4. Uma perspectiva para o entendimento do midialivrismo digital
4.2 Novas subjetividades que submetem o algoritmo
“A nossa cabeça tem que ser mais qualitativa e menos quantitativa, o quantitativo foi para a máquina” (AMADEU, 2009, p. 72). A memória e a velocidade humanas são incapazes de concorrer com a capacidade crescente do processamento dos dados. Por isso, nos resta a urgência do aprimoramento da percepção humana, da cooperação, da solidariedade e da força do grupo.
Milhares de perfis falsos criam o mundo ilusório da pós-verdade12 em que a indústria de likes dita as regras. Escroques lideram exército de fancaria que curte, descurte, compartilha, trolla (gíria da Internet que remete à chacota e à provocação), tece loas. Os robôs redatores começam a ser usados. O delírio megalomaníaco do ser humano milionário e sem escrúpulos pode criar redações com robôs produtores de notícias falsas 24 horas por dia.
Se transferirmos aos algoritmos o controle do que é relevante em nossas vidas, somos manipulados pelo poder do Estado e pela grana das corporações. Algoritmo é máquina, máquina sofisticada com possibilidade de organizar milhares de variáveis, máquina aprimorada. E jornalismo feito por títere tecnológico que desconhece valores humanos como paixão, empatia e amizade trabalha facilmente para empresas que nos impõem comportamentos e bajulam o poder em prol de seus interesses.
Você tem um conjunto de ideias que foram hegemônicas durante todo o século XX até a emergência da rede. Por que eu digo isso? Porque quando a rede liberta o texto do suporte papel, liberta a música do suporte vinil, liberta a imagem do suporte ali da película, o que você tem? Você tem aquilo o que sempre foi: criações. Quando aquilo vai para a rede, você tem não só uma capacidade de convergência desses símbolos, desses ícones, de toda essa produção, mas tem a possibilidade de fazer com que aquilo retorne ao ambiente comum da cultura. Você recombina tudo. Então, a rede, a metalinguagem digital é recombinante, ela é tendencialmente recombinante. (AMADEU 2009, p. 69)
12 Segundo a Oxford Dictionaries, a pós-verdade “se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais. Anualmente a Oxford Dictionaries, departamento da universidade de Oxford responsável pela elaboração de dicionários, elege uma palavra para a língua inglesa e a de 2016 foi ‘pós-verdade’ (‘post-truth’)” (FÁBIO, 2016).
O quantitativo e o linear confundem-se. “O qualitativo é plurivalente, o quantitativo unívoco. A vida quantificada se torna uma linha uniforme que se segue em direção à morte” (VANEIGEM, 2016, p. 118).
A qualidade do material informativo joga luz sobre o cotidiano e abre horizontes ao pensamento do leitor, enquanto a pura quantidade de informações lança o leitor em labirinto sem saída, tudo se torna descartável e em última análise, produto sem valor intelectual ou jornalístico.
“É necessária uma nova subjetividade, plena, percebê-la em termos mais precisos, mais concretos, não mais negativos, mas constitutivos” (NEGRI, 2003, p. 57). A possibilidade da intensificação do debate público nas redes empodera as individualidades e o particular se fortalece na identidade coletiva.
A prática midialivrista pode incentivar a convivência harmônica entre diversas formas de existência, o objetivo do que é produzido deve driblar as formas monolíticas de pensamento. Assim, há viabilidade de quebrar as fronteiras dos algoritmos que manipulam nossos desejos. Se as grandes corporações de tecnologia possuem nossas informações detalhadas, a resistência pode ser feita na contrainformação, no ativismo midiático, no debate público e nos protestos virtuais e nas ruas.
As corporações tecnológicas utilizam ferramentas de mídia social baseadas em algoritmos que buscam construir relevância para o que é publicado através da participação dos usuários na própria rede. Através de nossas ações em seus ambientes fechados, a própria rede filtra o conteúdo que é visível pelo usuário. É como se a máquina decidisse o que desejamos ler ou ver em determinado momento, a possibilidade de acerto cresce na proporção de que o algoritmo acumula mais dados.
Por exemplo, o Facebook realiza uma espécie de curadoria do conteúdo, através de algoritmos que decidem o que vai ou não ser mostrado para a rede como uma espécie defiltragem social de informações, que não é um processo novo, já que a circulação de informações é um dos principais pontos de estudo estrutural para a análise das redes sociais, só que agora atinge novos patamares, pois não está baseada apenas na ação dos indivíduos, mas também em algoritmos-curadores (LERMAN, 2007; BURT,1992; BAKSHY et al., 2012; TUFEKCI, 2015 apud RECUERO et al., 2017).
A voga atual de concentração do tráfego em espaços privados é criticada pelo inventor da Web, Berners-Lee (2010 apud CASTRO, 2017), para quem uma rede social é como um “silo fechado de conteúdo”. A singularização da experiência nesses espaços, por sua vez, corresponde a um patamar adicional de balcanização, criando câmaras de eco que inibem o debate e comprometem o debate público (CASTRO, 2017).
Como foi detalhado no capítulo 3.3, o debate público fica comprometido dentro dos ambientes fechados das redes sociais comandados por algoritmos. Muitas das decisões das instituições políticas e sociais são tomadas com base no tribunal das redes sociais. Se isso acontece é porque a “Internet tornou-se a espinha dorsal de nossas vidas” (CASTELLS, 2003, p. 53).
As empresas de tecnologia concentram enorme poder financeiro e misturam interesses comerciais com criatividade tecnológica livre e aberta com base na crença tecnocrática no progresso dos seres humanos. Por mais que essas empresas proporcionem oportunidades, os empresários são movidos a dinheiro e tornaram-se bilionários (CASTELLS, 2003).
Para essa concentração de dinheiro, é necessária a felicidade de usuários através da concordância de ideias, o que não se encaixa dentro dessas áreas cercadas por algoritmos são invisibilizadas para aquele grupo de usuários. Pensamentos extremistas e autoritários, teorias conspiratórias e pressupostos anticientíficos levam vantagem do funcionamento dos algoritmos como se configuram hoje já que os três exemplos citados não admitem o contraditório como premissa para sua existência.
Ambientes em que informações circulam dentro daquilo que cada usuário concorda ou “curte” podem produzem aumento da polarização política e da radicalização de discursos de ódio gerando uma espiral de afirmação de sua visão e de desqualificação das demais, uma vez que o debate some cada vez mais das linhas do tempo (INTERVOZES, 2018). Outro problema é que o funcionamento dos algoritmos de seleção e disponibilização de feeds de notícias e resultados de busca são mantidos em segredo (PASQUALE, 2017).
“A prometida riqueza das redes foi substituída por uma sociedade de segredos (black box society) na qual trolls, bots e até mesmo governos internacionais autoritários produzem a distorção das informações no Twitter, Facebook, Google News, Reddit e outros sites de redes sociais digitais” (PASQUALE, 2017, p. 17).
Nas redes sociais, os algoritmos passaram a ser utilizados para atrair a atenção do usuário em seu feed de notícias, onde são indicadas as interações que inevitavelmente ele acaba realizando. “Não se pode ter uma ideia exata dos critérios que norteiam essa seleção, pois se trata de segredo comercial, que não é inteiramente revelado sequer no registro de patentes, prática útil como defesa contra concorrentes e para prevenir investidas manipulatórias” (CASTRO, 2017, p. 13).
A matemática serve-se de algoritmos há séculos, eles são sequências lógicas e definidas de instruções utilizados para resolver um problema ou executar uma tarefa. “O termo “algoritmo” origina-se do nome de um matemático persa − al-Khowarizm − que escreveu importante manual de álgebra no século IX. Exemplos de algoritmos já eram conhecidos antes de al-Khowarizm, designando sempre a ideia de um procedimento sistemático” (TEIXEIRA, 1998, p. 20).
“Há registros de um algoritmo sumério gravado em uma tábua de barro com 4 mil anos” (CHEVTCHOUK JURNO; DALBEN, 2018, p. 19). “Já os algoritmos da era digital foram desenvolvidos ‘pela chamada teoria da Complexidade Computacional’” (TEIXEIRA, 1998, p. 28).
Os algoritmos das redes sociais criam perfis de padrões de comportamento com base em dados de milhares de outros usuários e passam a enquadrar cada usuário em um tipo de perfil. A partir dos padrões de comportamento daquele perfil, selecionam o conteúdo que será disponibilizado para eles (CHEVTCHOUK JURNO, 2018).
Kitchin (2017 apud CHEVTCHOUK JURNO; DALBEN, 2018, p. 21) explica que “os efeitos dos algoritmos e do poder delegado a eles não podem ser previstos por três motivos. Primeiro, porque eles fazem parte de amplas redes de relações que medeiam e influenciam a sua ação. Segundo, a sua performance pode ter efeitos colaterais e consequências involuntárias, não antecipadas pelos seus desenvolvedores e, por fim, as ações dos algoritmos não podem ser antecipadas porque eles podem conter erros ou bugs que modificam a sua ação”. Ou seja, os algoritmos não são só o que os programadores almejam, mas o resultado de como os usuários lidam com eles no dia a dia” (CHEVTCHOUK JURNO; DALBEN, 2018).
Segundo Castro, (2017), a governança algorítmica organiza-se em torno de grafos. Estes, em matemática, são estruturas formadas por pontos ligados por linhas. Os pontos fazem o papel de substantivos, ao passo que as linhas se equiparam a verbos.
Segmentar alguém em seus múltiplos traços digitais (os pontos do grafo) permite estabelecer uma infinidade de relações (as linhas do grafo).
Só que nas redes digitais, as subjetividades desobedientes se unem em resistência e criam novos fluxos informativos. O gatilho pode vir de um meme criativo ou de uma foto que resume o desprezo dos países europeus pelos refugiados da guerra síria. Importante frisar que sem reflexão e educação digital e formal, a ideologia, a informação e a cultura tendem cada vez mais a perder o seu conteúdo para se tornarem quantitativo puro. “Quanto menos uma informação tem importância, mais ela é repetida e com mais êxito afasta as pessoas dos seus verdadeiros problemas” (VANEIGEM, 2016, p. 116).
Para descrever esse gigantesco volume de dados digitais criou-se o termo big data. Soares (2018) acredita que algoritmo e big data formam uma díade que pode engendrar novas formas sociais e culturais.
Para Castro (2017), o big data possibilita mensurar todas as esferas da vida e é tributário da competição. Já Diebold (2012 apud CIARELLI et al., 2017, p. 324) apresenta “big data como um fenômeno contínuo”.
Segundo Boyd e Crawford (2011, apud CIARELLI et al., 2017), o valor do big data não está em seu tamanho, mas nas relações entre seus dados. A análise da agregação dos dados indica dois tipos de redes: as “redes articuladas”, resultantes da lista de contatos (amigos, seguidores etc.) dos usuários; e as “redes de comportamento”, derivadas dos padrões de comunicação (marcações na mesma foto, envio de e-mail, presença no mesmo lugar etc.
Castro (2017) afirma que a competição é o valor distintivo do neoliberalismo, corrente que domina boa parte das políticas econômicas dos países capitalistas e que destoa da cooperação. No neoliberalismo, a competição necessita da proliferação de métricas com o respaldo do mercado.
Soares (2018) afirma que os agentes sociais tensionam os mecanismos de dominação exercidos pela dinâmica da monetização dos dados digitais. Se, por um lado, há usos e apropriações dos dados pelas esferas econômica e política, do outro, tornam-se também inputs para a constituição do conhecimento no inevitável movimento reflexivo.
Castro (2017, p. 2) denomina “big data como analítica algorítmica, que projeta o arcabouço do mercado no social e equivale a uma espécie de gestão do risco - o objetivo não é mais neutralizá-lo, como no Estado do bem-estar, mas conviver com ele”.
Pasquale (2017, p. 18) afirma que a “capacidade das megaempresas digitais de armazenar e analisar dados comportamentais cada vez mais íntimos dos usuários, traçando perfis que são de grande valor para entidades comerciais, campanhas políticas, governos ou qualquer um que deseje monitorar, monetizar, controlar e prever o comportamento humano”.
Castro (2017) alerta que reconhece o laço que une o projeto neoliberal com a governança algorítmica, mas ressalta que ela não é prerrogativa desse projeto. O autor coloca que as disputas políticas estão em curso e que o projeto hegemônico pode pender para o autoritarismo com auxílio da governança citada acima.
Exemplos atuais não faltam, como no caso da eleição de Jair Bolsonaro em 2018 no Brasil em que as plataformas digitais foram usadas pelo candidato aperfeiçoando modelos de controle do eleitorado e de marketing político direcionado já utilizados na eleição de Donald Trump dois anos antes, em 2016.
Em várias partes do mundo, os políticos de esquerda ou denominados de progressistas chegaram atrasados na percepção da importância das novas tecnologias no marketing político. Mas o jogo ainda está sendo jogado e, com certeza, a governança algorítmica virou premissa básica na eleição de qualquer governante nas próximas eleições. Aspectos legais, éticos e de segurança dos dados impulsionam intenso debate que será primordial para a preservação do jogo democrático nos anos vindouros.
Essa imensidão de dados é tão indecifrável para a percepção humana quanto o oceano do planeta Solaris, protagonista do romance do polonês Stanislaw Lem, que vendeu milhões de cópias e foi adaptado às telas pelo cineasta russo Andrei Tarkovski.
O big data assemelha-se ao oceano que penetra em nossa mente e a torna máquina-mente. Hábitos, comportamentos, convicções ideológicas metamorfoseiam-se em derivativos do mercado de dados digitais. Se antes dizia-se de “quem tem informação, tem poder”, hoje podemos atualizar para “quem controla os dados do big data possui o poder supremo e o controle de nossas vidas”.
Por algum tempo, foi amplamente sustentada a ideia de que o “oceano pensante” de Solaris era um cérebro gigante, prodigiosamente bem- desenvolvido e muitos milhares de anos avançado em relação à nossa própria civilização, ume espécie de “iogue cósmico”, um sábio, um símbolo de onisciência (LEM, 1961, p. 26)
Os inputs de dados das centenas de milhões de internautas negociados da mesma forma que ativos da bolsa de valores. Dados trabalhados dentro da perspectiva corporativa da qual não é mais possível escapar. O big data contém todos nossos traços digitais. Cada compra realizada com cartões, cada busca no Google, cada percurso percorrido com nosso celular no bolso, tudo é armazenado.
O controle se sofisticou em nome da segurança e se dá através da espionagem de nossos dados pessoais. Os governos colocam suas agências de segurança e o aparato policial para nos espionar com o argumento da proteção, pode ser do terrorismo, de hackers ou do crime. Servem o medo embalado para o consumo e negociam a troca da liberdade pela segurança.
Monopolizada pelo poder econômico e político antes do advento das redes digitais, a comunicação social deve atentar para não servir às máquinas e seus algoritmos. O potencial de liberdade comunicacional das redes deve ser explorado pela mídia livre em suas mais variadas formas.