7 RESULTADOS E DISCUSSÃO
7.1 Grupo de Suporte
7.2.2 Estrelícia
7.2.2.1 Antes (19 de abril de 2013 e 02 de maio de 2013)
Na entrevista inicial Estrelícia falou do impacto do diagnóstico:
[...] eu peguei (o resultado da mamografia) e até passei mal. Gente, mas eu não sinto nada! A doença, ela é tão violenta, que ela vem em silêncio. Ela te mata no silêncio. Aí, quando eu fiz a mamografia, deu [...] aí eu entrei em desespero. Mas também foi só uma semana, depois eu ergui a cabeça ... (19 abr. 2013)
No segundo momento da entrevista, voltou a dizer como se sentiu ao descobrir o diagnóstico:
Ah. Fiquei desesperada. A gente não espera nada disso, né, a gente só vê que acontece com os outros, mas, com a gente, a gente nunca tá preparada pra gente. É igual à morte, a gente sabe que os outros vão morrer, mas a gente espera não morrer agora. Passa a vez, vai passando a vez. Então foi a mesma coisa. Entrei em desespero. (02 maio 2013)
Apesar de Estrelícia ressaltar o momento da comunicação diagnóstica como o de maior desespero, é notório observar que os momentos seguintes também não foram fáceis. Estrelícia falou de como vivenciou a quimioterapia (em curso no momento da entrevista): “A
quimioterapia que é mais sofrido, mais castiga, castiga mesmo” (19 abr. 2013) e como se
sentia naquele momento:
Hoje, eu, assim, eu rezo muito, peço muito a Deus que me livre disso, que não é bom, né, ter isso, mas [...] encaro com [...] não é natural, mas é como se fosse, como se fosse naturalmente. Porque tem que encarar, mesmo. É brigar pra viver, eu quero brigar pra mim viver, eu quero mostrar pra muita gente que viver vale a pena. E lutar também, principalmente. Ah, às vezes sinto triste, às vezes [...] fica um vazio, entendeu? Porque minha família, minhas irmãs moram em (nome da cidade), mas os meus filhos moram [...] minha raiz mora lá, longe de mim, então eu fico [...] triste. (02 maio 2013)
Fica evidente o desejo de Estrelícia de viver (pulsão de vida) e a tristeza por estar longe da família.
Ah, medo dá, né, porque pode, a gente tem medo de aparecer em outro lugar, de... mais sofrimento, né? De aparecer a doença em outros lugares, né?... ficar na expectativa de esperança de ficar boa, aí aparece em outros lugares, igual muita gente, né, acontece. Mas eu tenho muita fé em Deus que não vai acontecer, não. Que é muito triste, é muito doloroso pra uma família saber que seu ente querido tá com essa doença, ... tem uns que têm cura, outros não têm, uns têm muito sofrimento, outros têm menos [...] então não dá pra você avaliar como é que é. Cada caso é um caso e cada um tem sua dor, né. Deus só dá sua dor que você pode suportar e o remédio que pode te curar, né. Então, eu penso assim, cabeça, nesse ponto de [...] da enfermidade, a minha cabeça, eu acho que, eu acho, não sei, né, que a minha cabeça é bem [...] atualizadazinha, focada naquilo. Que tem que ter cura, tem que ter cura. Porque Deus não deu sofrimento pros outros, ele não quer que os outros sofre. Mas a doença não dá nas pedras, dá é na gente. Tem que encarar. Um dia você tá triste, no outro dia você tá alegre, num dia você ri, no outro você chora, e vai levando a vida. Só não pode deixar [...] abater, pra poder entrar em desespero, você ficar louca igual muita gente fica. Fica isolada, fica abandonada [...] se abandona, não é abandonada pela família, não, é “se abandona”, se isola. Aí é pior, né? Eu me preocupo, assim, em ficar mais, assim, envolvida no meio das pessoas. Eu prefiro ficar no meio das pessoas do que me isolar. (02 maio 2013)
Estrelícia falou da dor do familiar como um meio, projetivo, de falar da sua própria dor:
Que é muito triste, é muito doloroso pra uma família saber que seu ente querido tá com essa doença.
Parece buscar apoio nas pessoas, procurando estar próxima delas, defendendo-se do sentimento de abandono e de solidão, por estar longe de seus familiares.
Segundo Estrelícia, a partir do diagnóstico de câncer de mama tudo mudou em sua vida:“A distância, tristeza [...] eu não era uma pessoa triste. Nunca fui uma pessoa triste” (02 maio 2013), ficando claro a presença de sentimentos depressivos.
Com relação às alterações corporais, mencionou a queda do cabelo e dos pelos e a dor sentida no braço do lado da mama operada: “Ah, os pelos [...], só a sobrancelha que não
caiu; o resto, tudo caiu. E a dor no braço” (19 abr. 2013). Logo em seguida, Estrelícia falou
da dor da castração pela perda da integridade física:
Ah, eu sinto que a coisa que eu mais achava bonito em mim era meu rosto e meu seio. Eu tinha cabelo bonito, eu tinha as pernas bonitas, tudo bonito, mas o que eu mais me admirava era o meu seio. Então agora eu me sinto triste por isso. Porque perder a forma, né. Ah, não, mexeu comigo. Aí não sei se vai ter reconstituição, né, mas [...] espero que sim. (19 abr. 2013)
Ah, fico triste, né. Porque [...] com vergonha de [...] de ficar despida, né? Aí fica chato. Mas aí eu não consigo tirar a minha roupa. A gente nem [...] depois que eu operei a gente fez sexo uma vez só ... sexo não é tudo, não. Prefiro uma hora de carinho bem dada do que fazer um sexo mal feito. (02 maio 2013)
Parece que nem mesmo “uma hora de carinho bem dada” Estrelícia tem do seu companheiro (por ela denominado “namorido”), queixando-se, a todo o momento, da falta de apoio do mesmo: “Porque ele fica lá e eu fico aqui. Aí vê de dois em dois meses”. (19 abr. 2013)
Já sobre o relacionamento entre as pessoas da família, Estrelícia afirmou ser:
Ah, normal. Meus filhos vêm na minha casa normal, é [...], conversa normal, se tiver que discutir, discute normal ... não importa se eles são casados ou solteiros, se fizer as coisas erradas, eu não importo o local e nem o que tá fazendo, eu chamo a atenção na hora, não deixo pra depois. Já que você tem que cortar o mal, corta de uma vez. É assim que eu faço com os meus filhos, e tem amor e carinho deles e dou amor e carinho a eles como um pai e a mãe normal. (19 abr. 2013)
A repetição do termo normal denota um encobrimento de sentimentos agressivos. Apesar da distância, Estrelícia sentiu-se muito apoiada pela família:
Ah, sinto, até demais, graças a Deus. Ah, a minha filha, as minhas irmãs, minha nora, nossa, minha nora, então. Eu não tenho uma nora, eu tenho mais do que uma nora, mais que uma filha. Ela ainda é mais minha amiga do que minha filha. (19
abr. 2013)
Em relação ao ambiente social, sentiu-se também apoiada, destacando o suporte de algumas pessoas, em especial:
A minha vizinha Sônia, vem (o apoio) até dos faxineiros do prédio onde eu moro ... os meus amigos também lá do (região onde mora) também eu sinto muito, muito apoio. Os meus sobrinhos [...] entendeu? Eu não me sinto só ... se eu precisar de conversar, se eu estiver triste, eu ligar pra eles, eles falam: “oh, tia, se você estiver triste, pode ligar pra mim, tia, se quiser vir em (cidade de origem), você liga pra mim que eu vou te buscar‟. Entendeu? Meus amigos também: „oh, se você estiver se sentindo só, você liga que a gente bate uma pernada por aí‟. Entendeu? Então eu não me sinto só.
Apesar de ter afirmado não se sentir só diante de todo o apoio recebido, o grupo mostrou o contrário, um profundo sentimento de solidão, que parece estar relacionado não apenas à distancia física dos familiares, mas, sobretudo, às inúmeras perdas pelas quais já
passou ao longo da vida. Num momento posterior da entrevista, Estrelícia falou da presença de sentimentos dicotômicos acerca da solidão:
[...] lá onde eu morava, tinha mais, eu tinha mais amigos. Quem mora em prédio não tem muito amigo. Lá no prédio fica cada um na sua ... mas eu tenho a minha irmã que mora em baixo, os meus sobrinhos, meu cunhado, tem uma vizinha ... tem minhas irmãs, que toda semana tá aqui, entendeu? Então, eu me sinto, eu sinto isolada de um lado e do outro eu não me sinto isolada. Eu sinto triste por isso...
(19 abr. 2013)
A tristeza apareceu, justamente, como resposta ao sentimento de solidão, apesar do apoio dos amigos e familiares.
Estrelícia disse que, nas horas de folga, prefere ficar sozinha, ouvir música, ver televisão, mas que antes de ser acometida pelo câncer:
[...] eu gostava muito era de baile, mas agora eu não vou mais em baile. É, dançar. Gostava muito de dançar. Mas agora, depois disso aí [...] desanimei. (19
abr. 2013)
É possível observar o quanto a doença levou a uma restrição da vida social.