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6. Análise acústica e estatística

6.1 Análise exploratória – Objeto

6.1.1 ANOVA para os tipos de foco Objeto

Para analisar se as diferenças observadas na tabela 6.1são estatisticamente significativas, ou seja, para verificar se os parâmetros acústicos sofrem alteração significativa quando passam de uma posição não focada na sentença à posição de foco, contrastivo ou informativo, realizaremos um teste estatístico conhecido como Análise de Variância (doravante, ANOVA). A ANOVA é um teste estatístico paramétrico, ou seja, exige que a distribuição amostral prévia dos dados seja aproximadamente normal, especialmente se a amostra for pequena (menor que 30). O teste permite avaliar se há diferença estatisticamente significativa entre as médias, em diferentes grupos, da variável dependente analisada. Variável dependente nesse contexto é cada um dos correlatos acústicos, cujas medidas serão analisadas em função das variáveis independentes: tipo de sentença e tipo de foco. Assim, a ANOVA permite comparar médias de diversos grupos ao mesmo tempo e verifica se esses grupos possuem média estatisticamente igual ou não. Essa análise parte de uma hipótese (chamada hipótese nula) que pressupõe que as médias de todos grupos são iguais, sendo que a variabilidade que eventualmente possam apresentar entre si decorre tão somente da variabilidade inerente a qualquer conjunto amostral de dados. Realizado o teste, caso observemos um p-valor menor que 0,05, também chamado de nível de significância do teste, rejeitamos a hipótese nula e assumimos que há evidências estatísticas suficientes para afirmar que ao menos uma média dos grupos difere das demais e que a variabilidade observada entre os grupos é real e está sendo influenciada pela presença das variáveis independentes.

No entanto, ao utilizarmos a ANOVA como ferramenta de análise para comparar médias é necessário que o conjunto de dados obedeça a alguns pressupostos básicos, quais sejam: as observações devem ser independentes entre si, deve haver normalidade dos dados

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da variável em análise e as variâncias dessa variável devem ser homogêneas. Em geral, esses pressupostos não precisam ser atendidos à risca, dado que a ANOVA se constitui uma ferramenta de análise robusta. Outro fator a ser considerado é o tamanho da amostra, que dentro de cada grupo a ser analisado é superior a 30, conforme Tabela 6.2, que detalha a quantidade de sentenças analisadas por tipo de sentença. Tal distribuição confere ainda mais segurança à analise via ANOVA. Em geral, em amostras grandes, a distribuição sempre vai tender à normal, a menos que se trate de uma variável de comportamento muito específico, o que não é o caso nessa pesquisa dado que só trabalhamos com falantes de PB em uma comunidade de fala relativamente homogênea.

Palavra Focada Tipo de Sentença Nº de Sentenças

Renata (Sujeito) Clivada 55 Prosódica 39 Pseudoclivada 53 Tapete (Objeto) Clivada 41 Prosódica 47 Pseudoclivada 53 Total 288

Tabela 6.2: Distribuição da quantidade de sentenças analisadas para o foco no sujeito e no objeto, por tipo de sentença

O resultado da ANOVA diz tão somente que alguma média dos correlatos acústicos dentre os três grupos analisados (neutro, foco informativo e foco contrastivo - para cada tipo de construção) difere estatisticamente das demais. Para sabermos exatamente quais grupos diferem entre si é necessário a realização de um teste de comparações múltiplas. Existe uma grande quantidade desses testes, mas um que é frequentemente utilizado é o teste de Tukey23. Assim, podemos utilizar o teste de Tukey de comparações múltiplas a fim de identificar quais médias de grupos diferem entre si. A tabela 6.3 sintetiza os resultados da ANOVA para a análise dos correlatos acústicos, bem como os resultados das comparações realizadas pelo teste de Tukey entre os tipos de foco – informativo, contrastivo e neutro.

23 O uso desse teste também pressupõe homogeneidade das variâncias, o que é facilmente verificável com o teste

de Levene. Para essa pesquisa, o teste de Levene apontou homogeneidade de variâncias para todas as variáveis referentes aos valores dos correlatos acústicos.

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Tabela 6.3: Resultados da ANOVA e do teste de Tukey para a comparação de médias dos correlatos acústicos semitom, duração e intensidade nas sílabas pretônica e tônica entre os tipos de foco – informativo, contrastivo e neutro, por tipo de sentença – Foco no objeto

acústico

Prosódicas

Semitom Pretônica 40,7 0,000 Neutro e Contrastivo; Neutro e Informativo Tônica 22,2 0,000 Neutro e Contrastivo; Neutro e Informativo Duração Pretônica 12,7 0,000 Neutro e Contrastivo; Neutro e Informativo Tônica 15,6 0,000 Neutro e Contrastivo; Neutro e Informativo Intensidade Pretônica 7,1 0,001 Neutro e Contrastivo; Neutro e Informativo Tônica 12,7 0,000 Neutro e Contrastivo; Neutro e Informativo

Clivadas

Semitom Pretônica 6,5 0,002 Neutro e Contrastivo; Neutro e Informativo Tônica 7,9 0,001 Neutro e Contrastivo; Neutro e Informativo Duração Pretônica 20,0 0,000 Neutro e Contrastivo; Neutro e Informativo Tônica 44,0 0,000 Neutro e Contrastivo; Neutro e Informativo Intensidade Pretônica 9,1 0,000 Neutro e Contrastivo; Neutro e Informativo Tônica 23,7 0,000 Neutro e Contrastivo; Neutro e Informativo

Pseudoclivadas

Semitom Pretônica 22,6 0,000 Neutro e Contrastivo; Neutro e Informativo

Tônica 0,7 0,481 -

Duração Pretônica 5,1 0,008 Neutro e Contrastivo; Neutro e Informativo Tônica 39,5 0,000 Neutro e Contrastivo; Neutro e Informativo

Intensidade Pretônica 2,6 0,079 -

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A tabela 6.3 fornece uma análise a respeito dos correlatos acústicos e a presença ou ausência de foco. À exceção do semitom na sílaba tônica e da intensidade na sílaba pretônica das sentenças pseudoclivadas, em todos os demais grupos, ao menos uma média dos grupos comparados difere das outras duas. Porém, uma análise mais detalhada da tabela nos leva a considerar que, quanto maior o valor da estatística do teste F, maior a evidência de que há diferença entre os grupos comparados. De posse dessa informação, temos que o semitom da vogal pretônica é o correlato acústico que apresenta mais evidências de diferenciação entre a posição neutra e as posições com foco nas sentenças prosódicas (F = 40,7), embora também se mostre significativo para os outros tipos de sentenças.

Ressalta-se o alto valor de F (F=22,6) para o semitom na vogal pretônica nas sentenças pseudoclivadas, o que as assemelha às sentenças prosódicas nesse aspecto. A tabela 6.1 já nos mostrava o semitom médio das sentenças prosódicas e pseudoclivadas maior do que o semitom médio das sentenças clivadas. Podemos notar que, nesses dois tipos de sentença, o objeto focado está em posição canônica, ou seja, em posição pós-verbal. Esse é um dado interessante porque levanta questionamentos sobre quais são os elementos da interface sintaxe-prosódia que efetivamente atuam, concorrem ou colaboram para a marcação do foco.

Para as sentenças que apresentam focalização sintática, o correlato acústico com maior valor de F é a duração da vogal tônica (F = 44,0 nas clivadas e F = 39,5 nas pseudoclivadas). Nesse caso, o parâmetro duração faz com que as sentenças com clivagem, ou seja, com uso de recurso sintático para assinalar o foco, assemelhem-se entre si, embora a duração da vogal tônica também seja significante para assinalar o foco nas sentenças prosódicas (F = 15,6). Ainda em relação à duração, observamos que as sentenças com clivagem apresentam um maior salto do valor de F da vogal pretônica para a tônica, sendo que essa transição nas sentenças prosódicas é de menor magnitude.

Em relação à intensidade, que não se mostrou significativa na vogal pretônica das sentenças pseudoclivadas, embora seja significativa para a vogal tônica, não distingue uma sentença neutra de uma sentença com foco informativo (conforme teste de Tukey). Tal fato reforça a interpretação obtida na tabela 6.1 acerca desse correlato, que se mostra o de menor relevância na atribuição do foco, em valores absolutos. Ainda em relação à intensidade, observamos que há um padrão de valores de F mais elevados para esse correlato na sílaba tônica, sendo que o maior valor de F se deu na sílaba tônica das sentenças clivadas. Ou seja, juntamente ao semitom na sílaba pretônica, a intensidade na sílaba tônica parece aproximar as sentenças prosódicas das sentenças pseudoclivadas. Como citamos na Seção 3.2.1, sobre os

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correlatos acústicos, descobertas recentes mostram que há uma relação estreita entre a frequência fundamental – f0 (aqui convertida em semitom) e a intensidade.

Quanto ao teste de Tukey para as sentenças prosódicas e clivadas, observamos resultados já esperados: os grupos que diferem entre si são: neutro/foco informativo e neutro/foco contrastivo, ou seja, a presença de foco, seja contrastivo ou informativo, acarreta alterações estatisticamente significantes nos correlatos acústicos da palavra focada.