design Digital
São Paulo
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
PUC-SP
Fernando do Valle
Aspectos da mídia livre como
resistência digital
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
como exigência parcial para obtenção do título de
MESTRE em Tecnologias da Inteligência e Design
Digital, sob a orientação do Prof. Dr. Claudio
Fernando André.
São Paulo
Aspectos da mídia livre como resistência digital. Fernando do Valle. São Paulo, 2019.
Orientador: Claudio Fernando André.
Dissertação (mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP – Mestrado em Tecnologias da Inteligência e Design Digital.
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Dedico este trabalho as minhas filhas Lorena e Janaína, fontes inesgotáveis
de alegria e esperança.
Celebro aqui a ajuda inestimável da professora Maria Ribeiro, que me incentivou e sugeriu caminhos para o término desta dissertação.
Aos professores do TIDD que me inspiraram a prosseguir na pesquisa sobre mídia livre digital.
Aos colegas da PUC-SP com quem troquei experiências e ideias.
Agradecimento à PUC-SP que sempre oferece eventos, cursos e atividades extracurriculares que estimulam à criatividade e o trabalho intelectual, tão desprezados nos tempos sombrios que atravessamos.
Ao meu pai que despertou meu interesse pelos jornais ainda na infância.
Á minha mãe e meus irmãos. Estamos juntos para superar esse momento difícil em nossa família.
“Não se pode entrar em entendimento de ninguém que a natureza tenha posto alguém em servidão, porque ela nos reuniu todos em companhia. Contudo, de nada adianta debater se a liberdade é natural, pois não se pode manter alguém em servidão sem prejudicá-lo: não há no mundo nada mais contrário à natureza, completamente racional, que a injustiça. A liberdade é, portanto, natural. Por isso, a meu ver, não só nascemos com ela, mas também com a paixão para defendê-la” (Étienne de La Boétie)
Introdução ... 16
1. Trajetória pessoal e motivo da pesquisa ... 18
1.1 Principais referenciais teóricos ... 20
1.2 Delimitação do problema da pesquisa ... 26
1.3 Localização da revisão de estudos anteriores no tempo e no espaço .... 26
1.4 Objetivos ... 29
1.4.1 Objetivo geral ... 29
1.4.2 Objetivos específicos ... 29
1.5 Justificativas e relevância da pesquisa ... 30
1.5.1 Justificativas e relevância científica ... 30
1.5.2 Justificativa e relevância pessoal, profissional e acadêmica 34 1.6 Premissas ... 35
2. Metodologia da pesquisa ... 36
3. Resistência midiática no ciberespaço ... 42
3.1 Quadro teórico de referência ... 42
3.2 O ciberespaço ... 45
3.3 A relação do midialivrismo com as corporações midiáticas digitais ... 47
3.4 Midiativismo nos anos de chumbo ... 66
4. Uma perspectiva para o entendimento do midialivrismo digital ... 72
4.1 Busca de novos significados à atividade jornalística nas redes ... 85
4.2 Novas subjetividades que submetem o algoritmo. ... 95
5 Dois estudos de caso midialivristas ... 102
5.1 Indymedia e o surgimento do midialivrismo digital ... 108
5.2 Anonymous e o midialivrismo hackerativista ... 116
6 Considerações finais ... 124
Lista de Figuras
Figura 1 – Grafo de tweets sobre greve dos caminhoneiros em maio de 2018 ... página 32
Figura 2 – Topologia da Rede P2P Multicentralizada ... página 39 Figura 3 – Capa da Folha da Tarde em 8 de setembro de 1971 celebrando a parada militar de 7 de setembro em claro apoio ao governo ... página 68
Figura 4 – Estudante confronta policial militar em protesto pela educação na cidade de São Paulo em 2015 ... página 102 Figura 5 – Logotipo atual do Indymedia... página 114 Figura 6 – Meme Anonymous – primeiro avatar do grupo ... página 119 Figura 7 – Meme #Oppayback Anonymous ... página 121
Lista de Quadros
Quadro 1– Resumo dos resultados em bases de pesquisa com a palavra-chave mídia livre ... página 28 Quadro 2 – Resumo dos resultados em bases de pesquisa com palavra-chave ciberativismo ... página 29 Quadro 3 – Resumo da metodologia ... página 41 Quadro 4 – Quadro teórico de referência ... páginas 42 a 44
Lista de Abreviaturas
ABCIBER – Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura. AGP – Ação Global dos Povos.
AI-5 – Ato Institucional número 5.
APG – Associação de Pós-Graduandos.
ATTAC – Associação pela Tributação das Transações Financeiras para Ajuda aos Cidadãos.
BM – Banco Mundial.
CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. CMI – Centro de Mídia Independente.
CMS – Content Management System.
COMPÓS – Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação.
DAN –Direct Action Network.
DOI-CODI – Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna.
ECA-USP – Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. FMI – Fundo Monetário Internacional.
FT – Folha da Tarde.
IMC – Indpendent Media Center.
LABIC – Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura. LOL – Laughing Out Loud.
MBL – Movimento Brasil Livre. OBAN – Operação Bandeirantes.
ONG – Organização não-governamental. ONU – Organização das Nações Unidas.
OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte P2P – Peer-to-peer.
RTS – Reclaim the Streets. TAR – Teoria Ator-Rede
TEDE – Sistema de Publicação Eletrônica da PUCSP. UFES – Universidade Federal do Espírito Santo. UOL – Universo online.
Resumo
Esta dissertação investiga o papel do midialivrismo para a prática do jornalismo no cenário de transformações que atravessa a comunicação no mundo digital. A mudança nas funções dos agentes no processo informacional fundamenta a análise. O problema que leva à criação deste texto consiste em apurar a viabilidade do midialivrismo e do ciberativismo como protagonistas informativos nas redes digitais. A revisão de estudos anteriores foi realizada ao mapear trabalhos acadêmicos que tratam do assunto tanto no Brasil como no exterior. Se os midialivristas do século XXI estão vivendo ou não a ilusão da viabilidade do trabalho jornalístico livre das regras do mercado e do Estado são as duas premissas aventadas. Na primeira, considera-se que a crise da mídia corporativa e as novas possibilidades de webjornalismo abrem espaço para que o midalivrismo destaque-se no debate cultural, político e social. A destaque-segunda indica que o midialivrismo destaque-seja capturado pelo domínio das multinacionais digitais. A investigação sobre o tema pode ser ampliada em futuros estudos já que o midialivrismo insere-se em momento de perspectivas inéditas e desafiadoras.
Abstract
This dissertation explore the role of midialivrism for the practice of journalism in the scenario of transformations that communication pass trough in the digital world. The change in the roles of agents in the informational process underlies the analysis. The problem that realize the creation of this text is to search the viability of midialivrism and cyberactivism as informative protagonists in digital networks. The review of previous studies was performed by mapping academic papers that deal with the subject both in Brazil and abroad. Whether or not 21st century free media journalists are living the illusion of the viability of journalism practice free from the market and state rules are the two premises. In the first, it is considered that the corporate media crisis and the new possibilities of webjournalism make room for the midlivrism to stand out in the cultural, political and social debate. The second indicates that midialivrism is captured by the dominance of digital multinationals. Research on the subject may be expanded in future studies because midialivrism is inserted in unprecedented and challenging perspectives.
Introdução
Na metade dos anos 80, depois de mais de duas décadas de regime de exceção, a sede por informação daqui e do exterior movia a cena cultural urbana paulistana e impulsionava o surgimento de fanzines e revistas, além de bandas, eventos culturais e casas de shows. No período, sozinho, com meu irmão ou com amigos sedentos por música embarcávamos no metrô rumo à Galeria do Rock, no centro de São Paulo, onde era comum encontrar turmas de adolescentes com camisetas pretas de suas bandas favoritas ouvindo os novos sons em seus walkmans, primeiros modelos de tocadores portáteis de áudio.
Nas pequenas lojas da Galeria do Rock, era possível piratear por um preço camarada os principais lançamentos musicais em LPS1 e nos inovadores para a época discos óticos digitais, os CDs, para nossas fitas cassete das marcas TDK e Basf. As minhas fitas eram pirateadas por outros amigos que não tinham disposição para se deslocar ao centro da cidade.
Hoje toda a produção musical está acessível via streaming ou no Youtube através de um clique. Muitos dos adolescentes da era digital que utilizam as redes virtuais como extensões de suas mentes e corpos nunca sequer viram uma fita cassete.
Ali no centro da cidade, supria minha curiosidade sobre o mundo além de minha redoma de adolescente de classe média e a Galeria do Rock era a meca do que se chamava de alternativo. Por ali, já circulavam fanzines de música produzidos por adolescentes. Foi meu primeiro fascínio com as possibilidades da imprensa alternativa. Na época, aproveitava também para comprar livros e revistas como Chiclete com Banana e publicações fora de circulação como Realidade e Bondinho nos labirínticos sebos do centro da cidade.
1 O LP (long play), também conhecido como disco de vinil, é uma mídia de aúdio criada nos anos 40 do
século XX, que são reproduzidas em um toca-discos. Nos últimos anos, há um retorno desse formato de suporte de aúdio. Alguns LPs raros chegam a custar R$ 400 reais em lojas na cidade de São Paulo e muitos músicos lançam seus novos trabalhos em LP (nota do autor).
Esse espírito do it yourself 2(DOWNING, 2004) que me fascinava à época me acompanha nestes mais de 20 anos de jornalismo. Ainda acredito na pulsão criativa da mídia livre (ou alternativa ou independente)3 que, como afirma Downing (2004, p. 81), que “expande o âmbito das informações, da reflexão e da troca a partir dos limites hegemônicos, geralmente estreitos, do discurso da mídia convencional e é mais sensível do que a mídia convencional às vozes e aspirações dos excluídos”.
2 O conceito de Do It Yourself (Faça Você Mesmo) surgiu no início do século passado e pode ser utilizado em vários setores, até na construção dos próprios móveis. No setor da comunicação, principalmente com os fanzines, ele se popularizou com o movimento punk que se iniciou nos anos 70 e 80 (nota do autor).
3 Na escrita desta dissertação, será feito o uso da expressão mídia livre para identificar iniciativas
1 Trajetória pessoal e o motivo da pesquisa
Durante minha carreira como jornalista, trabalhei na imprensa escrita, tanto na mídia corporativa, nas empresas O Estado de S. Paulo e Folha da Manhã, como na imprensa livre como, por exemplo, na Revista Caros Amigos, além de outros veículos de comunicação.
Atuo como ativista digital há vários anos e creio no midialivrismo via redes eletrônicas como oportunidade histórica aos jornalistas que acreditam no trabalho independente. O uso sustentável das redes sociais e ferramentas web podem impulsionar mudanças nas relações entre sociedade civil e os poderes estabelecidos.
Meu trabalho diário como editor e autor de textos para o blog Zonacurva – mídia livre em cultura e política colaborou na pesquisa sobre a área. O blog foi criado há oito anos e conta com vários colaboradores na área da Cultura, Tecnologia e Política. Publiquei, nos últimos anos, cerca de 300 textos tanto no Zonacurva como em outros veículos da mídia livre digital.
Este trabalho visa estudar como a mídia livre nas redes pode ser utilizada na contramão à mídia que domestica o leitor em prol dos interesses corporativos. A ironia é que a quantidade de informação na rede cresce na mesma medida em que as limitações financeiras e de trabalho da maioria dos jornalistas atingem níveis alarmantes. Os passaralhos, como são chamadas as demissões em massa nas redações da grande mídia, assombram os jornalistas que ainda sobrevivem nas empresas tradicionais de jornalismo. Muitos migraram para o webjornalismo ainda sem conseguir uma estabilidade financeira mínima, o que causa uma debandada de profissionais para outras atividades.
A dissertação em questão analisa a prática do midalivrismo nas redes digitais, entendido aqui como a comunicação do contra discurso à mídia tradicional nas redes digitais. Bentes (apud ANTOUN; MALINI, 2013, p. 12) “define os midialivristas como os hackers das narrativas”. Antes do advento da internet, o leitor acordava sedento para se inteirar sobre os acontecimentos do mundo durante o café da manhã e tomava contato com o mundo editado por determinada corporação jornalística, hoje a busca do internauta
por informações se direciona em sua maioria às telas de celulares e tablets. E é nesse momento que a mídia livre tem a oportunidade de furar o bloqueio das grandes corporações de comunicação.
Na parte do texto inicial deste trabalho, apresento as relações da dissertação com minha carreira profissional e a pulsão pessoal que me impulsiona ao estudo do midialivrismo digital. Exponho também os principais autores escolhidos para o entendimento deste campo de estudo criado nas últimas décadas e em constante mutação. Ainda nestas primeiras linhas explicito o problema do estudo, mapeio a revisão bibliográfica dos estudos anteriores sobre o tema em diferentes bases de pesquisa, os objetivos, justificativas e premissas desta dissertação.
No segundo capítulo, detalho a metodologia que escolhi para o desenvolvimento da escrita. No terceiro capítulo, situo o jornalismo no fluxo constante de dados do ciberespaço, incluso um breve panorama do estado atual da circulação de informações nas redes digitais.
Ainda no terceiro capítulo, que tem início com o quadro teórico de referência bibliográfica (quadro 4), relaciono o midialivrismo com as principais empresas de distribuição e busca de conteúdo digital, em especial Google e Facebook, além de estabelecer relações com o midialivrismo atual e o jornalismo de resistência praticados nos 21 anos (1964-1985) da ditadura civil-militar brasileira.
No quarto capítulo, estabeleço um diálogo crítico com os autores que tratam diretamente do midialivrismo e as conexões do mesmo com o jornalismo corporativo brasileiro, além de uma breve análise dos algoritmos utilizados na web que influenciam de forma decisiva a distribuição do conteúdo jornalístico digital.
No quinto capítulo, dois estudos de caso são apresentados como exemplo de midialivrismo digital: o Indymedia (conhecido aqui no Brasil como Centro de Mídia Independente) é apresentado com um dos precursores e o coletivo Anonymous como um dos mais atuantes no midialivrismo digital. Além disso, são demonstradas as relações entre os protestos, tanto nas redes como nas ruas, com a atuação do midialivrismo.
No sexto e último capítulo, as conclusões da pesquisa são apresentadas juntamente com as perspectivas da continuidade de meus estudos nesta área.
1.1 Principais referenciais teóricos
Karpinnen e Moe (apud ASSIS et al., 2017) traçam as noções mais comuns ao se falar em mídia livre: ausência de controle ou influência por agentes externos, capacidade de indivíduos ou organizações de tomarem decisões baseados em sua própria lógica, autogoverno, liberdade de administrar seu veículo jornalístico da maneira que convier, ou até mesmo, uma estratégia para ampliar seu público nas mais variadas plataformas.
De acordo com Antoun e Malini (2013), a partir de 1984 se iniciam os grupos de discussão virtual e comunidades hackers que inauguram o midialivrismo como o conhecemos hoje. O ativismo midiático organizado passa a produzir mídias comunitárias e populares, se afirmando como práticas da Sociedade Civil, alternativas e antagonistas em relação ao modo de se fazer comunicação dos conglomerados empresariais transnacionais e nacionais de mídia.
Para Antoun e Malini (2013, p. 19), “o ano de 1984 pode ser lido como o ano da invenção do ciberespaço – esse território virtual de trocas, ação coletiva e produção comum de linguagens nomeada assim em Neuromancer, romance de William Gibson, também lançado em 1984, uma obra que se torna metáfora perfeita dessa subjetivação informacional trazida pelo povoamento da Internet através dos grupos de discussão”.
Santaella (2007, p. 198) ressalta que “o batismo dado por Gibson desse novo campo comunicacional e dialógico de ciberespaço foi imaginativo e afirma que acesso é o traço mais marcante desse espaço virtual”.
É um espaço que está em todo lugar e em nenhum lugar, no qual praticamos e produzimos eletronicamente. A interatividade, palavra-chave para caracterizar o agenciamento do cibernauta – palavra, de resto, que tornando o termo “recepção” cada vez mais obsoleto –, só é possível porque o ciberespaço é, sobretudo, um espaço de acesso livre, informal, descentrado, capaz de atender a muitas das idiossincrasias – motoras, afetivas, emocionais, cognitivas – do usuário (SANTAELLA, 2007).
A internet pode vir a ser nossa primeira esfera pública global, um meio pelo qual a política pode tornar-se realmente participativa, tanto em âmbito regional quanto internacional. E é o primeiro veículo que oferece, aos indivíduos e coletivos
independentes de todo o mundo, a chance de comunicar-se , com suas próprias vozes, com uma audiência internacional de milhões de pessoas (DOWNING, 2004).
Downing (2004) ainda alerta para uma característica da denominada assim pelo autor de mídia radical alternativa é a de que a mesma não precisa censurar-se para atender aos interesses dos mandachuvas da mídia, do entrincheirado poder estatal e das autoridades religiosas. Downing afirma que essa mídia cumpre o papel inovador que Raymond Williams denominou de formações de “movimentos e tendências efetivos, na vida intelectual e artística, que têm influência significativa e, às vezes, decisiva no desenvolvimento ativo de uma cultura e uma relação variável e geralmente oblíquo com as instituições formais” (WILLIAMS, 1977 apud DOWNING, 2004).
O ativismo, aqui incluso o ciberativismo, foi impulsionado nesse novo cenário comunicacional. A indignação resulta em ações coletivas e diretas que aparecem em milhões de perfis nas redes sociais. Essa nova modalidade de mobilização inclui chamamentos para mobilizações, plataformas de abaixo-assinados, conflitos de opiniões, a rede ferve com a abertura de novas possibilidades de participação cidadã.
Cabe a definição de dois conceitos que norteiam esta dissertação: o midialivrismo e o ciberativismo. Segundo Antoun e Malini (2013), ambos anseiam uma política plural de meios para a construção de formas de comunicação e de disseminação de conteúdos que não têm atenção da mídia corporativa e são coirmãos num movimento de liberação da voz do modelo de radiodifusão concentrador e monopolista, cujo apogeu ocorre durante a década de 80.
O midialivrista origina-se na política radical dos novos movimentos sociais (urbanos, estudantis, sindicais, operários etc.) que realizam também uma atividade transversal de luta pela democratização em países tais como o Brasil, ainda mergulhado em uma ditadura no início dos anos 80. O adepto da mídia livre entra em rota de colisão contra o industrialismo midiático, seja em sua forma jurídica das regulações, concessões e fontes de financiamento estatais; seja em sua forma econômica com a redução do mercado de mídia a poucos veículos (ANTOUN; MALINI, 2013).
A mídia livre no país segue na seara aberta pelos diversos veículos de informação alternativos à mídia corporativa que ampliaram as vozes dos diversos grupos políticos, econômicos e culturais que lutaram contra os arbítrios da ditadura civil-militar brasileira.
Já o ciberativista surge no diálogo com a arte radical e com os movimentos da chamada contracultura. À base de sexo livre, rock e drogas pesadas, permeado do discurso potente do “paz e amor”, o ciberativismo utiliza dos novos meios para produzir ruídos sonoros, literatura marginal, performances e instalações participativas e imersivas, vídeo-arte, informática e eletrônica em níveis micro, articulando, portanto, toda uma nova cena tecnológica/cultural que recusa qualquer noção de poder baseado em alguma forma de mediação (ANTOUN; MALINI, 2013).
Essas duas formas de ativismo surgiram das lutas antidisciplinares dos anos 60 e 70. As comunidades on-line tiveram origens muito semelhantes às dos movimentos contraculturais e dos modos de vida alternativos que despontaram na esteira da década de 60 (CASTELLS, 2003). “Maio de 68 foi a manifestação, a irrupção de um devir em estado puro” (DELEUZE, 2013, p. 215).
Maciel (2014. p. 77 e p. 78), jornalista que escreveu no Pasquim, um dos principais veículos de comunicação independentes no período de exceção da ditadura brasileira, viveu a revolução contracultural dos anos 60 como poucos e tenta explicar o zeitigeist da época: “a minha hipótese favorita para o surgimento dessa nova consciência foi a de ser uma resposta a uma necessidade de ordem existencial, nascida do conflito de gerações. Nós queríamos que as nossas vidas fossem diferentes da dos nossos pais, que traziam a concepção ocidental como estilo de vida, caracterizada pela doença, neurose, crime, e tudo que a gente tem de ruim, nós queríamos uma vida saudável e feliz [...] E para ter essa vida era preciso ser livre. Essa era a proposta fundamental: a liberdade”.
O que o mundo inteiro passou a considerar como símbolo dos hippies – o círculo dividido pelo meio, com duas diagonais laterais – era na verdade o símbolo da campanha britânica contra a Bomba. Ele sugere as letras N e D, de Nuclear Disarmament – e também a figura estilizada de um homem com os braços relaxados ao longo do corpo, em atitude pacífica. Com os hippies, a adoção do símbolo do desarmamento nuclear ganhava um sentido existencial. Era mais do que propaganda política, atingia cada um em sua vida pessoal (MACIEL, 2014, p. 69)
Para Deleuze (2013), o movimento de 1968, que contou com manifestações antissistema em várias cidades do mundo, pôs a nu todas as relações de poder, em toda a parte onde se exerciam, isto é, em toda parte. Leary (1969 apud SANTOS, 2013) caracteriza a rebeldia contracultural intimamente entrelaçada à multiplicidade de
formatos, experimentação e centralizada na subjetividade, que nega a ideia de um ente revolucionário guiado pela lógica da conquista e manutenção do poder.
“O meio de ação privilegiado da contracultura é o poder das ideias, das imagens e da expressão artística, e não a obtenção de poderes pessoais ou políticos. Consequentemente, grupos minoritários, alternativos ou partidos políticos radicais não são contraculturais. Se é certo que os movimentos contraculturais tem implicações políticas, a verdade é que a tomada do poder e o fato da sua conservação exigir a adesão a estruturas muito rígidas fazem que tal se torne incompatível com a inovação e a criação que estão na base e é a razão de ser da contracultura” (LEARY, 1969 apud SANTOS, 2010, p. 37).
Referencial teórico essencial para o estudo do midialivrismo digital é a mudança apontada por Ramonet (2012), que explica como a comunicação digital modificou o sistema de interação conhecido até então, que migrou do sistema mídia-cêntrico para o sistema eu-cêntrico; o que afeta de forma substancial a forma de se produzir jornalismo e conteúdo informativo independente.
Essa guinada pressupõe uma adaptação epistemológica nos estudos da comunicação e modifica o método de estudo das relações entre agentes que criam o fazer comunicacional em constante fluxo nas redes.
O eu-centrismo afeta os papéis até então exercidos por jornalistas, leitores, veículos de comunicação e emissores de conteúdo jornalístico. A democratização dos produtores de informações por meio das novas tecnologias de comunicação, o que antes era monopólio de jornalistas que exerciam seu trabalho em canais de televisão, revistas e jornais transforma as atividades dos participantes do processo informativo.
Nós saímos do sistema mídia-cêntrico e entramos num sistema “eu-cêntrico”, em que cada internauta possui o poder de comunicar sons, textos, imagens, de trocar informações, de redistribuí-las, de misturá-las a diversos documentos, de realizar suas próprias fotos ou vídeos e de colocá-los na rede, onde massas de pessoas vão vê-las e, por sua vez, participar, discutir, contribuir, fazer circular (RAMONET 2012, p. 28)
Ramonet (2012, p. 27) considera que passamos da “era das mídias de massa a era da massa de mídias, antes, as ‘mídias-sol’, no centro do sistema, determinavam a
gravitação universal da comunicação e da informação em volta delas. Agora, ‘mídias-poeira’, espalhadas pelo conjunto dos sistemas que são capazes de união em alguns casos para constituir superplataformas midiáticas gigantescas”.
O conceito de multidão, desenvolvido por Hardt e Negri (2014), será usado para o estudo do midialivrismo digital. “A massa como aquela força irracional passiva, perigosa e violenta, justamente porque tão facilmente manipulada dá lugar à multidão múltipla, indefinida e não-mensurável” (NEGRI, 2003, p. 125 e p. 126). “A multidão não é uma entidade (como o povo) nem é uniforme (como as massas), suas diferenças internas devem descobrir o comum, the commom, que lhe permite comunicar-se e agir em conjunto” (HARDT; NEGRI, 2014 p. 14).
A definição de multidão de Hardt e Negri (2014) serve como bússola para os fluxos comunicacionais midialivristas digitais que se articulam em velocidade e direções diversas. Se Ramonet (2012) afirma que migramos da mídia de massas para a massa de mídias, a multidão múltipla se contrapõe ao povo, que é uno (HARDT; NEGRI, 2014).
Nas redes digitais, o pensamento ou a falta dele pulsa, encontramos a mesquinhez e a grandeza humanas em post improvável, talvez de certo amigo de infância que não vemos há décadas. Descobrimos a raiva no socialmente adaptado ou o afeto do tímido.
A produção de ideias, conhecimentos e afetos, por exemplo, não cria apenas meios através dos quais a sociedade é formada e sustentada; esse trabalho imaterial também produz diretamente relações sociais. Em última análise, em termos filosóficos, a produção envolvida aqui é produção de subjetividade, a criação e a reprodução de novas subjetividades na sociedade (HARDT; NEGRI, 2014, p. 101)
As mudanças no mundo do trabalho na era pós-fordista em que o capitalismo globalizado ignora as fronteiras dos países para potencializar lucros resultam em nova realidade em que as grandes corporações buscam mão-de-obra mais barata em qualquer parte do globo. Aumenta a pluralidade de forças que agem sobre o Estado neste século e a Sociedade Civil passa a influir de forma decisiva.
O trabalho imaterial não é sinônimo nem de trabalho abstrato nem de ocupação intelectual: pelo contrário, trata-se de trabalho vivo, da rearticulação – nos corpos – da mente e da mão. Um trabalho que volta a ser produção concreta de sentidos e que qualifica
o processo e valoriza os bens (sejam eles serviços intangíveis ou bens tangíveis) (COCCO, 2014).
É nesse momento de transformações sociais e políticas engendradas pela tecnologia nesse início do século 21 que surge a multidão e sua potência de resistência ao Império (NEGRI; HARDT, 2003). “O termo multidão (e o que ele contém) representa uma posição de radical antiindividualismo político” (NEGRI, 2003, p. 45).
Nas últimas décadas do século XX, o trabalho industrial perdeu sua hegemonia, surgindo em seu lugar o ‘trabalho imaterial’, ou seja, “trabalho que cria produtos imateriais como o conhecimento, a informação, a comunicação, uma relação ou uma reação emocional. Expressões convencionais como trabalho no setor de serviços, trabalho intelectual e trabalho cognitivo remetem todas a aspectos do trabalho imaterial” (HARDT, NEGRI, 2014, p. 149).
Bentes (2015, p. 31), de certa forma, reúne os conceitos de Ramonet (2012) e Hardt e Negri (2014) quando afirma que “a mídia de massas se converte em mídia-multidão e a velha imprensa funciona como engrenagem incapaz de entender a complexidade dos alinhamentos possíveis e alianças entre sujeitos políticos distintos nos movimentos e lutas”.
A mídia-multidão está em processo de formatação e esta pesquisa trata de um processo vivo arquitetado pelos fluxos digitais. Hoje existe a possibilidade que as imagens ao vivo do ativista midiático com apenas celular, carregador da bateria do aparelho e capacete de ciclista para se proteger da violência policial crie narrativas divergentes às narrativas das tomadas panorâmicas dos helicópteros embaladas no off do âncora no estúdio com ar condicionado.
Downing (2004) exulta a garra e persistência dos profissionais da mídia livre e demonstra preocupação com a falta de dinheiro que pague esse trabalho. Segundo ele, os ativistas da mídia, geralmente não remunerados ou mal remunerados, conseguem persistir dia após dia, mês após mês e até ano após ano.
Enquanto isso, boa parte dos anunciantes continua divulgando seus produtos e serviços na grande imprensa em menor escala e em queda ou em banners que remuneram baixas quantias aos empreendedores jornalísticos, agora alcunhados de publishers pelas plataformas digitais.
A superação das dificuldades no trabalho na imprensa livre pode encontrar inspiração na imprensa de resistência durante as duas décadas do regime de exceção que o país amargou.
1.2 Delimitação do problema da pesquisa
O motor desta pesquisa consiste na investigação da viabilidade do midialivrismo em ocupar protagonismo nas redes digitais brasileiras em relação ao jornalismo corporativo.
1.3 Localização da revisão de estudos anteriores no tempo e no espaço
A revisão de estudos anteriores visa encontrar a literatura disponível em artigos científicos, teses e dissertações. A pesquisa foi dividida por bases de pesquisa e focou em duas palavras-chave: mídia livre e ciberativismo.
O uso da palavra mídia livre se refere ao foco principal desta dissertação, nela se baseia a investigação do jornalismo não-corporativo praticado nas redes digitais no início do século XXI. O ciberativismo tem relação próxima, ou até mesmo umbilical, ao midialivrismo. Sem ativismo nas redes (conforme descrito no capítulo 1.1) não se pratica mídia livre. São essas duas expressões – mídia livre e ciberativismo – que guiam o entendimento da pulsão das iniciativas de mídia autônoma que se estruturam nas redes.
a) TEDE – Sistema de Publicação Eletrônica com filtro de teses e dissertações da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) no período entre 2016 e 2018.
Como é relevante encontrar trabalhos da PUC-SP que ampliem o diálogo com esta dissertação, decidimos também pesquisar trabalhos produzidos entre 2009 e 2015 com temas relevantes ao tema.
Na pesquisa com a palavra-chave mídia livre (quadro 1), foram encontrados 1170 resultados, 13 resultados entre dissertações e teses foram salvos para fichamento. Os 13 trabalhos foram escolhidos pela leitura do resumo em que identifiquei conexão com a pesquisa realizada.
Na pesquisa com a palavra-chave ciberativismo (quadro 2), foram encontrados 8 resultados, 6 resultados entre dissertações e teses foram salvos para fichamento. Os 6 trabalhos foram escolhidos pela leitura do resumo em que identifiquei conexão com a pesquisa realizada.
b) Portal de periódicos da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) entre 2016 e 2018
Na pesquisa realizada com os filtros “qualquer (primeiro campo)” e “contém (segundo campo)” com a palavra-chave mídia livre (quadro 1), foram encontrados 416 resultados entre 2016 e 2018, 2 papers foram selecionados para fichamento. Os 2 trabalhos foram escolhidos pela leitura do resumo em que identifiquei conexão com a pesquisa realizada.
Na pesquisa realizada com os filtros “com a frase exata” e “em qualquer lugar do artigo” com a palavra-chave ciberativismo (quadro 2), foram encontrados 26
resultados, 3 papers foram separados para fichamento. Os 3 papers foram escolhidos pela leitura do resumo em que identifiquei conexão com a pesquisa realizada.
c) Google acadêmico no período entre 2016 e 2018
Na pesquisa realizada com os filtros “com a frase exata” e “em qualquer lugar do artigo” com a palavra-chave mídia livre (quadro 1), foram encontrados 229 resultados entre 2016 e 2018, 4 trabalhos foram salvos para fichamento. Os 4 trabalhos foram escolhidos pela leitura do resumo em que identifiquei conexão com a pesquisa realizada.
Na pesquisa realizada com os filtros “com a frase exata” e “em qualquer lugar do artigo” com a palavra-chave ciberativismo (quadro 2), foram encontrados 940 resultados, 2 trabalhos foram salvos para fichamento. Os 2 trabalhos foram escolhidos pela leitura do resumo em que identifiquei conexão com a pesquisa realizada.
BASE DE PESQUISA 2009 a 2015 2016 2017 2018 TOTAL TEDE -PUC-SP 922 122 82 44 1170 CAPES 0 196 211 9 416 Google Acadêmico 0 83 101 45 229
Quadro 1– Resumo dos resultados em bases de pesquisa com palavra-chave mídia livre
BASE DE PESQUISA 2009 a 2015 2016 2017 2018 TOTAL TEDE -PUC-SP 7 0 1 0 8 CAPES 0 12 12 2 26 Google Acadêmico 0 351 389 200 940
Quadro 2– Resumo dos resultados em bases de pesquisa com palavra-chave ciberativismo
Fonte: Produzido pelo autor.
1.4 Objetivos
1.4.1 Objetivo geral
O objetivo principal desta pesquisa é a compreensão de como o midialivrismo nas redes digitais se encaixa no fluxo de mudanças da atual conjuntura comunicacional.
1.4.2 Objetivos específicos
A pesquisa também pretende atingir outros objetivos correlatos, que são eles: Entender se os projetos jornalísticos de mídia livre na web ameaçam a hegemonia dos grandes grupos de mídia brasileiros.
Pesquisar como a mídia livre pode tornar-se a alternativa para a prática do jornalismo autônomo das amarras do Estado e do mercado.
Investigar como a produção de conteúdo pela mídia livre acaba enriquecendo ainda mais corporações de tecnologia como Google e Facebook.
Compreender as relações do midialivrismo com os protestos políticos recentes no Brasil e em algumas cidades no mundo.
1.5 Justificativas e relevância da pesquisa
1.5.1 Justificativa e relevância científica
Esta pesquisa propõe investigar o cenário do midialivrismo digital e como ele modifica o papel dos agentes envolvidos no processo de comunicação. O assunto referido ainda começa a ser mapeado por alguns trabalhos acadêmicos tanto aqui no Brasil como no exterior e que serão citados nesta dissertação.
O digital trouxe o desafio aos profissionais de comunicação, em especial aos midialivristas, de como sobreviver no acelerado mundo das mudanças tecnológicas. Bentes (2015), Nonato (2015) e Ramonet (2012) mostram como o webjornalismo revoluciona os fluxos informativos e altera as funções comunicacionais dos agentes envolvidos.
Esta dissertação mergulha nas possibilidades de comunicação livre das travas mercadológicas. Antes, a comunicação era a extensão dos nossos sentidos que captavam um fluxo de sensações e “agora a comunicação virtual tornou-se o locus formativo do ser humano, seu contato com o mundo e seu caldo de cultura, desde os seus primeiros passos, jogando a um segundo plano agências formativas tradicionais, como a família, a igreja e a escola” (KUCINSKI, 2012, p. 6).
Na evolução dos meios de comunicação, sempre que aparece um novo presume-se o desaparecimento dos veículos de difusão informativa existentes. Foi assim com o rádio e a televisão. Os novos meios sempre trazem novas formas e modelos comunicacionais que se somam aos pré-existentes. Sodré (1999 apud NONATO, 2015, p. 68) afirma que “a informação instantânea fornecida pela imprensa deva ser completada
pela análise, mais lenta e presumidamente mais profunda. São meios que vendem informações e quem controla a informação, controla o poder”.
Já Kucinski (2012) afirma que cada pessoa minimamente capacitada, fala por si, sem precisar da mediação do jornalista, pode ter o seu blog ou o seu site, ou se tornar um produtor cultural, ou contestar as opiniões do jornalista. A matéria jornalística deixou de ser a palavra final, para ser tão somente a iniciadora de um debate.
A era digital tem transformado as formas de influência do jornalismo no debate público. O social espalhou-se em redes de comunicação instantânea, perfis em redes sociais (muitas vezes anônimos) passam a desempenhar alto poder de engajamento. O insight imediato sobre um tema pode viralizar e tornar um perfil influente em determinado assunto como política, esporte, cultura, tecnologia.
O projeto Cartografar as Controvérsias na web do LABIC (Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura) da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) é um circuito de cooperação científica entre pesquisadores de redes sociais e cibercultura que tem como objetivo constituir novas abordagens teóricas e empíricas que se debrucem sobre as modalidades de poder e contrapoder que se apresentam na web, caracterizada pelos ambientes colaborativos e participativos.
Os grafos gerados pelo LABIC abordam momentos em que as redes sociais fervilham com temas políticos como a condenação do ex-presidente Lula, o movimento #ELENÃO (de oposição ao então candidato à presidente Jair Bolsonaro), a greve dos caminhoneiros (figura 1), entre outros. Os grafos com cores que correspondem às posições no espectro político que não são fixas e sim mutantes nos trazem entendimento do funcionamento das interações entre os perfis na rede social Twitter.
FIGURA 1 – Grafo de tweets sobre greve dos caminhoneiros em maio de 2018
Dipsonível em: < http://www.labic.net/labic/>. Acesso em 11 de julho de 2018
Malini (2016, p. 2) desenvolveu “os grafos do projeto Cartografar as Controvérsias baseado em três fundamentos teóricos: teoria dos grafos, de onde foram retirados o conceito de clusterização (organização de um conjunto de padrões usualmente representados na forma de vetores de atributos ou pontos em um espaço multidimensional), modularidade, centralidade e densidade;. no método perspectivista da teoria antropológica de Eduardo Viveiros de Castro, de onde foram retirados os conceitos de perspectiva e relação e da teoria ator-rede de Bruno Latour, de onde são extraídos os conceitos de cartografia, grupos, mediadores e intermediários”.
Os perfis analisados nos grafos da LABIC são a representação informacional de contas digitais que representam diversas entidades como pessoas, bichos, instituições, movimentos, eventos, divindades, objetos, grupos e robôs (bots), cujas publicações são sempre realizadas ou programadas por uma ou mais pessoas (MALINI, 2016).
“No perspectivismo cosmológico ameríndio de Eduardo Viveiros de Castro não existe uma supremacia do elemento humano sobre os animais e que estes, as plantas e as coisas também possuem a condição de “gente” e a de pessoas e que, cada espécie, cada coisa tem o ‘seu predador e sua onça respectivos’” (DI FELICE, 2017, p. 25).
Perspectivismo foi um rótulo que tomei emprestado ao vocabulário filosófico moderno para qualificar um aspecto muito característico de várias, senão todas, as cosmologias ameríndias. Trata-se da noção de que, em primeiro lugar, o mundo é povoado de muitas espécies de seres (além dos humanos propriamente ditos) dotados de consciência e de cultura e, em segundo lugar, de que cada uma dessas espécies vê a si mesma e às demais espécies de modo bastante singular: cada uma se vê a si mesma como humana, vendo todas as demais como não humanas, isto é, como espécies de animais ou de espíritos (CASTRO apud MALINI, 2016, p. 7)
Malini (2016) justifica o uso do perspectivismo ameríndio já que mapeia as interações de humanos e não humanos (bots, algoritmos classificadores de interação como os do Facebook e Google e uma diversidade de formas subjetivadas maquinalmente na web e nos games), as relações anonimáveis e nomináveis virtualmente, semelhantes às relações entre animais e homens no perspectivismo ameríndio, por exemplo.
Perfis se deslocam dentro dos grafos segundo o assunto pesquisado, não há posição fixa para eles, navegam no ciberespaço e se posicionam conforme o momento dado pelas forças sociais e políticas. Maffesoli (2017, p. 49) escreve sobre a “emergência de um homem plural, com identificações múltiplas, tendo, portanto o dom da ubiquidade”.
Cardoso (2015) explica que o objetivo político de renovação do senso de existência coletiva é o objetivo último da TAR (Teoria Ator-Rede). E a inovação da teoria é não se ater em teorias sociológicas que costumam se ater a conceitos pré-estabelecidos para analisar os mais diversos fenômenos sociais, Latour segue os próprios atores sem modelos a priori.
As gerações mais jovens já não escutam “perder suas vidas para ganhá-las”. O
qualitativo reencontra, em diversos aspectos, uma surpreendente vitalidade. O
revivescimento da religiosidade é testemunha. A importância dos fenômenos culturais é um índice inegável. Os fóruns de discussão filosófica e outros sites comunitários mostram que a autonomia da vida espírito é uma realidade incontornável (MAFFESOLI, 2017, p. 48)
O papel do midialivrista é “expandir a consciência coletiva” que Maffesoli (2017) denomina de sociabilidade pós-moderna através da coletivização das inteligências através da tecnologia das pequenas multidões, estas são formas de investigação que esta dissertação se utiliza para o estudo da formação contemporânea de alternativas aos discursos do status quo político e midiático.
1.5.2 Justificativa e relevância pessoal, profissional e acadêmica
Pesquiso o midialivrismo e o ciberativismo há mais de uma década e antes do início do curso de mestrado no TIDD da PUC-SP, já havia reunido livros (alguns fichados), recortes de jornais e matérias em revistas, sites e blogs que auxiliaram na elaboração do texto final. Nos últimos dois anos e meio, foi enriquecedor tomar contato com outros autores que abordam o tema no meio acadêmico.
Participei também do XXVI Encontro Anual da Compós (Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação) entre os dias 6 e 9 de junho de 2017 na Faculdade Cásper Líbero em São Paulo e do X Simpósio Nacional da Abciber (Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura) entre os dias 14 a 16 de dezembro de 2017 na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), além de outros eventos acadêmicos.
O intercâmbio com alunos e professores do TIDD e do Programa de Ciências Sociais da PUC-SP (onde cursei a matéria “Teoria política: Estado, governo e tecnologia” com o professor e pesquisador em ciberativismo Rafael de Paula Aguiar Araújo no primeiro semestre de 2018) trouxeram importantes e necessárias contribuições ao trabalho.
Busquei a Universidade, e, em especial, o ambiente vibrante e instigante intelectualmente da PUC-SP por necessidade pessoal de abordagem crítica e reflexiva do midialivrismo após obter o grau de Especialista em Jornalismo Multimídia em 2007 na PUC-SP com a monografia "Jornalismo livre pensante - A web e os novos paradigmas para o trabalho jornalístico”.
Na época da especialização, já investigava a mídia independente e suas relações com a política da época e a urgência de liberdade como premissa para o trabalho jornalístico, chamei esses profissionais incansáveis que buscam informar e formar seus leitores de jornalistas livre-pensantes.
Foi também na PUC-SP que me formei como jornalista em 1997. O Projeto Experimental apresentado para a conclusão do curso foi a Revista Zona, sob a orientação dos professores Hamilton Octavio de Souza e Valdir Mengardo. A PUC-SP me possibilitou a impressão de duas mil cópias da revista, que foram distribuídas em livrarias, sebos e outras universidades da cidade de São Paulo.
Recebi telefonemas de leitores incentivando a continuação do projeto, o que não foi possível devido aos meus parcos recursos financeiros. Sem dúvida, a revista Zona foi a semente do blog Zonacurva (citado no capítulo 1).
1.6 Premissas
A partir do que foi previamente estudado em relação ao problema, apresento duas hipóteses:
Primeira hipótese: com a crise da mídia corporativa, o midalivrismo e inovadoras formas de prática jornalística passem a ocupar papel de destaque no debate cultural, político e social.
Segunda hipótese: por falta de recursos e pelo domínio de megaempresas digitais em conjunto com a continuidade da primazia do oligopólio da mídia corporativa, o midialivrismo não se viabiliza como efetiva e influente opção aos leitores que passam a ser manipulados pela desinformação na internet.
2 Metodologia da pesquisa
A pesquisa em questão é de caráter bibliográfica qualitativa com dois estudos de caso. Primeiramente, fichei com atenção a revisão da literatura apresentada no Quadro teórico de referências (quadro 4) e ampliei a pesquisa em busca de mais autores que contribuíram para maior compreensão do tema exposto.
Além da pesquisa nas bases acadêmicas citadas no item 1.3, papers acadêmicos publicados em revistas e apresentados em encontros, simpósios e congressos de comunicação foram fichados e utilizados no sentido de aumentar o processo dialógico da pesquisa.
Com base em pesquisa metódica em bases teóricas e revisão de estudos anteriores, esta investigação busca compreender as perspectivas midialivristas que modificam as relações comunicacionais.
O digital empoderou o cidadão comum que agora é internauta que transmite dados e informações de qualquer ponto do planeta. Durante a escrita deste trabalho, essa perspectiva metodológica guiou a análise da conjuntura midialivrista.
O homem comum que circula pelas ruas e meios de transporte se encontra como midialivrista por alguns minutos no instante do flagrante do acontecimento, homens comuns tornam-se históricos como integrantes ocasionais da mídia-multidão. “O enxameamento midialivrista do homem comum produz uma nova forma-mídia, multiplicada, compartilhando experiências muito radicais, subjetivas, singulares, que não veremos na mídia formal” (BENTES, 2015, p. 40).
Negri (2003, p. 41) chama “esse momentum de ‘resistência do assimétrico’ que é o indivíduo que reage aos regimes disciplinares (sobre os indivíduos) do capitalismo clássico que agora transformaram-se em regimes de controle das populações do capitalismo maduro, como nos haviam alertado Foucault e Deleuze”.
A resistência do assimétrico que se pode exercer contra a guerra, miséria e exploração é uma espécie de Davi diante de Golias, assinala Negri (2003). Segundo Negri, o quadro global de resistência se torna poderoso, porque no domínio do que o autor denomina Império se dão espaços livres, buracos e pregas através dos quais um êxodo de resistência se aproveita.
A primeira hipótese deste trabalho acredita no aproveitamento desses espaços livres e buracos identificados por Negri pelos midialivristas na construção de paradigmas que estão por vir no horizonte comunicacional.
Já na segunda hipótese, os espaços a serem ocupados já foram cercados pelo regime de controle que se reproduz no digital e o medo impede a construção da subjetividade digital libertária que explora as potencialidades de alargamento democrático. Assim, o recalque e o ressentimento passam a alimentar a violência nas redes, onde grupos políticos e corporações manipulam enormes contingentes populacionais.
Como este estudo se debruça sobre fenômenos sociais, midiáticos e tecnológicos do presente temos como bússola a ideia de Feyerabend (apud CHALMERS, 1993, p. 161) de que “a ciência governada por regras fixas e universais é não-realista e perniciosa”.
Como os temas midiáticos possuem relação direta com a política, Eco (1977, p. 20) afirma que “desde as manifestações de 1968 ao redor do mundo as teses livrescas e culturais perderam a vez e teses diretamente ligadas aos interesses políticos e sociais se impuseram”.
Aos que duvidam da cientificidade da tese política que não conta com diagramas e fórmulas em bases quantitativas, Eco (1977) rebate que não há oposição entre tese científica e tese política já que todo trabalho científico inevitavelmente contribui positivamente para o entendimento político, além de alertar para o perigo da ciência impedir o processo de conhecimento político de seu tempo.
Por mais que os textos acadêmicos esclareçam, mostrem caminhos, Deleuze (2013, p. 15) alerta sobre o risco do “peso do aparato universitário” na escrita. Deleuze acredita no texto que “sacode algo, que faz com que alguma coisa nele se mexa e que a escrita surja como fluxo, e não como código”. Na trilha desse caminho, será possível trazer pelo menos uma amostra da pulsão das redes digitais para esta dissertação.
O mergulho no socius (termo do latim originário tanto do social quanto da associação) desta dissertação tem por finalidade codificar os fluxos do desejo comunicacional dos atores midialivristas da era digital.
O presente estudo leva em conta o pensamento de Deleuze e Guattari (2011, p. 51) ao qual é dito que “como a máquina capitalista canaliza e regula esses fluxos com a
violência. Essa repressão é endógena já que essa máquina vive dos fluxos e encontra neles tanto sua matéria como sua condição”. O governo desses fluxos na web torna-se mais difícil, já que ela é multicentralizada e sua tendência é mobilizadora.
Para Kucinski, (2012), no jornalismo, vivemos uma mudança estrutural tão profunda e ampla que se pode referem a uma ruptura epistêmica. Uma situação na qual o referencial teórico clássico pouco serve para explicar o que se passa.
Por isso, o percurso metodológico em busca de respostas para o problema considera que a comunicação P2P (peer-to-peer) (figura 2) cria ambientes colaborativos e coloca em xeque as formas de hierarquização e traz uma transparência maior das relações.
A rede é uma sobreposição de camadas de redes que vão adensando relações e se dissociando entre si no tempo. Um perfil existe porque está em relação com o Outro (seguidor, amigo, inscrito etc). Um perfil resulta de seu entrelaçamento com outros perfis, fazendo de sua ação na rede sempre uma ação associada para afirmar um conceito que para se distanciar ou se aglutinar a conceitos e dinâmicas mobilizadoras próprias (MALINI, 2016).
A rede de computadores segue o fluxo dos atores mais ativos, que através de suas interações tornam-se relevantes. A relevância se dá pela teia que um perfil consegue produzir. Alguns a tecem a qualquer custo, criando polêmicas vazias, compartilhando notícias falsas, xingando meio mundo. Outros tornam-se oráculos virtuais com notícias, memes, textos, fotos, gifs a todo momento influenciando boa parte da rede.
Figura 2 - Topologia da Rede P2P Multicentralizada (ANTOUN; MALINI, 2016, p. 102)
Esse aspecto do hibridismo entre homem e máquina nas redes digitais norteia esta pesquisa, “pois, se é lícito dizer que o homem cria a técnica, é possível igualmente afirmar que a técnica cria o humano” (CARDOSO; SANTAELLA, 2015, p. 175).
Antes, era preciso argumentar sobre a ligação entre humanos e não humanos. Agora, é muito mais fácil. Aceitamos que tudo se mescla. Precisamos agora de um método. Ninguém mais sustenta uma separação entre os humanos e suas tecnologias. É claro que os seres humanos estão ligados à natureza e às materialidades. Se alguém fala de micróbios ou bactérias, com a teoria ator-rede não é possível ficar no médico ou no paciente, é necessário envolver a bactéria. É tão simples que se espalhou. Tornou-se a sociologia padrão. Salvo nas ciências políticas (risos) (LATOUR, 2017)
Ao mergulharmos no estado da arte que envolve o tema do midialivrismo, nos deparamos, em primeiro lugar, com o conceito do eu-centrismo (RAMONET, 2012) que nos esclarece como na era digital ocorre a mudança do modelo clássico do emissor e receptor da mensagem jornalística (mídia-cêntrico) para o eu-centrismo nas relações midiáticas.
Aqui cabe ressalva (conforme o quadro 3): este trabalho coloca o sujeito no fluxo das redes digitais em que o próprio produz conteúdo e é sugado pelo universo digital na era do eu-centrismo, entendida como o tempo em que o sujeito produz conteúdo. Isso não invalida a inserção desse sujeito na sociabilidade digital reticular de fluxos constantes da
quinta geração de tecnologias comunicacionais (mais sobre as gerações comunicacionais no capítulo 3.2).
Nessa quinta geração, “a conexão é contínua e é constituída por uma rede móvel de pessoas e tecnologias nômades que operam em espaços físicos não contíguos” (SANTAELLA, 2007, p. 200).
Esse eu identificado em sua complexidade por Ramonet constrói novos arranjos subjetivos em função de seu novo papel de produtor informacional e de interação com os outros agentes das redes até então inéditos. Esse eu digital integra-se na multidão negriana e na ecologia cibernética (quadro 3).
Se antes a mídia ocupava a centralidade na emissão informacional, agora esse novo eu comunicacional identificado por Ramonet une-se à máquina, em alguns aspectos, quase em fusão no que Kucinski (2012, p. 6) definiu “como a maior revolução nos meios de produção, registro, armazenamento, processamento e transmissão da informação, lazer e cultura em toda a história”.
Para Kucinski (2012), essa revolução talvez seja maior que a invenção da própria invenção da escrita, que se deu gradualmente, numa escala de tempo de séculos, e a dos tipos móveis de Gutenberg, esses surgindo abruptamente, mas que logo se tornaram, como o chumbo do qual são feitos, em armaduras metálicas, limitando severamente a capacidade de expressão da imaginação humana.
EU EMPODERADO (RAMONET, 2012)
+
MULTIDÃO (HARDT; NEGRI, 2014)
+
MÍDIA-MULTIDÃO (BENTES, 2015)
FORÇA ACUMULADA PARA A FORÇA COLETIVA
MIDIALIVRISTA NA REDE MULTICENTRALIZADA P2P DAS
REDES DIGITAIS (FIGURA 2)
Quadro 3 – Resumo da metodologia Produzido pelo autor
3 Resistência midiática no ciberespaço
Para cumprir o planejamento teórico estabelecido nesta pesquisa, a análise da literatura atentou para livros, artigos científicos, teses e dissertações (quadros 1 e 2) sobre o midialivrismo atual e do passado. Diferentes trabalhos de pesquisadores foram encontrados com hipóteses variadas sobre o tema.
Como as mudanças, tanto na imprensa tradicional como no midialivrismo, e as relações dessas duas formas de se fazer jornalismo se relacionam com as corporações digitais transnacionais e ocorrem em velocidade considerável, pretendemos ressaltar aspectos relevantes analisados como primordiais para o panorama de determinadas possibilidades midialvristas no ambiente digital.
3.1 Quadro teórico de referência
O trabalho será baseado em autores que estudam o tema e outros que podem apontar novos caminhos:
Jornalismo BARROS FILHO, Omar et al..
VERSUS: páginas da utopia
BENTES - Mídia-Multidão: estéticas da comunicação e biopolítica
DOWNING – Mídia Radical KUCINSKI - Jornalistas e revolucionários: a imprensa alternativa no Brasil (1964-1980)
KUSHNIR - Cães de Guarda, jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988
RAMONET - A explosão do jornalismo: das mídias de massa à massa de mídias
RAMONET, MORAES,
SERRANO – Mídia, poder e contrapoder
Ciências Sociais COCCO - KorpoBraz: por uma
política dos corpos
DEBORD – A sociedade do espetáculo
DELEUZE; GUATTARI - O anti-édipo: capitalismo e esquizofrenia
DELEUZE - Conversações HARDT, NEGRI - Multidão MACIEL - O sol da liberdade NEGRI - 5 lições sobre império RANCIÈRE - O ódio à democracia
VANEIGEM - A arte de viver para as novas gerações
Internet CASTELLS - A galáxia da
Quadro 4 – Quadro teórico de referência
DI FELICE, Massimo;
PEREIRA, Eliete; ROZA, Erick (Org). Net-ativismo.
ANTOUN; MALINI, - @ Internet e # rua – ciberativismo e mobilização nas redes sociais
SAVAZONI, COHN - Cultura digital.br
SANTAELLA -Linguagens líquidas na era da mobilidade
Movimentos sociais CASTELLS - Redes de
indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet
LUDD - Urgência das Ruas: Black Bloc, Reclaim the Streets e os Dias de Ação Global
Biografia FIGUEIREDO - Entre sem
bater – a vida de Apparício Torelly, o Barão de Itararé
Literatura HUXLEY – A ilha
3.2 O ciberespaço
É no ciberespaço que o midialivrismo se articula, é nele que encontramos múltiplas multidões de tamanhos variados de perfis que navegam nas mídias sociais e fora delas em constante cooperação e/ou confronto.
Para Antoun (2016), ancorado nas comunidades virtuais, o ciberespaço se organizou em multidões (HARDT; NEGRI, 2014) não em massas, que foram distribuídas na web e que integraram-se nas páginas pela forma de rede, que é o lugar onde a multidão pôde experimentar suas formas singulares de luta e organização.
Cada dia abandonamos a condição de aglomerado de gente catatônica em frente ao totem hipnotizador da televisão, característica essencial da mídia de massas. A gente agora interage, curte, xinga em suas pequenas telas de seus aparelhos celulares, que transporta a catatonia em incessante comunicação virtual. A alienação e a ignorância ficam mais evidentes nos fluxos informacionais digitais contínuos. Afetos positivos instantâneos também formam multidões de potências criadoras. Novas coletividades, conflitos e consciências se formam na sociabilidade mediada por telas.
Para Santaella (2007), estamos imersos na “quinta geração de tecnologias comunicacionais. O surgimento dos computadores pessoais ligados a redes teleinformáticas marca a quarta geração. Estes, por sua vez, foram muito rapidamente sendo mesclados aos aparelhos de comunicação móveis (quinta geração), constituindo assim, em muito pouco tempo, cinco gerações de tecnologias comunicacionais coexistentes que, aliadas a saberes que delas se originam, práticas sociais e institucionais, políticas públicas, formas de organização burocráticas e fluxos do capital” (SANTAELLA, 2007, p. 194)
Na terceira geração, os aparelhos e dispositivos possibilitam o processo de comunicação narrowcasting em que a comunicação se direciona a determinado público em vez da massa. Enquanto o broadcasting espalha o conteúdo para todos os lados, o narrowcasting proporciona a escolha e a individualização informativa (SANTAELLA, 2007).
Os meios de comunicação introduziram substanciais mudanças socioculturais, econômicas e políticas, que se acentuaram quando os meios mecânicos passaram a
conviver com os meios de segunda geração como rádio e televisão. Assim, a reprodução dos meios mecânicos (primeira geração) viu-se suplantada pelo poder de difusão de meios eletrônicos (SANTAELLA, 2007).
O que no mundo artesanal, era chamado de “suporte” passou a ser denominado “meio de comunicação”, pois a característica mais fundamental dos meios tecnológicos de primeira geração, de natureza mecânica, está no seu poder de reprodução, como foi muito bem demonstrado por Benjamin (1975 a), no seu antológico ensaio sobre a reprodutibilidade técnica (SANTAELLA, 2007, p. 192)
“A Internet deve ser vista como um “sistema sociotécnico” composto não apenas por tecnologias (redes, protocolos, dispositivos, programas), mas por pessoas, regras e instituições. A Rede pode ser visualizada em camadas. A “física” envolve toda a infraestrutura-base por meio da qual o tráfego de dados ocorre. A “lógica” abrange os protocolos, algoritmos e padrões. Acima dessa base, está a camada de ‘aplicações e conteúdos’“ (INTERVOZES4, 2018, p. 10).
“A internet é a improvável intersecção entre a big science, a pesquisa militar e a cultura libertária” (CASTELLS, 2003, p. 19). A internet cresceu, e continua crescendo, numa velocidade sem precedentes, não só no número de redes, mais no âmbito das aplicações.
Para que esse avanço ainda ocorra, três condições são necessárias: primeiro, a arquitetura de interconexão entre os dispositivos deve ser ilimitada, descentralizada e multidirecional em suas interatividades.; segundo, os protocolos de comunicação e suas implementações devem ser abertos, distribuídos e suscetíveis de modificação (embora os criadores de protocolos e implementações para redes conservem a propriedade de parte de seu software); terceiro, as instituições de governo da rede devem ser montadas em
4“A pesquisa “Concentração e Diversidade na Internet”, realizada pelo Intervozes – Coletivo Brasil de
Comunicação Social, teve como intuito entrar em um debate complexo mas de enorme importância social, uma vez que a web chega a mais da metade dos brasileiros, ganhando relevância crescente, e este ambiente vem sendo cada vez mais desafiado pela influência de grandes conglomerados, dos velhos monopólios tradicionais aos novos monopólios digitais. O questionamento sobre os níveis de concentração e graus de diversidade articula uma análise de cenário e tendências gerais da Internet com a realidade concreta examinada – no caso, o da camada de aplicações e conteúdos no Brasil”.
conformidade com os princípios, enraizados na internet, de cooperação (CASTELLS, 2003).
No ciberespaço se cria a cultura digital a partir da expansão das redes. Dentro dela, abre-se espaço para práticas sociais que eram extremamente marginais ou secundárias que, a partir do momento que utilizam essas tecnologias da informação em rede, tomam um corpo maior (AMADEU, 2009).
Aqui cabe novamente o paralelo das mudanças tecnológicas e políticas atuais com a ebulição de 1968, quando a imaginação se aproximou da tomada do poder de fato e protestos ocuparam as ruas de Paris e outras cidades do mundo como a Passeata dos Cem Mil em 26 de junho de 1968 na cidade do Rio de Janeiro.
Hoje as ruas dão a senha para a libertação da vida em sua plenitude e as lutas políticas e identitárias como o movimento negro, LGBT, das mulheres, entre outros, moldam uma nova consciência que clama por uma sociedade mais inclusiva. “A era das revoluções não terminou de maneira nenhuma. A imaginação humana se nega obstinada a morrer” (GRAEBER, 2014, p. 293 apud PONCELA, p. 20, tradução do autor).
É próprio da libido investir o campo social sob formas inconscientes e assim alucinar toda a história, delirar as civilizações, os continentes e as raças, e “sentir” intensamente um devir mundial. Não há cadeia significante sem um chinês, um árabe, um negro que passam pela cabeça e vêm perturbar a noite de um branco paranoico (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 135)
3.3 A relação do midialivrismo com as corporações midiáticas digitais
Os que nasceram na última década do século passado e na primeira do século XXI abandonaram os aparelhos de televisão e criam sua própria programação de vídeos, músicas, séries e filmes nos dispositivos móveis. Essa geração chamada de Z, ou também iGeneration, Plurais ou Centennials 5, e parte da geração Y, nascidos após os anos 80,
5ANDERSON, Emily. Sou da geração Z, e quero falar. Medium, 19 de outubro de 2016. Disponível em
<https://medium.com/@ElianaGRomao/sou-da-gera%C3%A7%C3%A3o-z-e-quero-falar-6cb907926b2a#.2xl3e9wcx>. Acesso em 26 de outubro de 2016.
produzem conteúdo com agilidade e naturalidade e muitos não sabem como essa mudança era inimaginável há três décadas atrás.
“Boa parte desse público não sabe o que é novela das 8, Jornal Nacional, horário nobre” (SCHNEIDER apud MENDONÇA, 2015). As maratonas de séries e os canais de youtubers com uma programação diversa substituem a programação dos canais de TV do final do século passado.
Todavia, a mídia corporativa continua comercializando nos programas do final da tarde na TV aberta brasileira, rescaldo da mídia de massas, a violência para controlar os telespectadores pela manipulação do medo. Outros se afastam da TV e se abrigam no culto evangélico, ou se entopem de ansiolíticos, a cada esquina uma farmácia nova.
Os mais jovens compõem em sua maioria os milhares de seguidores de determinado youtuber e proporcionam para o último algumas centenas de dólares, enquanto concentram enorme poder financeiro e de influência no Youtube e outras megacorporações digitais.
O controle das mentes e corpos nas redes por corporações como Google (proprietária do Youtube) e Facebook, que moldam costumes e hábitos, nos despertam para a conquista das redes digitais como espaço plural. As corporações de tecnologia surgidas no Vale do Silício na Califórnia defendem seus interesses comerciais e nos trancam com seus algoritmos em bolhas nas redes sociais com amigos virtuais que dividem opiniões semelhantes.
“A elite das Big Techs é formada pelo Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft e foram constituídos em nichos específicos: o Google como mecanismo de busca, o Facebook como rede social, a Apple como fabricante de computadores e softwares, a Amazon como comerciante de livros e a Microsoft como desenvolvedora de sistemas operacionais e programas” (INTERVOZES, 2018, p. 96).
Para se ter uma ideia de grandeza dessas empresas, tomemos como exemplo o Facebook e o Google. O Facebook, por exemplo, alcançou 2 bilhões de usuários em todo o mundo no final de 2017, sendo mais de 100 milhões no Brasil. A rede social possui em média 1,37 bilhão de visitantes diários (INTERVOZES, 2018).
O Facebook mais que quintuplicou suas receitas anuais, saindo de US$ 5 bilhões para US$ 27 bilhões entre 2012 e 2016. Em 2016, o lucro da companhia ficou em mais