Dada a importância da visualização gráfica das curvas entoacionais para a análise prosódica, destacamos nesse capítulo determinadas características observadas nas curvas de pitch de algumas sentenças. Essa análise se dará especialmente sobre as sentenças clivadas e pseudoclivadas, ou seja, analisaremos as curvas entoacionais das sentenças com focalização sintática.
Um fator de interesse a ser observado nas curvas de pitch das clivadas e das pseudoclivadas é que, para as sentenças clivadas, tanto no foco do sujeito quanto no foco do objeto, o complementizador “que” apresentou elevada proeminência em produções de diferentes informantes, podendo ser até mesmo o pitch accent da sentença. As figuras 7.1 e 7.2 apresentam a curva de f0 com elevação no complementizador em sentenças clivadas com foco no sujeito e no objeto, respectivamente. Essa elevação, em alguns casos, vem acompanhada de um pitch elevado também na sílaba postônica da palavra focada (figura 7.1), que está às margens do complementizador. Ainda assim, esse padrão descrito não anula a elevação de pitch que também ocorre nas sílabas pretônicas das palavras focadas, conforme também pode ser observado nas figuras 7.1 e 7.2.
A investigação das relações de efeito, causalidade ou simples associação entre o pitch alto no complementizador e na sílaba postônica do constituinte focado nas clivadas não será explorada quantitativamente nesse trabalho, dado que optamos por não segmentar e analisar a sílaba postônica nesse primeiro momento. Porém, a presença sistemática de pitch elevado no complementizador e em sua vizinhança nas clivadas (inclusive em cenários de foco constrastivo), em oposição ao que ocorre nas sentenças pseudoclivadas, como veremos a seguir, mereceu nossa atenção para uma análise qualitativa que tornassem essas ocorrências um pouco mais compreensíveis.
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Figura 7.1: Contorno de f0 de uma sentença clivada com foco no sujeito - Foi a RENATA que comprou um tapete no shopping.
Figura 7.2: Contorno de f0 de uma sentença clivada com foco no objeto - Foi um TAPETE que a Renata comprou no shopping.
Em oposição ao padrão observado nas sentenças clivadas, temos as figuras 7.3 e 7.4, que trazem a curva de f0 para as construções com foco no sujeito e no objeto, mas utilizando construção pseudoclivada. A curva entoacional desse tipo de construção se assemelha muito às curvas das sentenças prosódicas, que se caracterizam pela elevação do pitch na sílaba pretônica da palavra focada, seguida de uma queda na curva. No caso das sentenças pseudoclivadas, notamos com maior clareza a elevação da curva de pitch na sílaba pretônica da palavra focada, sendo que os pronomes iniciais dessas frases parecem não apresentar padrão de elevação de pitch característico para esse contexto.
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Figura 7.3: Contorno de f0 de uma sentença pseudoclivada com foco no sujeito - Quem comprou um tapete no shopping foi a RENATA.
Figura 7.4: Contorno de f0 de uma sentença pseudoclivada com foco no objeto - O que a Renata comprou no shopping foi um TAPETE.
De todo modo, tanto para o sujeito quanto para o objeto, as análises quantitativas dos correlatos acústicos, como apresentadas no Capítulo 6, deixam claro que um valor elevado de f0 na sílaba pretônica do constituinte focado é uma característica bem expressiva em relação à expressão do foco nas sentenças. As análises a partir das figuras apresentadas nesse capítulo também explicitam a elevação do semitom da vogal pretônica na presença de foco nos dois tipos de sentenças com focalização sintática. Nas sentenças clivadas, ainda que a elevação seja significante para a marcação do foco, é menos expressiva do que a mesma medida nas sentenças pseudoclivadas e prosódicas, tanto para o foco no sujeito quanto para o foco no objeto, conforme também verificado nas análises quantitativas.
Embora as figuras apresentadas nesse capítulo se refiram somente ao foco informativo, o padrão observado no foco contrastivo é semelhante, vide as semelhanças apresentadas na
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análise exploratória (Seção 6.1 e 6.2) acerca dos valores médios dos correlatos para os dois tipos informacionais de foco, especialmente quanto ao foco no objeto.
Nesse sentindo, retomamos a análise exploratória que fizemos quanto ao objeto focalizado (tabela 6.1), onde notamos a semelhança entre as sentenças prosódicas e as sentenças pseudoclivadas em relação ao elevado semitom da vogal pretônica no constituinte focado. Observamos que esse padrão também se repetiu na análise do sujeito, onde os dados das sentenças prosódicas também se assemelhavam mais aos dados das sentenças pseudoclivadas, em relação a esse correlato (tabela 6.5). Na análise do objeto, podíamos notar uma semelhança entre as sentenças prosódicas e pseudoclivadas, que era o fato de o constituinte focado estar em sua posição canônica, ou seja, em posição pós-verbal. Porém, para a análise do sujeito, não podemos sugerir que a semelhança se dê em virtude da posição canônica ou não do constituinte focado, pois na pseudoclivada de sujeito o constituinte focado encontra-se no final da frase. Observemos:
Foco no Objeto:
Prosódica - A Renata comprou um TAPETE no shopping. Clivada - Foi um TAPETE que a Renata comprou no shopping.
Pseudoclivada - O que a Renata comprou no shopping foi um TAPETE.
Foco no Sujeito:
Prosódica - A RENATA comprou um tapete no shopping. Clivada - Foi a RENATA que comprou um tapete no shopping.
Pseudoclivada - Quem comprou um tapete no shopping foi a RENATA.
Em relação ao constituinte focado estar ou não estar em sua posição canônica, podemos ver que o que aproxima as sentenças prosódicas das pseudoclivadas na análise do objeto, difere-as na análise do sujeito. Nesse caso, podemos assumir outro critério que diferencia as sentenças clivadas das demais tanto para a análise do objeto quanto para a análise do sujeito, qual seja: a adjunção do complementizador “que” ao sintagma focalizado nas sentenças clivadas, tanto para o sujeito quanto para o objeto. Nas sentenças prosódicas e pseudoclivadas, não temos essa particularidade em nenhum dos cenários.
Nespor & Vogel (1986), no âmbito da chamada Fonologia Prosódica, propuseram uma hierarquia prosódica baseada em constituintes prosódicos que, embora não tenha correspondência direta com os constituintes sintáticos, não deixa de fornecer elementos para a
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análise das relações existentes entre a sintaxe e a prosódia28. Segundo as autoras, os constituintes prosódicos se criam através da relação forte/fraco, que se estabelece entre uma cabeça lexical e todos os elementos sob seu domínio. Esses domínios estão segmentados e organizados hierarquicamente e cada domínio deve estar integrado ao domínio imediatamente superior. A hierarquia prosódica de Nespor & Vogel (1986) assim se define:
1) Sílaba - σ 2) Pé - Σ 3) Palavra Fonológica - ω 4) Grupo Clítico - C 5) Frase Fonológica - φ 6) Frase Entoacional - I 7) Enunciado - U
A palavra fonológica possui a restrição de não ter mais que um acento primário. Conforme hierarquia acima, a palavra fonológica e os clíticos adjuntos formam o grupo clítico. Nas palavras de Bisol (2000), “o clítico com a palavra de conteúdo adjacente forma a primeira categoria prosódica pós-lexical”. Os clíticos são termos de difícil definição e podem englobar várias categorias gramaticais. Em geral, são elementos fracos e não são candidatos a receber acento em seu grupo. Porém, os clíticos podem receber acento enfático, como qualquer sílaba, embora não se trate de um acento lexical, que é o que determina a palavra fonológica. Essas diferenciações em termos acentuais vão se dar, também, em função do tipo de clítico presente na sentença.
Nos casos das clivadas do experimento, temos o seguinte: Foco no objeto:
Foi um [TAPETE que a]c Renata comprou no shopping.
Foco no sujeito:
Foi a [RENATA que]c comprou um tapete no shopping.
Sendo o grupo clítico formado pela junção do clítico, aqui representado pelo complementizador “que”, à palavra lexical com a qual se relaciona, temos os grupos clíticos acima definidos para as sentenças clivadas. Para compreender melhor o comportamento desse clítico em algumas curvas entoacionais analisadas, recorremos a Toneli (2006), que discorre sobre o estatuto prosódico das palavras funcionais:
28 Alguns autores, como Costa (1998), seguindo Cinque (1993), assumem que há uma relação bem mais estreita
entre a prosódia e a sintaxe, onde a distribuição de acento sentencial vincula-se às possibilidades da sintaxe. Assim, o acento sentencial seria atribuído ao elemento passível de receber tal acento e que estivesse em posição mais encaixada da sentença.
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No caso do complementizador ‘que’, como já fora afirmado por Vigário (1995) para o PE, quando em contexto ‘final ou inicial de I’, o complementizador recebe acento tonal, e, pode ser prosodizado como uma palavra prosódica independente. (...) Quanto à sua realização na posição inicial e medial de I, os dados analisados em PB parecem mostrar que o complementizador ‘que’ é prosodizado como uma sílaba átona que precisa de um hospedeiro para se apoiar, e a evidência para isso é redução da vogal final ‘e’ do complementizador. (...) Nossas hipóteses, com base na análise preliminar de dados de PB, são que as palavras funcionais, quando se configuram como sílabas átonas, ou seja, como clíticos, vão se adjungir a um hospedeiro seguinte no nível pós-lexical, e, dependendo da posição que ocupam dentro do sintagma entoacional, podem receber acento pós-lexical e se configurar como palavra prosódica independente (TONELI, 2006, p. 433/434).
Logo, da exposição acima, notamos que é plausível assumir que o complementizador receba o acento pós-lexical, o que conduziria a uma elevação do pitch no próprio complementizador e em sua vizinhança.
A discussão apresentada nesse capítulo se configura como uma possível explicação ao fato de que o semitom na vogal pretônica do constituinte focado possui valores menores nas sentenças clivadas do que nas sentenças prosódicas e pseudoclivadas. A elevação de f0 no complementizador (e em suas proximidades) das sentenças clivadas pode ter concorrido com a elevação na sílaba pretônica do constituinte focado, ocasionando um menor valor de f0 nessa sílaba nos contextos de sentenças clivadas, embora ainda seja possível notar um padrão de elevação de pitch nessa sílaba.
A discussão apresentada nesse capítulo sugere a necessidade de uma visão integrada acerca da manifestação do foco e de uma análise no âmbito de constituintes prosódicos maiores, podendo se estender para uma investigação quantitativa do padrão prosódico de toda a sentença, salientando alguns pontos de maior interesse na curva entoacional, conforme orientado pela análise gráfica das curvas.
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